O meu filho cruzou-se com uma rapariga pouco honesta, que o manipula conforme lhe convém. Há algum tempo, começou a pô-lo contra mim. Ela diz-lhe que não me preocupo com a felicidade deles, que só penso em mim. Chegou a essas conclusões porque me recusei a trocar de casa com eles.
O meu marido deixou-nos há vários anos, e o meu filho sempre foi o meu único menino. Cresci-o com muito amor e cuidado, ofereci-lhe uma boa educação. Antes de se casar, viveu connosco. Começou a trabalhar ainda durante a universidade e, ao concluir o curso, logo conseguiu um emprego digno.
O meu filho sempre foi o meu orgulho. Ele é um rapaz excelente e destaca-se profissionalmente. Eu e o meu marido nunca conseguimos comprar um apartamento para ele, pois sempre levámos uma vida modesta. Só conseguimos adquirir a nossa própria casa aos quarenta anos, antes disso vivíamos de renda, por isso nunca tivemos meios para comprar um segundo imóvel para o nosso filho. Mas, afinal, ele pode conquistar o seu apartamento, como nós fizemos.
Quando o Tiago me contou que começara a namorar uma moça, fiquei radiante. Fiz tudo ao meu alcance para acolher bem a minha futura nora: nunca a critiquei nem lhe dei sermão. O mais importante para mim era que o Tiago fosse feliz com aquela rapariga. No início gostei muito da Clara, era educada e discreta. Mas só depois do casamento a Clara começou a mostrar o seu verdadeiro carácter.
Depois das núpcias, Tiago e Clara foram de lua de mel e, ao regressar, a minha nora demitiu-se do trabalho. Alegou que o chefe implicava constantemente com ela e queria encontrar algo melhor. Contudo, não ficou por aí. Há dois anos que vive às custas do meu filho, sem qualquer procura de emprego.
Eles começaram a viver no apartamento de um quarto dela, situado na periferia de Lisboa. Como ela está sempre em casa, o Tiago não pode juntar dinheiro para um novo apartamento, pois a Clara esbanja tudo em salões de beleza e roupas.
Não consigo imaginar como é possível não encontrar trabalho durante tanto tempo. Duvido que vá mesmo a entrevistas, acho mais provável que goste de viver à sombra do marido, aproveitando a boa vida.
Perguntei-lhe uma vez se pretendiam ter filhos. Filhos? Com o espaço que temos? respondeu-me. Podiam tentar poupar para a entrada de um crédito de habitação, sugeri eu. Não há dinheiro para poupar, mal conseguimos chegar ao fim do mês, retorquiu a Clara.
Contive-me, não lhe disse que, se ela trabalhasse, já há muito poderiam estar a guardar algum. Se de fato quisessem poupar para uma casa, claro que ajudaria, pois já coloquei de lado uma quantia razoável. Mas agora não quero dar-lhes dinheiro, pois sei que a minha nora iria gastá-lo em futilidades.
Recentemente, Clara tornou a falar em crianças, que o tempo passa e devemos pensar num herdeiro, mas será possível criar uma criança nestas condições? Tiago começou a concordar com ela.
Mãe, sabe, eu e a Clara estávamos a pensar que talvez pudesse trocar de casa connosco. Não precisamos de formalidades, simplesmente trocávamos e pronto. Assim não precisaríamos de nos preocupar com créditos, e o espaço seria suficiente para si.
O que o meu filho me disse magoou-me profundamente. Ele nunca teria pensado nisso sozinho. Expliquei-lhe que estaria longe do trabalho e que árvores velhas não podem ser transplantadas.
Só lhe faltam alguns anos de trabalho, depois damos-lhe netos, disse-me a nora, sorrindo.
Recusei a proposta generosa porque não era do meu agrado. Não quero abandonar a casa onde vivi tantos anos.
O meu filho ainda tentou voltar ao assunto algumas vezes, e cada vez as suas palavras me feriam mais. Nunca fui de explorar ninguém, e agora vejo que a esposa dele o incentiva a fazê-lo.
Vamos embora, Tiago. Eu sabia que a tua mãe está pouco preocupada com o facto de sermos pais. Não levanta um dedo por nós! disse Clara na última visita que me fizeram.
Depois daquele dia, o meu filho deixou de me procurar, não atende o telefone nem me retorna as chamadas. Não entendo o porquê deste comportamento, ele nunca foi assim. Mas parece que, na presença da mulher, o meu Tiago se esquece de quem é.







