A minha tia veio de visita com a filha e o genro, trouxeram carne e vinho caro, mas a minha mãe pô-l…

Querido diário,

Hoje sinto uma necessidade imensa de escrever, deitar cá para fora o que me vai no peito. A minha mãe sempre teve uma família numerosa. Ao todo eram seis irmãos, mas agora restam só três. Tanto ela como uma das minhas tias moram na mesma aldeia que nós. Trabalham de sol a sol no verão, e no inverno sobrevivem do que se tira nesses meses de mais fartura. Como toda a gente de cá, temos uma horta de onde colhemos batatas, feijão verde e couves não há casa que não tenha o seu canteiro.

Só a outra irmã da minha mãe é diferente. Vive em Lisboa há muitos anos. Tem um apartamento grande e uma casa linda na Costa da Caparica. O marido é engenheiro civil e dirige uma empresa conhecidíssima. Não tiveram sempre esta vida de luxo também eles vieram da aldeia, já ralaram que se fartaram, e a minha mãe, junto com a tia Filomena, ajudaram-nos em tudo o que podiam: nos partos, nas lides do campo, chegaram a ajudar a pagar contas. Mas, mal subiram na vida, afastaram-se. Esqueceram-se de onde vieram e de quem lhes estendeu a mão.

O que mais me doeu, e ainda dói à minha mãe, foi o que aconteceu recentemente. Sem querer, ouvimos dizer que a filha da tia Margarida se casou. A minha mãe ficou primeiro sem fala, depois tentou fingir que já sabia para não se envergonhar perante as vizinhas da aldeia. Não sei que mãe não ficaria magoada ao saber que a própria irmã casou a filha e nem sequer um convite nos fez chegar às mãos.

Chegando a casa, a mãe contou tudo à tia Filomena. Ficou pálida, com os olhos marejados de lágrimas. Decidiram, já que não podiam fazer mais nada, ligar à tia Margarida para dar os parabéns, talvez despertar qualquer sentimento de culpa nela. Do outro lado ouviram só um obrigada frio, seco, e logo a chamada caiu.

Ainda assim, alguma coisa a mexer lá dentro, porque numa tarde apareceu ela cá na aldeia, com a filha e o genro a reboque. Trouxeram nacos de vitela e um vinho caríssimo do Douro, como quem tenta compensar com luxo aquilo que falta em consideração.

Mas a minha mãe sentiu-se humilhada e mandou-os embora à porta. Disse-lhes que, se lhes custava tanto a nossa presença no restaurante, por sermos gente da terra enquanto eles se acham grandes senhores , então não tinham nada que vir bater à nossa porta. O marido da tia Margarida ainda teve o desplante de dizer que até era verdade, teríamos feito má figura e passado vergonha, que a gente da aldeia nem sabe estar nesses sítios. Que se fôssemos, o restaurante inteiro cheirava a entrecosto e chouriça.

Foi o golpe de misericórdia. A minha mãe rebentou, pediu-lhes para nunca mais aparecerem nem lhe dirigirem palavra. A tia Filomena ficou do nosso lado, encolheu os ombros e reforçou que também não queria mais saber deles, já bastava de humilhações.

Hoje, ao recordar, sinto-me triste. Parece uma novela como só as famílias portuguesas sabem fazer cheia de mágoas, orgulho ferido, palavras amargas e saudade do que podia ter sido se houvesse menos vaidade e mais coração.

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