Em vez de Mim

Em vez de Mim

A madrasta via muito bem que Mariana não queria casar com o viúvo; não era por ele ter uma filha pequena, nem por ser mais velho, mas sim porque ela tinha mesmo medo dele. O seu olhar atravessava-lhe o peito, e o coração desatava a bater tão depressa, como se quisesse fugir das setas daquele olhar. Os olhos da Mariana ficavam presos no chão, só os erguia quando não havia remédio, e aí todos viam os olhos cheios de lágrimas.

E essas lágrimas escorriam-lhe pelo rosto corado de vergonha, e as mãos tremiam, os pequenos punhos queriam lutar contra a madrasta e o noivo que ela lhe arranjara. Mas a bendita língua, como que rebelde, acabou por dizer: Eu vou.

Pronto, ficou combinado. Com homem destes, para um lar como o dele, que mulher iria dizer que não?! Foi um marido exemplar, sempre cuidou da primeira mulher, com uma dedicação de fazer inveja, mesmo doente, sempre fraquinha, não lhe faltava nada. Ele dava-lhe apoio, carinho, não era bruto como o teu pai, Deus o tenha.

Quando ela engravidou, ficou sempre em casa, quase ninguém a via, tão em baixo que andava. Depois do parto, era ele a levantar-se noite após noite para a filha, enquanto ela definhava.

Era a mãe dele que contava essas histórias.

E tu, cheia de vida, toda rosada, vais ser rainha naquela casa! És prendada, habituada ao trabalho, desenrascada tanto no campo como na lida da casa. Ainda bem que não vais para um rapaz novo, desses que nem sabem o que querem, cabeça oca… Não, este homem é caso sério. Tiveste sorte, Mariana.

Eu faço questão de trazer um garrafão de aguardente, passamos um serão descansado. Ele nem quer festa, não se faz quando se perde a primeira mulher. Também não quis dote, disse que a casa é cheia.

O Alexandre casou pela primeira vez por amor, mesmo sabendo que a Vera era delicada, quase sempre doente, e ainda a mãe dele dizia que ele precisava era de mulher de trabalho, mas ninguém teve força para o demover, só a Vera lhe servia.

Ouve-se pela aldeia que lhe fizeram uma reza, só alguém enfeitiçado carrega uma vida de leito e sofrimento.

Os médicos diziam que ela tinha os pulmões demasiado fracos; qualquer friozinho, logo vinha uma pneumonia, asma sempre em risco.

O Alexandre acreditava que o seu amor podia afugentar a morte, curá-la, e nos primeiros tempos, até parecia verdade. Eram tão felizes Mas quando a Vera engravidou, foi uma viragem. Ficou ainda mais fraca, tonturas, sempre cansada, não mexia uma palha. Não conseguia nem pentear o cabelo comprido.

Os médicos diziam que era dos enjoos, depois do parto melhorava. O Alexandre vinha-lhe em auxílio, sem nunca reclamar. A sogra não perdoava: noite e dia a dizer-lhe que aquela filha era só problemas, nunca mulher de trabalho. Mas ele defendia a mulher, afastou a própria mãe de casa.

Quando nasceu a menina, o Alexandre sonhou que tudo ia melhorar. E foi, por pouco tempo. Bastou uma constipação para a Vera nunca mais se recompor, e começou a definhar.

Levaram-na ao hospital, e o médico, num tom direto, sem rodeios, disse:
Ela está a perder os pulmões.

A Vera percebeu logo que não lhe restava muito tempo, fazia-se forte, sorria um sorriso triste, como se estivesse a despedir-se. Aquela magreza, as costelas a marcar nas costas, peito afundado, mãos fininhas, ombros caídos. Tudo dizia que a morte estava mesmo ao lado à espera.

Sentindo o fim chegar, a Vera chamou o marido para lhe falar.

Não há ninguém que consiga fugir aos desígnios de Deus. O nosso amor já não aguenta esta luta. Estou cansada, Alexandre, perdoa-me, e à nossa filha também. Nasci para sofrer e trouxe-vos à dor.

O Alexandre pegou-lhe nas mãos tão fininhas e beijou-as, percebendo que tinham só instantes antes do derradeiro adeus.

Falou-lhe do seu amor, do medo pela filha, pediu-lhe que cuidasse da criança, e depois sussurrou:

Casa-te com a Mariana, ela é boa rapariga, saberá ser tua esposa e uma mãe à altura. Já passou muito, conheço bem a vida dela e a minha mãe também. É trabalhadora, meiga e paciente. Vai gostar de ti e não vai magoar a nossa filha. Só te peço, trata-a com o mesmo carinho que tiveste por mim. Perdoa-me este pedido estranho, mas é o meu último desejo. E nunca faças mal à nossa filha, ou amaldiçoo-te do outro mundo.

Apertou-lhe a mão com as últimas forças.

O Alexandre chorava, mal conseguia ver a esposa através das lágrimas. Aos poucos sentiu que ela partia, serena, sorriso nos lábios, mão na dele.

Beijou-a de alto a baixo, prometendo cumprir o seu pedido. Por isso, passado um ano, foi pedir a mão da Mariana.

A madrasta dela já tinha sido avisada pela mãe do Alexandre, que também desejava uma boa mãe para a neta. Estava já doente, queria garantir que a filha e o genro ficassem bem.

Sabia demais o que aquele homem aguentou; agradecia-lhe com todo o coração o amor que deu à sua filha.

O pedido de casamento foi feito quase de olhos fechados, com ambos ainda a sofrer pelas perdas e pelo peso da nova vida. Ele tinha observado a Mariana, notado como era obediente, tão bonita, e até em algumas coisas parecia-se com a falecida mulher: o mesmo jeito de andar, o mesmo cabelo.

Às vezes apetecia-lhe chegar perto, apertar-lhe as mãos, fechar os olhos e fingir que era a Vera.

A Mariana, por sua vez, não sabia bem porque aceitou. Talvez estivesse farta de ser criada da madrasta, de arrastar o pai bêbado para casa, de ser gozada pelas irmãs, ou então teve pena da filha do Alexandre

O que fosse, quando aceitou, percebeu que ainda vinha aí mais uma luta aprender a amar e fazer-se ser amada por ele.

Depois do pedido, o Alexandre quis que a Mariana conhecesse melhor a filha.

A Vera passava todo o tempo possível com a pequena Leonor. Cada minuto era um olhar, um carinho. Mesmo à noite, bastava acordar e era vê-la inclinada sobre a filha, murmurando-lhe conselhos, como se preparasse para quando não pudesse estar ali.

O Alexandre nem queria pensar muito nas conversas silenciosas que a mulher tinha com a menina.

A Leonor era caseira, colava-se ao pai, à mãe, à avó e à outra avó resmungona. Nunca ligou a mais ninguém.

O Alexandre levou a Mariana a casa, para estar com a filha longe da madrasta, que parecia até aliviada, como se lhe tirassem uma vaca que não dava leite.

Sozinha com o Alexandre, a Mariana ficou a saber que ele era bem diferente do homem tempestuoso de que falaram: era carinhoso, atento e, à primeira, perguntou-lhe se ela tinha alguém de quem gostasse. Se tivesse, ele afastar-se-ia, nunca citou o pedido da mulher.

A casa impressionou a Mariana: mobílias feitas à mão, quadros bordados com molduras de madeira tão delicadas, tudo brilhava. Os quartos grandes, cheios de luz. E a pequena Leonor, ao ver Mariana, nem pestanejou foi buscar brinquedos e quis brincar com ela, sempre a tentar tocar-lhe na mãozinha, muito curiosa, a sorrir.

Mariana, a brincar, chegou a arranjar-lhe o cabelo.

Queres que te faça uma trança? Ficas uma princesa!

O Alexandre viu as duas, sentiu uma lágrima escorrer-lhe de alegria.

Tinha receio de trazer Mariana para casa a Leonor perguntava sempre pela mãe, olhava pela janela, sempre à espera de vê-la. Quando alguém entrava em casa, corria logo, na esperança de ser a mãe de volta.

O Alexandre explicou-lhe tudo como pôde, mas com quase quatro aninhos, a Leonor não precisava de palavras, precisava era de colo de mãe, de amor doce.

Ele sabia que, por mais que quisesse, nunca seria igual. Receava enganar-se quanto à Mariana. Mas ao vê-la ir-se embora, e a Leonor quase a chorar, sentiu uma paz.

A menina agarrou a Mariana pela mão, levou-a ao quarto, tirou a colcha, bateu as almofadas, subiu para a cama a saltar de alegria.

E a Mariana lembrou-se da própria infância, da chegada da madrasta, de um pão duro que tinha de dividir, de esconder doces para dar às filhas dela, dos vestidos remendados herdados, do pai caído pelo álcool, de o tapar, dela ser sempre a esquecida. E as ameaças: que a casaria ao primeiro transeunte, como se fosse gado sem préstimo, as maldições. Um nó na garganta. Foi até à Leonor, apertou-a forte no peito, deitou-se ao lado. E a menina ali dormiu, num sono calmo, feliz.

O Alexandre não sabia que fazer de tanta alegria. Tomaram chá em silêncio, entre sorrisos, e ele não a deixou ir-se embora.

Não deixou, e não deixou!

Uma mulher deve estar com o homem, e não onde não é bem-vindaA noite caiu devagar, como uma bênção. Mariana acordou com a pequena Leonor a abraçá-la ainda, a sussurrar Mamã a meio do sono, num fio de voz entre sonhos. Não era verdade Mariana nunca seria a mãe da Leonor, nem queria tomar dessa mulher ausente o lugar sagrado. Mas ali, deitada ao lado daquela menina, sentiu pela primeira vez que talvez pudesse ser, não uma substituta, mas uma esperança ternurenta, uma mulher que ficaria, porque queria ficar.

O Alexandre, no vão da porta, viu mãe e filha provisórias adormecidas, os cabelos misturados como raízes que se buscam debaixo da terra para sustentar uma árvore. Não ousou interromper. Em silêncio, agradeceu à Vera e à Mariana, à vida e ao acaso, por aquela semente de reconciliação.

Na manhã seguinte, havia pão quente e risos na cozinha, e o cheiro a casa nova, a promessa nascendo devagar. Ainda haveria dias de saudade, noites em que a ausência pesaria como pedra no peito de todos. Mas havia também o renascimento do afeto: Mariana, com as mãos trémulas mas o passo firme; Alexandre, mais leve a cada pequeno gesto; Leonor, finalmente a sorrir sem olhar para trás.

Assim, aprenderam a viver uns com os outros, sem se apagarem nem impor o em vez de. Porque desde essa noite a noite em que Mariana não foi embora e Leonor lhe chamou mamã sem medo o amor deixou de ser peso e passou a ser alvorada: discreto, suave, mas sempre de portas abertas, como quem diz fica, como quem diz és tu.

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