A minha mãe finalmente reformou-se há já uns dois anos. «Estou exausta – diz ela. – A saúde está por um fio. O trabalho era um stress, os colegas tóxicos, e já não tenho idade para isto. Quero agora viver para mim, não para tudo o resto.»

A minha mãe finalmente reformou-se. Já lá vão uns anos. «Cansada, diz ela. Saúde pelos cabelos. O trabalho era um stress constante, o ambiente tóxico, a idade pesa. Quero viver para mim, chega das exigências intermináveis dos outros».
Ninguém em casa discutiu com ela. A nossa mãe tem um jeito de ser tão forte que debater com ela nem passa pela cabeça de ninguém.

Então, a mãe mudou-se de armas e bagagens para a sua casa de campo, decidida a gozar a boa vida: cultivar malmequeres e pepinos, fumar à janela, tomar café. Às vezes com um cheirinho de aguardente, às vezes com um romance aberto nas mãos. Organizar os armários, respirar o ar puro, recordar o trabalho com uma pontinha de aflição, cantar de alegria porque os netos já são adultos e não lhos mandam de Penafiel para passar três meses a correr atrás de galinhas.

E, entre enxertos e podas, deixava o seu conselho de sobrevivência às gerações futuras:
Não se reformem antes dos vossos netos acabarem a universidade. Isto é fundamental, percebem? É importante que eles sejam independentes nunca vos caiam em cima quando deviam era voar sozinhos, porque depois, dos bisnetos, vocês já estão velhinhos demais e aí é problema dos vossos filhos ou dos filhos deles. Já não contam para isso.

No todo, a vida no campo trouxe-lhe sossego: ponto de recolha do correio do CTT, mercearia de aldeia, internet jeitosa, roseiral debaixo da janela, ar puro, vizinhos sossegados, dias sem sobressaltos.

Mas, como num sonho que começa a girar devagarinho, um aborrecimento estranho começou a crescer na alma da mãe. Um dia decidiu entreter-se: queria cimentar uns bons metros do seu jardim amplo, ali, aos pés das tílias.

Era importante dignificar aquele espaço de estacionamento, porque, achava a minha mãe, o sítio parecia «meio pobre». E ela não estava para esperar milagres da natureza, afinal a natureza já lhe tinha trazido o wi-fi. Nas águas virtuais da internet, encontrou facilmente uma equipa de operários chamada Os Fortes, prontos para qualquer empreita, desde que lhes pagasse, claro.

Chegou o tal dia. Chegou a equipa cinco homens, todos chefiados pelo António Barroso, a quem a mãe, com reduzida cerimónia, chamava Toninho, embora o homem fosse largo como um armário e alto como o portão da igreja. Começaram com energia, mas logo o enredo descambou. Duas betoneiras estacionadas, à espera, o cimento quente a fumegar. A mãe vigiava do alto da varanda.

E então, foi como se o Toninho tivesse sido mordido por um sonho de oportunismo. Ali estava: mulher sozinha, grisalha, enfiada nas galochas, parecia não perceber nada de assuntos de homens. Então, os homens decidiram tentar a sorte e tentar tirar uns euros a mais. Se a mãe parecia uma velhota inocente, então que lhe pedissem o dobro e vissem o que colava.

Toninho levantou a voz:
Ó senhora, isto assim não dá, tudo torto, tudo mal planeado Vai ter que pagar a dobrar, senão desmontamos a obra, viramos costas e procure outra equipa.

A minha mãe ouviu. Chegou até a acenar, com ar compreensivo. «Cem euros, dizem vocês? E cinquenta, não serve? Olhem, confio em vocês. Como não confiar em rapazes tão sérios?»

Mas, de repente, ela continuou, como quem propõe um enigma num sonho:
Vamos fazer uma aposta.
Apostar o quê? Toninho animou-se.
Apostamos os tais cem euros. Aposto que, com a tua equipa, arrumo isto em três horas, e nem um minuto a mais. Se eu conseguir, pagas-me cem. Se não conseguir, pago-te eu. Fecha-se assim?

Sinceramente, estivesse eu no lugar do Toninho, pensaria duas vezes. Mesmo à custa de estranheza para quê meter-se em apostas destas? Mas Toninho não tinha estudos, mas confiança e ganância não lhe faltavam. Mãos seladas, aposta feita.

O Toninho encostou-se ao corrimão com um café na mão, a observar. Mas a Dona Leonor (sim, é esse o nome dela) calçou as botas de borracha e… activou-se como se tivesse acordado para uma realidade secreta: em cinco minutos, espalhou os trabalhadores pelos cantos certos, tanto que eles nem perceberam como passaram de desorganizados a seleção nacional. Disse a cada um o que fazer, o que carregar, como espalhar o cimento, sem perder tempo, onde apressar, onde não falhar. Os das betoneiras também receberam uma aula: quando verter, como verter, para não deitar a perder o caldo. E o mais engraçado: o processo desenrolou-se sem um passo em falso, sem um minuto desperdiçado.

Resumindo: uma verdadeira deusa do cimento.

O que aqueles rapazes pensavam arrastar pelo dia fora, ela resolveu num piscar de olhos: duas horas e meia e ficou perfeito. Direito, limpo, impecável. Não havia onde criticar, nem com lupa em mãos.

O Toninho primeiro sorria, achando que ela ia fraquejar. Depois deixou de sorrir. Ficou branco. Lembrou-se da aposta. Que era palavra. Que lhe devia os cem euros.

Por momentos, Toninho perdeu a fala. O rosto dele parecia o de quem descobria que o mundo não tem que bater certo com as suas próprias ideias.

Espere balbuciou finalmente. Só me diga Como? Como é que isto pode ser?! Isto é enfim não acontece!

Acontece, sim senhor, respondeu calmamente Dona Leonor, sacudindo o pó das luvas. Quando vinhas para cá, viste aquela rotunda enorme, de três andares?

Vi murmurou Toninho.

Chegaste a passar por lá?

Passei, sim

Muito bem. Eu ajudei a construí-la.

Dizem que naquele momento o Toninho percebeu, de uma vez por todas, que flor de campo é, por vezes, simplesmente alguém que passou uma vida inteira a trabalhar onde os fracos não resistem. E que discutir com essas pessoas só nos arrasta para labirintos sem saída.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

A minha mãe finalmente reformou-se há já uns dois anos. «Estou exausta – diz ela. – A saúde está por um fio. O trabalho era um stress, os colegas tóxicos, e já não tenho idade para isto. Quero agora viver para mim, não para tudo o resto.»