Aos 52 anos, encontrei o amor verdadeiro e demos o nó, mesmo já com o prazo de validade a vencer para essas aventuras. O meu marido, o Joaquim, tem uma filha adulta, a Benedita, com 25 anos, que já é mãe também. A Benedita acabou de passar por um divórcio daqueles dignos de novela da TVI e, para não andar aos tombos sozinha, decidiu mudar-se para mais perto do pai, em busca de algum colo e uns petiscos de fim de semana.
No início, só falávamos por videochamada, umas saudações trocadas à pressa enquanto ela segurava a filha e estendia roupa ao fundo. Mas, agora que mora ali mesmo ao lado, salta à vista que não faz questão de me incluir. Já tentei abrir conversa, convidá-la para um café, mas ela olha para mim como se fosse a última fatia de bolo de amêndoa numa festa um perigo para ela.
A Benedita acha que, não fosse eu a aparecer na vida do pai, ainda viveria tranquilamente com ele na velha casa cheia de móveis de castanho escuro e cortinados pesadíssimos. Até propus que viesse morar connosco, porque espaço não nos falta temos até aquele quarto vazio onde só entram as visitas fugazes e uns sacos da Pingo Doce. Mas, surpresa das surpresas, ela disse que o Joaquim não queria, porque tínhamos acabado de casar. Lá fui eu tirar prova dos nove e confirmei: o meu marido teme que ela assista em direto a possíveis dramas conjugais dignos de O Preço Certo.
Eu não me oponho nada ao Joaquim apoiar a filha; acho até bonito que o faça, porque, verdade seja dita, só os pais mesmo para aturar certas fases. O que me deixa de boca aberta são as acusações da Benedita, sempre a sugerir que sou eu a fonte de todas as tormentas dela. Ela parece viver convencida que, sem mim, o fluxo financeiro do pai, esses euros tão caros, iriam diretamente para ela e para a pequena Matilde. Mas a realidade é outra; o Joaquim dá o que pode, mas o orçamento sobra pouco depois da renda, do gás e das bifanas ao domingo.
O meu objetivo era construir uma relação pacífica com a minha enteada, mas, com ela a ver-me como a reincarnação da madrasta dos contos de fadas, fica complicado. Espero, sinceramente, que com o tempo, uns pastéis de nata e muita conversa, consigamos encontrar pontos em comum e criar uma família à portuguesa, cheia de carinho, piadas secas e algum barulho à mesa.







