A minha ex-nora apareceu no jantar de Natal e todos ficámos boquiabertos.
Quando a campainha tocou às 20h47 do dia 24 de dezembro, todo o meu clã gelou como se tivéssemos ouvido um alarme de incêndio no meio da noite. A minha mãe deixou cair a concha dentro da panela do caldo verde. O meu pai, que até ali cantarolava Noite Feliz, emudeceu a meio do refrão. E eu eu engasguei-me com uma fatia de bolo-rei.
Está alguém em falta? perguntou a minha mãe, percorrendo com o olhar os rostos dos presentes.
O meu irmão, Tiago, levantou os olhos do sofá, onde estava a construir uma torre de blocos com a Leonor, a sua filha de quatro anos. A cor sumiu-lhe do rosto.
Não pode ser murmurou ele quase sem voz.
Mas podia. Porque quando abrimos a porta, lá estava a Filipa a minha ex-nora há já seis meses, com uma taça de bacalhau com natas numa mão e uma garrafa de vinho do Dão na outra.
Família! exclamou ela com um sorriso radiante. Feliz Natal!
Fez-se um silêncio tão denso que parecia que podíamos cortá-lo com a faca de cortar presunto.
Fili comecei eu, tropeçando na escolha das palavras. Tinhas dito?
Que me separei do Tiago? respondeu ela, entrando como se nada fosse. Sim. Mas separei-me DELE, não de vocês. Ou agora jantamos só com o Tiago? Não, pois não? Jantamos com a FAMÍLIA.
A minha mãe abençoada com a sua diplomacia beirã foi a primeira a reagir.
Olha, até faz sentido.
Mãe! protestou o Tiago, sem esconder o embaraço.
Tia Filipa! exclamou a Leonor, correndo para a abraçar.
E nesse instante percebemos todos que não tínhamos salvação.
Seguiu-se o jantar mais estranhamente harmonioso e, ao mesmo tempo, surrealista da minha vida. Filipa sentou-se no seu lugar habitual, ajudou-nos a servir o peru e até passou o sal ao Tiago com a mesma naturalidade de sempre, deixando-nos incrédulos.
Mais puré? perguntou ela ao meu irmão.
Sim, obrigado respondeu ele, desconcertado.
Ainda ressonas como uma debulhadora?
Filipa, por favor
É que a tua próxima namorada vai querer saber. É importante.
NÃO TENHO nova namorada!
Pronto, não há pressa.
O meu pai deu-me uma cotovelada por baixo da mesa, a tentar não se rir. A minha mãe fingiu que estava muito atenta ao copo de vinho verde.
O mais surreal foi quando chegou a hora das prendas. Filipa trouxe para TODOS. Incluindo para o Tiago um livro sobre meditação e gestão da raiva.
Ficas sempre tão nervoso quando o assunto é reciclagem explicou ela, carinhosa, enquanto ele abria a prenda com o maxilar cerrado.
Mas o que realmente desarmou qualquer resistência foi quando a Leonor adormeceu no sofá a cabeça pousada no colo da mãe e os pés estendidos pelas pernas do pai. Filipa e Tiago trocaram aquele tipo de olhar só possível entre duas pessoas que partilharam algo profundo.
Continuas a ser família sussurrou a minha mãe, pousando a mão sobre a de Filipa. Divórcio ou não.
E quando lavávamos a loiça, não resisti a pensar: a minha família é completamente disfuncional mas é nossa.
Tiago passou pela cozinha, levando a Leonor a dormir no colo.
Levo-te a casa disse à Filipa, com um suspiro resignado.
Que cavalheiro! Vês porque casei contigo?
VÊS porque nos divorciámos?
Mas os dois sorriam. Quem sabe como continua esta história no próximo ano.







