A criança nasceu exatamente à meia-noite, no instante em que o relógio digital da sala de parto piscou com uma luz verde e marcou a mudança das 23h59 para as 00h00.

O bebé nasceu exatamente à meia-noite. No mesmo instante em que o relógio digital da sala de partos piscou a verde e mudou das 23:59 para as 00:00. O médico e a enfermeira obstetra trocaram olhares, e o neonatologista de urgência apressou-se a pegar no corpinho imóvel, arroxeado. Colocou-o na mesa de mudar fraldas e agarrou logo no aspirador de secreções. O bebé não respirava. A parturiente, virando levemente a cabeça, observava com indiferença as manobras do médico.

Será que está morto? Não chora… pensamentos rodopiavam na minha cabeça, ainda atordoada pela dor esmagadora do parto. Por fim, o recém-nascido soltou um som fraquinho, quase impercetível, que foi ganhando força até se transformar num choro forte, que ecoou pelos corredores silenciosos da maternidade naquela hora morta. O médico, a enfermeira e o neonatologista observavam o bebé em silêncio, atentos.

Era um bebé diferente, aquele menino… A coluna vertebral, ao chegar à altura das omoplatas, dobrava-se de forma tão estranha que formava dois altos quase simétricos, estendendo-se até ao meio do peito.

Como é possível isto? repetia o neonatologista, incrédulo. Nunca vi nada assim… Não é possível… simplesmente não pode ser…

Quando o médico veio falar comigo, de manhã, para explicar a condição do meu filho recém-nascido, contorci os lábios com desprezo Então, além de tudo, ainda é deficiente…? Ena, valha-me Deus…

Não, não… Façam dele o que quiserem, que um filho assim eu não quero… Nem um saudável eu queria aceitar, quanto mais… Tragam-me os papéis, vou renunciar… E assim, à hora devida, saí da maternidade leve, indiferente, sem qualquer peso. O meu filho ali ficou, sem saber que a própria mãe o tinha rejeitado de forma tão fria…

Na Casa das Crianças, deram-lhe o nome de Lourenço. Sim, era mesmo assim, nada mais adequado. As auxiliares vestiam-lhe camisas largas demais, para que o defeito não chamasse tanto a atenção.

Mas mesmo que o Lourenço fosse de corpo perfeitamente normal, ele destacava-se dos outros meninos e meninas que gritavam, choravam, se empurravam e discutiam sem parar. Havia uma seriedade nada infantil nos olhos azuis dele, rodeados por pestanas longas e pretas.

Muitas vezes, olhava através do vidro da janela, escutando algo dentro de si, esforçando-se por captar e entender aquilo que ainda não conseguia perceber.

O momento chegou num daqueles dias em que uma fila de crianças de dois anos, desajeitadas e trôpegas, caminhava para qualquer atividade. Lourenço ouviu aquilo. Pela porta mal fechada do gabinete da diretora fugia uma melodia. Não era daquelas canções infantis que ouviam nas aulas de música, com que os punham a marchar “como soldados” de braços e pernas atrapalhados… Era mais parecida com… vento. Um vento quente e suave que o elevava do chão, embalando-o ternamente…

Não tinha palavras, mas trazia uma alma viva, que envolvia e falava só com ele. Palavras que ninguém mais precisava saber, só ele, Lourenço…

Parou a meio do corredor, interrompendo o alinhamento impecável dos outros, e começou a balançar ao ritmo da música, ignorando os tropeções dos colegas e os pedidos das auxiliares para que avançasse.

De repente, tudo fez sentido. Aquilo que tentara tanto ouvir no barulho da casa de banho, nos gritos dos outros ou no sopro do vento era ela, a sua Música…

Beatriz e Rui visitaram todos os Lares de Crianças na região. A condição congénita não permitia a Beatriz ser mãe biológica. Decidiram então adotar. Mas havia uma dúvida… O que faz um filho nosso? Entre tantos meninos e meninas privados de família, não encontravam aquele sentimento de pertença…

De mãos dadas, aproximaram-se do gradeamento do lar. No recreio, as crianças brincavam na areia, as meninas empurravam bonecas nos carrinhos, tudo com o habitual burburinho de pequenos felizes. Apenas um menino de casaco comprido demais estava parado a escutar atento um pardal chilreando no galho.

E nesse instante, o telefone de Beatriz começou a tocar…

Mozart… Beatriz adorava música clássica. E o menino… estremeceu, os olhos dele brilharam como se acendessem por dentro e começou a balançar, em sintonia perfeita com o ritmo, ignorando tudo à volta. Beatriz e Rui ficaram imóveis, esquecidos até do telefone a tocar…

Viram-No. O filho deles. Uma alma reconhecida, um laço impossível de descrever…

Sim, eu sei que ele é uma criança doente, uma criança especial… Sim, assumo toda a responsabilidade… Reabilitação? Claro…

Durante uma hora, Beatriz respondeu calmamente às questões da diretora, que tentava convencer-lhe a escolher outra, uma criança saudável. Os filhos não se escolhem… dizia-lhe, e vou levá-lo, custe o que custar…

Mamã? Lourenço afastou-se do piano e recostou a cabeça na mão de Beatriz. Por que sou assim? Por que não sou como os outros?

Beatriz afagou-lhe as costas desenhadas de altos Vês, meu filho, somos todos diferentes… por dentro e por fora. Tu, eu, o pai…

E as tuas costas? Já te disse, ali tens asas, como um anjo, só ainda não se abriram… mas vão abrir, vais ver…

Acolheu-o num abraço e beijou-lhe a cabeça quente, depois sentaram-se juntos ao piano, tocando a quatro mãos. E Lourenço tocava de uma forma tão intensa que nem sempre um pianista adulto o conseguiria.

E atrás dele, abertas de verdade para quem quisesse ver, estavam mesmo lá as asas só as viam a Mãe, o Pai e o Anjo da Guarda de Lourenço, que sorria atrás dele enquanto a música jorrava, larga, bela, embalando-o nas suas ondas de felicidade…

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

A criança nasceu exatamente à meia-noite, no instante em que o relógio digital da sala de parto piscou com uma luz verde e marcou a mudança das 23h59 para as 00h00.