A mãe apertava-a contra si, beijava-a e pensava: «Afinal, a quem será que ela se parece?» E suspirava. Os conhecidos também se surpreendiam e faziam a mesma pergunta. Terá sido algum amigo a encher a cabeça do marido, terá sido a sogra a levantar suspeitas, ou terá o próprio Vítor começado a duvidar da fidelidade da esposa, mas certo dia ele chegou a casa do trabalho carrancudo.

Diário da Leonor

Ainda me lembro do cheiro doce do cabelo da minha filha, assim que nasceu. A mãe cola-se a ela, beija-lhe a testa macia e pensa: A quem é que ela se parece? E suspira, no final. Os conhecidos vêm vê-la, todos com aquele olhar intrigado, a perguntar o mesmo. Terá sido o Tiago, alguém lhe disse alguma coisa? Ou fui eu que, inquieta, vi nuvens onde não existiam, ou até terá o Tiago duvidado ele próprio de mim? Numa dessas tardes, entrou em casa cabisbaixo depois do trabalho.

Tiago, e agora? O que vamos fazer? Ainda é cedo demais. A Matilde acabou de largar as fraldas, só faz três anos daqui a nada, eu nem consegui descansar, disse-lhe eu, cansada.

Passo de uma licença maternidade para outra, desabafei. A Matilde ainda é pequenina, pede colo o dia inteiro. Como é que vou carregá-la com esta barriga a crescer?

Vamos ser quatro cá em casa, e só tu é que trabalhas. Não seria melhor esperarmos antes de pensar em outro bebé? perguntei, assustando-me com o que tinha acabado de dizer.

Nem penses nessas coisas! respondeu o Tiago, fitando-me com uma seriedade que não era habitual, mas logo a voz suavizou. Desculpa, a culpa é minha. Havemos de dar conta do recado. Se for preciso arranjo um bico.

Se vier outra menina, não vejo problema nenhum. Ainda temos inteira a roupa da Matilde, nem precisamos de comprar carrinho novo. Até vão ser amigas com tão pouca diferença de idade. Mas se vier um rapaz fez uma pausa. Peço aumento de tipologia na Câmara, sorriu ele.

E ficou decidido assim, meio entre sorrisos, meio entre suspiros. Não podia negar a mim própria a felicidade de pegar na Matilde ao colo mais uma vez, apertá-la, enchê-la de beijos, mesmo com o ventre a crescer, redondo e presente.

Em segredo, às vezes recriminava-me por desejar, nem que fosse um instante, que aquela segunda criança, tão apressada a escolher-me, não vingasse. Mas nunca tive coragem de admitir tal coisa, nem a mim mesma.

A natureza, porém, não quis saber das dúvidas. A gravidez correu tranquila e, dentro do prazo, nasceu mais uma filha na nossa família: a Benedita.

Quando ma trouxeram pela primeira vez, reparei logo naquele cabelo macio e louro. Eu e o Tiago somos ambos de cabelo escuro. A Matilde, ao nascer, tinha cabelos negros, que com os meses aclararam, mas nada assim. Talvez a Benita venha a escurecer, pensei.

Olhos de um azul intenso, pele alva todos os que a viam soltavam exclamações encantadas. O nome não foi difícil: Benedita, que é raro e ficava a condizer com a Matilde em iniciais. Para nós, tinha um sentido secreto.

Nunca ninguém explicou como é que nasceram, na mesma casa, duas meninas tão distintas. A Benedita não só não se parecia com a irmã, mas destoava totalmente de nós, os pais. E quanto mais crescia, mais isso se acentuava, como se tivesse sido soprada para a nossa família pelo vento sem destino.

Com o tempo, o cabelo dela escureceu para um tom de caramelo-claro. Tranquila, fofinha, observava o mundo com aqueles olhos de céu aberto. Pegava-a nos braços, beijava-a, e voltava à questão: Com quem se parece ela? E suspirava, ouvindo amigos e vizinhos a perguntar o mesmo.

Houve quem insinuasse coisas ao Tiago, talvez tenha sido eu, com o meu cansaço. Ou, quem sabe, o Tiago sentiu dúvidas sobre mim. Uma noite, entrou em casa, sério e distante.

Durante um bom bocado ficou calado, o que me deixou inquieta. Depois, exigiu explicações, acusando-me de traição, lembrando um loiro simpático que se tinha aproximado de mim antes do nosso casamento. Será que? Ou, se não houve traição, será que as meninas teriam sido trocadas na maternidade? Coisas raras, mas não impossíveis, dizia ele.

Nunca te traí, Tiago. Ela é nossa filha, ninguém a trocou, jurei, lavada em lágrimas, magoada com tanta suspeita injusta.

A nossa vida virou um campo de batalha. Discutíamos todos os dias. Eu estava decidida a ir embora; até arrumei algumas coisas. Só então o Tiago pareceu acordar.

Ele amava-me. Se eu saísse, levava as crianças e ele ficava sozinho. Isso assustava-o. Só queria uma certeza: a verdade. Doía-lhe escutar, vez após vez, comentários do tipo Tão branquinha! Não se parece com nenhum dos dois.

Sentia-se marcado por uma vergonha impossível de apagar. Pediu-me que ficasse, mas anunciou que ia pedir um teste de paternidade. Cai em lágrimas de novo.

Como posso ficar se não confias em mim? Então fazes teste também à Matilde, já que duvidas de tudo. Mais vale separarmo-nos já.

O Tiago foi ele mesmo entregar à clínica amostras de saliva da Benedita e cabelo da Matilde. Deixou os técnicos loucos com perguntas sobre trocas de resultados, erros, fraudes. Garantiram-lhe que era impossível.

As meninas ouviam as discussões. A Benedita, já com quatro anos, percebia bastante, e a Matilde foi direita ao assunto:

Tu não és minha irmã, foste posta cá em casa. Por tua culpa a mãe e o pai vão separar-se.

A Benedita chorou sem consolo. Mãe, por mais que a embale, não a acalma por dentro.

A Matilde ponderava sobre formas de se livrar da irmã. Sem ela, os pais não discutiriam, não haveria separação. Um dia, enquanto fiquei presa na fila do supermercado e o Tiago estava a trabalhar, a Matilde vestiu a irmã a preceito e convidou-a para um passeio cada vez mais longe de casa.

Quando cheguei e não as vi, corri aflita para a rua. Os vizinhos pouco sabiam; uma senhora viu-as sair mas estava atrasada para ver a novela, nem perguntou nada.

Corri de pátio em pátio sem as encontrar. O Tiago, ao chegar, juntou-se às buscas. O tempo passava, o dia caía, e nada das meninas. Chamámos a polícia. Uma hora depois encontraram-nas. Primeiro a Benedita, chorosa num pátio alheio, depois a Matilde, perdida e assustada, sem conseguir regressar.

O alívio foi tão grande que nem houve lugar a grandes ralhetes. A Matilde nunca confessou que quisera afastar a Benedita de propósito.

Ainda ressoaram discussões dos pais, agora com acusações cruzadas. Se as tivesses vigiado! Se estivesses mais em casa! E o medo: e se lhes acontecesse algo terrível?

Até que chegaram, finalmente, os resultados dos testes. O Tiago era o pai de ambas. Traição nenhuma, troca nenhuma. Explicaram-lhe até que eram os genes ocultos o avô, uma bisavó esquecida a manifestar-se assim.

A paz regressou, devagar, à família. Mas a Benedita nunca mais deixou de sentir-se um pouco a mais.

Ela e a Matilde cresciam afastadas. A Matilde nunca aceitou a irmã, dizia-lhe na cara que ninguém a queria, e que não eram irmãs de verdade.

Eu tenho vestidos novos, tu ficas sempre com os meus velhos, porque não és de sangue, dizia ela, implacável.

A Benedita chorava, mas nunca se queixava à mãe. A Matilde quase sempre conseguia pôr-lhe as culpas em cima. Faz como a tua irmã, que fica sossegada e não faz disparates, suspirava a mãe, sem pensar. Depois dessas frases, a Benedita achava inútil pedir ajuda. A mãe só gostava da Matilde.

A Benedita sentava-se num canto e fechava os olhos. Se não visse o mundo, talvez ele também não a visse a ela. Escondia-se das críticas da mãe e das injustiças da irmã.

A Matilde terminou a escola primeiro, mas não quis continuar a estudar. Para quê? Era bonita, bastava-lhe isso. Conheceu um rapaz nos bailes e casou depressa. Tinha casa própria, trabalhava com o pai no stand de automóveis usados em Lisboa.

A mãe gostava da Benedita, claro, mas nunca resistiu a compará-la à irmã. Para a Benedita, ser comparada era uma ferida que nunca fechava. Até porque as palavras cruéis da irmã ficaram-lhe cravadas desde miúda. Era verdade, herdava a roupa da Matilde.

Olha para a Matilde, que já encontrou um bom partido. Aprende! Em vez de ficares aí a desenhar e a sonhar Deviam eras sair mais de casa! dizia a mãe.

No 11.º ano, um rapaz mostrou interesse na Benedita. Ela acreditou, inteira, que talvez ele a pudesse amar. Só percebeu tarde que estava grávida. Ficou em choque, contou-lhe. O rapaz ficou confuso, mas quis conversar com os próprios pais.

O segredo não durou. A mãe do rapaz veio cá a casa pedir que não destruíssemos a vida do filho, sugerindo a Benedita que interrompesse a gravidez.

Inesperadamente, foi o meu pai quem a defendeu. Talvez tivesse sido para compensar velhos erros, ou por piedade.

Vai tê-lo, disse. Não vou permitir que estraguem mais a vida dela. Ela já sofreu o suficiente. Se não gostam, crescemos o miúdo sozinhas.

Mandaram então o rapaz para fora, para casa de uns tios no Porto. A Benedita ficou em casa, a estudar por programa especial. A escola abafou o escândalo. Os exames, fez em casa, vigiada pelos professores. Ninguém queria um mau exemplo em ambiente escolar.

A professora de inglês, de quem sempre gostou, ajudou-a. Tirou boa nota, logo agora que ia precisar tão pouco disso, porque a preocupação era a criança, não os estudos.

O meu pai morreu pouco depois. Não aguentou a pressão, trabalhava demais, o coração não aguentou. Deitou-se a descansar ao fim do dia, e nunca mais acordou. A mãe encontrou-o ainda quente, tentou de tudo.

A casa encheu-se de gritos, de choro, depois a ambulância, o funeral. Do susto, a Benedita entrou em trabalho de parto prematuro.

No mesmo dia em que perdeu o pai, deu à luz o filho: Lourenço, tão louro como ela, olhos ainda mais azuis.

Não foi ao funeral, estava no hospital. A mãe passou-lhe em casa e, devastada, largou: Tu mataste o teu pai. Desde que nasceste, só causa problemas. Mas, ao neto, foi impossível resistir.

O pequeno era um anjinho, encantador. Só temia agora que ninguém quisesse casar-se com a Benedita.

Não preciso de ninguém. O meu próprio pai desconfiou de mim; um estranho nunca vai amar o meu filho, disse ela.

O Lourenço cresceu esperto, calmo, curioso. Quando tinha cinco anos, é que a Matilde decidiu entrar outra vez na história.

Diferente da irmã, nunca podia ter filhos. Os sogros sonhavam com netos. Pressionavam o marido, e ele começou a afastar-se, a sair demais. A Matilde aguentou, não saiu de casa; voltar para a mãe, para aquela pobreza, estava fora de questão, muito menos conviver com a Benedita e o pequeno.

Tentou resolver a vida da irmã. Não adiantava agora largá-la perdida na rua como quando eram crianças. Então lembrou-se: há um técnico, o Manuel, que vinha sempre arranjar-lhes o computador em casa. Simpático, novo, solteiro.

A Matilde, até por vingança ao marido, pensou em ficar com ele, mas o Manuel foi seco, nem quis conversa.

Bem, então que fique com a Benedita!. Mandou-lhe uma mensagem, disse para ir ter com ela a um café, apresentar a irmã. À Benedita, mentiu era uma ocasião para conhecê-lo, não deveria ficar sozinha para sempre, o filho precisava de um pai.

A Matilde tinha a certeza de que Manuel não ia gostar da Benedita. Afinal, era mais cheiinha, com um filho a tiracolo, não sabia dar-se em público. Se lhe desse para gostar, melhor; assim ela podia voltar a viver com a mãe, a casa ficava desimpedida.

A Benedita vestiu-se, ajeitou o cabelo, mas não quis pintar-se demais. Queria que ele visse quem ela era.

No café, reconheceu-o logo, sentado ao canto, mergulhado no telemóvel.

O senhor é o Manuel? perguntou ela.

Sim E a senhora?

Sou a irmã da Matilde: Benedita.

Ele achou estranho, mas convidou-a a sentar para um café.

Quer um bolo? ofereceu.

Como sabe que gosto? surpreendeu-se ela.

Venho muitas vezes aqui por causa do trabalho. E voltou ao telefone, tentando ligar à Matilde.

A Benedita olhava-o, reparava nos olhos fundos, na barba desalinhada, o cabelo comprido, desleixado. Pediu-lhe para se calar, sentia vontade de lhe cortar o cabelo ali mesmo.

Estou a incomodar? atreveu-se ela.

Não, de todo. A sua irmã Não vem?

Disse-me que seria com o senhor que eu ficava aqui. Talvez seja melhor ir embora.

Nesse instante, trouxeram o café.

Se já cá chegou, ao menos aceite um café.

Não preciso. afastou o bolo também.

Tem medo de engordar? Fica-lhe bem, sorriu ele.

Mas dizem que os homens só gostam de mulheres magras.

Quem lhe disse isso? O que sabe a Benedita sobre homens?

Nada, admitiu, quase sussurrando. Tenho um filho. O Lourenço. Tem cinco anos. A Matilde não lhe disse? arriscou.

E devia? intrigou-se ele.

Mesmo com a resistência de Benedita, percebendo que tinha sido apresentada contra vontade, Manuel fez questão de acompanhá-la a casa.

Foram caminhando, conversaram. Manuel falava, ela escutava. À porta, pediu-lhe o contacto.

Para quê? estranhou a Benedita.

Quero conhecer-te melhor. Disse-te tanto de mim, nem sei nada de ti. Eu ligo para marcarmos.

Só telefonou uma semana depois.

Desculpa, muito trabalho. Hoje posso jantar contigo?

A Benedita hesitou. Sentia-se presa ao filho, a toda a sua vida. Mas deu-lhe o benefício da dúvida.

Sentados no café, ela arriscou falar da infância, das brigas dos pais, da dor de crescer assim. Através das palavras, pareceu compreender-se melhor.

À saída, foram abordados por um cão vadio. Entraram num supermercado, o Manuel trouxe pão e fiambre para o bicho.

Na caixa, uma senhora contava parcamente moedas para pagar poucos legumes. O Manuel completou o valor dele, pôs-lhe uma tablete de chocolate, fiambre, e um gelado extra.

Por que o gelado? perguntei.

Sabes, a minha avó adorava gelado, mas quase nunca se permitia esse luxo.

Vais tratar-me como à senhora ou ao cão? Por piedade? desafiei.

Nem penses. Gosto imenso de ti. És luz, és honesta. Animais e velhos isso sim, dão-me pena. E se tenho euros, por que não partilhar?

O cão engoliu tudo e desapareceu. Rumo feito.

Nessa noite, a Matilde ligou.

Então?

Foi bom. Estamos juntos. Obrigada por nos teres apresentado. Ele é ótimo.

Então esse bruto agradou-te?

É querido, divertido. Disse que gostava de mim.

A Matilde desligou a correr. Dias depois apareceu em casa. Eu pus o Lourenço na cama e ia entrar na cozinha quando ouvi a conversa entre ela e a mãe.

Esta parva tem sempre sorte. Quis pregar-lhe uma partida pelo Manuel me ter rejeitado, e ele acaba por se apaixonar por ela!

Mas tu já tens marido! escandalizou-se a mãe.

Marido já pensa em trocar-me. O divórcio está por dias. O que faço, mãe?

Estás a imaginar coisas.

Não, mãe. Olha lá, porquê ela? Gorda, sem graça, cheia de cabelos para pentear dos outros Até um filho tem, e eu não consigo um.

Foi a mim que ele devia amar. Foi por minha causa que se conheceram. Mais valia ter-lhe deixado cair num poço quando éramos pequenas!

Estás louca? Que poço?

Mãe, estás bem? gritei, a correr para dentro. A mãe quase não respirava, mão ao peito. Chamei logo o 112.

Sobreviveu. Não ficaram grandes sequelas. Dois meses depois, casei com o Manuel. Eu e o Lourenço mudámos para casa dele.

A mãe visito sempre. A Matilde foi à vida dela, zangada com todos.

Os pais acham que os filhos não ouvem, mas tudo chega aos nossos ouvidos. Que as rivalidades entre irmãs são coisa pouca e às vezes são lutas ferozes. E quem decide vingar-se, quase sempre, acaba presa na própria teia.

Os filhos raramente ouvem os adultos, mas nunca se enganam a imitá-los.
James Baldwin

As palavras que uma filha ouve sejam de carinho ou de desdém tornam-se verdades sobre quem ela é e sobre como são as relações no mundo.Os anos passaram depressa. O Lourenço cresceu a espreitar o mundo através daquela mistura discreta de resiliência e timidez da mãe. Herdou-lhe os olhos e a vontade de reparar no que passa despercebido aos outros. Manuel ensinou-lhe a consertar bicicletas e a tratar cães vadios. A Benedita agora dona da sua própria casa, dona, pela primeira vez, de si , todos os dias reaprendia a medir o silêncio e a doçura. Descobriu que era possível, mesmo com as cicatrizes, sem conseguir apagar as frases antigas que tremiam ao fundo das noites, ser feliz de maneira sutil, debaixo da manta ao serão, no pão torrado de manhã cedo, no riso solto do filho.

Um dia, sem avisar, a Matilde apareceu à porta. Trazia um vaso na mão, a voz amarga mas os olhos cansados.

Vim devolver isto. Era da avó. Cansei de guardar o que não é meu.

Pela primeira vez, ficou sentada muito tempo. O Lourenço, curioso, observou aquela tia elegante, sempre impaciente, agora calada. As irmãs olharam-se nos olhos, como nunca tinham conseguido antes.

Desculpa, murmurou a Matilde.

A Benedita não respondeu. Demorou a perceber que perdão não se concede logo: primeiro, precisa de pousar. Puxou a cadeira ao lado.

Fica para o lanche.

Pela primeira vez, não houve competição, nem toda a distância de uma vida antiga. Só uma mesa posta, o cheiro do bolo no forno, e uma paz, fina e tímida, que se insinuou de mansinho entre as três gerações sentadas ali.

Na sala, o Lourenço desenhava o que via: três mulheres e um menino à mesa, um círculo imperfeito, mas inteiro, com ramos como braços a tocarem-se. Ficou tão orgulhoso do desenho que correu a mostrar à mãe.

A Benedita sorriu, o coração a palpitar com a possibilidade, ainda que tênue, de recomeço. Talvez não fosse demasiado tarde. Talvez seja assim que as famílias se curam: entre bolos, silêncios e pequenos gestos e a coragem serena de, mesmo não esquecendo, escolher ficar e seguir adiante, juntos.

Lá fora, o vento agitava a cerejeira do quintal, fazendo voar pétalas brancas como pequenos perdões a pousar nos degraus da varanda.

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A mãe apertava-a contra si, beijava-a e pensava: «Afinal, a quem será que ela se parece?» E suspirava. Os conhecidos também se surpreendiam e faziam a mesma pergunta. Terá sido algum amigo a encher a cabeça do marido, terá sido a sogra a levantar suspeitas, ou terá o próprio Vítor começado a duvidar da fidelidade da esposa, mas certo dia ele chegou a casa do trabalho carrancudo.