Falha do sistema
Margarida, estás em casa?
Tomás, sabes que ao domingo de manhã estou sempre em casa.
Então abre a porta.
Fiquei parada a olhar pelo olho mágico durante uns segundos. O meu irmão, Tomás, estava no corredor com o casaco aberto e duas malas grandes aos pés, com uma expressão que só via quando perdia uma aposta importante. Atrás dele, viam-se dois silhuetas: uma mais alta, outra mais baixa. Fechei os olhos, só para confirmar se era aquilo mesmo abri de novo. Continuavam lá.
Destranquei.
Bom dia disse o Tomás a sorrir com aquele ar que eu reconhecia desde miúda: sorriso de quem vai pedir um favor.
Não respondi eu.
Ainda não disse nada.
Olhas assim, e quando olhas assim, a resposta é não.
O Rafael passou a correr, encolhendo-se ao lado do pai e olhando-me de baixo para cima, descalço, com o atacador já todo castanho a arrastar pelo soalho. Ao lado, a Leonor, de quatro anos e com um coelho de peluche já desfeito, olhava para mim com aquele interesse desarmante das crianças pequenas: sem nenhum medo.
Olhei para o chão. Carvalhos claros, com acabamento Nórdico da LusoMóveis, postos há três meses pelo mesmo senhor que tive de esperar mês e meio para aparecer. O atacador do Rafael já vinha lambuzado de qualquer coisa. Nem quis saber de quê.
Entrem suspirei. Mas tirem logo os sapatos.
O oitavo andar do novo prédio Coroa do Norte era o meu orgulho, o lugar que eu chamava conquista de verdade. Não era o cargo numa empresa de design de interiores, nem o carro, nem a conta bancária. Era o apartamento: 104 metros quadrados, pé-direito de três metros, janelas de cima a baixo com vista para o Parque da Cidade. Passei dois anos a decorá-lo, mudando candeeiros, escolhendo cortinados até encontrar o azul-pó perfeito, que ao final do dia se fazia quase cinzento. O sofá da LusoMóveis era cinzento e alto, e a mesa de café em madeira maciça tinha uma pequena racha que o vendedor chamou de caráter da madeira primeiro achei estranho, depois habituei-me. Era tudo arrumado, limpo, sem tralha. Cosméticos BelleVie alinhados por tamanho na casa de banho, toalhas iguais, cabides todos de madeira.
Foi tudo pensado ao detalhe para ter tranquilidade, daquele silêncio de cidade alta onde só se ouve o motor do exaustor Limeira na cozinha e, muito de vez em quando, a chuva nas janelas.
O Tomás pousou as malas no hall. As crianças tiraram os sapatos. O Rafael, claro, encostou logo a mão à parede branca.
Rafael.
O quê?
As mãos.
Ele olhou a mão, depois a parede, depois para mim.
O que é que têm as mãos?
Respirei fundo três segundos, que foi o exercício que aprendi no curso para lidar com stress: três para inspirar, três para expirar.
Tomás, fala depressa.
Ele foi até à cozinha, sentou-se no banco alto ao balcão e cruzou as mãos: gesto de rendição.
Nós, eu e a Sofia, vamos para um hotel rural. Oito dias. Precisamos mesmo de falar. Percebes? Não conseguimos com os miúdos em casa.
Não têm mais alternativas?
A mãe está nas termas até sexta que vem sabes disso. Os pais da Sofia estão na aldeia, tem lá uma coisa a passar, nem pensar em levar os miúdos. Margarida, peço-te só isto. Oito dias.
Oito dias.
Ou nove. Domingo que vem estamos aqui.
Do lado da sala ouviu-se um estrondo. Baixo, mas inconfundível. Coisa de cair.
Leonor, não mexas em nada! berrou o Tomás na direção da sala. Era o tom de quem já repetiu aquilo cem vezes.
Tomás… Disse eu mais baixo, porque aprendi que às vezes o tom calmo resulta melhor. Trabalho em casa. Quarta tenho uma reunião importante, tudo por videoconferência. Não percebo nada de crianças, não faço ideia do que comem, o que dizer, como dormir…
Comem tudo, menos cebola. Ah, o Rafael não gosta de tomate cru. Diz-se tudo, não são esquisitos. A Leonor adormece com o coelho, o Rafael gosta que lhe leiam uma história pusemos um livro na mala.
Tomás…
O meu irmão olhou-me e vi-lhe nos olhos algo que me apertou cá dentro. Não era pena era outro peso. Um cansaço sem discussão.
Se não formos agora, não sei o que acontece à nossa família. Percebes? Não sei mesmo.
Fiquei em silêncio. Lá fora, sobrevoava um daqueles cúmulos brancos sobre o parque, devagar.
Oito dias repeti, por fim.
Obrigado.
Não agradeças já. Não prometo não ligar daqui a três horas.
Estou atento. A Sofia também.
O Tomás saiu depressa. Beijou as crianças, disse qualquer coisa do género a tia Margarida é a melhor, deixou um papel cheio de notas em caligrafia de médico e, em menos de quinze minutos, já só se ouvia o trinco.
Eu fiquei no hall, a olhar para eles.
O Rafael e a Leonor olharam para mim.
E eu, para eles.
Então? perguntei.
Então respondeu o Rafael.
Têm fome?
Quero sumo disse a Leonor.
De quê?
Do laranja.
Sumol?
Não. O laranja. Aquele que é mesmo laranja.
Abri o frigorífico. Tinha duas garrafas de água das pedras, uma caixa com legumes cortados, iogurte BelleVie natural e meia garrafa de vinho verde. Sumo infantil? Nem pensar. Nunca fez parte da minha lista de compras.
Vamos ao supermercado.
Fixe! O Rafael berrou tão alto que ecoou pelas paredes. Três metros de tecto fazem dessas coisas.
Fiz uma careta.
O supermercado era ao lado, cinco minutos a pé. Em cinco minutos, a Leonor deixou cair o coelho de peluche quatro vezes, o Rafael carregou todos os botões do elevador, incluindo o do alarme, e contou-me uma história inteirinha sobre um colega do ATL que cospe a dois metros de distância. Fiquei a saber mais sobre o Vasco do que precisava.
Comprei quatro sumos diferentes, leite, pão, iogurtes de morango, massa, bifes de frango embalados, maçãs, bananas e bolachas coloridas que, claro, o Rafael meteu no cesto sem eu ver. Não devolvi. Ia ser o meu primeiro pequeno recuo estratégico em semanas.
O primeiro dia foi tranquilo, na medida do possível. Tirando o sumo laranja derramado pela Leonor na mesa de centro e o Rafael que, de corrida, bateu com o ombro no batente e chorou cinco minutos. Não fazia ideia de como consolar crianças. Dei-lhe água e disse que ia passar, o mesmo que digo aos adultos vá-se lá perceber, resultou. O Rafael bebeu, fungou uma última vez e foi ver bonecos no tablet que o Tomás deixou.
Às nove, não quiseram dormir. Nem às dez, nem às dez e meia. Li ao Rafael a história do urso e as framboesas duas vezes porque pediu. A Leonor já dormia, agarrada ao coelho. Levei-a ao colo para o sofá-cama da sala de visitas. Era leve, quente, um solzinho pequenino. Nem acordou.
Voltei para a cozinha, tirei chá de limonete do termo da Limeira e abri o portátil. Faltavam três dias para apresentar o projeto. Tinha de fechar dois slides e treinar a introdução.
Sentei-me, chá na mão e… não conseguia concentrar-me.
O dia seguinte começou às seis e trinta e sete. Recordo porque olhei o telemóvel Limeira no instante em que ouvi estrondo da sala.
O Rafael, madrugador, resolveu fazer uma fortaleza com as almofadas do sofá da LusoMóveis. Estavam todas no chão, a manta também, e ele no meio, já a trincar bolachas que, não faço ideia como, alcançou na prateleira de cima dos armários da cozinha. Migalhas por todo o lado.
Bom dia saudou-me com toda a energia.
Bom dia.
Sabes fazer panquecas?
Fofas?
Sim, redondinhas com xarope daqueles doce.
Não tenho xarope de ácer.
Que pena.
Fiz papas de aveia. Ele comeu sem protestos. A Leonor apareceu às oito, com o coelho, muito ensonada.
Quero papas como o Rafael.
A verdade é que não estava a correr mal.
Chegámos ao grande naufrágio na terça, às duas da tarde.
Eu estava concentrada no computador a rever a apresentação. Os miúdos brincavam na casa de banho, tinham permissão para meter barquinhos feitos dos recibos antigos que o Rafael encontrou na gaveta de cabeceira parecia seguro: água, barcos e silêncio.
Vinte minutos depois, o silêncio acabou.
Só reparei no problema quando fui buscar água e vi um fio brilhante a esgueirar-se do wc para o corredor.
Ai, não… disse, já era tarde.
A torneira estava aberta. Eles, entretidos a navegar, deixaram o navio principal entupir o ralo água já a transbordar há uns bons dez minutos.
Fechei a água. Suspirei. Fechei os olhos.
Ao fim de vinte minutos, já eu andava de trapo nos pés a salvar o chão e a pensar que os meus chinelos de lã BelleVie não iam sobreviver.
Chamaram à porta.
Quem é?
O vizinho de baixo. Sétimo.
Abri. Um homem alto, cabelo despenteado, à volta dos quarenta, jeans e camisola azul-escura de ar calmo, mostrava-me uma foto no telemóvel: o teto das fotos com uma mancha de água por cima da luz.
Sou o Gonçalo. Setenta e dois.
Margarida. Oitenta e quatro. Sei o que aconteceu. As crianças.
Percebi… guardou o telemóvel. Precisa de ajuda?
Fiquei a olhar, a pensar. Normalmente nesta parte começava a conversa sobre seguros, que ia chamar o condomínio, exigências… estava pronta para isso. Era aquilo que fazia em trabalho, aliás.
Disse ajudar?
Pela barulheira, deve ter ainda meio balde de água no chão. Tenho um secador industrial e uma esfregona de jeito.
O Rafael espreitou de trás de mim.
És o vizinho debaixo? perguntou.
Sou respondeu Gonçalo, sem azedume.
Os barquinhos navegavam bem?
Lindamente! Rafael animado. Fiz um porta-aviões!
Isso é sério.
Entre convidei, já não havia como contornar o assunto.
A seguinte hora é uma memória difusa para mim. O Gonçalo apareceu mesmo com a esfregona e ajudou sem feitio, até deixava o Rafael brincar com o pano, que ele levou como missão. A Leonor ia apontando para os cantos aqui também está molhado. E tinha razão.
O seu teto ficou mal? perguntei quando acabámos.
Pouco. Aquela tinta já estava velha, agora tem uma mancha. Passa.
Pago-lhe a pintura.
Vamos ver. Encolheu os ombros, não em tom de ameaça, apenas prático. Está com crianças há muito?
Segundo dia.
São seus?
Sobrinha e sobrinho. Não, não tenho filhos.
Acenou. Olhou para o Rafael, já de novo interessado no comando da televisão.
Olhe, meta um filtro no ralo da banheira. Vendem em qualquer casa de ferragens. E feche a torneira.
Vou lembrar-me.
Boa sorte. E já de saída: Se precisar, estou no sétimo. Bata à vontade.
Porque está tão calmo? perguntei, saiu-me sem pensar.
O Gonçalo demorou um segundo.
Gritar não seca o teto mais depressa.
Saiu. Encostei-me à porta. O sol já batia pela janela da sala, a Leonor e o Rafael disputavam as bolachas. Fui até à cozinha, reparti as bolachas em silêncio. Ambos olharam-me, sérios.
Quarta-feira de manhã, preparava-me para a reunião. Eles viam bonecos, e na cozinha estavam taças de maçã e bolachas. Tudo controlado.
A apresentação, às onze. Sentei-me de fato, mas por cima da t-shirt, camera ligada, auscultadores. Ligaram-se sete pessoas: diretores de Lisboa, Porto e Aveiro.
Os primeiros quinze minutos foram bem. Mostrei a nova coleção LusoMóveis, discuti preços, respondi a perguntas.
Ao minuto dezasseis, a Leonor abriu a porta.
Tia Guida! O Rafael tirou o meu coelho!
Leonor sussurrei com ar grave estou a trabalhar.
Ele diz que o meu coelho é feio!
É feio! gritou o Rafael da sala.
Peço desculpa, um segundo sorri para a câmara, ar de quem controla.
Mudei para pausa. Fui até à sala. Estavam ambos a puxar o coelho pelos lados diferentes.
Larguem o coelho, os dois.
Largaram. A Leonor abraçou logo.
Rafael, vê os bonecos sem barulho?
Já acabou.
Põe outro.
Qual?
O próximo.
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Olhei para ele, ele para mim. Peguei no comando, pus um desenho animado de animais falantes e regressei.
Oito minutos sem problemas. Depois, entrou o Rafael, sério, ao meu lado.
Tenho de ir à casa de banho disse alto, para a câmara ouvir perfeitamente.
O diretor do Porto riu primeiro, os outros seguiram. Fiquei vermelha, sensação rara em mim.
Sabes onde é sorri.
Ele foi. A reunião perdeu formalidade, mas ganhou simpatia. Um parceiro lisboeta contou que tinha três filhos e compreendia. Outro do Norte gostou da proposta. Combinámos nova chamada.
Fechei o portátil e fiquei sentada uns minutos, sem raiva. Era novo, não me lembrar de sentir raiva.
Fiz-lhes sandes de queijo. O Rafael disse que estavam boas. A Leonor comeu pouco, porque conversava com o coelho.
Às quatro, bateu o Gonçalo à porta.
Trouxe-lhe o filtro para a casa de banho.
Mostrou-me um saquinho com um acessório em borracha.
Foi à loja de propósito?
Ia buscar pão.
Entre.
Nem era minha intenção convidá-lo. Ele entrou, tirou os sapatos, o Rafael apareceu num pulo:
O senhor aí ajudou-nos!
Fui eu.
Já tens o teto seco?
Quase.
Ainda bem. Sabes jogar Jenga? Tenho aqui.
Sei.
E assim o Gonçalo acabou sentado ao chão, em frente à mesa de centro, a construir torres de madeira com o Rafael. A Leonor segurava o coelho, torcedora. Ele jogava a sério o respeito sentia-se, e acho que os miúdos estavam atentos a isso.
Eu fingia preparar jantar, mas estava a olhar.
Com cuidado, Rafael, esta peça da ponta sai melhor.
Como sabes?
As torres têm sempre um lado mais fraco. Só tens de encontrar.
Isso na vida também é assim? O Rafael, sério, seis anos de mundo.
O Gonçalo pensou.
Na vida, é parecido.
Acabámos todos a jantar juntos. O Gonçalo ajudou a cortar pão percebeu que eu não me ajeitava e encarregou-se, pão às fatias perfeitas.
Mora aqui há muito? perguntei.
Três anos. Vi quando você mudou. Vinha para o escritório.
Onde trabalha?
Gabinete de arquitetura, faço estruturas. Chato.
Porquê?
Ninguém liga se fica bonito, só se aguenta.
Mas isso é importante.
Sorriu não esperava ouvir isso.
Sim, é.
Os miúdos adormeceram cedo, nove horas. O Gonçalo bebeu chá, agradeceu e despediu-se.
Boa noite, Margarida.
Boa noite, obrigado. Pela ajuda.
É um pormenor.
Não, por não teres ficado zangado na terça.
Olhou para mim, um pouco mais atento.
Está a correr-te bem disse. Para quem é a primeira vez.
Como sabe?
Quem já passou por isto não parece que segura um vaso de cristal prestes a cair.
Ri-me a sério.
Ele saiu. Fiquei no hall, a olhar para o pequeno casaco azul da Leonor com botão de urso, e o casaco do Rafael.
Quinta e sexta passaram diferentes. Tudo um pouco menos rígido, com algum espaço para o inesperado. O ritual da manhã com as papas tornou-se quase habitual. A Leonor gostava de se sentar ao meu lado a desenhar coelhos, todos com nomes, numa folha do meu bloco de apontamentos.
Esta é a mãe coelha explicava, sem levantar os olhos. Este é o pai e o pequenino chama-se Botão.
Porquê?
Porque é redondo e fofo.
Faz sentido.
Sexta à noite, o Gonçalo apareceu com um jogo antigo, Cidades do Mundo, caixa roçada nos cantos. Os miúdos não conheciam as cidades mas jogavam como se fossem finais do campeonato.
Trouxe da casa dos meus pais. Trouxe para quê? Não sei, mas ainda bem.
Ficámos no chão porque já não cabíamos ao pé da mesa. O soalho parecia fresco, liso, confortável. A Leonor acabou deitada sobre mim, já a dormir, e só reparei quando a segurei.
O Gonçalo notou, mas não disse nada.
Sábado fomos ao parque ideia dele, e deixei-me ir. Era aquele parque mesmo, à frente das janelas. O Rafael encontrou uma poça, atravessou-a, molhou tudo, e a mim coube trazer os sapatos num saco os pés dele, nas meias, não o incomodavam nada.
Não ficas chateado, Rafael?
Porquê?
Os sapatos estão encharcados.
Vão secar. E, sem querer, invocou o Gonçalo.
O Gonçalo é fixe, tia Guida. É teu amigo?
É o meu vizinho.
É igual?
Quase.
Mas porquê?
Não soube responder. O Gonçalo, atrás, levava a Leonor aos ombros a explicar-lhe qualquer coisa sobre árvores.
No domingo à noite, o Tomás ligou. Voz diferente, mais leve.
Estão bem?
Vivos. Rafael atravessou uma poça. A Leonor desenhou quarenta e sete coelhos.
Aguentaste-te.
Nem foi mau. Olha, correu bem aí?
Pausa breve.
Muito melhor. Obrigado.
Fico contente. A sério.
Na segunda semana, acalmei. Já sabia que o Rafael não engolía tomate mas gostava de sopa de tomate se não dissesse nada. Sabia que a Leonor só adormecia se deixasse a janela entreaberta. Sabia também que às sete e meia ambos já pediam cama mesmo a resmungar. Coisas pequenas de quem está, e não vêm escritas em lado nenhum.
O Gonçalo ia lá todos os dias. Ora levava pão, ora só aparecia. Falávamos na cozinha, já depois dos miúdos irem dormir. Sobre trabalho, livros, a cidade, e tudo isso. Ele lia imenso, inesperado em quem faz cálculos de betão. Eu lia, mas andava desgastada.
O que andas a ler?
Só relatórios de trabalho…
Não contam.
Eu sei.
Queres que te traga um livro?
Traz.
Veio com um romance japonês mulher a descobrir as coisas da mãe depois dela partir. Eu lia naqueles primeiros trinta minutos do serão, e eram o melhor pedaço do dia.
Na quinta-feira, o Rafael perguntou onde era o meu trabalho.
Aqui, no gabinete.
Mostra.
Mostrei-lhe: o portátil, a caneca, catálogos, o cato na janela.
És feliz aqui?
No trabalho?
Sim. Gostas mesmo?
Acho que sim. Gosto.
O pai diz que o trabalho é para ser feliz. Senão, não vale.
O teu pai é esperto.
É. Tia Guida, porque moras sozinha?
Porque calhou.
Não querias companhia?
Acostumei-me. Estava bem.
Estavas?
Fiquei calada.
Estava.
O último dia chegou rápido. O Tomás apareceu ao meio-dia, a Sofia com ele, mais calma. Abraçou os filhos longamente. A Leonor não largou a mãe.
Margarida, nem sei o que dizer.
Não digas nada.
Portaram-se bem?
Portaram-se como crianças sorri.
A Sofia pareceu não estar à espera daquela resposta.
Arrumaram tudo em hora. A Leonor chorou um pouco a despedir-se, e eu garanti-lhe que podiam voltar. O Rafael deu-me um aperto de mão digno, antes de um abraço rápido.
Cerraram-se portas.
A casa ficou em silêncio.
Fui à sala. Havia uma almofada amassada no sofá o Rafael tinha estado ali de manhã no tablet. No chão, um desenho esquecido: uma família de coelhos mãe, pai e o pequeno Botão. E ao lado, uma figura loira de caneta, tia Guida escrito numa letra desajeitada.
Peguei no desenho e sentei com ele na mão.
Fui à cozinha, preparei chá, arrumei tudo. O lugar estava arrumado, limpo, silencioso, como eu gostava.
Esperei sentir alívio, como sentia depois de reuniões, festas ou visitas. O voltar ao meu silêncio.
Não veio.
No fim, havia só o desenho na mão e o silêncio que soava a pausa depois de música. Aquele momento antes de decidir se foi bom ou só estranho.
Sentei-me a olhar para o parque, chá na mão, a pensar no Rafael e na felicidade que me perguntou. Na Leonor, que adormecia colada a mim, na sexta à noite. No Gonçalo o modo como cortava pão, a calma de quem segura tudo, o estar ali por si, só por ser.
Pensei nas noites em que, finalmente, não acordei ansiosa pelo trabalho. Era novo.
Às seis da tarde, levantei-me, pus a minha camisola preferida azul-escura. Peguei no telemóvel. Larguei. Peguei de novo.
Não liguei. Desci ao sétimo andar e toquei à porta 72.
Abriu o Gonçalo poucos segundos depois, atento.
Eles foram-se embora disse eu.
Ouvi o fecho da porta.
Está silêncio.
Imagino.
Apetece-lhe chá? Pus a chaleira, posso aquecer de novo.
Pausa ligeira.
Apetece.
Subimos. Preparei chá. Sentou-se ao balcão, onde o Tomás esteve no primeiro dia. Outro lugar, outro tempo.
Sabe, hoje é o primeiro dia em nove sem obrigações. E não faço ideia o que isso é.
Sabe bem ou mal?
Não sei. É só… estranho.
Acostuma-se ao novo estranho.
O novo estranho?
Primeiro estranha-se a solidão, depois habitua-se, depois estranha-se outra vez quando muda.
Fala com experiência.
Levantou o olhar:
Fui casado. Seis anos. Agora não. Três anos sem.
Lamento.
Não lamente. Tínhamos de separar. Mais duro foi o silêncio depois. A diferença entre silêncio a dois e sozinho.
Fiquei a olhar para a chávena.
Sempre achei silêncio liberdade. Escolha.
Às vezes reconsidera-se a escolha.
Reconsiderou?
Estou a reconsiderar sorriu. Com ajuda dos pequenos que mergulham casas de banho.
Ri-me a sério.
Gonçalo…
Sim?
Você… Hesitei, podia sair pela tangente, mas não quis. Gosto de si. Quero que saiba.
Olhou para mim.
Ainda bem. Também gosto de si. Já pensei nisso.
Há muito tempo?
Desde o dia em que perguntou porque é que era calmo. Ninguém pergunta isso.
Estranho motivo.
Os meus são sempre.
Bebemos chá até tarde, falámos de tudo. Quando saiu, segurou a minha mão um instante.
Boa noite, Margarida.
Boa noite.
Fechei a porta, apoiei-me nela mas era outro sentimento. O silêncio era quente.
No dia seguinte, pus o desenho da Leonor em cima da prateleira perto do vaso. Os coelhos olhavam para mim. A tia Guida estava lá, loira, um pouco torta, mas era eu.
Passou um ano.
A casa estava diferente. Não muito, mas quem a conhecia notava logo: livros infantis numa prateleira em baixo, os da Leonor e do Rafael; novos vasos no parapeito um até meio torto, a Leonor ajudou a regar. Agora há dois casacos no cabide o meu azul-escuro e um cinzento de homem.
Na sala, o catálogo do Gonçalo aberto em desenhos. Uma chávena de café meio cheia e um livro com marcador ao lado.
Fico ao pé da janela a olhar para o parque, já outonal, acobreado. Estou com cinco meses, a barriga já se nota bem, e ainda assim todos os dias me habituo mais a isso como quem estranha e depois se encanta.
A porta abre-se.
Eles vêm aí diz o Gonçalo, na cozinha. O Tomás disse que já está a caminho.
Meia hora, então.
O Rafael ligou três vezes. Perguntou se pode ver bonecos ou se vamos ao parque.
Pode tudo, já lhe disse.
O Gonçalo mete água no chá e olha para mim.
Estás bem?
Estou. As pernas já pesam, mas estou.
Senta-te.
Prefiro ficar em pé.
Margarida.
Vou sentar Suspiro e vou para o sofá. Sabes, lembrei-me hoje: faz hoje um ano que eles foram-se embora, e eu estava aqui a pensar que ia sentir alívio pelo silêncio.
E sentiste?
Não.
Eu vi que vieste.
Estavas à espera?
Ele pára um instante.
Não sei. Esperava, talvez.
Tocaram à campainha alto, impaciente, só mesmo crianças.
É o Rafael, só pode.
Claramente.
Abre tu, não me quero levantar.
O Gonçalo foi abrir.
Tia Guida! o Rafael já entrou em força. Viemos! Vamos ao parque? Há folhas? O teu bebé já mexe?
Dá espaço, Rafael o Tomás ao fundo deixa as pessoas entrar!
Já entrei!
A Leonor entrou mais devagar, vinda do fundo da casa, procurou-me e veio abraçar-me, apertado, sem palavras. Depois afastou-se um pouco, séria.
Tia Guida, o meu coelho está aqui?
Está sim. Na prateleira do quarto dos hóspedes.
Sabia.
O hall era uma confusão alegre. O Tomás e o Gonçalo a rir, a Sofia (agora visivelmente em paz) a conversar comigo sobre a viagem, o Rafael já percorre a sala, descobre logo o livro do urso e da framboesa.
Tia Guida! Guardaste o nosso livro!
Guardei.
Vais ler ao bebé?
Claro.
Pronto! diz satisfeito, aprovado.
Gonçalo, vamos ao parque? Há folhas?
Há, sim.
Então já!
Primeiro chá. Depois parque.
Dizes sempre isso.
E vou continuar.
O Rafael olhou para mim, direito, como sempre:
Tia Guida, agora és mesmo feliz?
Na casa, o barulho bom: a Sofia a rir, a Leonor com saudades do coelho, o Tomás a inventar qualquer coisa na cozinha, o Gonçalo a fazer chá, a cidade pela janela, as folhas no parque, e o meu bebé a dar pontapés baixinhos mas seguros.
Olhei para o Rafael.
Agora sou respondi.







