A mãe apertava-a contra si, beijava-a e pensava: «Afinal, a quem é que ela se parece?» E suspirava. Os conhecidos ficavam intrigados e faziam a mesma pergunta. Não se sabe se algum amigo encheu a cabeça do marido, se a sogra desconfiou de algo, ou se o Vítor próprio começou a duvidar da fidelidade da esposa, mas certo dia ele chegou do trabalho carrancudo.

A mãe apertava-a com ternura ao colo, beijava-a e pensava: «Afinal, a quem será ela parecida?» E suspirava. Os conhecidos estranhavam e faziam a mesma pergunta. Talvez algum amigo tivesse posto ideias na cabeça do marido, ou a mãe suspeitasse de algo, ou até Duarte, ele próprio, começou a duvidar da fidelidade da esposa, mas um dia chegou do trabalho calado e carrancudo.

Duarte, que vamos fazer agora? É tão cedo… A Leonor só vai a caminho dos três anos, acabou de largar as fraldas. E eu ainda nem descansei nada. desabafava Mafalda. Salto de uma licença de maternidade para outra. A Leonor ainda é pequenina, pede colo a toda a hora. Como é que vou pegar nela com barriga?

Seremos quatro em casa e só trabalhas tu. Talvez devêssemos esperar para ter outro filho, o que achas? perguntou Mafalda, assustada até com as próprias palavras.

Que ideia é essa? Esquece isso. Duarte olhou-a de forma dura. Desculpa, é a pressão, mas temos de conseguir. disse ele, depois, num tom mais calmo. Arranjo um part-time.

Se for outra menina, não vejo problema. Fica tanta roupa da mais velha. E nem será preciso comprar carrinho.

Como a diferença de idades é pequena, dar-se-ão bem. E se for rapaz… Duarte fez uma pausa, sorriu-lhe e acrescentou peço ao município para aumentar o nosso T2!

Assim ficou decidido. Mafalda adorava e mimava Leonor. Era, afinal, a primeira filha, tão desejada.

Não conseguia resistir a pegá-la ao colo sempre que podia, até mesmo quando já se notava a barriga.

No fundo, rezava para que talvez não conseguisse levar a gravidez a termo uma criança a seguir à outra parecia demais, embora nem a ela própria admitisse tal pensamento.

Mas a vida levou a melhor. A gravidez correu bem, e, no tempo certo, nasceu outra menina no lar dos Costa.

Na primeira vez que lhe colocaram a bebé nos braços para mamar, Mafalda ficou surpresa ao ver a penugem dourada no topo da cabeça da pequena. Tanto ela como Duarte eram morenos.

Leonor também nascera com cabelo escuro, que só clareou um pouco depois. Talvez esta escurecesse com o tempo, pensou Mafalda.

A bebé, de olhos azuis e pele clara, causava suspiros por onde passava. Para não complicar, os pais chamaram-na Benedita.

Nome pouco comum, mas assim partilhavam as mesmas iniciais. Os pais gostaram, achando ter ali um sentido especial, só deles.

Ninguém sabia explicar como é que numa família nasciam duas filhas tão diferentes. Benedita destoava não só da irmã, mas também dos próprios pais.

E, quanto mais crescia, maiores eram as diferenças. Parecia que o vento a trouxera de longe, por engano.

Com o tempo, o cabelo aclarou apenas até um louro escuro, e Benedita olhava para o mundo, tranquila, redondinha, daqueles olhos de céu.

A mãe, sempre que a abraçava, voltava à velha pergunta: «A quem será ela parecida?» E suspirava. Os conhecidos, por sua vez, continuavam a repetir a dúvida.

Talvez fossem ideias postas por amigos, ou a mãe desconfiara, ou Duarte começara a ver traços estranhos, mas um dia ele chegou do trabalho com o sobrolho carregado.

O silêncio dele inquietou Mafalda, que acabou por ouvir uma acusação: traição.

Duarte recordou que, antes dele, havia um rapaz loiro interessado por Mafalda. Teria ela cedido à tentação? Por nostalgia?

Ou então, se não houve traição, trocaram as crianças na maternidade, o que, embora raro, acontece.

Nunca te trai, nunca. Benedita é nossa chorava Mafalda, magoada com a desconfiança injusta do marido.

As discussões tornaram-se diárias; o casamento quase chegou ao fim. Mafalda até começou a fazer a mala, e só aí Duarte tremeu.

Ele amava a mulher. Se ela partisse, levava as filhas e ele ficava só. Temia ficar sozinho. Só queria saber a verdade.

Mas era embaraçoso ouvir, uma e outra vez: «Como é que tua filha é tão branquinha? Nem à mãe, nem ao pai…»

A Duarte parecia-lhe que todos o achavam cornudo. Pediu a Mafalda para ficar, mas avisou: faria um teste de paternidade. Mafalda caiu em lágrimas.

Como posso ficar se não confias em mim? Vais fazer teste? Faz à Leonor também, vê se não a enganei do mesmo modo. Mais vale separarmo-nos já.

Duarte recolheu ele próprio saliva de Benedita e cabelo de Leonor e levou tudo, em mão, ao laboratório.

Andou dias a atormentar os técnicos: podiam trocar as amostras? Haveria enganos? Troca de resultados? Garantiram-lhe que não. Ele acalmou-se um pouco.

As meninas ouviam todas as discussões. Benedita, com quatro anos, percebia que os pais discutiam por sua causa.

E Leonor foi crua:

Não és minha irmã, foste atirada aqui. Por tua culpa é que a mãe e o pai querem separar-se.

Benedita chorou. Nem quando a mãe a pegou ao colo acalmava logo.

Leonor, por sua vez, fantasiava com a ideia de se livrar da irmã mais nova. Se ela desaparecesse, os pais deixariam de brigar.

Certa vez, a mãe foi ao supermercado e demorou. O pai estava a trabalhar. Leonor vestiu Benedita e convenceu-a a sair, levando-a para longe de casa.

Quando Mafalda chegou e não as viu, correu para a rua, mas não as encontrou no recreio.

Uma vizinha do rés-do-chão viu-as sair, mas, apressada pelo início da sua novela, nem perguntou nada.

Mafalda, fora de si, procurava pelas filhas nos bairros à volta. Duarte juntou-se à busca quando chegou. A noite caiu e nada.

Chamaram a polícia. Uma hora depois, encontraram primeiro Benedita: uma senhora ligou da zona, dizendo que havia no jardim uma menina pequenina a chorar, sozinha.

Logo depois toparam com Leonor, perdida na escuridão, sem saber o caminho de regresso.

Os pais, aliviados, nem chegaram a ralhar muito às meninas. Leonor não contou a verdadeira razão de ter levado a irmã.

As discussões dos pais reapareceram, cada um culpava o outro pelo sucedido.

E se fossem atropeladas? Ou raptadas? chorava Mafalda.

Duarte, então, recebeu os resultados do teste. Conclusão: ambas eram suas filhas. Não havia traição.

Os médicos explicaram: há traços genéticos recessivos, que só às vezes aparecem. Até pessoas brancas podem ter filhos negros; é um capricho da genética, fruto dos antepassados.

A harmonia regressou à casa pouco a pouco. Mas Benedita continuava a sentir-se deslocada.

Nunca houve cumplicidade entre as irmãs. Leonor guardou sempre uma antipatia pela mais nova. Quando discutiam, lembrava-lhe que não era amada, nem verdadeira irmã.

Compram-me vestidos novos, tu usas os meus velhos. És diferente dizia Leonor, como se fosse a prova de tudo.

Benedita chorava sozinha, sem contar à mãe. Leonor, muitas vezes, fazia asneiras e culpava a irmã.

Porque és assim, Benedita? Olha para a Leonor, tão dócil, nunca faz barulho suspirava a mãe.

Frases assim fizeram-na acreditar que queixar-se era inútil: a mãe só gostava mesmo de Leonor.

Benedita sentava-se num cantinho, olhos fechados, fingindo que o mundo desaparecia, para não ver nem ouvir as palavras e caras duras.

Leonor acabou o secundário primeiro, mas nem quis saber da universidade. Para quê estudar, linda como era?

Num baile, conheceu o namorado e logo casaram. Ele tinha casa, trabalhava com o pai no negócio de carros usados.

A mãe, claro, amava Benedita. Mas, sem querer, punha sempre a mais velha como exemplo.

Benedita sentiu sempre que era comparada e que nunca estava à altura. As palavras da irmã marcaram-na até à adolescência. Realmente, herdava as roupas da irmã.

A Leonor sabe o que faz, agarrou aquele rapaz tão boa sorte. Aprende a viver! Passas a vida a sonhar acordada, a desenhar. Vai sair de casa! dizia-lhe a mãe.

No 12.º ano, um colega reparou nela e Benedita correspondeu. Queria tanto ser amada, ao menos por alguém…

Percebeu tarde que estava grávida. Quando contou ao rapaz, ele quis conversar com os pais.

Assim se soube do namoro. A mãe do rapaz foi a casa dos Costa exigir que Benedita interrompesse a gravidez, para não arruinar o futuro do seu único filho.

O pai de Benedita surpreendeu ao defendê-la:

Ela vai ter esta criança. Não vou deixar ninguém arruinar-lhe a vida. Sofreu demais. E se não a querem, criamos nós o bebé.

Os pais do rapaz mandaram-no estudar para outra cidade. Benedita passou a receber aulas em casa.

Na escola abafou-se a história, para não chegar ao Ministério. Caso contrário, culpavam a escola, os professores. Até os exames fez em casa, vigiada.

A professora de inglês mostrou compaixão, ajudou-a, permitindo-lhe nova nota elevada.

Mas de pouco servia: Benedita ia ser mãe. O estudo ficava em segundo plano.

Pouco tempo depois, o pai de Benedita faleceu subitamente. Trabalhava demais, tinham-lhe caído muitos problemas, o coração cedeu.

Foi-se deitando na sala, à espera do jantar, e adormeceu para sempre. A mãe ainda o encontrou quente.

A casa encheu-se de gritos e choro, ambulância, funerária. O desgosto provocou em Benedita um parto prematuro.

No dia em que o pai partiu, nasceu o filho de Benedita: claro, de olhos azuis e penugem da cor do trigo.

Benedita não foi ao funeral, ficou na maternidade. Quando chegou a casa, a mãe, destroçada, murmurou que era culpa da filha, que lhe trazia só problemas desde o nascimento. Mas amou logo o neto.

Afinal, como não amar um menino loiro, de feições de anjo? Só receava que ninguém quisesse a filha agora.

Não me faz falta ninguém. Nem o meu pai acreditou sempre em mim, quanto mais um estranho a amar-me a mim e ao meu filho disse Benedita.

O rapaz cresceu inteligente, calmo, despachado. Quando fez cinco anos, Leonor resolveu intrometer-se de novo na vida da irmã.

Ao contrário da irmã mais nova, Leonor não podia ter filhos.

Os sogros dela sonhavam com um neto e pressionavam o filho, que rapidamente começou a traí-la. Leonor sabia, mas não se separava. Para onde ir? Voltar para a mãe, à pobreza, e ainda por cima conviver com Benedita e o filho?

Benedita acabou por tirar um curso de cabeleireiro e trabalhava já numa pequena sala. Leonor queria tirá-la mais uma vez do seu caminho agora, arranjar-lhe um marido qualquer.

Lá em casa, empreiteiro do marido ia muito lá para arranjar o computador. Um rapaz novo, simpático, solteiro.

Leonor até pensou em vingar-se do marido ficando com o técnico, mas ele era intransigente, rejeitou-a friamente.

Decidiu então deixá-lo a Benedita se não a queria a si, que ficasse com a irmã tola, e ainda com uma criança.

Mandou mensagem ao rapaz, combinou encontro num café. À irmã disse que era uma oportunidade, precisava de ter alguém ao seu lado.

Leonor acreditava que Benedita não lhe chamaria a atenção; sentir-se-ia deslocada, ridícula, principalmente sendo mãe solteira. Por outro lado, se o rapaz gostasse de Benedita, ainda melhor: a casa ficava livre.

Benedita arranjou-se, penteou o cabelo, não pôs maquilhagem. Queria que ele a visse como era.

Reconheceu-o de imediato no café, sentado sozinho, com o olhar colado ao telemóvel.

É o Rodrigo? perguntou Benedita ao aproximar-se.

Sim, e tu és…?

A mana da Leonor. Benedita.

Ele pareceu surpreso, mas convidou-a para um café.

Sabes que têm bolos deliciosos aqui? disse ele.

Como sabes?

Costumo marcar aqui encontros de trabalho.

Rodrigo tentou ligar à Leonor, distraído.

Benedita analisava-o: olhos fundos, barba crescida, cabelo desgrenhado. Tinha vontade de o pentear.

Estou a incomodar? perguntou ela, por fim.

Nada disso. A tua irmã não vem?

Não sei. Ela disse-me que tu esperavas por mim. Acho que é melhor eu ir…

Nessa altura serviram o café.

Já que estás aqui, bebe um café comigo.

Prefiro não comer bolos.

Com receio de engordar? Ficas muito bem assim, acredita, disse Rodrigo.

Mas os homens preferem mulheres magras.

Quem disse isso? O que sabes tu dos homens?

Nada admitiu Benedita, tenho um filho, tem cinco anos. A Leonor não te contou? disse de repente.

Teria de contar? admirou-se ele.

Apesar do esforço de Benedita para esconder a arapuca montada por Leonor, Rodrigo acabou por acompanhá-la até casa.

Conversaram, ele falou muito, ela escutou. À porta, ele pediu-lhe o número de telefone.

Porquê? surpreendeu-se ela.

Gostei de conversar contigo. Falei tanto de mim, mas quase nada de ti. Prometes que atendes se eu ligar?

Ligou-lhe uma semana depois.

Desculpa, foi muito trabalho. Hoje à noite vamos beber mais um café?

Benedita hesitou. Tinha um filho, e toda a sua vida girava em torno dele. Mas decidiu dar-lhe uma oportunidade.

Na nova saída, começou a contar-lhe tudo, desde o nascimento até às discussões dos pais.

Ao contar, Benedita percebeu, pelos olhos dele, muito da sua própria história.

Quando saíram do café, um cão abandonado juntou-se a eles. Rodrigo entrou num minimercado, comprou pão e chouriço para o animal.

Na caixa, uma idosa contava moedas uma a uma, tentando pagar compras bem simples. Rodrigo pagou-lhe as compras, acrescentando um chocolate, chouriço e um gelado.

O gelado, porquê? perguntou Benedita.

Tive uma avó que era louca por gelados, mas raramente comprava, tinha pena de gastar dinheiro.

Também estás comigo por pena, como fizeste com o cão ou a senhora? desafiante, indagou Benedita.

De todo. Gosto mesmo de ti. Tens uma luz bonita. E sim, dou o que posso animais e pessoas idosas merecem ajuda. Se posso fazê-lo, porque não?

O cão devorou tudo de uma dentada e foi à sua vida.

Então, como correu? perguntou a Leonor ao telefone nessa noite.

Bem respondeu Benedita.

O que tem de bom?

Estou a sair com o Rodrigo. Obrigada por nos apresentares.

A sério? Aquele bronco?

É muito bondoso. Gostei mesmo dele, e diz que gosta de mim.

A voz de Leonor tornou-se inaudível, desligou. Dias depois, foi ter com a mãe e a irmã.

Benedita, depois de deitar o filho, ouviu conversa na cozinha e ficou parada à porta.

Esta tolinha tem sempre sorte. Queria enrabar o Rodrigo para me vingar por me ter rejeitado, mas apaixona-se por ela…

Leonor, tu tens marido! exclamou a mãe.

Marido… Ele já está a preparar um divórcio. E eu? Voltar para ti? Nem pensar, lá está ela, aquela irmã e o filho…

Estás a exagerar?

Não, mãe. Porquê, porquê ela? Gorda, tola, sempre a mexer no cabelo dos outros. E até já tem filho, e eu não posso…

Devia era tê-la atirado para o poço quando era pequena!

Que disparate, Leonor! a mãe ainda tentou.

Mãe! gritou Leonor, vendo a mãe a apertar o peito, a ficar sem ar. Benedita correu, chamou o INEM.

Os médicos chegaram a tempo o AVC não deixou marcas graves.

Dois meses depois, Benedita casava com Rodrigo. Mudou-se para casa dele com o filho.

Mas visitava a mãe quase todos os dias. Leonor, zangada com todos, foi embora para outra cidade, procurar felicidade.

Os pais acham que os filhos são pequenos, não entendem nada, e discutem à sua frente. Mas eles percebem, ouvem e tomam notas.

Por vezes, a luta entre irmãs pelo amor dos pais ou de um rapaz pode ser dura. E a vingança quase sempre se vira contra quem a planeia.

«Os filhos nunca escutam os mais velhos, mas nunca erram ao copiá-los.»

James Baldwin

«As palavras que uma filha escuta dos pais se trazem apoio e afeto, ou se a magoam ela interioriza como verdades sobre si própria e sobre a vida em relação.»

No final, cada um aprende que para se ser feliz é preciso aceitar-se e perdoar o passado. Porque tudo o que os pais dizem e fazem ecoa para sempre no coração dos filhos.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

A mãe apertava-a contra si, beijava-a e pensava: «Afinal, a quem é que ela se parece?» E suspirava. Os conhecidos ficavam intrigados e faziam a mesma pergunta. Não se sabe se algum amigo encheu a cabeça do marido, se a sogra desconfiou de algo, ou se o Vítor próprio começou a duvidar da fidelidade da esposa, mas certo dia ele chegou do trabalho carrancudo.