Diário de Lúcia, terça-feira
Obrigada por me terem tirado o direito de errar? Mesmo na minha própria casa…
Na minha casa, Lúcia corrigiu suavemente, mas de forma definitiva, a Dona Rosalina. Esta é a minha casa, Lúcia. E na minha cozinha não há lugar para disparates.
O silêncio tomou conta do espaço. Fiquei ali, de pé, agarrada ao tampo da mesa, a sentir o peito apertado, um nó quente e sufocante. Ao fundo, ouvia-se o zumbido baixo da chaleira a ferver.
Nos pratos dos meus pais, que tinham acabado de seguir para a sala com o Rui, estavam restos do que tinha sido a sola magret de pato do campo em molho de frutos silvestres. Tinha lá passado quatro horas, mas pelos vistos não acertei.
Não era sola… a minha voz tremeu, forcei-me a olhar a minha sogra nos olhos. Segui a receita da minha mãe, comprei pato fresco no mercado de Benfica, marinei e trinchei… Onde está agora, Dona Rosalina?
Ela pousou o bule de porcelana e limpou as mãos ao pano imaculado do avental.
Na sua cara só um esgar de tolerância, daquelas que se dá a um cachorrinho perdido.
No lixo, filha. O teu tempero… como hei-de dizer? Cheirava a vinagre com tal intensidade que quase me vieram as lágrimas aos olhos.
Preparei um bom confit. Com tomilho, lume brando, como deve ser. Viste como o teu pai quis repetir? Isso é que é qualidade.
O que tu fizeste era coisa de tasca junto à estação. Aqui isso não entra.
Não tinha esse direito murmurei. Era o jantar para os meus pais, para celebrar o aniversário de casamento. Nem perguntou nada!
Estava bom de ver encolheu os ombros ela, olhos de chefe de cozinha antiga, acostumada a dar ordens directas. Quando há incêndio, não se pede licença para apagar.
Estava a salvar a reputação da família. O Rui ia ficar transtornado se os convidados adoecessem.
Leva lá o bolo, que também ficou a precisar de mão. Tive de engrossar o creme e pôr raspa de laranja.
Olhei para as minhas mãos, tremiam levemente. Passei o dia todo numa roda viva, a medir, peneirar, decorar, enquanto Dona Rosalina dizia estar a descansar.
Quis provar que era mais do que a miúda do Rui, mais do que hóspede temporária era mulher que sabe pôr mesa. Só que bastou um duche rápido para sair a profissional do seu recanto.
Lúcia, não te demores… Rui apareceu à porta já sorridente e relaxado com o vinho. Mãe, a carne estava um espectáculo! Lúcia, superaste-te! Nem sabia que tinhas este jeito.
Virei-me para ele, devagar.
Não fui eu, Rui.
Como assim?
Como ouves. Foi a tua mãe. Mandou fora tudo o que fiz, do salgado à sobremesa. O jantar inteiro foi dela.
Rui ficou imóvel, o olhar entre mim e a mãe. Dona Rosalina virou-se para a bancada, a limpar o que já estava limpo.
Mas Lúcia… tentou abraçar-me, mas afastei-me. A minha mãe só queria ajudar. Se viu que estava a correr mal… ela percebe disto, tem olho. O importante é que estava fantástico, não é? Os teus pais adoraram, foi uma noite óptima. Que importa quem cozinhou?
Que importa? senti a lágrima de raiva subir-me aos olhos. Importa porque aqui não sou ninguém. Sou mobília. Decoração de hall.
Planeei este jantar três dias! Quis servir os meus pais com as minhas próprias mãos! E volto a ser a azelha que nem molho consegue fazer…
Ninguém te chamou isso interrompeu Dona Rosalina, arrumando o pano. Eles nem sabem, pensam que foste tu. Fica com a tua imagem intacta, Lúcia. Podias ao menos agradecer.
Agradecer? Agradecer por me tirarem até o direito de falhar? Em minha própria casa…
Na minha casa. Esta casa é minha, Lúcia. E na minha cozinha asneiras não entram.
O silêncio cobriu tudo. Da sala, vinha a televisão em surdina e o meu pai a dizer qualquer piada à minha mãe, entremeada com risos.
Para eles, estava tudo bem. A filha cumpria. E eu? Senti como se levasse uma chapada pública, com sal na ferida.
Saí da cozinha em silêncio. Passei pelos meus pais.
Mãe, pai, desculpem, não me estou a sentir bem. Dói-me muito a cabeça. O Rui ajuda-vos a sair, está bem?
Lúcia, estás doente? perguntou a minha mãe, já de pé A carne estava óptima, talvez te cansaste de tanto mexer nos tachos…
Foi isso, cansei-me muito acenei, olhando por cima do ombro da mãe. Não quero repetir.
Fechei-me no quarto, sentei-me na beira da cama. A mesma ideia repetia-se: Assim não consigo mais.
Isto já dura desde que resolvemos ficar uns meses com Dona Rosalina, para juntar para a entrada da casa. Se eu comprava o peixe, ela remexia nos sacos, com nariz torcido:
Onde arranjaste este tomate? Só serve para filme, não para salada.
Se me atrevia a fritar batatas, ela vigiava atrás com ar de quem vê arruinar um Picasso.
A certa altura nem entrava na cozinha se ela lá estivesse.
Mas hoje devia ter sido o dia de triunfo e acabou em derrota.
A porta rangeu. Rui entrou.
Olha, os teus pais já se foram. Ficou tudo bem, só faltou não te exaltares. Eu falo com a minha mãe, mas…
Não peças nada interrompi, a puxar a mala do armário.
O que estás a fazer?
A fazer as malas. Vou para casa dos meus pais. Hoje.
Lúcia, não exageres. Só por causa de um pato? É só comida!
Não, Rui! É respeito. A tua mãe vê-me como um apêndice que estraga o mundo perfeito dela. E tu deixas: A mãe só quer ajudar, a mãe sabe. E eu, Rui? Sou tua mulher ou estagiária da tua mãe?
Ela não pensa em magoar-te, já viveu sempre para isto. Para ela tudo tem de sair perfeito.
Óptimo. Que viva nesse perfectionismo sozinha. Ou contigo. Quero ter direito ao meu arroz salgado, à minha omeleta queimada, na minha casa. Onde ninguém deita fora o que faço enquanto tomo banho.
Vais para onde agora? É noite, Lúcia! Falamos amanhã.
Não. Se ficar, amanhã o café vai estar mal feito. Já chega. Ou procuramos amanhã o que for, um T0, um quarto ou não aguento mais.
Sabes que não temos dinheiro sobrante, Lúcia ele franziu o sobrolho, já impaciente. Estamos a poupar para a entrada!
Se for por mais meio ano, não sobra nada de mim. Estou a desaparecer.
Juntei umas mudas de roupa, a necessaire, uma camisola. Quando apareci no corredor, Dona Rosalina já me esperava, fria e hirta.
Vem aí o grande adeus? Vai dramatizar até ao fim?
Não, Dona Rosalina disse a calçar-me. Acabou. Ganhou. A cozinha é toda sua. Pode deitar fora também os meus temperos, certamente são fora de nível.
Lúcia, pára! Rui apareceu. Mãe, diga-lhe.
O que queres que diga? ergueu os ombros. Se uma rapariga larga tudo por causa de uma panela, talvez nunca houve família.
Eu aprendi com os mais velhos, não me armava em rainha aos vinte e poucos. Agora querem todos personalidade…
Num segundo já estava a sair, o ar da noite soube-me a bálsamo depois do sufoco da cozinha.
Ouvi atrás vozes abafadas, discussões. Mas não voltei.
***
Uma semana nos meus pais. Eles perceberam tudo, mas não disseram nada. Só a minha mãe suspirava, servindo panquecas quentes, simples não confit, nem mousse, só boas.
O Rui ligava, primeiro zangado, depois em súplica, depois prometeu falar a sério com a mãe. Ao quinto dia, apareceu.
Lúcia, volta para casa estava cansado, olheiras, camisa amarrotada. A mãe… está doente.
Fiquei gelada, chá a meio caminho da boca.
O quê? Tens a certeza?
Não é da pressão. Parece um vírus qualquer, teve febre alta três dias seguidos.
Agora só dorme. Não come. Diz que a comida não tem sabor. Nada.
Como assim? Perdeu o paladar?
Nem cheiro. Para ela, tudo é papel. Ontem partiu um frasco de orégãos na cozinha não sentiu o aroma. Chorou no chão. Nunca a vi chorar, Lúcia.
Deixei o ressentimento esmorecer. Lembrei-me como ela começava o dia: moía café, inalava, só então sorria Perder isso, para quem vive dos detalhes do sabor, é como um pintor perder a vista.
Foi ao médico?
Sim. Dizem que pode passar numa semana ou nunca. Ela fechou-se no quarto. Diz que se não sente sabor, não existe.
Olhei a neve miudinha no beiral. Vi Dona Rosalina sozinha, afogada na cozinha onde tinha sido rainha, já sem distinguir o aroma de tomilho do cheiro da cebola. Uma solidão terrível.
Olha, não te peço que voltes só por mim Rui olhava-me, cansado. Mas ajuda-a. Ela nem cozinha consegue.
Tentou sopa, encheu de sal, nem se apercebeu até eu provar. Está em pânico.
Eu? Logo eu, a destrambelhada? Nunca fui aceite naquela cozinha…
És a única esperança dela. Não diz, é orgulho. Mas vi como olhava a tua prateleira no frigorífico, agora vazia.
No dia seguinte, voltei. Não porque perdoei, mas porque me senti ligada a ela, sem entender bem porquê. Afinal, é família, mesmo áspera.
A casa tinha cheiro estranho nenhum. Nem pão acabado de fazer, nem ervas frescas. Cheirava a silêncio.
Na cozinha, Dona Rosalina sentada, olhos fixos no chá. Estava envelhecida, cabelo apanhado apressado.
Boa tarde, Dona Rosalina.
Ela sobressaltou-se.
Vieste gozar, não foi? Faz o teu bife sola, nem distingo do filé do restaurante.
Aproximei-me. As mãos dela, antes firmes, tremiam sem força.
Não vim gozar. Vim ajudar.
Para quê? Não sinto nada. O mundo ficou a preto e branco.
O pão é algodão, o café água quente. Pra quê estragar ingredientes?
Respirei fundo, tirei o casaco.
Porque eu posso ser agora o seu paladar e nariz. Diga, eu provo.
Soltou uma gargalhada amarga.
Tu? Nem sabes distinguir salsa de coentros secos.
Ensine-me. Ou vai desistir?
Por fim, olhou para mim. Acendeu-se-lhe uma centelha orgulhosa, teimosa, ainda viva.
Nem sabes segurar uma faca resmungou. Vais cortar-te já.
Nesse caso, mete-me um penso. Então, que tal bife à portuguesa?
Ela ergueu-se, foi ao fogão. Tocou a grelha, vazia.
Para bife bom, fogo alto, mas nunca queimado. Costumas cozer tudo…
Vigie-me, sente-se aqui. Só dispenso insultos. Sou a estagiária.
Ela sentou-se. De início, comando seco:
Assim não, troca o polegar, corta a três centímetros.
Comecei a cortar carne, devagar. Ela olhava, corrigia.
Agora vinho tinto, deixa evaporar.
O aroma subiu, forte e quente.
A que cheira? perguntou ela, voz fraca.
A fim de verão e chuva no Douro, com um quê doce.
Ela cerrou os olhos, murmurou, como a gravar as minhas palavras.
Taninos… Hmm. Um pouco de açúcar, só para equilibrar.
Provei: faltava acidez.
Talvez mostarda Dijon? adivinhou ela, de costas. Uma pitada.
Misturei. Experimentei.
Agora sim! Como sabe, sem provar?
A minha sogra sorriu, leve. Memória, rapariga. O paladar está na cabeça. Guardei receitas para toda a vida.
Passámos o resto da tarde nisto. Quando o Rui chegou, o cheiro na casa era outro.
Uau! parou à entrada. Que aromas! Mãe, estás melhor?
Dona Rosalina estava cansada, mas serena.
Não, Rui. Hoje cozinhou a Lúcia. Fui só treinadora de bancada.
Rui olhou para mim, surpreendido. Pisquei-lhe o olho.
Senta-te disse. E atreve-te a dizer que está salgado… Fizemos contas ao grão.
Quando ele repetiu o prato, Dona Rosalina falou, olhando o vazio:
Lúcia… Sabes porque deitei fora o teu pato?
Fiquei em silêncio.
Estava perfeitamente aceitável. Não era desastroso.
Então porquê?
Ela cruzou o meu olhar. Pela primeira vez vi medo humano.
Porque, se tu acertasses, eu deixava de fazer falta. O meu filho cresceu, tem vida própria, mulher própria. Se não sou eu a cozinhar, então sou uma velha inútil que ocupa espaço. Quis provar que só eu podia mandar nesta parte da casa.
Pousei o prato. Nunca tinha olhado para ela assim. Para mim sempre foi só uma muralha, teimosa, segura.
Afinal, era só alguém assustada, à espera que lhe tirassem o chão.
Não vai nunca ser dispensável disse baixo, tocando-lhe a mão. Quem me ensina, então, a cortar bem cebola? Eu hoje percebi que não sei nada disto.
Dona Rosalina limpou discretamente o nariz e recompôs-se na postura habitual.
Isso nunca. As tuas mãos ainda parecem ganchos. Amanhã vamos treinar ovos moles; se puseres farinha, deito-te da cozinha.
Sorri.
Fechado. Se passar, dê-me a receita do pudim abade de Priscos.
Depende do teu desempenho, menina resmungou, pousando a mão sobre a minha.







