Passarinho

Passarinho

– Olívia! Mas que demora é essa?! Estou à tua espera há séculos! Senta-te aqui! disse Mariana, a minha vizinha de sempre, ajeitando-se no banco junto à cerejeira.

E quem pode culpar-nos? Que fim de tarde lindo! Ficar em casa para quê? Lá só há televisão e o Bolinhas, o meu gato preguiçoso. Que tédio! Aqui no pátio vê-se logo a primavera a chegar, embora ainda seja abril, mas o calor já se fez sentir. Até a cerejeira, que o saudoso António marido da Mariana plantou há muitos anos, acordou e encheu-se de flores. E ao banco debaixo dela, restaurado há pouco que a Mariana pintou há uma semana, está um brinco! Parece que nos convida para os costumeiros serões de conversa fiada. Falar dos filhos, das dores, da vida e… claro, do amor. Sobre o que é que mais falariam as mulheres?

Podemos saber tudo umas das outras, mas há sempre algo novo para contar, algum segredo à espreita. Os filhos crescem, as maleitas aumentam e o amor… ah, o amor. Não existe em excesso, pelo contrário. Espera-se sempre ouvir algum relato bonito, para aquecer o coração se não temos, que ao menos alguém o conserve, para o mundo não esfriar de todo. Mesmo que dentro de nós só haja silêncio, consola ouvir que por aí ainda há amor a aquecer e iluminar vidas.

A Mariana para os de casa e do bairro, a Mariazinha conhece-me, Olívia Barbosa, desde que me lembro. Vivemos porta com porta há mais de cinquenta anos. Quando éramos miúdas, as nossas mães faziam questão de deixar a porta aberta, para não andar sempre atrás de nós com a chave; sabiam que se não estávamos numa casa, estávamos na outra. Com o tempo, claro, começaram a fechar a porta sobretudo depois da nossa primeira aventura à procura da felicidade.

Tínhamos uns seis anos, se tanto.

A avó da Mariana veio passar umas semanas e disse-nos que o segredo da vida era apanhar o “passarinho da felicidade” pelo rabo e não o largar mais. Assim, tudo correria bem, seríamos felizes e todos à nossa volta também.

Não percebemos patavina sobre a vida, mas fixámos bem a parte do “todos à volta”. Quem não queria que os pais deixassem de resmungar? Decidimos então encontrar o tal passarinho.

Mariana explicou toda convencida que sabia onde ele vivia no prédio ao lado, com aquele senhor desagradável de voz arranhada. Ele às vezes levava para o pátio uma ave enorme e colorida, que gritava de uma forma esquisita. Não havia pássaro mais bonito, nem sequer no Jardim Zoológico, aonde os nossos pais nos levavam de vez em quando.

Preparamo-nos a sério para a caçada.

Da varanda da Mariana resgatámos uma velha gaiola, que em tempos acolheu um coelho vindo da aldeia da avó.

Teríamos de meter o passarinho nalgum lado, claro! Não ia ficar ali para sempre preso à mão, e mal pudéssemos, queríamos comprar gelados o que não se faz com as mãos ocupadas.

Trouxemos também pão e bolachas, caso a ave fosse esquisita. Depois de muito pensar, pusemos um rebuçado para o caso de ela gostar mesmo era de doces quem sabe? Seria uma vergonha se não a conseguíssemos agradar.

Não tínhamos pressa era coisa de peso! A avó da Mariana, entretanto, voltou à sua terra, prometendo levar consigo a neta nas férias de verão. Os nossos pais organizaram-se para ir até à Figueira da Foz todos juntos, em duas famílias, combinando partilhar o carro para poupar nos custos. Da cidade ao mar era uma questão de duas horas. Quase nem dava para dormir decentemente na viagem! Mas lá era um sonho: casa alugada, com jardim e baloiço, pertinho do Atlântico.

Eu própria esperava ansiosamente pelo verão e pela estada na casa da avó.

Mas tinha pena da minha amiga a Olívia nunca teve avó nenhuma. Como era isso possível? Quem lhe faria as vontades às escondidas dos pais? Quem lhe contaria histórias compridas a adormecer, e não só aquelas curtas de sempre, porque a mãe tem roupa para lavar? E quem lhe tricotaria uma boina de lã bem gira?

A Mariana pensou assim que a apanhassem, o passarinho da felicidade traria à Olívia uma avó também, quem sabe até da mesma terra da dela, e assim ficariam sempre juntas no verão. Por isso, valia a pena esforçar-se.

Na véspera da partida para o mar, dissemos às mães que íamos brincar juntas e escapámo-nos de casa, tentando não fazer barulho ao fechar a porta.

Cruzámos o nosso pátio, o do prédio ao lado, até chegar ao tal edifício cinzento e feio, lairo do passarinho.

No pátio não se via vivalma. Quente como estava, toda a gente devia estar em casa, ou ainda a trabalhar.

Troquei um olhar com a Olívia. Como iríamos encontrá-lo assim? Ela já estava a fazer beicinho, quase a chorar, mas não era pessoa para desatar no pranto sem necessidade. Era preciso fazer qualquer coisa! Tantos sonhos dependiam daquele passarinho: uma avó nova para Olívia, gelados, vestidos iguais aos meus, e pais sem discussões.

Por que é que aquele passarinho era assim tão difícil? Se fosse bom, estava a cantar no nosso jardim e não tínhamos de andar em procissão por um prédio estranho.

Mão dada, puxei a Olívia até à entrada do prédio. Ficar parada não ajuda em nada podíamos sempre perguntar.

O prédio era um mundo. Fomos bater porta a porta. Uns não nos abriram, outros ralharam connosco dizendo para não fazermos barulho.

Continuámos a procurar. Sempre que não chegávamos ao botão da campainha, dávamos pancadinhas com a mão.

– Onde vive o passarinho da felicidade?

Que falta de paciência dos adultos! Era só responder e pronto! Mas não só pragas, gestos e ameaças! De uma senhora com uma porta verde e maçaneta esquisita fugimos a sete pés aquela nunca teria um passarinho desses em casa.

Mas houve um apartamento onde tivemos sorte. Abriu-nos a porta um rapaz mais velho e, ao perguntarmos pelo passarinho, encolheu os ombros e disse:

– Entrem!

Passarinhos, nada, mas havia ali tanto para ver que nos esquecemos do tempo e até do propósito da visita.

Máscaras medonhas penduradas, búzios onde se ouvia o mar, maquetes de barcos, perfeitas, com velas e marinheiros nas rédeas.

– Montámos isto eu e o meu pai. “Santa Maria”.

– Olha, como eu! riu-se a Olívia, tirando o dedo, aflita, do barco.

– Chamas-te Maria? Nome bonito. Como a minha mãe.

– E está onde?

– A mãe? Está a trabalhar. Vem já. Porque é que andam sozinhas? Não vão apanhar um raspanete?

Nesse instante, lembrámo-nos do passarinho, da hora do almoço, e do castigo certo por atrasos.

– Olívia! Corre!

Esquecendo a gaiola, arrastei a minha amiga até à porta.

– Esperem! o rapaz chegou-se depressa. Tomem isto.

As penas eram tão lindas que ficámos de boca aberta, sem coragem de as tocar.

– O que é?

– Penas de pavão! A minha mãe traz do jardim zoológico onde trabalha. Levem, é para vocês!

A olhar maravilhadas para aquela leveza colorida, voámos pelo corredor até casa nem nos despedimos.

E lá… furacão!

As nossas mães andavam de um lado para o outro, olhos inchados de choro, a gritar por nós. Os pais, suando frio, esperavam a polícia chegar, recebidos pelo olhar cor de trovoada do agente de serviço.

Assim que nos viram, a mãe da Olívia caiu redonda no chão, desfeita em alívio.

– Apareceram…

Vieram lágrimas, abraços, uns conselhos mais duros, e pronto: não houve tempo para castigos maiores.

Uns dias depois, sentadas no baloiço do jardim da tal casa alugada para as férias, balançávamos as pernas para cá e para lá, conspirando baixinho:

– Sabes, Olívia? Não precisamos de passarinho nenhum!

– Porquê?

– Porque a minha avó dizia que felicidade é quando és amada.

– E então?

– Então, se as nossas mães não gostassem de nós, tinham-se preocupado tanto quando desaparecemos? Iam lá chorar assim ou ter medo de nos perder?

– Faz sentido…

– Portanto, somos felizes, não achas?

– Não sei…

– Eu sei!

– E os pais?

– Também não discutiram nestes dias, pois não?

– Nem por isso…

– Então é porque conseguem não discutir. Não é pássaro nenhum que os vai ajudar. Estás a ver?

– Pois

Esse verão tornou-se o melhor das nossas recordações de miúdas.

Mariana sempre disse que é uma bênção ter com quem partilhar memórias. Não só ter, mas poder perguntar quando falta alguma coisa memória a dois é mais forte.

Na verdade, a Olívia sempre se lembrou de tudo melhor que eu. Devia ser por ser mais calma, enquanto eu parecia mercúrio, sempre a correr e a saltar para todo o lado. Mas ela, não. Ia devagar, repassando os pensamentos antes de dar o passo seguinte. Talvez por isso não esqueça nada, como se tivesse acontecido ontem.

Quando comecei a namorar com o futuro Pedro, nem percebi que ele era o nosso conhecido de infância. Só quando entrei lá em casa, muito tempo depois:

– Santa Maria…

O barco estava no mesmo sítio onde duas meninas tinham passado horas a admirar. E, apesar de já termos vinte e três anos e a Olívia já andar casada, senti-me outra vez miúda, cheia de medo de partir um mastro e estragar tudo.

Na noite do casamento, retirei da gaveta do livro favorito a pena que guardei esse tempo todo. Mostrei ao Pedro.

– Lembras-te?

Rimos tanto, vendo-o tentar recordar o que se passou há tantos anos…

E fomos felizes. Longos e bons anos de felicidade, cheios de preocupações, alegrias, os primeiros passos das filhas, a chegada do nosso filho. Quando a doença ameaçou a Mariana, foi Pedro que a segurou firmemente, lutando por ela lado a lado, de mão dada, enquanto o futuro hesitava à porta sem saber se entrava, cheio de medo do incerto. Até que um dia, a vida parou subitamente e Mariana deixou de respirar, esquecendo-se simplesmente como se fazia, porque o ar dela se foi com o Pedro. E Olívia, ao lado naquele momento, reagiu rápido, deu-lhe umas palmadas, trouxe-a de volta à terra e embalou-a como criança.

– Aguenta, Mariana! Tens os teus filhos…

E Mariana acordou. Porque ainda havia felicidade ali, diferente, menor, mas presente, deixada por Pedro. E se os filhos já eram grandes, perder a mãe assim tão cedo, logo depois do pai, não era justo, e ela sentiu que era o pilar deles.

– Enquanto houver quem se ponha entre uma criança e o céu, ela não é órfã! dizia a minha avó. E tinha razão! Tanta razão! Por isso é que se tem de viver, pelos filhos, pelos netos. E, mesmo tendo cada um seguido o seu caminho trabalho, independência, tudo normal Mariana sabia que era necessária e amada. Tanto podia fazer as malas, trazer presentes e visitar o filho, como esperar pelas férias e encher a casa de netos, revivendo a animação barulhenta de antigamente. Voltava a perder o sono, a ouvir respirações pequeninas junto de si, e a sua cama, larga e aconchegante, não ficava vazia. Até a neta mais velha fingia embaraço antes de se enroscar aos mais pequenos à espera da história, repetidamente surpreendida pelos mesmos desfechos que já sabia de cor.

Assim voltava a paz. Recuperava a alegria, tão leve quanto uma pena talvez não tão formosa como aquela do Pedro, mas tão desejada.

Nem toda a gente tem essa sorte. Por muito que desejem, não conseguem arrancar felicidade ao céu. Nós, eu e Mariana, fomos abençoadas. Não apanhámos o passarinho tal como sonhámos, mas não deixámos a felicidade fugir-nos. Desde cedo compreendemos o que era para uma mulher. É diferente para cada uma, mas para nós tomou aquela forma antiga e construída com esforço: ter filhos de saúde e felicidade chega, o resto acontece se quisermos e corrermos atrás.

A Olívia quis e fez por isso. Podia não ter tido filhos. O marido não podia, mas amavam-se como poucos e estavam sempre juntos, feitos um só. As outras vizinhas lamentavam-se dos seus homens, mas a Olívia nunca teve razão de queixa. Vivia com o coração em paz.

Eu, dantes, pensava que era conversa fiada; depois encontrei o Pedro. Bastava olhar para a minha amiga para saber que há mesmo amor assim.

Nem tudo foi perfeito. O marido da Olívia, o Ricardo, tinha irmãs metediças e tias às dúzias, que nunca a deixaram sossegar. Nunca fazia nada como queriam, mas a sogra, dona Rosa, era diferente acolheu logo a Olívia, sem nunca lhe dizer uma palavra amarga. Quem sabe como as filhas saíram tão diferentes ficou sempre a dúvida. A Rosa era uma santa, sempre com o coração mole, mas também sofrera; o marido dela foi-se para outra, deixando-a sozinha com três, mas nunca deixou faltar dinheiro nem apoio; só até se habituar à nova vida demorou. Anos depois, resolveram tudo numa conversa, e a Olívia ajudou.

Foi a sogra quem resolveu a questão dos filhos largou o hospital onde trabalhava e entrou para um lar de crianças. Lá foi buscar o neto que os salvou a todos. A Olívia sempre foi determinada, mas sem a sogra não tinha dado conta de tudo.

Para que a família não falasse, sumiu-se um ano com o Ricardo, para regressar já com o menino ao colo. As más-línguas murmuraram, mas logo se calaram ao ver o afeto da avó. As cunhadas desconfiaram, mas não tiveram coragem para continuar a implicar. E a Rosa, sempre doce, tornou-se intransigente quando precisava, defendendo o neto como mãe leoa.

Criaram o rapaz até à idade de ser oficial do exército. O Paulo agora anda de um lado para o outro nos quartéis, mas nunca esqueceu a mãe. Traz-lhe os filhos duas vezes por ano, e, se não vem, é a mulher, a Andreia, que os leva e tornou-se mais filha da Olívia do que nora.

Haviam dúvidas, claro. O Paulo não só levou para casa a noiva, mas também o filho dela de outro homem. O pai desse menininho nunca quis saber foi-se embora antes do bebé nascer; mais tarde fez questão de ceder o lugar de pai ao Paulo, assinando os papéis todos direitinhos.

E a Olívia? Abriu-lhe logo o coração: “Anda cá, sou a tua avó Olívia! Queres um bolinho? Ou antes espreitar a árvore de Natal? O Pai Natal já lá deixou presentes, vi com os meus olhos! Vamos ver?”

É preciso pouco para conquistar uma mãe de verdade basta aceitar o filho dela como seu.

Por isso a Andreia tornou-se filha de coração, e todos os netos o são, sem distinção.

– Então, Olívia, quando vamos à quinta? Já está a ficar bom tempo! perguntei, olhando por entre a folhagem, a ver se via flores de cerejeira.

– No fim de semana. É só acabar de lavar as janelas e vamos.

– Já nem me lembrava que a Páscoa calha cedo este ano. Já está na hora de arrumar tudo, não é?

– Já! E ainda tenho de preparar a comida.

– Os teus vêm?

– Só de passagem. O mais velho está a pensar candidatar-se à Universidade de Lisboa. Vêm ver como é, desta vez só uma visita breve; na volta ficam mais tempo. Os mais novos talvez fiquem umas semanas, se combinarmos bem. E os teus?

– Só no verão. Agora, com a escola, não vêm antes. Um mês e meio ainda!

– Não é nada, mulher! Quando se espera algo bom parece uma eternidade, mas depois passa num instante.

– E não é que tens razão! Sabes, dou tudo por esses momentos por curtos que sejam, ficam-me na memória, como contas de um rosário, a iluminar-me nos dias menos bons. Felicidade é assim: nunca é demais, só parece pouco quando não nos damos conta do que temos.

– Bem dito! Lembras-te, Olívia, daquela vez em que fomos atrás do passarinho da felicidade?

– Claro! riu-se, com as mãos cruzadas no colo. Nem me pude sentar em condições durante uma semana. A minha mãe ficou tão aflita que o meu pai me deu um bom raspanete. E tu ali, a saltitar a meu lado como se nada fosse!

– Pois foi! Mas olha, acho que agarrámos o tal passarinho pelo rabo, sem percebermos. Voou ao pé de nós estes anos todos. Que outra explicação haveria para tudo o que recebemos da vida? Maridos bons, filhos maravilhosos, netos… Não somos felizes?

– Somos, sim senhora! E temos de agradecer à nossa passarinha. Esperemos que continue a esvoaçar e que traga ainda mais felicidade a quem amamos…

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