O Último Desafio

O Último Chamado

Desde cedo, Maria sentia uma inquietação estranha, como se algo estivesse para acontecer.

Algo mau…

Ligou imediatamente à mãe, mas Dona Teresa tranquilizou-a, dizendo que estava tudo bem:

A minha tensão está ótima, como um astronauta, e não tenho dores de cabeça. Mas porquê essa preocupação toda, filha?

Nada demais, mãe respondeu Maria. Só para me certificar de que estava tudo em ordem. Olha, vou agora preparar-me para o trabalho. Se precisares de alguma coisa, liga-me.

Está bem, filha.

Mesmo depois da chamada com a mãe, Maria não ficou mais tranquila. O pressentimento teimava em não a largar, embora não houvesse propriamente motivo de alarme. O seu trabalho, porém, podia sempre reservar surpresas e, como se costuma dizer, segunda-feira é sempre um dia pesado.

Bebeu o resto do café, olhou para o relógio eram seis e meia , vestiu-se rapidamente, pegou num lanche e saiu apressada para mais um dia de serviço.

*****

Na garagem do INEM, encontrou o colega António, o motorista que a ia acompanhar durante o turno. Ele acenou-lhe com simpatia, mas Maria só correspondeu com um aceno cansado.

Maria, estás com cara de quem já viu o diabo! brincou António, acendendo um cigarro. Que se passa?

Não sei, António. Ainda não aconteceu nada, mas sinto que vai acontecer murmurou.

Vade retro! Mas onde foste desencantar esses pensamentos logo de manhã? Dormiste mal?

Maria não respondeu. Olhou o céu coberto de nuvens parecia que ia desabar um temporal. E ela nunca gostou de chuva

“Será só isto? Talvez seja só o mau tempo a estragar-me o humor”, pensou aliviada. Mas logo o mau pressentimento voltou com força renovada.

Uma jovem acabou de chegar à garagem e, ao passar, lançou-lhes:

Boa sorte no turno, colegas!

Ao ouvir isto, António quase se engasgou com o fumo e ergueu o punho, em protesto. A jovem parou, assustada:

Ai, credo, desculpem! Esqueci-me completamente…

Ela era nova por ali e ainda não sabia que desejar “boa sorte” antes do turno dava azar. Assim dizia a tradição entre equipas do INEM.

Agora sim, Maria, vai mesmo acontecer alguma coisa sussurrou Maria, sentindo um arrepio.

Cruzes canhoto murmurou António, deitando o cigarro no cinzeiro de metal.

*****

Ao longo da manhã, Maria mordia os lábios cada vez que surgia um novo alerta. A voz da central soava repetidamente no rádio:

Homem, 35 anos, queixa-se de dor de cabeça intensa. Pela voz, suspeita-se de AVC.

“Era mesmo o que me faltava” pensou Maria. Embora soubesse que, como médica de emergência, tinha de estar preparada para tudo, nunca conseguia habituar-se a estas situações mais graves.

Felizmente, ao chegar, percebeu que não era um AVC. O senhor só tinha festejado demasiado a noite anterior e estava de ressaca. Maria deixou-lhe um comprimido e aconselhou-o a descansar.

E se beber uma cervejinha, passa? perguntou ele, com ar esperançoso.

Nem pensar! Só vai piorar respondeu-lhe, sorrindo. Se quer viver muitos anos, mais vale deixar o álcool de lado.

Ao sair, suspirou de alívio. “Talvez António tenha razão”, pensou Maria. Talvez o tal pressentimento seja só cansaço acumulado.

Já se sentia um pouco melhor, quando a central mandou um chamado inesperado:

Têm de se dirigir ao Cemitério dos Prazeres.

Para onde? perguntou António, sem acreditar.

Ao cemitério respondeu Maria, segurando o tablet com força.

Ia haver enterro de um artista famoso, natural de Lisboa (o nome não lhe era familiar). Pessoas de todas as idades enchiam o local, algumas em lágrimas, outras em silêncio. Maria continuava à espera do tal acontecimento fatídico, enquanto António fumava cada vez mais.

Mas nada aconteceu de extraordinário. Mais uns quantos chamados comuns e, sem dar por isso, 12 horas passaram depressa.

Estavam quase a terminar o turno. Maria sonhava com um banho quente e a cama. Amanhã seria outro dia talvez com um ânimo melhor.

Antes de regressar, Maria telefonou mais uma vez à mãe.

Está tudo bem, filha respondeu Dona Teresa. Vou jantar e depois ver novelas.

E então? perguntou António ao ver Maria guardar o telemóvel.

Tudo ótimo.

Estás a ver! sorriu ele. Eu disse que não haveria problemas. E tu sempre com esses pressentimentos

Continuam, António Não percebo o porquê.

Olha, mais valia arranjares um animal de estimação: são ótimos para aliviar o stress.

Achas mesmo?

Claro! Eu tenho lá o meu gato, o Tobias. Mal chego a casa, ele vem para o meu colo, e o ronronar dele acalma qualquer pessoa. Dá logo uma paz e durmo que nem um bebé.

Mas eu com o meu horário, António? Quem lhe dá comida quando estou de turno de 24 horas? Tu tens mulher e filhos… Eu vivo sozinha.

Maria ia responder, mas o tablet apitou com novo alerta:

Maria, desculpa, mas ainda não acabaste disse a central. Segue para a Rua Fernando Pessoa, 23. Apartamento espera aí

Não será o 6.º esquerdo? perguntou Maria.

Isso mesmo! Como sabias?

Mora lá o Senhor Joaquim. Já pareço visita lá em casa

A central suspirou fundo.

Ele faleceu, Maria. Aparentemente de manhã cedo. A polícia já está a caminho, e precisas de lá estar já sabes porquê.

Sei murmurou ela.

Com os dedos a tremer, pousou o tablet e olhou para António, que ouvira tudo.

É uma pena pelo senhor disse António. Tu não tens culpa nenhuma. Ele nunca quis ir para o hospital, nem ao centro de saúde… Não te culpes.

Pois

Maria recostou-se, fechou os olhos e deixou-se ficar uns instantes em silêncio.

*****

Tinha conhecido o senhor Joaquim há mês e meio, por causa de uma minúscula dor no peito. Chamou a ambulância porque estava sozinho e assustado.

Ele disse para entrarmos, que a porta estava aberta explicou a central, naquele dia.

Quando Maria entrou no T2 modesto, deparou-se com um cachorrinho minúsculo, da raça rafeiro, que ladrava de modo engraçado. Só acalmou quando o dono lhe chamou e desapareceu na direção do quarto.

Resgatei-o da rua e agora não me larga sorriu o senhor Joaquim, tentando levantar-se.

Fique deitado, por favor pediu Maria. E tem aí um belo cãozinho Também gostava de ter um, mas não posso.

Porquê?

Enfim, razões Mas agora falemos de si. O que se passa?

Joaquim explicou que sofrer de coração desde que perdera a mulher. Andou na clínica, mas não melhorou e, cansado das esperas, foi abandonando os tratamentos. Aliviava as dores com medicamentos de venda livre.

Nada disto substitui tratamento disse Maria, sorrindo, antes de o convencer a fazer um eletrocardiograma.

A análise confirmou problemas sérios, mas ele recusou-se sempre a ir ao hospital. “Quem ficava com o Chico?” perguntava, envolvendo o cãozinho nos braços.

Tentei combinar com a vizinha para cuidar dele, até já lhe mostrei onde está algum dinheiro para comida do cão. Não quero que acabe outra vez na rua.

Um bom homem, pensou Maria. Mas agora ia ao seu apartamento porque Joaquim já não podia receber visitas.

O último chamado era mesmo o último.

Maria não concordava com António. Sentia-se culpada por não insistir mais, por não convencer Joaquim a tratar-se. Devia tê-lo protegido melhor

Maria, já chegámos.

Só ao sentir a mão de António no ombro, voltou à realidade.

*****

Subiu ao terceiro andar, passou pelo polícia de bairro e pela vizinha D. Rosa, que já conhecia.

Olá, Maria.

Olá, Dona Rosa. Foi a senhora que chamou a polícia?

Fui, claro. Mais ninguém o faria. O Chico ladrava desde manhã estranho o senhor Joaquim não o levar ao jardim como sempre. Pensei que estivesse indisposto, mas fui à minha vida. Só à noite, quando voltei, vi que o cão ainda estava a ladrar. Então liguei à polícia e eles, com o serralheiro, abriram a porta

Maria entrou no quarto, olhou demoradamente para o antigo paciente e escreveu o relatório, lutando para não chorar. De repente, lembrou-se do cão.

Andou pela casa toda, espreitou a cozinha, a casa de banho, a varanda.

Procura alguma coisa? perguntou o polícia.

O cão, onde está? Viram-no?

Um pretinho? Andava aqui a ladrar, depois parece que a vizinha o levou.

“Graças a Deus!” suspirou Maria.

Ficou assustada com a ideia de o cão ter ido parar novamente à rua. O senhor Joaquim não teria suportado tal desfecho.

Despedindo-se, Maria decidiu passar pela casa de Dona Rosa, para lhe agradecer por acolher o Chico.

Maria? estranhou a vizinha. Precisa de alguma coisa?

Só queria agradecer por ter ficado com o Chico. Está bem?

Quem?

O Chico, o cãozinho

Ah, o cão. Não, não fiquei com ele. Para que queria eu um cão? Só o deixei sair à rua, já que não parava de ladrar aqui em casa.

Mas o senhor Joaquim disse que combinou isso consigo, até lhe mostrou onde guardava dinheiro para lhe comprar ração

Dona Rosa ficou desconcertada, depois fechou o rosto.

Não sei de nada, Maria. Nunca combinámos nada, nem vi dinheiro nenhum.

Mas ele disse-me que

Desculpe, Maria, agora não tenho tempo para conversas. O cão, se quiser viver, que se desenrasque. O mundo é grande, alguém há-de ficar com ele.

*****

Maria desceu apressada e saiu para a rua. Já chovia a sério, e as gotas grossas escorriam-lhe pelo casaco.

Maria, o que fazes aí fora? berrou António. Anda para o carro, vais ficar encharcada!

Maria pousou a caixa dos medicamentos no banco da frente e voltou a fechar a porta.

António, vai indo para a base. Tenho de fazer uma coisa.

Mas o quê?!

Encontrar o pequeno Chico.

O cão? Explica-me lá isso direito!

Maria contou-lhe rapidamente o que se passava. António ficou a ouvi-la, fumando em silêncio.

Não deve estar longe explicou Maria. Vai, António, a base não pode ficar sem ambulância. Eu desenrasco-me.

Ele esmagou o cigarro na calçada, olhou para Maria:

Não te deixo aqui sozinha. Já escureceu. Procuramos o cão juntos.

Não podes largar a ambulância!

Não se passa nada, ninguém vai saber.

Cerca de dez minutos depois, Maria e António vasculhavam o pátio do prédio. O polícia também se juntou e quis ajudar.

Encontrei-o! gritou António, junto ao jardim em frente ao prédio.

Maria correu para ele. Debaixo do banco de cimento estava o Chico, ainda a rosnar, desconfiado.

Chico, querido! chorou de alegria Maria, vendo-o aproximar-se. Lembras-te de mim?

O cão reconheceu-a de imediato e lambeu-lhe as mãos, olhos tristes.

Eu sei, meu pequenino O nosso Joaquim já não está connosco.

António afastou-se para esconder as lágrimas. O polícia também desviou o olhar.

Não posso ser o teu dono como o Joaquim foi, mas vou tentar, prometo. Vens comigo?

E lá foi o Chico, sentindo que Maria era uma pessoa de coração bom.

E também ele nunca gostou de chuva

*****

Nos primeiros tempos, Maria teve medo de não conseguir dar conta do recado. Mas Dona Teresa veio em seu auxílio, cuidando do Chico nos dias de serviço de Maria.

Nos dias livres, as duas passeavam com ele no Parque Eduardo VII, aproveitando o tempo em família.

Maria nunca se arrependeu. A vida agora fazia mais sentido e começou a perceber o senhor Joaquim. Apesar de discordar enquanto médica, entendia os receios de quem não tem companhia.

Com o tempo, o seu pequeno núcleo familiar aumentou. O polícia, Vasco, aquele mesmo que a ajudou na noite do último chamado, começou a fazer-lhes companhia, e Maria percebeu que a vida pode sempre surpreender-nos basta não deixar de lutar pelo que nos toca o coração.

Chico recebeu o novo amigo de braços (ou patas) abertos, aprovando com um latido seguro: “Este pode ficar e a minha dona será feliz”.

No fim, Maria entendeu que, mesmo na adversidade, nunca estamos verdadeiramente sós enquanto tivermos amor para dar e receber.

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