Casamento de fachada.
Eu e o Vasco temos um casamento de fachada. Aconteceu assim porque o Vasco precisava imenso do casamento para crescer na carreira trabalha numa empresa de renome em Lisboa, gerida por um verdadeiro defensor dos valores familiares, o Doutor Eduardo Martins, ele próprio chefe de um grande clã familiar. É pai de cinco filhas já crescidas, sogro de cinco genros e avô de oito netos e netas. Tem um enorme orgulho na sua vasta família e para ele a palavra solteirão é equivalente a um insulto. Um colaborador solteiro, para ele, não vale nada, independentemente das suas competências ou dedicação um verdadeiro pária na empresa.
Quando o Vasco se apercebeu disto, percebeu logo que um casamento oficial era imprescindível para atingir o cargo que ambicionava e que condizia com o seu talento. Depois de pesar bem todos os prós e contras, o Vasco propôs-me um casamento fictício. Não tinha nada a perder, porque nos conhecemos desde miúdos as nossas mães ainda hoje são grandes amigas. Passámos juntos toda a escola primária sentados lado a lado. Ele ajudava-me a resolver problemas de matemática e eu corrigia-lhe os textos. Ele conhece-me como ninguém e sabe que não tenho qualquer intenção de o prejudicar, que não lhe cobiçaria o apartamento, nem o dinheiro, nem qualquer outro bem em caso de divórcio.
Por mim, aceitei logo este casamento de conveniência. Nessa altura, andava a sofrer por amor, depois de um fim doloroso de namoro de três anos. Precisava mesmo de uma mudança para não cair de vez na depressão. E claro, aproveitei para dar uma lição ao ex-namorado: olha só, casei-me com um homem interessante, com futuro, com carro topo de gama e um T3 na Avenida da Liberdade bem melhor que tu! Também tive aquele orgulho de mostrar às amigas que estava em grande forma.
Assim, os nossos interesses alinharam-se na perfeição e casámos discretamente no registo civil lá do bairro, sem festas, sem clarins ou convidados, sem limusina branca nem soltar pombas, sem vestido de noiva ou véu, nem fato preto engomado. Numa simples tarde de sexta-feira, saímos mais cedo do trabalho para passar pelo registo e assinar os papéis. Claro que pusemos as alianças.
Na altura, até decidi experimentar o apelido dele: soava mais interessante ser Inês Turchino do que simplesmente Inês Oliveira.
É verdade que as nossas expetativas foram totalmente superadas. Logo no mês seguinte o Vasco foi promovido a Diretor de Departamento. Com todo o mérito. E o meu novo estatuto de mulher casada também me valorizou imenso na opinião das amigas e da família. Senti aquela satisfação especial quando recebi mensagens do ex: Espero que sejas feliz, mas nunca perdi a esperança de voltarmos…. Pois é, só damos valor quando perdemos!
Ou seja, este casamento trouxe resultados muito além do esperado.
A propósito, acabei por mudar-me temporariamente para casa do Vasco foi ele quem sugeriu, para tornar tudo mais verosímil.
Manhã de sábado. Estou na cozinha a fazer o pequeno-almoço uma omeleta, umas panquecas, café com leite. O Vasco gosta de começar o dia bem alimentado. Espreito pela janela. Está a nascer aquele maravilhoso dia de abril. Adoro a primavera.
O dia vai ser cheio: visitar os pais, tratar da limpeza, pôr uma máquina de roupa a lavar, pensar no almoço de sábado: talvez bifes de cebolada, um arroz de pato, pizza feita em casa, salada fresca. A mente vai saltando de tarefa em tarefa, como acontece a qualquer dona de casa.
No fundo, já vão quase treze anos de casamento fictício com o Vasco. A nossa filha Verinha vai começar o primeiro ano este setembro. O nosso filho Joãozinho termina agora o quinto ano e, veja-se, sempre foi aluno de quadro de honra! Sai ao pai. O pai, sim, é esperto e verdadeiro.
Não é por o nosso casamento ter começado como fachada que a vida deixou de nos surpreender. Descobrimos que, por vezes, as decisões que tomamos por necessidade acabam por nos ensinar sobre a importância de companheirismo, respeito mútuo e, sobretudo, sobre como a vida é melhor quando partilhada. O que conta, afinal, é a felicidade construída dia após dia, seja qual for a origem do caminho.






