A minha mãe finalmente reformou-se há já uns dois anos: «Estou exausta, — diz ela. — A saúde está em baixo, o trabalho era uma fonte de stress constante, o ambiente entre colegas tóxico e já não tenho idade para isto. Agora quero viver para mim, e não para tudo o resto.»

A mãe, depois de tantos anos de trabalho, finalmente se reformou. Já lá vão uns bons anos. Estou exausta, desabafava. A saúde deu o que tinha a dar. O trabalho era um buraco de nervos, o ambiente tóxico, e já não tenho idade para isto. Agora quero é viver para mim, chega de tudo o resto.
Ninguém em casa sequer pensou em contrariá-la. A mãe é daquelas mulheres portuguesas decidida, firme. Discutir com ela? Nem passa pela cabeça.
Mudou-se para a casa de campo no Alentejo, dedicou-se à sua melhor vida: jardinagem, a tratar das hortaliças e dos cravos no jardim, fumar uns cigarros na varanda, café ao lado, às vezes um cálice de aguardente, um romance debaixo do braço, tudo em paz. Pôs a casa em ordem, descansou desse passado estafante, lembrava-se do trabalho com um calafrio mas feliz de não ter ali os netos pequeninos, porque agora já eram adultos e não ia passar o verão a correr atrás deles como nos velhos tempos.
Sempre que podia, largava-nos um conselho estratégico típico dela:
Só se reformem quando os vossos netos já estiverem com a vida tratada, já licenciados. Muito importante. Que sejam independentes, para que não vos caia a responsabilidade de criar outra vez os miúdos em cima da reforma. Quanto aos bisnetos, nessa altura já serão problemas dos vossos filhos ou dos filhos deles. Não se deixem prender.
No meio disto tudo, a casa de campo tornou-se o seu novo reino: encomendas entregues no café da terra, minimercado do largo, internet a funcionar, roseiral a crescer debaixo da janela, vizinhos calmos, respira-se sossego, vida sem pressa. Mas, passado algum tempo, a mãe começou a ficar aborrecida. E lá anunciou um novo projeto: queria cimentar um pedaço largo do quintal.
Era preciso dignificar o estacionamento. Ficar mais à maneira, segundo ela. E porque esperar favores da natureza se a internet resolve tudo? Nela, encontrou rapidamente uma equipa de obras pronta para tudo. Por euros, claro.
Chegou o grande dia. Às oito da manhã, bate à porta o conjunto: cinco homens, à frente deles o chefe, Alexandre. A mãe chamava-lhe apenas Xano, apesar de ele ser um verdadeiro armário, dois metros de altura. Começaram cheios de energia, mas algo começou a descarrilar. Dois camiões betoneira já ali parados, cimento pronto, só à espera do sinal.
E então, como dizem cá na terra, deu-lhe para o esquema. Pequenina, sozinha, viúva, e obras pesadas de betão coisa de homens, claro, ela não perceberia nada Pensaram os rapazes em ganhar algum extra, atirar a conta para o dobro, aproveitar a ocasião.
Xano puxou do seu melhor tom:
Isto aqui não está como deve ser, há que fazer tudo de novo, vai custar mais o dobro, se não gosta, nós já nos vamos embora. Procure outros.
A mãe ouviu tudo com ar sério. Até acenou com pena. Cinquenta mil euros, dizem? E vinte e cinco mil não chega? Olhem, rapazes, eu confio em vocês, quem não confiaria em homens tão sérios
De repente acrescentou:
Vamos fazer uma aposta, querem?
Sobre o quê? logo Xano, atiçado.
Apostamos estes cinquenta mil que, Xano, deito mãos à tua equipa e oriento isto tudo e vocês acabam a obra não num dia, como dizes, mas em três horas. Se cumprirem, eu dou-te os cinquenta. Se não, pagas-me tu. Feito?
Se eu fosse o Xano, pensava duas vezes. Mas ele não era homem de universidades confiança e ganância, isso era com ele. Aceitou logo.
Sentou-se no degrau com um café, preparado para o espetáculo. E Dona Mariana, firme, calçou as botas de borracha e transformou-se.
Cinco minutos bastaram para pôr toda a malta alinhada. Cada um sabia ao certo o que fazia, onde levar, como alisar, nada de demoras, onde acelerar, onde não se podia errar. Até os motoristas das betoneiras receberam uma lição: como despejar, quando, sem deitar tudo à balda, para aquilo sair bem feito. Controlou tudo, sem um gesto desperdiçado, sem um minuto de pausa.
Em suma: rainha do betão.
O que eles queriam esticar para o dia inteiro, ela despachou em pouco mais de duas horas. E ficou perfeito. Nem um defeito. Nivelado. Limpo. Impecável.
Xano, ao princípio, ria-se já vai cair exausta. Depois calou-se. Por fim, ficou lívido. Lembrou-se da aposta. E palavra dada cinquenta mil.
Por segundos até lhe fugiu a fala. O rosto dele, como quem vê pela primeira vez que o mundo não é feito à sua medida.
Espere gaguejou. Explique-me como? Como conseguiu isto? Isso não pode ser!
Pode, sim. respondeu Mariana, serena, limpando do pó das luvas. Quando vinham para cá, viram o viaduto em Lisboa? Aquele enorme, de três andares?
Vimos articulou, sem saber.
E até passaram por cima?
Sim, sim
Bonito trabalho. Fui eu que o construí.
E foi então que o Xano percebeu, de uma vez por todas, que mulherzinha frágil é, por vezes, só alguém que sobreviveu anos a fio num mundo onde muitos desistiram. E que meter-se a discutir com ela seria sempre má aposta.

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A minha mãe finalmente reformou-se há já uns dois anos: «Estou exausta, — diz ela. — A saúde está em baixo, o trabalho era uma fonte de stress constante, o ambiente entre colegas tóxico e já não tenho idade para isto. Agora quero viver para mim, e não para tudo o resto.»