Hoje, reflecti sobre tudo o que tem acontecido nos últimos anos. Estou casada há uma década, e eu e o meu marido, João Ferreira, vivemos num apartamento em Lisboa, ainda a pagar o empréstimo. O nosso objetivo é terminar o crédito primeiro, antes de pensar em filhos. Às vezes sinto que adiar, é quase uma tradição portuguesa: queremos estabilidade antes de dar passos maiores.
O meu irmão, Pedro Ferreira, também é casado. Ele e a esposa, Beatriz, moram num pequeno T1 em Almada, sempre apertados. Pedro tem dois empregos e, como se não bastasse, ainda faz horários reduzidos numa loja ao fim de semana. Beatriz não trabalha; dedica-se exclusivamente a ser mãe. Já têm três filhos, ela está novamente grávida e não faz segredo de querer o quinto.
Para além dos filhos, somam dívidas de cartões de crédito e pagamentos de eletrodomésticos comprados a prestações. Eu e João tentamos ajudar, seja com algum dinheiro, seja com sacos de compras. Só que Beatriz, por vezes, tem o descaramento de exigir coisas em vez de pedir.
Há momentos em que é preciso recordar-lhe a realidade, e recuso firmemente. Claro que tanto ela como Pedro se magoam, mas passado pouco tempo voltam sempre com novos pedidos. Vocês, porque não têm filhos, deviam ceder-nos o vosso apartamento, disse Beatriz numa dessas conversas. Fiquei boquiaberta: E nós vamos para onde? Para o vosso T1?
É simples, respondeu ela, convicta, Vocês alugam o vosso apartamento, põem os inquilinos cá, pagam o empréstimo e nós ficamos aqui. Vocês arrendam o vosso e vão viver de renda.
Queres dizer que ficamos nós a pagar o vosso empréstimo e a vossa renda? Perguntei meio atordoada. Obviamente. Quando vão sair? Insistiu.
A sua audácia era tal, que lhe disse: O teu lugar não é numa casa portuguesa, mas sim num hospital psiquiátrico. Sai já do meu apartamento.
Depois vou ao hospital e acabo com esta gravidez, e a culpa será tua, ameaçou Beatriz, e saiu porta fora. Não esperava que cumprisse, mas naquele dia, clandestinamente, na terceira mês de gestação, fez o que prometeu. O médico conseguiu salvar-lhe a vida, mas era meio da noite quando Pedro apareceu no hospital, acusando-me furiosamente.
João, sem hesitar, agarrou Pedro, passou-lhe água fria pela cabeça para tentar acalmá-lo e empurrou-o para fora de casa. Desde aquele dia, o silêncio tomou conta da nossa relação. Perdi um irmão e ainda hoje me pergunto se era inevitável.







