Vencedora Sem Amor

A Vencedora Sem Amor

Pronto, Sérgio, acabou disse Dona Filomena, pousando a chávena no pires com um tilintar leve, um som que ela achou cerimonioso. Agora já se pode viver.

Mãe, falas disso como se tivesses ganho um campeonato de sueca.

E não ganhei?

O filho olhava para a janela. Lá fora era março, húmido e cinzento como um pano de chão velho. Dona Filomena seguiu o olhar dele; não encontrou nada digno de nota.

Sérgio, conta lá, não ganhei?

Mãe, ela só foi embora. Com uma mala. Não há nada para celebrar.

Há sim: que se foi. Com uma mala apenas. Chegou com mãos vazias, saiu com mãos vazias. Assim é justo.

Ele virou-se finalmente. Dona Filomena esperava ver qualquer coisa nos olhos do filho: mágoa, zanga, talvez cansaço. Mas ali havia outra coisa, indecifrável. Ela preferiu não olhar de muito perto.

A Teresa investiu dinheiro nesta casa disse ele, em voz baixa. Era dinheiro dela.

A casa está em meu nome. Ofereci-ta, não a ela.

Eu sei em nome de quem está.

Então qual é o problema?

Ele levantou-se, pegou no casaco do cabide. Dona Filomena reparou que ele nem acabara a fatia de bolo que ela fizera de manhã, de propósito. A tarte de maçã estava meia por comer, intacta.

Eu vou sair disse ele.

Vais para onde?

Para onde quer que seja.

A porta fechou-se com cuidado, sem estrondo. Como se ele tivesse passado a vida a evitar fazer barulho, a não partir nada, a não se dar por ele. Dona Filomena olhou para a tarte, pegou no garfo e comeu o resto da fatia do filho. As maçãs tinham acidez, mas era uma acidez certa, caseira.

Sentou-se na cozinha do seu apartamento, onde já vivia há trinta e sete anos, e pensou: agora vai ficar tudo bem.

Dona Filomena estava a entrar nos sessenta e três. Era uma mulher pequena, arrumada, com cabelo grisalho que sempre prendia num carrapito discreto. A reforma era boa, para os padrões de Coimbra. Durante quarenta anos, trabalhara como contabilista sabia fazer contas. Por isso, há cinco anos, quando o filho trouxe Teresa a casa, Dona Filomena percebeu logo ao que vinha a nora: calculara.

Teresa viera de uma vila a três horas de comboio. Viera estudar, ficou para trabalhar, alugava um quarto num anexo de uma empresa de projectos. Discreta, simples, uma trança pelas costas e olhar de lado quando falava. Dona Filomena lia pessoas. Leu Teresa logo no primeiro jantar: a rapariga deitava olho ao apartamento.

O filho dizia o contrário. Ele dizia que era amor. Falava pouco, o filho, e Dona Filomena filtrava-lhe as palavras até encontrar a resposta certa aquela que coincidia com o que ela própria pensava.

Três anos viveram na casa que Dona Filomena já tinha posto em nome do filho aos vinte e oito. Um amigo jurista alertara-a: numa separação, bens oferecidos não entram na partilha, se não forem adquiridos no casamento. A Dona Filomena não pensara em divórcio. Pensava em precaução. Pensava sempre em precaução.

Teresa pôs cortinas novas: Falta de respeito pensou Dona Filomena. Trocou o serviço de jantar: O velho era melhor. Dava jantares duas vezes por semana, convidava a sogra, que vinha, comia, agradecia, ia-se embora sentindo uma estranheza difícil de nomear.

Um dia, Teresa fez obras na cozinha. Pagou do seu bolso coisa que fez questão de referir ao marido, mas não à sogra. Dona Filomena soube tarde, já tudo estava comprado, papel de parede posto, armários brancos. Não gosta, Dona Filomena? Teresa sabia perguntar de frente. A sogra odiava isso.

Está muito bonito, querida.

Disse bonito com um tom tão afiado que o elogio virou insulto. Ambas perceberam. Teresa ficou calada. Era mestra em calar-se quando Dona Filomena esperava discussão para poder indignar-se.

O divórcio chegou ao quarto ano. Razões foram muitas e nenhuma era absoluta. Todas verdadeiras e nenhuma suficiente. O filho afastou-se. Teresa perguntava, explicava, pedia. Ele assentia e escondia-se atrás da televisão. Dona Filomena, a quem o filho telefonava de dois em dois dias a queixar-se, sentiu que era hora: disse-lho sem rodeios.

Sérgio, não podem viver assim. Nem tu, nem ela.

Talvez se componha.

Ninguém compõe isto. Só pode piorar.

Veio o advogado. Vieram papéis e reuniões. Depois esta conversa na cozinha, tarte de maçã e março na janela. Teresa saiu com a mala cinzenta de rodinhas. Não olhou para trás.

Dona Filomena pensou: aí está uma derrotada. Sentiu-se leve, como depois de uma febre longa.

Sérgio António Alves, filho de Dona Filomena, tinha trinta e quatro anos. Engenheiro numa construtora, salário confortável, nunca falava de dinheiro em primeiro lugar. A mãe tinha dele um orgulho feito de amor, posse e mais uma coisa sem nome. Criara-o sozinha, o marido partira quando o filho tinha oito anos. Desde então eram só os dois, e isso parecia-lhe certo.

Aos dezenove, percebeu que o filho sabia estar só não no bom sentido, mas porque não sabia lutar por si, exigir, nem zangar-se em voz alta. Só sabia concordar ou afastar-se em silêncio. Dona Filomena chamou a isso boa educação, e sossegou.

Um mês de solteiro após o divórcio. Depois, telefonou:

Conheci a Mariana.

Onde?

No jantar da empresa.

E é que tipo de pessoa?

Uma ótima mulher. Vais conhecê-la?

Foram a um café. Sinal estranho: não em casa. Mariana era sete anos mais nova, vinte e sete, trabalhava em publicidade, vestia-se com personalidade e sabia exigir do empregado, do menu e, parecia, da vida.

Dona Filomena disse, estendendo a mão por cima da mesa com segura elegância , já ouvi muito sobre si.

Pelo Sérgio?

Pelo Sérgio.

Espero que coisas boas respondeu a sogra, com sorriso plastificado.

De tudo um pouco respondeu Mariana, e abriu o menu.

Dona Filomena sentiu um picar no peito, mas culpou a corrente de ar da porta.

Mariana era bonita. Não como Teresa, serenamente, mas de um modo descarado próprio de quem tem consciência disso. Cabelos escuros, olhos negros, batom sempre rente aos lábios. Sabia também calar-se, mas o silêncio dela era uma avaliação. O de Teresa era resignação.

Quatro meses e casaram. Dona Filomena soube ao telefone, numa quarta-feira, depois do telejornal.

Casámos. Hoje.

Hoje?

Sim. Mãe, não fiques chateada. Não queríamos confusão.

Não faz mal. Parabéns.

Desligou, sentou-se dez minutos em silêncio, depois regou as plantas, deitou-se. De manhã, tudo parecia normal.

Mariana mudou-se uma semana depois. Trouxe muitas coisas; apesar de pequena, enchia o corredor de caixas. Dona Filomena, quando foi visitar o filho no dia seguinte, encontrou novas cortinas as de Teresa tinham ido para o lixo.

Eram quase novas.

Não eram do meu gosto, Dona Filomena.

Não havia mais conversa a ter. Pela primeira vez, Dona Filomena calou-se de vez, sem reprimir o impulso de dizer alguma coisa.

Nos primeiros meses, visitou-os várias vezes. Mariana não a escorraçava, mas criava um ambiente gelado não saía da sala, não fazia chá, não fechava o portátil. Respostas de uma só palavra. A sogra sentia-se hóspede indesejada na casa que fora dela.

A presença dela tornava Sérgio ainda mais silencioso. Servia chá, oferecia bolachas, assentia aos relatos da mãe, e olhava a mulher com um receio que Dona Filomena reconhecia, mas não nomeava: medo.

Em outubro, Mariana trocou as fechaduras. Sérgio ligou:

Mãe, mudámos as fechaduras. Avise quando vieres, para eu abrir.

Para quê?

A Mariana diz que é mais seguro.

Seguro de quê?

Silêncio longo, mais eloquente que mil explicações.

É o que se faz, mãe.

Dona Filomena guardara aquela chave durante vinte anos primeiro como proprietária, depois como mãe com acesso garantido. Tirou-a do chaveiro, guardou-a no fundo de uma gaveta. E ali está até hoje.

O jantar de Natal era sempre na casa de Dona Filomena. Durante vinte anos foi assim. Fazia saladas, assava peixe, punha a árvore no canto tradição herdada da mãe. Mariana anunciou que naquele ano estariam em Lisboa, em casa dos pais dela.

E eu?

Mãe, não dá para tudo.

Passou o ano sozinha. Pôs a mesa para um, abriu espumante antes da meia-noite, viu o discurso na televisão, brindou, lavou a loiça, foi dormir cedo.

De manhã, telefonou ao filho. Depois de três tentativas, atendeu, com voz sonolenta e satisfeita.

Feliz Ano Novo, mãe!

Feliz Ano, Sérgio. Tudo bem aí?

Foi divertido. Mãe, ligo-te mais logo, a Mariana ainda dorme.

Claro, claro.

O claro dela soou a nunca. Mas ele desligara já.

Em fevereiro, Mariana apareceu de surpresa. Primeira vez. Bem vestida, de salto alto, ao almoço. Dona Filomena ficou desarmada.

Entra. Chá?

Aceito.

Sentaram-se na cozinha. Mariana olhava à volta sem disfarçar, como quem já planeava remodelar tudo. Dona Filomena cortou limão, pôs chávenas, mexeu no açucareiro.

Dona Filomena, vou ser direta.

Diz.

O Sérgio liga-lhe todos os dias.

É meu filho.

Entendo, mas é demais. Uma hora por dia. Afeta o nosso tempo, os nossos planos. Podia ser menos.

Dona Filomena deitou água nas chávenas. As mãos firmes, auto-vigiadas.

Sérgio é adulto. Decide a quem e quando liga.

Claro. Mas adultos vivem, antes de mais, com a sua família.

Eu também sou família dele.

É a mãe. Diferente.

Olharam-se sobre a mesa. O chá arrefecia. Se fosse Teresa, teria desviado o olhar. Mariana manteve-o.

Percebi disse Dona Filomena.

Ótimo. Obrigada terminou Mariana, acabando o chá como quem fala do tempo.

Depois de Mariana sair, Dona Filomena ficou muito tempo à janela. Lá fora, o degelo e poças de céu nublado. Pensou em Teresa ela nunca viera assim, nunca tinha sido tão direta, tão fria.

Dona Filomena atirou a ideia para o fundo da memória e pôs-lhe uma pedra em cima.

As chamadas de Sérgio tornaram-se menos frequentes. Primeiro de dois em dois dias, depois menos. Ela dava por isso, mas não dizia nada. Começou ela também a ligar menos sentia sempre que ele tinha pressa, respondia curto, desculpava-se com temos visitas ou vamos sair, e no fundo ouvia-se Mariana como uma apresentadora de telejornal.

Mariana era bem paga pela agência de publicidade, fazia viagens, comprava eletrónicos e roupa, acionava toda uma energia à qual Sérgio parecia ceder, ocupando cada vez menos espaço nos dias dela.

Na primavera, Dona Filomena entrou de surpresa. O filho abriu a porta com tal expressão que ela percebeu tudo antes que ele dissesse qualquer coisa:

Mãe, devias ligar antes de vir.

Vim só passar.

Passar?

Moro a dez minutos.

A Mariana está em casa, a trabalhar. Não dá para ser incomodada.

Vim ver-te, não a ela.

Sentou-se com ele na cozinha. Mariana não saiu do quarto. Meia hora depois, despediu-se. Na escada percebeu que nunca mais viria sem marcar antes. Não porque ele pediu. Porque não suportava ver-lhe aquela cara.

O verão deslizou manso. Dona Filomena ia à horta, plantava tomates e pepinos, levava os filhos da vizinha à praia. Netos não tinha. Mariana dizia ainda não, carreira, há tempo. Dona Filomena não discutia. Já não discutia com o irreversível.

Em setembro aconteceu aquele acaso que depois batizou como casual, sabendo bem que, em Coimbra, a vida pouco deixa ao acaso.

Vinha do supermercado pela Avenida Sá da Bandeira, sacos pesados, passos lentos, olhos no chão. Viu Teresa.

Estava à porta de um escritório, ao telemóvel. Usava um sobretudo azul-escuro que Dona Filomena nunca lhe vira. Cabelo curto nos ombros, sem trança. Ria com gosto não aquele riso contido e tímido de dantes. Um riso à vontade. Real.

Dona Filomena parou. Ficou ali, carregada, sem saber o que fazer. Deveria ter seguido. Em vez disso, ficou parada.

Teresa viu-a, terminou a chamada e veio ter com ela.

Dona Filomena.

Teresinha surpreendeu-se por usar o diminutivo. Nunca lhe chamara assim antes.

Está muito bem disse Teresa. Soou estranho, cordialidade para quem não está bem. Dona Filomena sabia, já usara esse truque.

Também estás bem devolveu, agora com sinceridade.

Teresa estava diferente do que ela recordava. Não melhor: diferente mais direita, olhar firme, sem evasões.

Trabalhas aqui? acenou ao escritório.

Sou responsável. Abri o meu estúdio há seis meses. Design de interiores.

Negócio teu?

Sim.

E o dinheiro? escapou-se-lhe, logo soube que não devia.

Teresa não se ofendeu. Ou disfarçou bem.

Trabalhei três anos em dois empregos. De dia na empresa, à noite fazia trabalhos por fora. Fui juntando. Comprei um T1 no ano passado. Pequeno, mas meu.

Os sacos pesaram-lhe mais nas mãos.

Comprei casa.

Sim, um T1 na Estrada Nacional. Chega-me.

Vives sozinha?

Viva. Gosto assim.

Silêncio. Os carros cruzavam a avenida, lonjuras de crianças a rir.

Teresinha quis dizer qualquer coisa, não sabia o quê. O encontro impunha dizer algo.

Tenho de ir, Dona Filomena, reunião daqui a dez minutos.

Sim, claro.

Tudo de bom.

Para ti também.

Teresa seguiu para o escritório. Antes de entrar, olhou brevemente. O rosto sereno, não zangado, sem rancor o de alguém que resolveu para si o que tinha a resolver.

Dona Filomena caminhou até casa, pousou os sacos na mesa. Arrumou compras, lavou as mãos. Fez sopa. Comeu. Lavou o prato. Sentou-se à janela.

Comprou casa. T1 na Estrada Nacional. Negócio próprio. Dois anos. Não foi de um dia para o outro.

Dona Filomena ficou ali, a pensar que ganhara. Ficou com o apartamento, ficou com o filho, Teresa saíra de mãos vazias.

Mas agora o filho telefonava uma vez por semana, às vezes só de dez em dez dias. O ano novo seria em Lisboa outra vez, os pais de Mariana já tinham decidido.

Teresa comprara um T1 na Estrada Nacional.

Levantou-se, foi até ao quarto, deitou-se no sofá sem dormir. Só ficou de olhos fechados. A noite caía, mas não ligou as luzes.

Em outubro, Mariana disse a Sérgio que queria mudar-se para Lisboa. Coimbra era pequena para ela, a empresa oferecia promoção, era um passo imperdível.

O filho ligou-lhe ao domingo, depois do almoço.

Mãe, temos de conversar.

Diz.

Eu e a Mariana, se calhar mudamo-nos.

Para onde?

Lisboa. Pelo emprego dela.

Silêncio longo, irritante para ela.

Quando?

Ainda não está decidido. Mas queria que soubesses antes.

Obrigada por avisares.

Mãe, não é para levares assim…

Assim como?

Frio.

Oh Sérgio, não é frio. Estou a ouvir só.

Mais silêncio.

Mãe, podíamos arrendar o apartamento enquanto estivermos fora. Sempre dava algum rendimento. Podes ir lá ver dos inquilinos, já moras perto.

Filomena entendeu o recado: vigiar a casa dela, já sem chave, habitada por estranhos.

Vou pensar.

Pronto. Não fiques triste. Lisboa é perto. Vamos visitar-te sempre.

Claro.

Claro, sempre a soar a nunca, mas ele não ouvia.

Em novembro, o frio veio cedo. Filomena vestia sobretudo desde o início do mês. Foi à praça buscar legumes e encontrou a amiga de longa data, Dona Matilde. Bebidas um chá num café da praça, uma hora à conversa.

Matilde falou dos netos, da horta, do marido e das férias prescritas pelo médico. Depois:

E tu, Filomena? E o Sérgio? A mulher nova adaptou-se?

Adaptou. Vão mudar-se para Lisboa.

Olha… E convidam-te?

Não.

Matilde abanou a cabeça uma silenciosa compaixão.

Ó Filomena, não te arrepestes?

De quê?

Da Teresa. Era tão sossegada.

Era, sim. Mas queria a casa, não era?

Crês nisso?

Filomena pousou o chá.

Vi-a semana passada.

E então?

Comprou casa. Abriu negócio. Está bem.

Matilde olhou-a muito tempo, sem julgamento nem pena. Filomena desviou os olhos.

Então não era a casa que queria murmurou Matilde.

Deixa isso, Matilde…

Só digo.

Não sabes. Não viste como ela olhava, como se comportava.

Talvez não saiba. Eu só vejo que hoje andas sozinha na praça em novembro. E o Sérgio para Lisboa.

Filomena voltou a casa a pé, ainda que já não fosse razão. Precisava de andar. As ruas davam esperança de destino.

Dezembro trouxe o primeiro nevão. Filomena tratou da árvore sozinha, tirou as caixas dos armários, pendurou enfeites, pôs a luz. A árvore brilhava bonita, como sempre.

Sérgio ligou a vinte e três: vinham no dia trinta e um de manhã, só de passagem, depois iriam para casa dos pais de Mariana.

Está bem disse ela.

Mãe

Estou feliz por virem. Vou fazer tarte.

Vieram pelas onze da manhã. Mariana, bem vestida, de casaco novo, pacote enorme: champanhe e bombons. Pôs em cima da mesa de forma prática. Sérgio abraçou a mãe. Tomaram chá. Mariana mexia no telemóvel, não desrespeitosamente, mas com pressa de tratar de assuntos.

Mariana, comes tarte?

Não como farinha.

E tu, Sérgio?

Claro, mãe.

Ele comeu uma fatia, depois outra. Dona Filomena viu-o comer e pensou que talvez fosse um dos últimos dias assim. Porque Lisboa, porque Mariana, porque a vida nunca segue o nosso guião.

Saíram perto da uma. Mariana, já à porta, olhou para ela um olhar profundo, indecifrável. Talvez tudo, talvez nada.

Dona Filomena, é boa dona de casa. A tarte está deliciosa.

Obrigada.

Mariana acenou e saiu. Sérgio beijou a mãe.

Até logo, mãe.

Até logo, filho.

A porta fechou. Dona Filomena arrumou a mesa, embrulhou a tarte, lavou a loiça, ligou a televisão não prestou atenção.

Passou o Ano Novo sozinha, de novo. À meia-noite abriu o espumante, ergueu o copo ao ecrã, brindou. Observou a árvore. Quietude, sem motivo.

Em janeiro, Sérgio anunciou que aceitavam a transferência. Casa ficava vazia. Viriam de quando em vez. Ela acenou ao telefone; ele não podia vê-la.

De fevereiro pouco se lembra. A rotina: supermercado, cozinha, televisão, de vez em quando Matilde. Uma vez um pequeno corte de cabelo, mas o carrapito ficou. Uma ajuda à vizinha na horta.

Em março, ainda o frio por derreter, Dona Filomena decidiu: telefonou à Teresa.

Sabia o número de cor contas de contabilista.

Sinal de chamada longa. Quase desistiu.

Sim?

Teresinha. É a Dona Filomena.

Pausa. Não hostil, só pausa.

Boa noite, Dona Filomena.

Boa noite. Gostava de encontrar-te.

Outra pausa. Filomena olhava para a rua de março, a neve derretia.

Para quê? direto, mas não brusco. Teresa sempre perguntara assim.

Queria conversar. Dizer algumas coisas. De frente.

Pausa ainda maior. Filomena pensou: vai recusar. Tem razão se recusar.

Está bem. Sábado posso. No café junto à Sá da Bandeira, conhece?

Encontrarei.

Ao meio-dia.

Ao meio-dia repetiu. Obrigada, Teresa.

É nada.

No sábado chegou cedo, quinze minutos antes, escolheu mesa junto à janela. Pediu chá. Via gente a passar, já sem casacos, primavera a enganar o tempo.

Teresa chegou às doze em ponto, sobretudo azul-escuro, cabelo curto, molhado do ar. Cumprimentou, sentou-se, pendurou o sobretudo nas costas da cadeira.

Olá.

Olá, Teresa. Obrigada por vires.

O que queria dizer?

Filomena pegou na chávena, pousou, voltou a pegar.

Queria dizer que fui injusta pronunciou. Noutros aspetos não, mas em muitos fui sim.

Teresa olhava reto.

Pensei mal de ti antes sequer de fazeres algo. Julguei-te. Foi injusto.

Teresa ficou em silêncio.

Acreditei que só querias a casa, que não amavas o Sérgio, que eras calculista.

E acredita ainda?

Não disse, devagar, como quem confessa. Não. Vi-te em setembro, na avenida. Estavas ao telefone, a rir. Percebi que só querias família, e um lar. Como todos.

Teresa desviou o olhar, pombos nas poças da rua.

Dona Filomena disse, baixinho , ainda bem que diz isso. Mas não sei o que fazer com isso.

Não peço nada em troca.

Então para quê?

Porque precisava dizê-lo. Para mim.

Teresa olhou-a. Nem dó, nem vitória. Algo terceiro. Filomena não sabia nome.

O Sérgio como está? perguntou Teresa.

Vai para Lisboa. A mulher trabalha lá agora.

Entendo.

É diferente de ti. Não melhor nem pior. Apenas diferente.

Pousou a chávena.

Não sei. É a verdade.

Teresa sorriu de canto de boca, sem troça.

Precisa de alguma coisa de mim? Ajuda, ou assim?

Nada disso. Queria só dizer.

Está certo disse Teresa. Então vou indo. Tenho reunião daqui a pouco.

Sim, vai.

Teresa levantou-se, pegou na carteira. Foi buscar dinheiro.

Deixe que pago insistiu Dona Filomena.

Não é preciso.

Faz-me esse favor, Teresa.

Teresa hesitou, guardou a carteira.

Está bem.

Vestiu o sobretudo, pegou na mala, parou junto à mesa.

Dona Filomena, já não me dói há muito. Quero que saiba.

Fico contente.

Não por si. Por mim. Não guardo rancor. Não porque teve razão. Mas porque assim é melhor, para mim.

Dona Filomena acenou, sem palavras. Era raro faltar-lhe discurso.

Tudo de bom despediu-se Teresa.

Igualmente, querida.

Teresa saiu. Dona Filomena viu-a pela janela passos certos, sobretudo azul. No canto, parou, mexeu no telemóvel, seguiu por trás do prédio, desapareceu.

Pagou, vestiu-se, saiu. Cheirava a março e a neve derretida aquele cheiro da infância, das manhãs de esperança. Março cheira a hipóteses. Sempre cheirou.

Caminhou pela Sá da Bandeira a pensar no dia em que Teresa saíra de mala cinzenta. Ficara à janela a vê-la. Achou-se vencedora.

Mas Teresa ia firme, calma, não olhava para trás. Naquele dia, Filomena pensou: dignidade do derrotado não muda nada.

Chegou a casa, subiu três andares. Abriu a porta com a chave a sua chave. A casa recebia-a no silêncio de sempre, sexta-feira após sexta-feira, todas as noites de Natal. O silêncio conhecido, uma solidão habitada.

Pendurou o sobretudo, foi à cozinha, pôs água ao lume.

Lá fora, março ia derretendo. O monte de neve à porta, que durara o inverno, esmaecia, revelando uma velha vassoura esquecida desde o outono. Olhando, sentiu-se sem pensamento, apenas presença.

A chaleira ferveu. Serviu chá, segurou a chávena com as duas mãos. O calor atravessava a loiça até à alma.

Eis a vitória: casa intacta, filho na capital. Neta trocou a fechadura, levou as rotinas na mala. A antiga Nora saiu sem nada, vive agora na sua própria casa, risonha negócio próprio, telefone na mão.

Filomena nunca se considerou ingénua. Quarenta anos de contas ensinaram-lhe a ver o resultado líquido.

Resultado hoje: está na cozinha, com chá, sozinha.

Não que não haja quem telefonar Matilde, a vizinha, o filho, todos longe mas presentes. Sozinha porque a casa, agora, é silêncio. Silêncio tornado normal; já não se lembra da última vez que alguém lhe entrou porta adentro só porque sim.

Teresa entrava sem razão. Trazia bolinhos da padaria do mercado, a que fechou há dois anos. Ninguém pedia: ela trazia só porque trazia. Punha sobre a mesa, dizia: Dona Filomena, estes são de couve, sei que gosta. Dona Filomena comia, pensava em cálculo e interesse.

Acabou o chá, lavou a chávena, esfregou as mãos com um pano de linho com galos cruzados, comprado na feira.

Pegou no telefone. Ligou ao filho não havia necessidade de dizer nada, era só para ouvir a voz.

Mãe? Está tudo bem?

Tudo bem, Sérgio. Como estão?

Cá vamos, ainda a empacotar. E tu?

Bem. Só liguei.

Bem, então. Ouve, mãe, estamos ocupados, posso ligar depois?

Sim, sim, tratem disso.

De certeza que estás bem?

Estou, sim, filho.

Pronto, beijinhos.

Beijinhos.

Desligou. Março lá fora, a vassoura no monte de neve, silêncio.

Sentou-se na sala, abriu um álbum antigo. Ao acaso fotos: Sérgio aos oito na quinta, com anzol na mão, rosto sério. Ela ao lado, ainda jovem, a rir. Ria-se de verdade, então. Já não sabia quando desaprendeu.

Virou a página. Sérgio homem, vinte e tal, ao lado de Teresa. Mãos dadas, olhares para um lado qualquer. Lembrava-se de tirar a foto, de ter pensado: está a segurá-lo, para não fugir.

Agora via dois adultos apenas, de mãos dadas. Sem intenção.

Fechou o álbum, pousou-o de novo.

Na sala, a luz já era pouca, não acendeu. Esteve ali, a ouvir o silêncio.

Já não me dói dissera Teresa. Não guardo rancor, não porque teve razão, mas porque assim é melhor, para mim.

Talvez fosse esta a diferença: Teresa fazia por si. Dona Filomena fizera tudo por Sérgio. Resultado: filho em Lisboa, ela na penumbra.

Não chorou. Não era dessas. A última vez que chorou foi quando o marido saiu. Chorou três dias, depois, pegou no filho e foi ao cinema. Nunca mais.

Levantou-se, acendeu a luz, foi à cozinha buscar a restante tarte. Comeu uma fatia.

Lá fora, noite escura, um candeeiro lançava luz laranja, dando à rua de março um ar quase confortável.

Dona Filomena comia e olhava janela fora. Pensou que ao sábado ia ligar à Matilde, talvez fossem juntas ao café, ou ao parque, se houvesse sol. Ou só conversar.

Pensou que, na primavera, ia à horta de novo. Pequena, seis canteiros, mas dava bons tomates, tão bons que os vizinhos pediam mudas.

Pensou em nada. Apenas comia, olhando o candeeiro.

O telemóvel ficou calado. O filho não devolveu a chamada. Esqueceu-se, entre caixas e mudanças, certamente. Olhou de soslaio, não o atendeu. Não se zangou. Apenas não o atendeu.

Do outro lado da parede, ouviu-se a gata da vizinha, um miado sibilante abruptamente calado. O radiador bateu. A vida normal.

Amanhã iria à praça, comprar algo para a primavera. Talvez mudas. Ou talvez ainda não era altura.

Lavou o prato, apagou as luzes da cozinha, foi para o quarto.

Antes de dormir, lia sempre um pouco. Um policial à cabeceira, metade já lido. Abriu na página, procurou o parágrafo. Dez minutos, três vezes releu a mesma página sem guardar nada.

Pousou o livro, apagou o candeeiro, ficou deitada na escuridão.

Viu Teresa caminhar no sobretudo azul, certa, devagar.

Há três anos ia com uma mala cinzenta, igual, certa e calma. Dona Filomena ficou à janela, pensando: dignidade de derrotada.

Agora, deitada, já pensava diferente. Talvez Teresa já soubesse alguma coisa que ela, Filomena, não sabia. Caminhava não pelo que perdera, mas pelo que buscava.

Filomena não sabia olhar para a frente; sempre olhava para trás: o que guardou, o que resguardou, o que conquistou. Balanço final.

Agora: casa, filho, vida continua.

Mas silêncio.

Vira-se para o lado. Fecha finalmente os olhos.

Lá fora, a noite de março adormece tudo. Amanhã o monte de neve derrete mais. Talvez em abril não reste nada. A primavera chega sempre, quer se queira ou não.

Pensou que talvez passasse pela Sá da Bandeira, perto do novo estúdio. Não de propósito. Se calhasse. Só ver como corria. Teresa não era de desistir.

Ela era trabalhadora, até ao fim. Não desistia.

Filomena nunca reparara nisto. Ou chamava de outro nome.

Ainda demorou a adormecer. Ouvindo a quietude da casa trinta e sete anos de silêncio só seu.

Do outro lado, a gata da vizinha tornou a miar, depois silêncio.

Filomena ficou imóvel, pensou, esqueceu, tornou a pensar. Nas mudas para plantar amanhã. Em ligar à Matilde. No filho a mudar-se para Lisboa. Três horas no Alfa Pendular não era assim tão longe.

Da próxima vez que visse Teresa, talvez dissesse outra coisa. Algo verdadeiro. Ou talvez não se cruzassem mais. Coimbra é pequena. Mesmo assim.

Pensou, e os pensamentos desaceleraram, como um eléctrico a chegar ao fim da linha. Na lentidão havia um sossego estranho, nem bom nem mau, só real, daquele modo em que tudo já aconteceu, nada mais a mudar, e tem de se viver com isso.

E viver, isso sabia ela fazer. Isso ninguém lhe tirava.

De manhã, levantaria às sete, como sempre. Poria água ao lume. Olharia pela janela. Março derretera.

E nalgum lugar, do outro lado da cidade, num T1 na Estrada Nacional, Teresa também se levantaria. Talvez mais cedo, talvez mais tarde. Poria o seu próprio bule ao lume na cozinha dela. Olharia para a rua dela.

E ambas olhariam ao mesmo tempo para o mesmo março. Para a mesma neve a sumir-se. Para o mesmo céu a clarear.

Só que de janelas diferentes.

Dona Filomena fechou mesmo os olhos.

Fora, uma noite tranquila de março era tudo o que restava.

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