A minha mãe vai viver connosco e ponto final, anunciou o marido. Mas nessa mesma noite, já estava a fazer as malas.
Há um certo tipo de homem tomam decisões como quem prega um prego. Rápido, seco e sem ver bem onde calha.
O Manuel era desses.
Não era má pessoa, de todo. Trabalhador, de confiança, adorava a mãe isso ninguém lhe tira. Simplesmente, habituou-se que uma vez decidido, assim fica. A esposa ainda resmunga, mas acaba sempre por aceitar. Sempre fora assim.
Teresa, de facto, aceitava. Com aquele sorriso paciente que as mulheres usam quando já perceberam tudo há tempo.
Até que uma noite, o marido chega a casa, põe a chaleira ao lume e diz:
A minha mãe vai viver connosco. Está decidido.
Manuel disse-o como se nada fosse. É isso o mais estranho, não foi consultar ninguém, nem pediu desculpa.
Teresa estava junto ao fogão.
Espera lá, disse ela. Nós ainda não…
Teresa. Manuel disse-lhe o nome com aquele tom de voz com que costumava rematar os assuntos. Ela está sozinha. Já tem sessenta anos. É meu dever.
“Dever”. Precisamente essa palavra.
Nem perguntou a opinião dela. Era um dever dele, como se mais ninguém ali tivesse parte.
Manuel, começou ela cautelosa, vamos conversar um pouco. A tua mãe é boa pessoa, não contesto. Mas esta é a nossa casa. Dois quartos, tu e eu.
Dois sofás, cortou ele. Onde está o problema?
Teresa desligou o fogão. Virou-se para ele. Observou-o com aquele olhar de quem tenta perceber se o outro ouve mesmo ou só admite aquilo que coincide com a própria decisão.
Já decidiste? perguntou ela.
Já.
Sem mim.
É a minha mãe.
Assim foi.
Teresa assentiu devagar, pensativa.
Percebi, disse apenas.
E retirou-se para o quarto.
Manuel ficou mais um bocado na cozinha, depois foi atrás dela, depois voltou. Sentou-se. Levantou-se outra vez. Tomara a decisão e agora não sabia lidar com o facto de não ter alegrado ninguém.
Teresa sentou-se na beira da cama, a olhar pela janela.
Decidiu tudo sem mim, repetia para si.
Não conversaram nem naquela noite, nem na manhã seguinte.
No segundo dia, Teresa tentou de novo.
Manuel estava ao telemóvel, a ver qualquer coisa como sempre à noite, quando Teresa se sentou ao lado, as mãos cruzadas no colo.
Manuel. Vamos falar a sério.
Ele largou o telemóvel. Isso já era sinal positivo raramente o largava.
Vamos, disse ele.
Eu percebo que te preocupes com a tua mãe. A sério que percebo. Está sozinha, não deve ser fácil. Mas vivemos só com dois quartos. Somos dois e às vezes já é pequeno. Passarem a ser três e…
E então? perguntou ele.
E vai ser difícil. Para mim, vai ser desconfortável.
Não gostas da minha mãe?
Teresa fechou os olhos por um instante.
Lá estava a pergunta. Mal uma mulher diz vai ser difícil para mim, logo vem: então tu não gostas. Como se não se pudesse gostar de alguém e não querer viver todos os dias em vinte metros quadrados com essa pessoa.
Gosto da tua mãe, respondeu Teresa paciente. Damo-nos bem. Mas uma coisa são visitas, outra é para sempre. São situações diferentes, Manuel.
Ela não é uma estranha.
Eu sei.
Sente-se sozinha.
Eu entendo.
Então onde está o problema?!
Teresa olhou-o durante tempo. Depois perguntou, baixa:
Estás mesmo a ouvir-me?
Ele não respondeu. Pegou outra vez no telemóvel.
A conversa morreu ali.
No dia seguinte, recebeu telefonema da Dona Amélia.
Teresinha, minha querida. A voz vinha suave, meio envergonhada. Desculpa ligar-te. O Manuel contou-me tudo, e sei que é complicado.
Não faz mal, Dona Amélia, disse Teresa por reflexo.
Não está tudo bem, contrapôs logo a sogra. Ouço pela tua voz.
Teresa ficou calada.
Eu só não percebo como é que vai ser, confessou.
Olha, eu percebo, disse Dona Amélia. Muito bem até. Também tive sogra, há quarenta anos. Também foi vai morar connosco e acabou-se. Riu-se baixinho. Foram três meses e acabou cada uma sossegada na sua casa. Foi um alívio.
Teresa sorriu sem querer.
Dona Amélia, mas o Manuel não larga a ideia.
O Manuel é igual a si, atalhou a sogra com doçura. Bom filho. Talvez bom demais. Quando acha que algo é correto, não há quem o tire disso. Desde pequeno. Quando punha uma coisa na cabeça, era impossível demovê-lo.
Teresa calou-se. Não valia a pena insistir.
Fala com ele outra vez, disse Dona Amélia. Mas de outra forma, não sobre metros quadrados. Diz-lhe: Manuel, é importante para mim que tu me perguntes, que me ouças. Diz isto, sem mais.
E se ele não ouvir?
Pausa.
Então é outro tipo de conversa, respondeu ela baixinho. Mas acho que vai ouvir. Eles, os homens, precisam de tempo para sair do modo eu decidi. São como os barcos demoram a virar.
Teresa deu uma pequena gargalhada.
Obrigada.
De nada. E acrescentou, quase a sussurrar: Não quero ser causa de problemas entre vocês. Lembra-te disso. Por mais que o Manuel diga, eu não quero.
Nessa noite, Manuel chegou e sentiu instintivamente que tudo estava diferente.
O que foi? perguntou.
Nada.
Jantaram. Então Teresa disse:
Manuel, posso dizer só uma coisa? Uma, e peço que não interrompas.
Ele acenou.
Não me importa ser tua mãe ou a minha, duas divisões ou dez. O que importa é outra coisa. Tomaste uma decisão que diz respeito aos dois e nem sequer me perguntaste. Nem perguntaste, como se eu nem vivesse aqui.
Manuel abriu a boca.
Não interrompas, lembrou ela.
Ele fechou.
Pronto, era isso que eu queria dizer.
Levantou-se e foi lavar a loiça.
Manuel ficou a olhar para a toalha da mesa. Muito tempo. Depois foi até à varanda, voltou, aproximou-se do lava-loiça, ficou ao lado dela. Abraçou-a.
Então vá, disse ela. Vamos beber o chá.
Manuel segurava a chávena com as duas mãos, em silêncio.
Ligaste à tua mãe hoje? perguntou Teresa.
Ainda não.
Ela falou comigo.
Manuel ergueu a cabeça.
Disse o quê?
Disse muita coisa, respondeu Teresa. Tua mãe é sábia.
Ele acenou breve, um pouco embaraçado, como quem fica ao mesmo tempo orgulhoso e tímido por elogiarem de sua casa.
É mesmo.
Lá fora, o chuvisco dava lugar a uma chuva miúda. Sentados ali, sentiam um peso a dissipar-se, devagar, depois de tantos dias suspenso.
No terceiro dia, Manuel ligou à mãe. Com Teresa a ouvir. E disse:
Mãe, vá preparando as coisas devagar. No fim de semana passo aí para ajudar.
Teresa estava na porta da cozinha a ouvir isto. Manuel terminou a chamada. Virou-se, viu-lhe a cara.
Não, respondeu Teresa.
Ele franziu o sobrolho.
Teresa, eu não posso simplesmente deixá-la sozinha, percebes?
Não te peço que a deixes sozinha, cortou Teresa. Peço-te só que me perguntes. Só isso.
Manuel levantou-se. Deu umas voltas no quarto para cá, para lá, de novo.
Sabes que mais, virou-se ele, se para ti o mais importante é o conforto, em vez da minha mãe…
Manuel. A voz de Teresa era calma. Não digas isso.
Não, deixa-me acabar! O tom dele subiu pela primeira vez nestes dias. Não consigo escolher entre a mulher e a mãe! Não é justo porem-me a escolher!
Ninguém te pôs a escolher, respondeu Teresa. És tu que te puseste, ao não me consultares e esperares que eu aceite sem mais.
E não aceitas?
Não.
Manuel ficou a olhá-la muito tempo, com um ar novo e estranho: surpresa, tristeza, zanga tudo misturado.
Pronto, disse apenas.
Foi ao quarto.
Teresa ouviu-o a abrir o roupeiro.
Saiu com a mala. Vestiu o casaco.
Vou dormir à casa do João, avisou.
Está bem, respondeu Teresa.
Pegou nas chaves, ficou de pé um instante.
Achas normal isto, que as coisas fiquem assim?
Acho tanto quanto normal tomares decisões sem me ouvir.
Manuel abriu a boca, mas não encontrou resposta. Saiu.
A porta fechou-se.
Teresa voltou à cozinha.
Enquanto a chaleira aquecia, tocou o telefone. Era Dona Amélia.
Teresinha, desculpa. O Manuel disse-me que foi para casa de um amigo. É por minha causa?
Dona Amélia
Não digas nada, atalhou a sogra. Eu percebo. É por minha causa.
É por causa dele, corrigiu Teresa. Voltou a decidir tudo sozinho, sem perguntar.
Pausa.
Fizeste bem, disse Dona Amélia.
Desculpe?
Fizeste bem, repetiu com firmeza. Ouve, Teresa, eu não vou morar convosco. Decidi eu, sozinha, sem o Manuel. Tenho quase setenta anos, vivi sempre por minha conta e sei tomar conta de mim. O meu filho é bom rapaz, mas às vezes precisa de limites. Foste tu que impuseste. A mim ele nem ouvia.
De manhã, Teresa acordou a meio da sétima. Nenhuma mensagem.
A vida, no fundo, continuava.
Manuel apareceu lá em casa ao outro dia, quase dez da manhã.
Tocou à campainha, mesmo tendo chave. Só isso já dizia alguma coisa.
Teresa abriu. Ele estava ali na entrada, um bocado desalinhado da noite no sofá do amigo. Com a mala dele.
Posso entrar?
Entra, disse ela.
Foram para a cozinha. Ele sentou-se, pôs as mãos sobre a mesa e olhou-as.
A minha mãe ligou-me, disse ele.
Eu sei.
Disse-me que não vai para nossa casa. Que é decisão dela, e não sou eu que mando. Pausa. Também disse que me portei como um idiota. Assim mesmo.
Dona Amélia é uma mulher sábia.
É, confirmou ele, sem ironia. Teresa, eu não sou muito bom a falar destas coisas, sabes disso.
Sei.
Mas percebi. Estive mal. Decidi sozinho e achei que tu irias aceitar como sempre. Isso está mal.
Teresa olhou para ele.
Está.
Não volto a fazer.
Teresa deitou o chá, pousou-lhe uma caneca à frente.
Sobre a tua mãe, disse. Não me importo que venha nos fins de semana, venha ajudar, esteja connosco. Até faz bem.
Percebi, disse ele.
Olhou para ela com o tal olhar novo que ela notou no dia anterior.
És uma mulher incrível, disse baixinho.
Eu sei, respondeu Teresa.
E sorriu pela primeira vez em três dias.
Lá fora, o sol típico do outono espreitava, nem quente nem forte, mas suave como tudo quando, com respeito, cada um encontra o seu lugar.







