A amante do marido era deslumbrante. Se fosse homem, teria escolhido exatamente aquela mulher. Sabe,…

A amante do marido era um espetáculo, sabes? Se eu fosse homem, provavelmente até a tinha escolhido. Há mulheres assim, com aquela postura de quem sabe o valor que tem. Caminham com dignidade, olham-nos de frente, têm uma calma de quem nunca se perde. Não precisam de decotes nem de costas descobertas para chamar a atenção, é tudo naquela presença tranquila e elegante, como se nada do que acontecesse à volta as abalasse.

Eu sinceramente, se fosse ele, também tinha caído. Porque é o completo oposto de mim. Eu sou sempre a correr de um lado para o outro, sempre a ralhar com os miúdos e com o Rui, tudo me cai das mãos, nunca consigo fazer nada a tempo, o trabalho é uma confusão, o chefe anda aborrecido comigo. E eu, sempre de calças e camisolas nem me lembro da última vez que passei um vestido a ferro. Só me safo porque comprei aquela máquina de secar topo de gama, que já me desembaraça quase tudo e o ferro mal o vejo.

Já a amante que mulher! Corpo, postura, aquele cabelo, os olhos, a pele olha, até me custava respirar! E desde esse dia em que vi os dois juntos, parece que fiquei sem ar.

Foi completamente ao acaso. Tinha ido tratar de uns papéis a um bairro afastado de Lisboa, acabada a papelada, morria de fome aquilo de fome não é conselheira, sabes como é. Entro no primeiro café à mão, que estava cheio, mas ainda arranjei um cantinho. Sento-me, pego no menu, levanto os olhos e nem queria acreditar. Reconheci logo o Rui, pelas costas, claro. E ela, ali à frente dele.

Ele segurava as mãos dela, a beijar-lhe os dedos. Tão meloso que até me arrepiou: parece aquelas cenas de novela, os teus dedos cheiram a incenso. Mas ela era mesmo bonita. Não tem como negar.

Senti uma coisa estranha, sabes? Como quando te queimas e a pele ainda não dói, mas sabes que em breves instantes vai arder – e então tentas soprar, como se pudesses evitar a dor que aí vem. Mas a verdade é que não doeu. Senti só vazio.

O Rui voltou a casa à hora do costume. Como sempre, um poço de calma, descontraído, de bom humor. Era sempre eu a viver num reboliço, a acelerar todos. Ele, pelo contrário, um sanguíneo de primeira, tranquilo, com graça para tudo.

Bem que agora me dava jeito o sentido de humor dele, mas não estava para aí virada. Passei o serão com vontade de lhe perguntar com todo o descaramento do mundo: Então e a tua amante? Vi-vos ontem no Café Beatriz, que bela escolha, pá! Percebo-te, também não sei se resistia. Depois só para ver o suor a aparecer-lhe na testa, a cara a ficar vermelha, ele a tentar manter-se normal.

Ia continuar: E agora, Rui? Vais-me apresentar à malta ou já apresentaste à criançada a nova mãe? Só espero que ela venha com casa própria ou vai mudar-se para aqui?

Não disse nada. Ele, como sempre, enroscou-se a mim na cama, adormeceu num instante.

E eu ali a pensar, será que eles já são amantes- mesmo? Pode ser que ainda seja aquela fase das conversas, da química, dos olhares. Mas é bom, o meu Rui se anda enrolado sabe esconder o jogo, que é um mimo.

Passei a noite às voltas, a dormir aos bocados. Sonhei com flores muito vivas e mulheres de vestidos vermelhos. Quando acordei, cabeça pesada, ainda mais lenta que o costume, mas lá despachei os miúdos para a escola.

E perguntava-me: o que raio é suposto fazer? O que é que normalmente as mulheres fazem quando apanham o marido com outra? Pesquisei no Google, acredita. Mas o Google não serve para tudo. Nem respostas me deu.

O mais estranho é que, apesar de tudo, o dia seguiu igual. O Rui apareceu em casa como todos os dias, sem batom na camisa, nem cheiros esquisitos, os miúdos aos saltos pela casa, à noite vamos ao cinema. Até o sexo igualzinho duas vezes por semana, três se o calendário alinhar.

Será que me enganei no café? Era muito parecido, realmente Mas não, não me enganei. No outro dia liguei-lhe à hora de almoço, não atendeu. Chamei um Bolt, inventei à motorista que estava à espera de um envelope para trabalho essas desculpas que engendras para não pareceres maluca. O carro dele lá estava estacionado. Esperei, vi-os sair juntos, entrarem no carro dele e seguirem juntos.

Fiquei branca. Pedi água à senhora no carro, fiz de conta que liguei para alguém, disse alto, olhem, fiquem lá vocês com o envelope! Já não posso esperar mais, vou trabalhar! Como se interessasse à motorista, mas pronto.

Sabe lá Deus, mas uma coisa assim muda tudo. Divorciar-me? Se calhar. Mas também viver a suportar? Para quê? Para manter aparências?

Lembrei-me de uns amigos nossos, há uns anos, que passaram por isto. Ele também teve uma amante, e escondeu, mentiu até ao fim, mesmo quando ela apanhou tudo na conversa do WhatsApp. Dizia que tinha sido hackeado, que eram invejosos a armar confusão.

Na altura, o Rui até comentou com ar sério: Eu nunca mentia é feio, cobarde. Assumo tudo, se algum dia fizer asneira. Ou largo tudo por ela, ou corto relação, mas não faço figuras.

Fiquei toda orgulhosa do meu homem nessa altura. Mas é muito fácil falar quando é dos outros, sem sujar as mãos.

Agora, cá está ele no centro da história. E todas aquelas certezas fogem à primeira dificuldade.

Pois olha, fui ao tal café e sentei-me mesmo à frente deles, sem cerimónias. A outra olhou para mim com aquele espanto, o Rui ficou num oito, calado, nervoso. Nem precisavam falar ela percebeu logo quem eu era, talvez já soubesse.

Ele ainda quis dizer qualquer coisa, cortei-o logo com a mão: Isto não é nada do que parece, pois não? E até disse: Isto acontece, não é nenhum drama. Agora pensem bem, temos filhos, casa em comum, pais já de idade. Façam bem as contas à vida, que vocês têm cabeça para isto.

Levantei-me, saí do café com calma, com o vestido a assentar-me bem. Quem diria, afinal ainda me ficava bem aquilo e estava ali guardado há tanto tempo.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

A amante do marido era deslumbrante. Se fosse homem, teria escolhido exatamente aquela mulher. Sabe,…