Eu Não Te Odeio

Eu não te odeio

Afinal, nada mudou…

Vera mexia nervosamente na ponta da manga, observando pela janela do táxi as ruas familiares do Porto, aquelas mesmas onde, em tempos de juventude, corria com Rui, sorrindo e fazendo planos para o amanhã. Sete anos… Sete anos sem regressar a casa.

Chegámos, anunciou o condutor, interrompendo suavemente os seus pensamentos.

O táxi parou diante do prédio antigo, um edifício de três andares coberto de azulejos. Vera confirmou se tinha o telemóvel, pegou na carteira, pagou os 10 euros e saiu do carro. A porta bateu ficou parada por um momento, inspirando o aroma daquela cidade que fora sempre o seu lar. O cheiro era diferente de Lisboa, onde vivia agora. Aqui, cada fragrância, cada ruído, acordava algo adormecido dentro dela: o odor da relva acabada de cortar no jardim, o cheiro do pão quente vindo da padaria da esquina, um aroma indefinido e inconfundível, que não se chamava senão casa. O coração apertou-se de uma dor doce, entre a alegria e o medo do que o reencontro com o passado poderia trazer.

Tinha vindo para passar pouco tempo. Oficialmente, seria só para ajudar a mãe com documentos pendentes. Também queria rever velhos sítios para confirmar se permaneciam iguais às memórias. No entanto, havia outro motivo, aquele que guardava como segredo: queria ver Rui. E, quem sabe, talvez a vida tomasse outro rumo.

Sabia que ele morava perto dali. Nunca o procurara abertamente, mas conhecidos, quando se cruzavam ou pela internet, por vezes diziam algo sobre ele: trocara recentemente de emprego e estava numa empresa importante, tinha comprado um apartamento, trouxera a mãe para junto de si Sempre que ouvia falar dele, imaginava-lhe o rosto, o jeito de andar, o que pensaria naquele instante. E afastava as lembranças, com medo de se perder nelas.

**********************

No dia seguinte, Vera decidiu passear pelo centro do Porto, sem destino. Queria apenas sentir de novo o pulsar das ruas, ver como estavam aqueles locais de sempre, provar o aroma da cidade simples e sincera. Parou junto ao quiosque onde comprava revistas de banda desenhada, sorriu ao passar pelo banco de jardim onde, depois das aulas, se sentava com amigas, e espreitou, com nostalgia, o café onde provou o primeiro galão, entornando-o quase todo por cima da blusa nova.

Então, viu-o.

Rui atravessava a avenida do outro lado, olhar fixo em frente, como se meditasse sobre algo importante. Vera ficou parada, o coração disparou-lhe no peito, esqueceu-se de respirar. Ele não tinha mudado quase nada a mesma altura, o andar descontraído, o cabelo igual ao de antes.

Sem pensar, Vera atravessou apressada a passadeira. O sinal mudou para amarelo, ouviu-se uma buzina, mas ela nem deu conta. Sentia-se puxada, como se o corpo soubesse o seu próprio caminho. Quando o alcançou junto à pastelaria, chamou por ele, hesitante:

Rui!

A voz tremia-lhe; não imaginava que as emoções a dominassem tanto. Ele virou-se. Nada mudou na expressão dele nem alegria, nem raiva. Só uma calma fria.

Vera? disse, surpreso, mas sem inflexão.

Aquele tom tranquilo, vazio, magoou-a mais do que esperava. Tudo o que ficara guardado tantos anos irrompeu. Os olhos encheram-se de lágrimas, e ela não conseguiu parar.

Rui, eu tenho tanta culpa Sei que talvez nem deveria estar aqui, mas eu Engasgou-se, chorava sem tentar esconder-se. Eu amo-te. Ainda te amo. Perdoa-me. Por favor perdoa-me!

As palavras surgiam precipitadas, quase sem controlo. O pensamento era um novelo de justificações e súplicas, mas só conseguiu dizer o essencial: aquilo que guardara em silêncio durante anos.

Abraçou-o, prendendo-se a ele com força, como tentando resgatar tudo aquilo que perdera sete anos antes. Durante um instante, para ela, não havia rua nem gente à volta, mas apenas o calor dos braços dele e a esperança ténue de que fosse correspondida.

Rui não se afastou logo. Por um instante breve, pareceu hesitar os ombros cederam um pouco, até as mãos levantaram-se como para corresponder ao abraço. Essa esperança reacendeu nela o desejo do impossível: se calhar, ainda podiam recuperar o que ficou por viver.

Mas logo o gesto se esfumou. Rui apertou-lhe os ombros e, com delicadeza, afastou-a. O rosto ficou impassível; o olhar, distante. Ali não estava o rapaz que lhe prometera o mundo ao ouvido, mas um homem adulto, endurecido pelas decepções.

Vai-te embora, sussurrou ele junto ao ouvido dela.

Disse-o baixo, quase sem emoção, como se ela fosse uma estranha.

Odeio-te, acrescentou, desta vez deixando transparecer desprezo.

Virou costas e afastou-se sem olhar para trás. Vera ficou imóvel. O mundo à volta seguiu sem reparar nela: pessoas apressadas, carros a buzinar, crianças a rir ao longe. Só o som dos passos dele e a dificuldade em respirar lhe preenchiam a cabeça. Uma frase martelava-lhe o pensamento: Isto é mesmo o fim.

Caminhou devagar até casa. As pernas mal a sustentavam; cada passada era um esforço. Por dentro, não restava nada só as palavras cortantes de Rui a ecoarem.

Entrou calada no apartamento da mãe, sentou-se diante da janela, sem saber o que explicar. A mãe, ao ver-lhe o olhar baço e as lágrimas por limpar, não a interrogou. Só suspirou e foi pôr a água ao lume para o chá. O ritual simples, o aroma do chá preto, ajudaram-na a regressar, pouco a pouco, à normalidade.

Ele não me perdoou, murmurou Vera, apertando a chávena. O vapor subia e fazia-lhe cócegas no rosto, mas nem sentia. Os dedos agarravam-na como se quisessem prender ali a última réstia de calor.

A mãe sentou-se ao lado, passou-lhe a mão pelo ombro num gesto antigo, igual ao de quando era menina e voltava a casa magoada. Por breves instantes, Vera voltou a ser criança, sem soluções para a tristeza.

Tu sabias que ia ser assim, disse a mãe, sem acusação, apenas com uma tristeza quebrada.

Sabia, Vera assentiu devagar, olhando por fim para a mãe. Sentia-se tão cansada, tão vazia. Mas tinha esperança. Que parvoíce, não?

Não é parvoíce contrapôs, com doçura, a mãe. Mas foste tu que fizeste esta escolha. Magoaste muito o Rui, ele fechou-se como um escudo. Tornou-se duro. Nenhuma outra pessoa conseguiu chegar-lhe ao coração.

Vera inspirou fundo e pousou a chávena. Viam-lhe à mente imagens do passado.

Tinha vinte e dois anos. Nessa idade, o futuro parece sempre iminente, brilhante, sem grandes obstáculos. Rui era simples, honesto, um pilar seguro. Não era de grandes discursos, mas transbordava actos de generosidade: estava lá para tudo, apoiava-a em silêncio, era presença constante.

Só havia um problema ou pelo menos era isso que Vera pensava. Rui trabalhava na construção civil, estudava à noite, sonhava abrir uma pequena empresa. O projeto tinha cabeça, mas o sucesso prometido era coisa de longo prazo e Vera não queria esperar.

Nunca desejou luxos. Queria estabilidade, saber que podia contar com um emprego, um teto, tempo para organizar o futuro. Mas ao lado de Rui, tudo parecia incerto: trabalhos precários, horários partidos, sonhos ainda sem alicerce.

Quando um tio de Lisboa ofereceu-lhe emprego numa boa empresa, aceitou sem hesitar. Era a oportunidade concreta que tanto ambicionava.

Na verdade, havia outra verdade, mais ocultada. Durante aqueles meses em Lisboa, apareceu Luís homem de negócios, seguro, elegante, mais velho, habituado a ter o que queria. Conheceram-se num jantar de empresa. Luís cativou-a logo: fazia perguntas sobre a sua vida e tratava-a com deferência.

Vieram as atenções: flores, pequenos presentes, convites para restaurantes e espetáculos, as idas a lojas caras onde ela nunca entrara em estudante. Luís dizia-lhe sempre que ela merecia o melhor e que não devia contentar-se com menos. Aos poucos, Vera deixou-se envolver. O mundo luxuoso de Luís seduziu-a jantares tranquilos, vestidos caros, preocupações financeiras eliminadas.

De início, estranhou tudo aquilo, mas a facilidade e segurança daquela vida venceram-na. Esqueceu por completo o namorado distante, chegou a desprezar as ambições vazias de Rui, convencida de que ele nunca seria alguém.

Um dia, Vera regressou ao Porto. Não por saudade, mas para provar que estava bem. Marcou encontro num café onde sabia que o Rui ia. Vestiu o vestido caro, exibiu o anel que Luís lhe dera, mostrou a mala de designer, sentou-se em posição para ser vista. Quando os olhares se cruzaram, leu nos olhos dele surpresa, mágoa, confusão, tudo aquilo que negligenciara nos últimos meses. Mas, em vez de desviar o olhar, sustentou-o.

Sentiu-se vencedora. Convencia-se de ter feito a escolha certa: a vida fácil, as oportunidades, a confiança de amanhã. Convencia-se de estar realizada, afinal tinha o que sempre quis.

Mas assim que Rui saiu, uma sensação de vazio começou a crescer. Olhou para o anel, para a mala de couro, para o companheiro elegante do lado, e de repente sentiu tudo artificial. Continuou a forçar um sorriso, mas dentro dela ecoou valeu mesmo a pena?.

**********************

A vitória revelou-se amarga, embora Vera tenha demorado a perceber. Ao início, Luís manteve a pose do homem atencioso e generoso: ofertas, jantares, elogios. Aos poucos, as atenções minguaram; em vez de palavras ternas, surgiram críticas discretas, depois diretas. Apontava-lhe falhas, dizia-lhe para cuidar mais da imagem, criticava o riso, a simplicidade dos amigos de infância.

O tempo dele tornou-se raro. Sumia durante dias, por vezes semanas, enquanto ela ficava sozinha no apartamento moderno. Os serões eram passados a olhar para as luzes da cidade e para o relógio. Quando tentava falar, ele respondia seco:

Tens tudo o que querias. O que mais queres?

Vera arranjou desculpas, acreditou tratar-se de stress do trabalho, de cansaço. Mas no fundo sabia: tinha-se tornado apenas mais um acessório de luxo. Quando a novidade passou, o interesse de Luís acabou.

Tolera o desdém, a ausência, as respostas frias porque não conseguia admitir o erro. Se admitisse o fracasso daquela vida, teria de encarar outra realidade dura: perdera o único homem que a amou de verdade. Rui, com todos os defeitos e limitações, valorizava-a por ser simplesmente ela.

Os vestidos, joias, perfumes tudo perdeu o encanto. Sair voltou-se um sacrifício. Quantas vezes ficou a olhar pela janela, a perguntar-se e se mas temia as respostas. Pensei tantas vezes que a estabilidade resolveria tudo, mas agora percebo: a vida sem amor é uma casa arrumada mas vazia.

Recordava o toque das mãos de Rui rudes, mas quentes. Recordava o sorriso dele contido, honesto. Falava do futuro com humildade, mas firmeza e ela sentia, então, que com ele não havia perigos.

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No terceiro dia no Porto, decidiu passear pelo Jardim das Virtudes, onde tantas vezes estivera com Rui. O banco debaixo do plátano, ainda ali, evocava as conversas tolas sobre tudo e nada. Recordava quando Rui lhe disse, com os olhos postos nas folhas: Quero um lar nosso, com janelas grandes e luz a entrar de manhã, para que a felicidade nunca nos falte. Achava essas palavras ingénuas hoje pareciam preciosas e irrecuperáveis.

Parou a contemplar, puxando o ar frio com força. Nesse instante, ouviu uma voz familiar:

Vera?

Era António, amigo de ambos. Sorriu, genuinamente contente com o acaso do reencontro.

Não esperava ver-te por aqui, comentou, olhando-a com camaradagem. Está tudo bem?

Ela quis responder de ânimo leve, mas a voz vacilou ao tentar sorrir.

Vim ver a minha mãe conseguiu dizer, disfarçando.

António assentiu, sem insistir. Senta-te um bocadinho, vinha agora mesmo descansar.

Sentaram-se juntos. António falou das novidades, de como o Porto mudara pouco. O tom natural e amigável acalmou-a. Vera sorria, respondendo esporadicamente, mas a mente prendia-se ao paradoxo em que vivia: regressar para enfrentar um passado que nunca fora embora.

De repente, sóbrio, António perguntou:

Já viste o Rui?

Os olhos dela baixaram automaticamente, repousando nas folhas caídas. A memória do encontro doloroso fez-lhe tremer a voz:

Sim, ontem.

E então? indagou ele com cuidado.

Ele… não me quer ver. Odeia-me.

O amigo suspirou, encostando-se para trás, olhando para o caminho forrado de folhas.

Sabes, ele ficou muito mal. Não disseste nada, não deste sinal de vida. Para ele foi como uma facada.

Vera apertou as mãos nervosamente. Sentia a culpa magoar como nunca.

Eu sei, murmurou. Fui cobarde.

António não a julgou. Tentou esquecer-te. Namorou, mas nunca resultou. Ontem desabafou comigo, estava completamente perdido. Não voltes a abrir-lhe feridas. Precisa de paz, Vera.

Vera aceitou, em silêncio. Percebeu finalmente que, ao regressar sem aviso e procurar reconciliação, só agravou tudo. Quis compensar, mas só infligiu nova dor.

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Nessa noite, Vera ficou sentada à janela do apartamento, a ver as luzes do Porto acenderem, criando um cenário embalado entre nostalgia e amargura. Imaginava como teria sido se decidisse ficar: o primeiro apartamento juntos, a luta de Rui para abrir o negócio, as pequenas celebrações, as dificuldades ultrapassadas com amor. Tantos momentos felizes jamais vividos, tantas palavras por dizer. O passado era agora uma muralha intransponível.

No dia seguinte, Vera despediu-se da mãe, sem pressa, quase relutante. Esta abraçou-a demoradamente à porta, sem palavras de censura, só ternura.

Cuida de ti, filha murmurou.

No comboio para Lisboa, Vera olhou, imóvel, pela janela: a cidade a perder-se, famílias apressadas, crianças a brincar, o cheiro do pão e o Porto a desaparecer ao longe. Tudo parecia igual; só ela estava diferente.

Lá atrás ficava o único homem que realmente amara. Nunca explicara bem o porquê do adeus, nunca lhe dera oportunidade de se despedir. Agora, o que restava era aceitar ele estava perdido para sempre.

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Meio ano passou. Vera retomou a vida em Lisboa: trabalho, cafés, encontros, rotinas. Por fora, nada mudara; por dentro, tudo estava diferente. Não tentava mais esconder o passado nem fugir do arrependimento. Sabia assumir o erro e a própria dor, sem se refugiar em distrações ou novos começos.

Aprendeu a acordar e dizer a si mesma: Isto aconteceu, não posso voltar atrás. E, nesse realismo, encontrou algum alívio não alegria, mas alguma serenidade.

Numa noite, enquanto fazia o jantar, o telemóvel vibrou. Pegou-lhe, distraída, e viu um número desconhecido. Uma mensagem breve: Eu não te odeio. Mas também não posso perdoar-te.

Ficou gelada, os dedos a tremer. Sentou-se no chão, abraçando o telemóvel. Durante um longo minuto, sentiu o peso do impossível, mas também um fio de esperança ténue porque alguém, naquela cidade longe, pensou nela e tomou a iniciativa de escrever.

Não sabia se aquilo era o princípio de um reencontro ou o fim definitivo. Talvez fosse apenas a última lembrança de uma história preciosa. Mas, de repente, percebeu: existe sempre lugar para perdão, mesmo que não se esqueça. Entre ruínas, algo se constrói nem que seja uma silenciosa aceitação.

Vera sorriu entre lágrimas. Afinal, há sempre tempo para recomeçar não o passado, mas a vida. E o verdadeiro valor está, não em bens nem certezas, mas no modo como tocamos e somos tocados pelos outros. E mesmo depois de grandes erros, é possível perdoar e aceitar, abrindo espaço para o futuro seja ele qual for.

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