A minha nora colocou uma placa na porta: “Por favor, não venha sem avisar.” E eu morava a três minutos de distância.

A minha nora colocou uma placa na porta: Por favor, não venha sem avisar. E eu morava a apenas três minutos dali.

Quando reparei naquilo, primeiro achei que fosse brincadeira.

Fiquei parado em frente à porta do apartamento do meu filho, segurando uma taça de sopa quente. Ele estava constipado e, no dia anterior ao telefone, parecia estar mesmo mal.

Sou mãe. Essas coisas não se esquecem.

Mas na porta estava pendurada uma placa branca.

Por favor, não venha sem avisar.

Parei por alguns segundos e apenas olhei.

Parecia que alguém tinha escrito: Não és bem-vinda.

Toquei à campainha.

Passado pouco tempo, a porta abriu. Era a minha nora Margarida.

O olhar dela caiu imediatamente sobre a placa, depois sobre mim.

Ó não viste o aviso?

A voz dela era doce, mas fria.

Vi sim respondi num tom baixo.

Entreguei-lhe a taça.

Trouxe sopa para o Ricardo.

Ela não pegou logo.

Da próxima vez, por favor liga primeiro.

Da próxima vez.

Como se fosse um estafeta qualquer.

Lá dentro ouvi uma tosse. Era o meu filho.

Mamã?

Quando me viu, os olhos dele brilharam.

Entra!

Mas Margarida já estava na entrada, bloqueando a passagem.

Ele precisa descansar.

Ricardo fez uma cara de desagrado.

Margarida, é a minha mãe.

Ela suspirou.

Preciso de limites.

A palavra soou tão formal, que me senti uma intrusa.

Anos atrás, quando o Ricardo era pequeno, eu também tratava dos meus limites.

Mas nunca fecharia a porta à minha mãe.

Coloquei a taça no móvel da entrada.

Só vim trazer isto disse eu.

O meu filho parecia desconfortável.

Margarida ficou em silêncio.

O meu coração apertou.

Vou embora.

Caminhei até ao elevador.

Não chorei. Apenas senti aquele vazio que aparece quando percebes que já não pertences a um lugar que sempre pensaste ser teu.

Dois dias passaram.

Não telefonei. Não escrevi.

No terceiro dia, o telemóvel tocou.

Era Ricardo.

Mamã… podes vir cá?

A voz dele estava cansada.

O que aconteceu?

Só… vem cá.

Quando cheguei, a placa já não estava.

A porta estava entreaberta.

Entrei.

O meu filho estava sentado no sofá.

Ao lado dele Margarida.

Os olhos dela estavam vermelhos.

Mãe… disse Ricardo. Precisamos falar contigo.

Olhei para ambos.

O quê?

Ele respirou fundo.

A Margarida achava que vinhas vezes demais.

Ela murmurou:

Eu… não estou habituada a famílias tão próximas.

Olhei para ela.

Pareceu realmente envergonhada.

Mas quando o Ricardo ficou doente… continuou ela percebi uma coisa.

O quê?

Ela engoliu em seco.

Que não há mais ninguém que traga sopa sem ser pedido.

O silêncio tomou conta da sala.

O meu filho sorriu levemente.

Mamã… às vezes só damos valor a algo quando quase o perdemos.

Margarida levantou-se.

E disse baixo:

Desculpa.

Por vezes as palavras são poucas.

Mas bastam.

Olhei para a porta.

Já não havia placa.

Só casa.

Será que uma pessoa deve perdoar numa situação dessas?

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A minha nora colocou uma placa na porta: “Por favor, não venha sem avisar.” E eu morava a três minutos de distância.