A Ex-Mulher… Esta história aconteceu há dois anos. O prazo da minha deslocação profissional esta…

A ex-mulher…

Isto aconteceu há dois anos. O fim da minha transferência já estava à vista, e eu preparava-me para regressar a casa, em Beja. Comprei o bilhete de autocarro e, ainda com três horas de folga, decidi dar uma voltinha pelo centro de Lisboa para matar o tempo.

Eis senão quando, na rua, uma mulher me abordou. Foi imediata a identificação era a minha primeira mulher, aquela com quem me tinha divorciado há doze anos. Lurdes estava praticamente igual, só com o rosto ainda mais pálido do que me lembrava. Pelos vistos, o reencontro mexeu tanto com ela quanto comigo.

Amava-a de uma forma intensa, quase doentia foi precisamente por isso que nos separamos. Era tão ciumento que ela não podia nem sequer ir tomar um café com a mãe sem eu desconfiar. Bastava Lurdes demorar dez minutos a mais no supermercado, e eu já estava convencido de que me iria dar um piripaque de ansiedade.

No fim, Lurdes fartou-se dos meus interrogatórios diários: onde foste, com quem, porquê. Um dia, cheguei a casa todo contente, escondendo atrás das costas um cachorrinho, daqueles rafeiros que encontramos em feiras lá da vila queria surpreendê-la. Mas o apartamento estava vazio, e em cima da mesa havia só um papel

Na nota, Lurdes dizia que ia embora, apesar de ainda gostar de mim. Que as minhas suspeitas tinham acabado com ela e que a única saída seria afastar-se. Pedia desculpas, pedia que eu não a procurasse… e assim terminou a história.

Doze anos depois, eis-me a cruzar com ela por acaso enquanto tratava de papeladas num ministério qualquer da capital. Conversámos um bocado até eu dar conta de que me estava mesmo a arriscar a perder o autocarro para Beja. Lá saí-me com um Olha, desculpa, mas está quase na hora do meu autocarro tenho de ir mesmo.

E então Lurdes, com aquele olhar melancólico disse: Ó Tozé, faz-me um favorzinho, vá. Sei que tens pressa, mas em nome dos velhos tempos não me negues isto, sim? Acompanha-me só a um escritório, é mesmo importante para mim, e a sério que não consigo ir sozinha.

Pois claro que acedi, mas logo deixei bem claro: “Mas tens de ser rápida, está bem?” Seguimos para um prédio daqueles grandes e sombrios, e andámos de um lado para o outro, subimos e descemos escadas, passámos divisões e mais divisões parecia até que estávamos num daqueles labirintos da Faculdade de Letras. Ao todo, achei que não teriam passado mais de 15 minutos nisto.

Pelo corredor cruzavam-se conosco pessoas de todas as idades: miúdos, velhos, gente nova, gente encostada à vida nessa altura nem estranhei o mix de gerações ali perante as nossas barbas, porque toda a minha atenção estava em Lurdes.

A certa altura, ela parou diante de uma porta, entrou e fechou-a atrás de si. Antes disso, lançou-me um olhar estranho, meio de despedida, dizendo: “É curioso, não conseguia viver contigo… mas sem ti também não dava.”

Fiquei ali especado à porta, à espera. Queria perguntar-lhe o que é que queria dizer com aquela frase. Mas ela nunca mais voltou. Comecei a acordar para a realidade. E caramba, estava mesmo a perder o autocarro! Olhei à volta, e reparei, de repente, que o edifício estava completamente abandonado, com janelas partidas e lacunas em sítios onde antes estavam corrimões.

Lá consegui descer para a rua, equilibrando-me em tábuas podres, e cheguei à paragem já com o autocarro para Beja ido há mais de uma hora. Tive de comprar outro bilhete, que me custou mais uns bons euros, resmungando baixinho sobre a minha sina.

Quando por fim, comprei o bilhete, o funcionário murmurou que o autocarro anterior, aquele que eu deveria ter apanhado, tinha derrapado à saída de Montemor e caído ao rio Guadiana. Ninguém sobreviveu.

Duas semanas depois, fui procurar a mãe da Lurdes, que descobri através dos registos da junta de freguesia. Dona Cremilde recebeu-me com uma expressão cansada, e lançou-me de imediato a bomba: Lurdes tinha falecido onze anos antes, um ano depois do nosso divórcio. Inicialmente, não acreditei. Achei que Dona Cremilde estava só a tentar proteger a filha daquele ex-marido ciumento e inconveniente.

Mas ao pedir para me mostrar a campa da Lurdes, a Dona Cremilde, para meu espanto, acedeu com um encolher de ombros. E ali estava eu, passados dois dias, parado diante de uma pedra fria, onde via um retrato sorridente daquela mulher que amei sempre a mesma que, inexplicavelmente, me salvou a vida naquele dia triste e absurdo de Lisboa.

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