Olha, vou-te contar o que se passou cá em casa parece cena de telenovela portuguesa, juro! A manhã começou logo com aquele stress, sabes? Eu e o Tiago dormimos completamente passados do despertador, e depois foi aquele corre-corre clássico: eu a tentar vestir-me a correr, ele à procura das chaves, e o Afonso que só queria brincar com os carrinhos e nem ligava à confusão todo contente na sala.
Tiago, levas tu o Afonso à creche, pode ser? gritei eu do quarto, já a tentar enfiar as calças enquanto punha o lanche na mochila dele.
Sim! Mas viste as minhas chaves? ele aos altos berros pela casa.
Não faço ideia! disse-lhe um pouco mais alterada, enquanto dava voltas à procura do telemóvel. Só quando o encontrei, lá fui vestir o Afonso, que continuava a ignorar o drama matinal.
Mal saímos de casa arrancámos até à creche num instante. Mas claro, tinha que acontecer: o fecho da roupa do miúdo ficou preso e ainda por cima o Afonso começou logo a chorar.
Mãe, eu não quero ir para a escola olhos cheios de lágrimas, com aquele beicinho.
Ó filhote, vá lá Temos mesmo de ir agora. Vai ser divertido, vais ver os teus amigos, vais brincar tentei animá-lo, mas a minha voz tremia e eu notava.
Nisto, apareceu a educadora, a Dona Teresa, sempre um doce, a sorrir, e levou o Afonso com todo o jeitinho.
Não se preocupe, Mariana disse-me ela, cheia de calma , ele já fica bem. Vamos brincar com os amigos.
Fiquei logo mais aliviada, mas mal ela fechou a porta senti o peso do stress cair todo em cima de mim outra vez.
Ó valha-me Deus, que já vou tão atrasada murmurei, a ver o relógio.
Vou para ligar à minha cliente para avisar do atraso, pego no telemóvel da mala e olha, nem queria acreditar! Não era o meu! Lembras-te daqueles capas de telemóvel iguais que comprámos na feira? Pois é, por causa deles confundi o meu com o do Tiago! Para ajudar à festa, até os códigos são os mesmos!
Ótimo, que maravilha resmunguei, a pensar como ia ligar à cliente agora. Só podia mesmo ligar ao Tiago para lhe pedir o contacto.
Enquanto estava nesses pensamentos, o telefone vibrou e aparece uma notificação no ecrã:
Diogo: Então, como correu com a tal rapariga do ginásio? Já tens o número?
Eu fiquei sem chão. Li aquilo três vezes. Depois abri o chat e comecei a ler:
Diogo: Ela já te deu confiança então?
Tiago: Já, deu sim. Combinámos para este fim de semana, lá em minha casa.
Cá vai disto que o meu coração caiu-me aos pés. Este fim de semana? Era quando eu ia levar o Afonso a ficar em casa da minha mãe, para passar lá a noite!
Que horror sussurrei. Só me apetecia não saber de nada disto. Malditas capas iguais
Foi um sacrifício fingir que nada tinha lido. Cada dia, cada vez que olhava para o Tiago, era difícil. Ainda faltavam três dias até sábado e, enquanto tentava convencer-me de que se calhar estava a interpretar tudo mal, as palavras não me saíam da cabeça: este fim de semana, lá em casa.
Ele achava-se na maior, como sempre: super carinhoso, prestável, a perguntar pelas minhas coisas, a ajudar com o jantar, ia adormecer o Afonso. Eu só queria olhar-lhe nos olhos e perceber se aquilo era verdade. Não havia ponta de culpa, nada! Isso ainda me assustava mais.
Na quarta-feira até vimos um filme juntos. Ele pôs o braço à volta dos meus ombros, como sempre fazia, e eu ali, quase a chorar e a aguentar-me. Senti-me tão desprotegida e perdida que tudo parecia encenado, como se ele estivesse só a fingir.
Na sexta à noite, depois de deitarmos o Afonso, fiquei na cozinha a passar a mão pela água corrente, absorta nos pensamentos. Tiago veio por trás, abraçou-me pela cintura e murmurou baixinho:
Pareces tão em baixo hoje. Está tudo bem?
Eu congelei.
Sim só estou cansada tentei sorrir, mas notava-se que era falso.
Percebo disse ele com aquele tom doce e beijou-me o topo da cabeça.
Nessa noite, quando ele já dormia, eu levantei-me devagarinho e fechei-me na casa de banho. Sentei-me na borda da banheira, abri a torneira só para disfarçar, mas as lágrimas começaram a cair.
Porquê? Porquê? sussurrava, lavada em lágrimas.
Estava perdida. Dizia para mim própria: Falo com ele? Vou-me embora? O que é que faço da minha vida agora? Não encontrava respostas e só sabia que no sábado de manhã tinha de fingir que estava tudo normal outra vez.
No sábado, lá fui eu deixar o Afonso à casa da minha mãe, e só o nervosismo dentro de mim. Mal entrei, a minha mãe percebeu logo.
Mariana, o que é que se passa?
Nada, mãe, está tudo bem! forcei um sorriso. Estou só com pressa, quero surpreender o Tiago, fazer-lhe uma surpresa. Dei um beijo ao Afonso e saltei para o carro antes que ela fizesse mais perguntas.
Vim para casa cheia de pensamentos: E se afinal ele vai só encontrar-se com o amigo? E se ela não aparece? E se interpretei mal aquilo tudo? Queria apanhá-lo ali, a ver se era verdade, mas ao mesmo tempo ainda tinha esperança de estar enganada. Fiquei parada no carro, à porta de casa, a pensar em todas as memórias felizes: passeios no Jardim da Estrela, risos na cozinha, noites aconchegadas a ver futebol na TV Tanto receio de acabar com tudo, sabes?
Ganhei coragem, subi, e ainda fiquei um pouco à porta, com a chave a tremer-me na mão. Entrei devagar, casa de luz baixinha, só um candeeiro aceso na cozinha. Ouvi vozes baixas, risos, sussurros. Fiquei gelada.
É ele, pensei. Pronto, preparei-me para isto.
Andei pelo corredor, meio anestesiada. Quanto mais me aproximava, mais sentia o coração a querer saltar-me do peito.
Tiago? disse, mas a voz soou estranha, quase metálica.
Tiago!! repeti.
Não me responderam, então entrei de rompante na cozinha.
Não era o Tiago. Era o Diogo, o melhor amigo dele, e uma rapariga. Fiquei ali parada, em choque. O Diogo olhou para mim, sem saber o que fazer.
Mariana! Não é nada do que estás a pensar Olha, é só que e começou a engonhar, a justificar-se Mas tu sabes como é lá em casa dos meus pais Também não ia levar para lá aquela desculpa do costume.
Eu nem o ouvia, só olhava para eles, a cabeça à roda. Comecei a chorar ao mesmo tempo que, estranhamente, sentia vontade de rir.
Está bem Diogo, percebi Vou-me embora murmurei, e saí porta fora, ainda meio zonza.
Lá fora o ar frio acordou-me. Peguei então no telemóvel e liguei ao Tiago com as mãos ainda a tremer.
Estou? ele atendeu e eu nem conseguia falar direito. Só me saí com aquela confissão meio tonta:
Eu amo-te Amo-te mesmo muito
Das lágrimas ao riso nervoso, veio tudo ao de cima. Só consegui acrescentar:
Passei por casa Lá estava o Diogo
Ah pronto Desculpa, não fiques chateada, a sério. Estou no escritório, vem ter comigo! Vem, vai ser bom ver-te. Já me conheces Vens?
Estou a caminho
Arranquei o carro a fugir, com uma vontade imensa de abraçar o Tiago.
Quando cheguei ao escritório, estavam só os dois: eu e o Tiago no chão da sala de reuniões, à nossa frente uma garrafa de vinho. Encostei-me ao ombro dele, a apertar o copo, só a deixar-me estar ali naquele canto seguro.
Desculpa Eu nunca quis meter-me na tua privacidade, nunca fiz isto antes disse-lhe, meio envergonhada.
Tu é que me desculpa, por te meter nisto tudo. Devia ter explicado logo.
Mas porquê? O que é que ele te pediu?
É o Diogo. É meu amigo desde sempre, sabes como é. Na véspera ele fez figura de urso com a rapariga, entornou-lhe um Red Bull pela roupa branca toda, ela ficou azul E, pronto, depois veio pedir-me ajuda. Não consigo! Tenho vergonha! Tiago, salva-me!
O Tiago até imitou a voz do Diogo, e eu larguei-me a rir.
Ele só precisava de um empurrãozito. Arranjei-lhe o contacto, fiz figura de cupido, acrescentei umas piadas para aliviar e prontos, ficou tudo bem.
Mas ele tinha que ir lá para casa? Não podia ir para um hotel?
Sabes bem porque continua com os pais: não gasta nem um cêntimo em renda, tem a mãe a fazer-lhe bifanas e a passar-lhe as camisas a ferro.
Pois, é mesmo à Diogo disse-lhe, cúmplice, e rimo-nos os dois.
Olha, mas e se eles ainda lá estão? Não quero dormir com o Diogo e a conquista dele em casa E sinceramente hoje não me apetece voltar.
O Tiago sorriu, beijou-me:
Olha, eu não sou forreta como ele. E acho que merecemos um serão à maneira.
A sério? Vamos para uma pousada?
Ele assentiu, e antes que eu dissesse ai, pegou-me ao colo. Fartei-me de rir, a tentar fugir, mas ele segurava-me com força e ria comigo.
Prometo que ainda te entrego direitinha e feliz!
Não é que duas horas depois de me sentir a perder tudo afinal só precisava de um abraço dele? Eheh, só mesmo cá em Portugal é que somos assim!







