Boneca Partida
Marianinha, aquilo foi simplesmente maravilhoso! A Lenita é mesmo um encanto! E aquela voz! Juro-te, nunca ouvi nada tão belo! Sabes que sou frequentadora assídua do São Carlos, posso dar-me ares quase de especialista. Ela devia cantar lá! Só pode!
Bela, obrigada por falares assim do talento da minha filha! A Leninha lutou tanto por isso. Anos de esforço, de ensaios, e finalmente Carmen!
Lindo! Absolutamente lindo! Maria, agora que a Leninha já conquistou tudo, não achas que está na hora de pensar no futuro? Uma andorinha não faz só verão, mas não pode passar a vida de galho em galho, pois não? E o ninho? Os passarinhos?
Não sei, Bela. Parece-me cedo. Ela ainda é tão jovem, e o sucesso de hoje é só o primeiro degrau. Há todo um caminho pela frente.
Maria! O Vasco já está pronto para casar-se há que tempos, e quantos anos mais é que vai ficar à espera?! Ele está apaixonado pela Lena! Nem sabe o que é viver sem ela! E nós, em vez de ajudarmos, mais parece que andamos a boicotar a felicidade deles! Dona Bela puxou do seu lencinho rendado e enxugou as lágrimas, com dramatismo digno de telenovela portuguesa. Quem nos julgamos, Maria, para lhes cortar as asas?!
Maria dos Anjos limitou-se a sorrir com polidez.
Sabia de experiência própria que escapar da conversa de Dona Bela não era tarefa simples. Não era a primeira vez, nem a centésima. Bela, que cresceu no mesmo prédio que Maria, era aquela amiga que nunca desistia. Quando punha uma ideia na cabeça, nem a trovoada do Senhor Santo António a parava e as más línguas diziam que, no Bairro Alto, só não queria porque nunca tentou. Se a Bela desejava algo, no fim acabava por arranjar maneira de conseguir.
Até a amizade delas começou com um desejo realizado, coisa de criança, mas Maria ainda se lembrava da surpresa e da mágoa daquele dia.
O pai de Maria, numa das suas viagens a Braga, trouxe-lhe uma boneca maravilhosa, a quem ela deu o nome de Elisa. Cabelos louros de lã, olhos azuis, vestido à moda antiga. Maria era obcecada com a boneca, punha-a à mesa dos lanches, fazia chá de mentirinha com bolachinhas e obrigava até as amigas a um cerimonial tão rigoroso como o das tias-avós ao domingo.
Foi então que, uma semana depois, apareceu a Bela em casa da Maria. Viu a boneca e perdeu a cabeça. Pediu, implorou, mas a Maria não quis ceder Elisa era sagrada. No dia seguinte, a Bela ficou doente: febre, choradeira sentida, desespero total. Maria, sensível como só ela, cedeu e levou a Elisa a casa da Bela. Afinal, quem resiste ao drama operático de uma amiga caída de cama?
O problema é que, assim que ficou com a boneca, a Bela parou de chorar num instante e com desprezo atirou para o baú a sua antiga boneca, a Catarina, a tal que já piscava um olho e fechava o outro quando bem lhe apetecia.
Agora, ficas aí!
Aquilo magoou Maria, embora na altura não soubesse explicar porquê. Ficou-lhe pena da pobre da Catarina, a velha boneca. Pediu-a à Bela, que nem se incomodou, ocupadíssima a admirar a nova. Foi assim que Catarina foi parar definitivamente ao quarto da Maria.
Maria pediu à mãe que arranjasse a Catarina. A Elisa fazia-lhe falta, claro, mas sentia que ia dar no mesmo. Algum dia, a Bela ia fartar-se da Elisa como se fartou da Catarina e voltava tudo ao mesmo.
Nunca pensou em pedir de volta a Elisa era dá-se e pronto.
A Catarina ficou com ela muitos anos. Cresceu, foi mãe, e Catarina manteve-se sentada na prateleira, braços abertos e olhos azuis já meio pelados de pestanas. Para a Maria, a Catarina servia de lembrete: há quem troque antigos afetos ao primeiro vislumbre de novidade. E não era só com bonecas.
Mas Bela era a vizinha da porta ao lado, a amiga única por uma razão misteriosa, não havia mais raparigas da idade delas no prédio. Maria decidiu que não valia a pena brigar por causa de atitudes estranhas. Nunca se sabe, pensava, a vida dá muitas voltas. Para já, melhor viver em paz.
Maria mudou-se para o apartamento da família em Lisboa com os pais depois de perder o avô. Mal se recordava dele, mas em casa ainda se murmurava o nome do velho Joaquim Fonseca com respeito. Só mais tarde descobriu que ele fora agente secreto, espião em tempos de guerra detalhes que as crianças, felizmente, dispensavam saber.
A morte do pai, um dos melhores médicos do Hospital de Santa Maria, foi outro golpe. Ficaram só as duas: Maria e a mãe, Olívia.
Agora somos só nós, Marianinha. Vamos ter que nos desenrascar sem apoio. Espero saber como
Porquê?
Porque sempre vivi amparada. Primeiro com o teu avô, depois o teu pai tomava conta de tudo Decidia onde íamos, o que fazíamos, até o que devíamos vestir. Não era assim tão mau, percebes? Naquele tempo, os homens assumiam o peso da família. Eu vim para Lisboa sem nada, filha. Criada desde bebé num orfanato, nunca conheci o meu pai. A tua avó abandonou-me e, incrivelmente, até sou grata!
Oh, mãe
Pois. O orfanato foi a minha casa, a melhor que podia ter. A equipa de lá era austera, mas eram os nossos verdadeiros pais adotivos. Não nos podiam amar como amam um filho, mas protegiam-nos. E amar é isso: ter medo de nos magoarmos.
Tu tens medo por mim, não tens?
Muito! Nem imaginas quanto! Sempre tive. O teu pai não percebia isso
Cresceram todos em ambientes duros. Tanto o pai de Maria como o avô eram órfãos criados pelas avós e metidos em colégios militares à moda antiga. Só que o pai, já crescido, teve a coragem de recusar aquela vida e foi estudar Medicina por teimosia. O avô não lhe disse nada, só acenou com a cabeça.
E o teu pai tornou-se médico
Dos bons! Tu sabes!
E como o conheceste?
Na rua, imagina! Ia a passear com amigas e partiu-se-me um salto. Um drama: os sapatos nem eram meus, partilhávamos tudo no quarto do pensionato. Três pares de sapatos bons para seis raparigas e nem toda a gente calçava o mesmo número. Fartei-me de chorar. O teu pai apareceu, foi arranjar o salto à sapataria, carregou-me até casa e ficou comigo até ao fim do passeio. Um herói!
Tinhas medo de quê?
Naquela zona, os rapazes não davam tréguas aos de fora. O teu pai conseguiu ganhar-lhes o respeito num instante. Nunca entendi como, mas era o seu dom. Lidava bem com todos.
E o teu sogro, como te recebeu?
Curiosa! Não me rejeitou, mas ficou de olho. Nunca nos tratava mal, mas foi preciso tempo até me aceitar. Só depois de teres nascido é que me tratou por filha. Ele assumia coisas de casa, era prático. Sabia fazer tudo: cozinhar, limpar, arranjar o que fosse. Eu também não era má de mãos, graças ao orfanato: não era delicada, tratava de tudo. Só com bebés é que não sabia lidar. E tu eras exigente! Só mais tarde percebi faltava-me leite e passavas fome. Eu desesperava, mas não tinha quem me ensinasse.
E como deste a volta, mãe?
O teu avô. Um dia, exausta, deambulei pela casa com a tua choradeira sem saber o que fazer. Nem reparei que chorava eu própria há meia hora. Foi ele que te tirou dos meus braços: Vai dormir, miúda, eu fico. Dormi como uma pedra no sofá. Mais tarde, percebi: ele fazia-te tudo, sem medo. Dava-te banho, mudava-te a fralda, enrolava-te como só as enfermeiras sabem. Senti-me uma naba, mas aquilo aproximou-nos. Ele começou a chamar-me Olivinha, e eu percebi que me aceitava como filha. Para mim foi um milagre.
E ele adorava-me, não era?
De paixão! Achava graça teres nascido menina. Adorava pôr-te laços, tirar fotos, mostrar-te a biblioteca dele. Ensinou-te as pequenas rotinas de família, e um bocadinho de felicidade familiar. Foi uma bênção tê-lo tido, ainda que pouco tempo.
Quando a mãe de Maria morreu, a Leninha tinha 10 anos. Maria chorou, sofreu, mas não se deixou abater. Agora só restavam ela e a filha, não podia fraquejar nem para o luto.
Com a Bela continuou a cruzar-se, mais por educação do que proximidade. Bela casou, mudou-se para a zona de Sintra, para uma vivenda com estúdio de pintura. O filho seguiu a carreira artística do pai. Daí a Bela insistir tanto: Os talentosos devem juntar-se, não andar a misturar-se com desconhecidos! Gente especial precisa de pares igualmente especiais! Quero netos lindos e geniais!
Maria ouvia calada. Também nunca lhe contara detalhes da sua vida. Aprendera no orfanato: ouvir muito dos outros, dizer pouco de si.
O Vasco não seria nunca, no íntimo, o marido que Maria desejava para a filha. Mas não valia a pena discutir a Bela nunca compreenderia. E Maria tinha a certeza: Lene não seria feliz com ele. O Vasco era acostumado a facilidades de casa, a ter tudo resolvido. A Lena, igual à rãzinha daquela fábula, lutava, tentava, fazia pela vida por esforço próprio. Sempre soube as dificuldades que mãe e avó passaram. O pai morreu logo depois do nascimento dela, ruivo de olhos azuis, presente apenas na fotografia pendurada no quarto.
O refrão da infância da Lena era:
O teu pai teria tanto orgulho em ti!
Isso era tudo para ela.
A Lene também sabia que a mãe estaria sempre ao seu lado, seja qual fosse o caminho. Por isso sentia esse peso nas escolhas: não era só sobre si, era sobre as duas.
O que Lena não conseguiu prever é que se apaixonaria pelo tal Vasco, aquele que olhava só como camarada.
Quando? Como? Ninguém sabe. Só percebeu um dia que queria vê-lo em todos os momentos.
O Vasco era um espírito leve, despreocupado exatamente o oposto da Lena, sempre ponderada e séria. Ele arrastava-a com promessas de aventura, levou-a mesmo para a Serra da Estrela, a aprender a esquiar Lena, descoordenada, cheia de nervos, atirava-se à pista só para agradar ao namorado.
Não sabes? Vais aprender! animava o Vasco.
Porquê aquela necessidade de aceitação, de reconhecimento? A mãe elogiava-a bastante, a avó também. Faltava o quê? Mistérios do coração humano.
A primeira viagem das montanhas foi um sucesso a companhia, as gargalhadas com os amigos, o Vasco divertido (mas ciumento), os almoços no refúgio.
O pormenor das pistas continuou a não lhe agradar.
Vieste para quê, então? perguntava Vasco, amuado.
Para estar contigo! E a Lena, susceptível, quase chorava.
No final da viagem, Vasco pediu-lhe em casamento, tudo muito à portuguesa, com buzinadas, cavaquinhos e brinde a espumante de Lamego. Lena disse sim, chorou sobre o anel e a sogra, Bela, tratou logo da boda. Organizou tudo, só restava à Lena e à Maria escolherem vestido e darem um jeito ao velho apartamento do avô.
O casamento correu, ao princípio, às mil maravilhas: Lena a cantar, Vasco a pintar, só que Dona Bela impacientava-se. Falava constantemente em netos: Temos saúde, temos tempo! Se não for agora, depois já não dá!
Marianinha ouvia, calava. Sabia que era desejo da filha também. O obstáculo era o Vasco.
Não contes nada à mamã! Não temos que fazer filhos logo. Depois, com miúdos a correr, quem pinta quadros? Quem vai dormir para as montanhas?
Isto abalou Lena. As conversas eram em vão.
Quero realizar-me, Lena! Quero ser grande! E tu? Isto de filhos não é para nós, somos artistas, somos livres! A minha mãe é que teve acertada.
Sobre a lucidez de Dona Bela, Lena preferia não comentar. Ultimamente, evitava encontrá-la. Não havia grandes afinidades.
Não entendo! O Vasco quer tanto um filho, e tu só pensas em ópera! Não há nada feminino em ti?! É assim tão difícil cumprir o mínimo?
Lena, silenciosa, não rebatia. Nunca puxou pelo marido para expor a verdade perante a sogra não achava digno. E nem se justificava à Bela. Qual o sentido?
Maria! Ajuda a tua filha! Que trate da saúde, que avance! Já estou farta de esperar! cada vez mais exigente.
Foi então que aconteceu o que acabou de vez com o casamento de Lena e Vasco. Uma nova viagem às montanhas tornou-se um desastre. O Vasco estava irritado, de mal com o mundo, e quando a Lena recusou esquiar, ele perdeu a cabeça e fez-lhe ceder.
Para quê instrutor?! Eu ensino-te tudo. Vais, sim!
A Lena foi pela paz. Deu asneira.
Quando acordou, estava no hospital. Ao lado dela, a mãe sentada, olhos vermelhos.
Mãe
Descansa, Leninha. Vai ficar tudo bem! Estou aqui contigo.
E o Vasco?
A mãe virou a cara. O Vasco tinha-se ido embora logo para Lisboa, a preparar uma exposição. O que querem que faça? Não sou médico. Não tenho tempo para isto.
Lena soube só muito depois. Maria moveu mundos para a transferir para o hospital onde trabalhava, e dedicar-se à recuperação da filha.
Os prognósticos eram péssimos. Mas Maria recusou-se a aceitar.
De manhã, olhando para as fotografias antigas, murmurava:
Não vou desistir! Não fui educada para isto! Não deixo que a partam!
Conversou vezes sem conta com Vasco.
Por favor, sê humano! Tu amavas a minha filha
Amava. Mas agora não há volta. Para quê ficar preso à culpa? Cada um deve ser feliz.
Maria, convencida que mais valia investir na reabilitação da filha, entregou-se a ela.
Com imenso esforço, Lena pôs-se de pé e voltou a andar, passo a passo, agarrada à mãe.
Isso, meu amor! Vais conseguir! O teu pai teria orgulho!
Cantar nunca mais conseguiu. A voz foi-se. Não se sabe se das operações ou dos gritos que deu naquela tarde, caída fora da pista, a pedir socorro. Foi por esses gritos que um instrutor a encontrou ao fim do dia.
O facto de Vasco não ter dado pela falta, Lena só entendeu no hospital. Nem precisou que a mãe lhe explicasse.
Mãe. Não digas nada. Eu entendo. Fui atirada fora. Uma boneca partida Uma Catarina.
Tu não és a Catarina! Não permito! e Maria saltou tão alto, que a enfermeira abriu a porta.
Precisa de alguma coisa, Lena?
Não, obrigada. Só preciso da mamã.
Anos depois, num jardim da Graça, uma jovem bonita, coxeando ligeiro, ajuda um menino a sair do carrinho:
Anda, campeão! O mundo é teu! Mas devagarinho, que a mãe não corre atrás de ti! Dá a mão.
O miúdo avança, mãozinha dada, mas logo foge para abraçar a avó, que chega ofegante.
Meus tesouros! Morria de saudades!
Lena abraça a mãe.
E a viagem? Correu bem?
Ótima! Nem imaginas quem encontrei
Quem?
A Bela.
E?
Anda amarga. O Vasco não se ajeita, está aflita com a idade, duvida que chegue a ter netos sequer.
Disseste-lhe alguma coisa?
Nem uma palavra! Com que lata? Que casaste outra vez, que me vai nascer o segundo neto? Deixei falar
Também me faz pena. Habituamo-nos às pessoas, mesmo estranhas, não é?
É filha, mas adiante. E este campeão, mostra à avó os dentes novos?
Ai mãe, vê lá se não tenho um filho-dragão, que já lhe andas a contar os dentes todos.
Lena põe a mão da mãe sobre a barriga e ri:
Uma novidade boa: vais ser avó em dobro!
Ai, menina!
Não ficas contente?
Desorientada! Mas mais feliz, impossível. Será que existe excesso de felicidade?
Não sei. Sei que, se existe, é bem merecido. Principalmente por ti, mãe…
Hmmm?
Ainda bem que não sou a Catarina.
Claro que não. Eu prometi-teMaria sorriu, sentindo o calor da mão da filha debaixo da sua. Não havia mais bonecas partidas: apenas um laço reforçado pelo tempo e pelas lágrimas, onde cada cicatriz era agora medalha de coragem.
Lena olhou para o filho que saltitava à frente, riu com o vento no rosto e o cheiro a jacarandás. Pela primeira vez em anos, sentiu a alegria leve, sem conselhos, pressas ou expectativas dos outros. Era mãe, mulher, filhae, ali, no banco do jardim, sabia-se inteira.
Que bom que este mundo tem segundas oportunidades, não é, mãe?
Maria apertou-lhe os dedos com força.
Tem sim, Lena. E para quem não desiste de amar, são ainda mais doces.
E, enquanto o sol se deitava devagarinho sobre a cidade, mãe e filha riram juntas, prometeram guardar aquela felicidade sem pressa. No ar, a memória antiga da Catarina repousava, finalmente, em pazlembrando que às vezes, ser forte não é resistir à dor, mas escolher, todos os dias, recomeçar.
O menino correu de volta, braços abertos.
Mãe! Avó! Venham brincar!
E as duas foram atrás dele, prontas para outro dia do lado da vidaonde não há bonecas partidas, só abraços inteiros.







