Nunca fui uma pessoa indiferente aos outros. Há alguns anos, mudei-me de uma aldeia para Lisboa. Até hoje, custa-me compreender como se consegue passar por alguém que claramente precisa de ajuda, ou despejar uma mãe com o filho de casa só porque não consegue pagar a renda. É claro que há exceções. Lembro-me de um caso muito marcante de 2007. Estava a sair do trabalho e decidi parar num supermercado. À entrada, estava uma mulher com uma criança, e logo me chamaram a atenção. A mãe parecia exausta e de mau humor.
O que queres agora?, gritou ela para a filha.
Tenho fome, mãe, respondeu a menina, muito baixinho.
Passavam por ali vários pais com filhos, carregando sacos cheios de compras. Pelo aspeto da criança, percebia-se que ela precisava mesmo de comida. De repente, a mãe perdeu a cabeça, empurrou a filha e gritou que a vida dela tinha sido arruinada por culpa da filha. Sem mais aviso, saiu a correr em direção oposta, deixando a menina sozinha. Fiquei espantado com aquela atitude.
A pequena, apercebendo-se de que fora deixada para trás, sentou-se no chão e começou a chorar um choro baixo, sereno, próprio de quem se sente abandonado. Custou-me ver aquilo, mas esperei ainda algum tempo, na esperança de que a mãe voltasse. Meia hora se passou e ninguém apareceu. Não consegui ignorar mais, então aproximei-me para acalmar a menina. Admito que, ao início, hesitei, pois nestas situações as pessoas podem ser julgadas com facilidade. Curiosamente, ninguém pareceu importar-se.
No início, a menina assustou-se quando tentei falar com ela. Chamei então o segurança do supermercado para tentarmos localizar a mãe, e só assim a menina ganhou confiança e começou a contar-me o que sabia. Descobri que se chamava Mafalda e tinha cinco anos. Enquanto procurávamos entender o que se passava, fui buscar-lhe um pão com queijo e um sumo ao supermercado. Primeiro recusou, mas logo devorou tudo percebi então que não comia desde manhã.
Mais tarde, soube que a mãe tinha desaparecido completamente. Sem alternativas, entreguei a menina às autoridades para que procurassem a mãe. Mesmo assim, senti que a minha ligação com ela não terminaria ali. Por sorte, tinha amigos nos serviços sociais e pude sempre acompanhar o desenrolar da situação. Ficou-se a saber que a mãe criava Mafalda sozinha, pois o pai desaparecera algum tempo antes. Antes da gravidez, a mãe trabalhava; depois, começou a acusar a filha de ter arruinado a sua vida. Aquela frase era dita à menina repetidas vezes. A mãe acabou por ser encontrada, mas recusou ficar com a filha. Tudo bem, vão levá-la para um lar, disse ela, e assinou uma declaração de abandono. Mafalda só pedia entre lágrimas para ir para casa, mas foi em vão.
Dois anos depois, consegui adotá-la. Não foi fácil: tive de tratar de imensa papelada, e durante algum tempo Mafalda ficou no lar. Visitava-a regularmente e levava-lhe presentes. Alguns amigos perguntavam por que razão queria criar uma criança que não era minha.
O tempo passou sem dar por isso. Hoje, olho para Mafalda e mal acredito como cresceu. Nunca, nem por um segundo, me arrependi de tê-la adotado. Percebi que, numa sociedade que tantas vezes vira a cara, um gesto pode transformar duas vidas: a de quem recebe e a de quem dá.







