“Uma Surpresa do Ex”

«Surpresa» do Ex

Miguel, espera! gritava Mafalda pela janela aberta, a voz embargada pela urgência.

Mas o rapaz já não a escutava.

Já se sentara no seu carro e ligara o motor. Mafalda, num sobressalto, agarrou o telemóvel e correu para a porta.

Enquanto descia as escadas do quarto andar, umas atrás das outras, ia tentando ligar-lhe, mas Miguel não atendia.

O pensamento martelava-lhe na cabeça: Que eu ainda chegue a tempo, por favor

Parecia que o céu escutara o seu pedido, porque quando Mafalda, numa correria desenfreada, irrompeu pela rua, Miguel ainda aquecia o motor.

Viu-a sem casaco e ficou espantado. Baixou o vidro: O que se passa? Pareces um fantasma!

Tens tu tens aí

Mafalda mal conseguia respirar e só gesticulava. Então ajoelhou-se no asfalto frio e rastejou debaixo do carro.

Não lhe importava a humidade, nem o lixo a sujar-lhe os jeans. Só importava encontrar o que procurava.

Emergiu finalmente, nas mãos um gato escanzelado, maltratado pela vida. Olhou para Miguel, que acorrera ao lado, sem perceber nada.

Mafalda, perdeste o juízo? O que é que estás a fazer? Estou atrasado, sabes?

Um gato estava debaixo do carro vi-o de relance da janela. Tive medo que arrancasses e

Um gato? Miguel soltou um riso seco. Fizeste toda esta fita por um gato? Haja paciência

Achas que os gatos não querem viver? repliquei, pasmada.

Muito sinceramente se ele quisesse mesmo viver, não estava aí escondido. E mesmo que estivesse, fugia assim que ouvisse o motor. Sinceramente, só perdeste o teu tempo.

Não fugia, Miguel Olha para ele! Mal tem forças para miar, quanto mais fugir.

Pronto, já salvaste o gato, podem fazer um post fofinho nas redes sociais e pegar num rebuçado da taça. Eu tenho mesmo de ir trabalhar. Até logo.

Mafalda ficou a olhar para o carro que se afastava, segurando o gato, sentindo no peito uma dor que ainda não sabia nomear.

Olhou para o animal, tão fraco que mal abria os olhos, mas o olhar dele era de uma gratidão silenciosa.

Subiu de novo a casa, vestiu-se rapidamente, pegou numa nota de vinte euros e chamou um táxi.

Para onde, menina? perguntou o taxista, sorrindo quando ela se sentou no banco de trás.

Liga-me à clínica veterinária, por favor. Quanto mais depressa, melhor.

Está mal o bichano?

Está. Precisa de ajuda.

Sei uma clínica boa, com médicos que têm mãos de ouro. Vou levá-la lá!

Quinze minutos depois, Mafalda aguardava aflita na sala de espera, rodeada de outros donos de animais ansiosos.

O seu também está doente? quis saber uma senhora idosa, com um caniche ao colo.

Não sei encontrei-o agora, debaixo do carro. Deve ter passado a noite ao frio.

Ao frio? Credo Olhe, passe à frente. Nós só vimos para o check-up habitual.

Não se importa mesmo?

Filha, entre nós, é um favor.

Finalmente, Mafalda estava no consultório. O veterinário examinava o gato, ela não conseguia parar quieta na cadeira.

Depois dos exames, vieram os resultados: tratamento prolongado, caro, exigente.

A menina quer mesmo ficar responsável por este animal? disse o veterinário, sério. Se não quiser, é melhor tentar encontrar-lhe uma família que possa cuidar dele

Mafalda engoliu em seco. Não estava preparada para tanta responsabilidade. Mas olhou o gato.

Ele não pedia nada, não implorava, só a olhava, resignado. Se me largares, eu vou entender, parecia dizer.

Eu fico com ele. Vou tratar dele o tempo que for preciso, nem que seja toda a vida.

Muito bem o veterinário sorriu. Temos de o internar por umas semanas. Depois, ensino-a a cuidar dele em casa.

Obrigada murmurou Mafalda, as lágrimas à flor da pele.

Não, obrigada a si devolveu o médico, sério. Raramente vemos gente como a senhora.

Mafalda despediu-se do gato, prometendo regressar. E o gato, reunindo forças, ainda miou baixinho.

Chegou a casa já ao anoitecer, exausta. Queria apenas dormir, mas foi recebida por Miguel, o rosto carregado de zanga.

Onde é que andaste? Liguei-te mil vezes! Que história é essa?

Desculpa. Tive um dia difícil murmurou ela, pendurando o casaco e arrumando os sapatos dele, largados no corredor, como sempre.

Difícil porquê? Hoje é teu dia de folga!

Estive com o gato na clínica. Passei lá o dia inteiro.

Que gato, Mafalda? Não estou a perceber.

O mesmo que te salvei do carro, esta manhã.

Então perdeste o dia todo com um gato de rua? Tu não estás bem.

O que interessa se é de rua? Precisava de ajuda. Sozinho teria morrido!

E eu aqui sem jantar! Chego a casa, nem tu, nem refeição.

Miguel, não és um menino. Há rissóis no congelador, podias facilmente fazer.

Rissóis? Eu por acaso sou algum pobre, para comer rissóis? E ao contrário de ti, estive o dia inteiro a trabalhar. Ainda hei de cozinhar?

E mesmo cansada, Mafalda foi à cozinha e preparou-lhe o jantar, como ele gostava.

Não merecia, mas era mais fácil ceder do que discutir naquela noite.

Duas semanas depois, buscou o gato agora já batizado de Simão à clínica.

Comprou-lhe tudo antecipadamente, mas não mostrou nada a Miguel, para evitar mais discussões. Ia dizendo para si mesma: A casa é minha. Miguel nem é meu marido, quem manda cá sou eu.

No entanto, Miguel armou logo um circo ao ver o gato.

Trouxeste o bicho para casa?! Mafalda, és doida? Bateste com a cabeça?

Salvei-o. Agora é minha responsabilidade.

E quanto gastaste já com isso? E ainda vais gastar?

O dinheiro é meu! E tu, nem comida costumas comprar, mas sabes bem comer!

Tenho a carro, gasto imenso, e o trabalho anda mau. Não troques de assunto! O problema é esse bicho.

Chama-se Simão.

Deram-lhe nome já? És mesmo maluca, deves consultar um psiquiatra!

Nessa noite, Mafalda dormiu sozinha, na outra divisão.

Pensou até tarde na relação deles. Em menos de um ano de vida conjunta, Miguel tornara-se exigente, agressivo. Foi o primeiro aviso. Ainda assim, deu-lhe mais uma oportunidade.

Mas ele não aproveitou. Os dias passaram com discussões em redor do gato, até que Mafalda explodiu:

Acabou, Miguel. Eu não te amo, e tu também não me amas. Vamos parar com isto?

O que é que estás a insinuar?

Amanhã, faz as malas e sai da minha casa. Chega de discussões. Quero paz.

Então adotas um gato sem me consultar, a culpa é minha por protestar?

Se não aceitas o gato, não temos mais nada para discutir. Vai viver com quem não goste de animais, ou compra tu casa e impõe as tuas regras.

Coincidiu: no dia seguinte, Mafalda tinha folga, não poderia haver momento melhor para terminar.

Miguel, relutante, foi empacotando as coisas. Ela bebia chá na cozinha quando a chefe lhe telefonou, aflita:

Mafaldinha, querida, eu sei que era teu dia de folga, mas precisamos de ti urgentemente

Ó Drª Teresa, não me dá mesmo jeito espreitou Miguel, aborrecido, a guardar os computadores mas se é só por uma hora

Despediu-se, pediu a Miguel para deixar as chaves no correio. Ele acenou, com um olhar rancoroso que lhe gelou o sangue.

No emprego resolveu tudo bem. Logo chamou um táxi para voltar.

Como está o seu gato? perguntou-lhe o taxista, sorrindo. Ela reconheceu-o, era o mesmo que transportara à clínica semanas antes.

Está melhor. Por favor, leve-me depressa para casa.

Ao chegar ao prédio, espreitou o correio: as chaves não estavam, nem a viatura de Miguel. Está a demorar-se, ou deixou o carro noutro lado.

Quando abriu a porta, percebeu o desastre: não havia malas, nem computador, nem ferramentas. Mas, pior, Simão tinha desaparecido e também a transportadora.

Chamou-o aos gritos, revistou casa inteira. Só então percebeu: Miguel levara-o. Mas para quê?

Miguel! Porquê levaste o Simão? gritou ao telefone.

Surpresa, querida! Quando rastejares de joelhos, talvez devolva o teu gato.

Ele precisa de dieta especial! Estás a pôr-lhe a vida em risco!

Mas ele desligou, sem ouvir mais nada.

E agora, para onde tinha ido Miguel?

Miguel era de fora, nunca lhe falara da terra natal, apenas prometera levá-la lá promessa nunca cumprida.

Mafalda passou a noite em claro e, logo de manhã, foi ao local de trabalho dele. Não estava lá.

Pediu uns dias de folga explicou o chefe. Se precisar de dar um recado, diga-me.

Mais tentativas de telefonema, sempre sem sucesso.

Quando saiu pelo portão, ouviu:

Quer boleia?

Era o taxista que tanto conhecia. Ela acenou, tristíssima:

Leve-me a casa, por favor.

No caminho, recebeu chamada de número desconhecido:

Mafalda?

Sim, quem fala?

Olá, não estranhe, o Miguel apareceu cá ontem, pediu para ficar uns dias, trabalha com o meu marido Mas ele trouxe consigo um gato.

Simão?! arfou.

Sim, tentei alimentá-lo, mas não come. O Miguel está a beber, diz que assim a reconquista Mas o bichinho está mesmo mal. Preferia que viesse buscá-lo.

Dê-me já a morada, vou a correr.

Explicou tudo ao taxista, que acelerou como nunca.

Subiu ao terceiro andar a voar, agradeceu à desconhecida e recuperou Simão, que miava baixo, a suplicar-lhe colo. De volta ao táxi, respirou de alívio.

Toda a viagem chorou, emocionada com tanta generosidade: a senhora idosa na clínica, o taxista, a rapariga que salvara Simão. Enquanto existirem estas pessoas, há esperança para o mundo.

Quer que fique consigo, caso alguém apareça? propôs o taxista, de olhar protetor.

Quero! respondeu, sem hesitar.

Nessa tarde, mudou as fechaduras; o taxista, a quem ficou a dever muito, ficou a cuidar de Simão, que ronronava a seus pés.

No fim, tudo terminara em bem.

Com o tempo, de tanto gratidão e cumplicidade, a amizade entre Mafalda e o taxista o bom do Victor transformou-se em amor.

Miguel? Foi expulso da casa do colega no mesmo dia, por ter faltado ao respeito à mulher dele, ainda levou um olho negro de recordação. E quando apareceu no emprego, o chefe não teve pena: mandou-o escrever a carta de despedimento.

Sem saber para onde ir, Miguel voltou para a terra perdida onde ninguém, afinal, o esperava. Teve o que mereceu.

Na vida, não se pode agir como ele. Animais merecem respeito. E, no mínimo, humanidade.

Subscreva o canal não perca as próximas histórias.

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

“Uma Surpresa do Ex”