Tulipas
Nossa Senhora, que coisa mais linda! Dona Olinda, a senhora é uma verdadeira fada!
As tulipas coloridas enchia os olhos de alegria. Catarina sabia bem o esforço que dona Olinda dedicava a essa beleza toda. Já fazia alguns anos que a vizinha transformara aquele pátio triste e cinzento num autêntico jardim florido. Até o parque infantil, para onde Catarina agora levava a filha Inês, era obra da Dona Olinda. Aquela mulher tinha mesmo dom para fazer tudo bonito! Antes, ninguém reconheceria o pátio: agora estava limpo, arejado. E as flores? Nem se fala! Cada uma foi plantada por ela com as próprias mãos. Catarina estava ali há quase quinze anos, desde que os pais se mudaram para aquele prédio, e nunca tinha visto ninguém tirar um minuto para plantar flores ali. Só a dona Olinda, e isso nem fazia tanto tempo. Foi depois que perdeu o marido que se pegou de corpo e alma no jardim.
É duro ficar sozinha naquela idade, sabes? O filho mora lá longe e ela não tem mais ninguém para apoiar. Falou que não queria sair do Porto lá passou a infância e ficaram todas as memórias. E o filho com outra vida, outra família, e aquela nora difícil. A nora sempre grudada à mãe, cheia de apoio, sem precisar de mais ninguém. E Olinda? Por mais simpática, era sempre de fora.
A Dona Olinda nunca se queixava à Catarina, mas ela via, nos olhos, tanta tristeza. Dói demais essa solidão
E Catarina entendia bem. Quando se separou do primeiro marido, quase enlouqueceu de tanta saudade e raiva. E até que podia ter deixado passar, fingir que não era nada demais, aquela “coisinha” que o ex fez com outra. Mas como perdoar, ainda por cima, quando a “amiga” envolvida era a Sofia, parceira de carteira desde o básico, oito anos juntas, tantas confidências
Olhou nos olhos da Sofia sem vergonha, pegou as chaves de casa das mãos do ex, e entrou naquela ressaca emocional de corpo e alma. Passou uma semana só chorando, largada, até uns dias de férias sem vencimento pediu para poder viver o luto.
Só que nem teve tempo de sofrer tudo o que queria. Lá estava, abraçada a um balde de gelado, inchada de tanto chorar, cheia de raiva, quando alguém desatou a bater na porta, não a bater, a arrombar! Nem passou pela cabeça deixar de abrir quem faz tanto barulho só pode estar em apuros.
Catarina meteu umas calças de ganga e abriu.
Dava medo ver dona Olinda daquele jeito. Catarina sempre conhecera ela tranquila, segura, aquela vizinha com sorriso afável que passava dizendo “bom dia” a todos, parando para perguntar pelas crianças.
Como está o estomagozinho do Rui? A Beatriz já dorme melhor? E a Leonor, o leite está suficiente?
Era médica, mas pediatra de alma, não só de diploma. Olhava por todos, sempre pronta a ajudar. Dona Olinda era dessas.
Mas, naquele dia, não era ela. Era como se uma versão triste e desfeita daquela mulher se tivesse apresentado à Catarina.
Com o cabelo todo despenteado, sofrimento estampado no rosto, viu Catarina e, como que fugindo da própria tristeza, perguntou séria:
O que se passa, Catarina? Por que estás de olhos tão inchados, estás doente?
Aquele cuidado devolveu Catarina à realidade, a tirou dos próprios dramas. Ali, diante dela, estava uma dor bem maior que a dela própria.
E de facto, era mesmo assim. Dá para perder um marido e saber que, mesmo doendo, ele está lá, inteiro, vivendo outra vida. É difícil, mas não é o mesmo que perder de vez, para sempre. Não há mais volta.
O marido da dona Olinda não chegou ao hospital a tempo. Tentou evitar chamar a ambulância, isso de sempre confiar nos comprimidos, mas desta vez não deu. Quando decidiram ir já era tarde…
Aquela mulher, que todo sábado comprava queijo fresco e tomates no mercado, encontrou o marido caído à porta, provavelmente tentando encontrá-la, mas não chegou a tempo.
Naquele dia, Catarina só pegou no telemóvel, atirou um casaco pelas costas e saiu atrás da vizinha.
Voltou tarde. Jogou fora o gelado derretido, arrumou a casa toda, ficou horas sentada na mesa da cozinha a desenhar círculos com o dedo na chávena fria, a matutar na vida.
No dia seguinte, Catarina tratou do divórcio. Percebeu que não valia a pena adiar a vida. Sofrer, por sofrer, não leva a lado nenhum. Ou se vai em frente, ou se fica parado vivendo de lamentos. E a vida não se repete, cada dia conta. Então, para quê perder tempo com raiva e mágoa? Nada melhor que sacudir o pó dos pés e seguir.
E não é que conseguiu? Foi devagar, mas saiu do buraco fundo onde tinha se deixado cair.
Novo trabalho, novo amor tudo difícil, mas agora Catarina tinha o Diogo e a Inês, e a vida parecia outra.
Já a dona Olinda, era tudo menos cor-de-rosa. Sim, sobreviveu à perda do marido, foi aprendendo a aceitar a ausência. Mas só quem olhava de perto reparava aquela alegria de outros tempos tinha sumido. Só restava uma sombra da vizinha risonha de antigamente.
Por fora, continuava dando os bons dias, perguntando pelas crias alheias, mas Catarina via bem que era tudo gesto de hábito, sem brilho, como um sorriso congelado.
Foram passando anos Catarina soube que Dona Olinda se reformou e praticamente mudou-se para a casa da aldeia. Mas nem isso durou: vendeu tudo para ajudar o filho a pagar um apartamento em Lisboa. Como não ajudar? Era o único filho!
Depois da venda da casa, Catarina percebeu que não podia ignorar dona Olinda. Não fazia sentido deixar de lado uma vizinha de tantos anos, ainda mais aquela que corria para acudir qualquer um, a qualquer hora, esquecendo dos próprios problemas. Não dava para fingir que estava tudo bem.
Catarina lembrava dos pais dizendo sempre: Nunca ignores quem está ao teu lado, Catarina! Ajuda na medida do possível. Um dia vais precisar e alguém também te estenderá uma mão. Nem que seja com palavras.
Para ela, família sempre foi todo mundo ajudando-se. Mesmo agora, com os pais morando perto da irmã mais nova a viver em Aveiro, ela ligava todos os dias, sem obrigação, só porque precisa dessa certeza: alguém se importa, alguém a ama.
Mas com dona Olinda, palavras já não chegavam. Ela ouvia, sorria, mas a vida ia se apagando. Cada vez mais magra, sumida, mal saía de casa.
Era claro: custava-lhe viver. Ir levando só porque sim, sem esperança, é difícil. O filho fez nova vida noutra cidade, era bom, mas a solidão doía.
De resto, só restavam tarefas a favor dos outros vigiar os filhos dos vizinhos, raras conversas com amigas igualmente ocupadas com casas, netos, bisnetos
E o resto, era solidão. Quando se desliga a televisão e o silêncio quase assusta, vontade era uivar para a lua de tanta saudade.
Com o tempo, Catarina via que os papos não ajudavam. Depois das conversas, dona Olinda sumia. Nem no pátio, nem em casa se via. Ou talvez não queria abrir a porta.
Quando viu que palavras de consolo nada faziam, Catarina pensou: se calhar é preciso agir. Fazer alguma coisa que distraia, que anime.
E, como quase sempre, a ideia veio do acaso! O Diogo de vez em quando surpreendia-a com presentes, mas nunca um teve mais impacto que aquele ramo enorme de tulipas que trouxe antes da Inês nascer. Foi aí que Catarina gritou: Eureka!. Diogo achou que ela tinha pirado, culpa dos hormônios da gravidez, mas logo entendeu. No dia seguinte, lá ia Catarina, batendo na porta da Dona Olinda, empurrando com a biqueira uma caixa cheia de bolbos de tulipa. Diogo sumiu assim que ouviu o trinco.
Agora sou eu!
E olha que a história pegou mesmo.
Catarina inventou tão bem que tinha se perdido diante de uma senhora a vender flores na rua, que depois não fazia ideia o que fazer com tanto bulbo, que até ela própria acreditou.
Lembrei que a sua casa no Douro era cheia destas flores lindas! A senhora sempre levava ramos para minha mãe! Socorra-me! Nosso pátio está um deserto! E se plantássemos flores? Fica bonito, não fica? Só que eu não percebo nada disto, e ajudar agora nem sei se posso Catarina passou a mão na barriga, mãos juntas a pedir.
A Dona Olinda mexeu nos bolbos, ameaçando Catarina com o dedo, mas sorriu coisa rara ultimamente.
Vai ficar lindo, mas olha, Catarina, só as tulipas não chegam. São bonitas, mas duram pouco. Melhor pensar noutras plantas para o jardim ficar colorido todo o ano.
Assim começou aquela transformação do pátio em jardim de sonho.
Ninguém estava disposto a pôr as mãos na terra, mas para comprar sementes e mudas todos davam alguns euros. Catarina fazia as compras no começo, depois nasceu a Inês e Dona Olinda tomou conta de tudo.
Só o jardim já não chegava. Aproveitou antigos contactos, e de repente havia parque infantil, bancos novos, tudo arrumado.
O pátio ganhou vida.
Os homens do prédio, de início só olhando, logo arregaçaram as mangas no sábado de limpeza, e ergueram a cerca do jardim. Dona Olinda até chorou ao ver o novo gradeamento pintado de branco.
A partir daí, ela não parava: plantava, regava, arrumava. Ganhou um novo alento, e Catarina ficava contente por ver. Saía passear com a Inês, dava a volta com o carrinho, e agradecia mentalmente ao Diogo pelaquelas tulipas que mudaram tudo.
Quando a Inês começou a andar, Catarina mal podia esperar para lhe mostrar as primeiras tulipas floridas da Dona Olinda.
Um dia, lá estavam! Finalmente!
Catarina ficou especada a olhar a zona florida, soltou até a mão da Inês por um instante. Logo a traquina aproveitou e correu.
Inês! Catarina correu atrás, para não deixar a miúda chegar ao passeio.
Dona Olinda endireitou-se, pôs de lado o pincel com que pintava a cerca, e desatou a rir:
Apanha, apanha, Catarina! Olha aí o teu fitness sempre a queixares-te que não tens tempo para o ginásio!
Nem diga nada! disse Catarina, agarrando Inês, a menina gritando e fugindo dos beijinhos da mãe. Onde se compram meninas tão rápidas?
Rápidas, rápidas, mas já reparaste que ela corre na ponta dos pés? Dona Olinda ficou séria.
Já Em casa também, quando está descalça. Nota-se logo. Isso é mau?
Mostra à neurologista, por precaução. Deixa ver.
Tem alguém para recomendar?
Dou-te os contactos. Passa cá mais logo. Os mais velhos vão-se apagando, muitos a tomar conta de netos, outros com bisnetos. De médicos novos conheço poucos, tenho de perguntar ao pessoal.
Perguntar como?
Pôr a funcionar o ‘rádio-caldeirada’, ora! Dona Olinda riu de novo. Ligo a quem conheço, vê se alguém recomenda algum aluno.
Obrigada!
Nada de quê. Como vão as coisas aí em casa?
Tudo bem! Só o Diogo anda a trabalhar demais. Mal o vejo. Chega tarde, sai cedo…
Isso é até bom! Antes responsável que um preguiçoso de sofá, não é?
Pois, pois…
Olha Catarina, muita menina por aqui queixa-se disso, principalmente com o primeiro filho. Querem mimos, atenção. Depois refilam com o marido, fazem cenas. Mas queres que te diga? Nunca vi essas zangas levarem a nada. O marido nunca escuta. Não é que não queira, é que entende tudo de outra maneira. Ela fala do quanto está cansada, da rotina, e ele só pensa na mesma coisa. Percebes?
Entendo. Ainda faço igual às vezes. Recrimino-me, mas falho na mesma. O Diogo é top, não tenho do que reclamar, mas às vezes perco a paciência. Nem sei o que fazer com isso.
É fácil, Catarina. Diz o que sentes, mas com calma. Dá o jantar, oferece chá, depois fala. Não grites, não faças drama.
Como assim?
Ah, rapariga! Sempre foste esperta, mas nunca aprendeste aqueles truques de mulher (risos)? Não acuses o marido, não ataques. Fala nas circunstâncias. Se disseres que ele é um péssimo marido, só vais criar conflito. Agora, se disseres que tem saudades, que sente falta dele, que a filha está sempre à espera do pai, ou que mal esperam pelo fim-de-semana para estarem juntos, achas que ele se zanga?
Claro que não.
Então, fica dito. Quase meio século de casamento aqui com o meu Nicolau, só discutimos a sério uma vez!
Porquê?
Nem acreditas. Por causa de um cão! O meu filho tanto implorou um cachorro, eu era contra. Sabia que a brincadeira ia acabar toda em cima de mim. Tinha trabalho, casa, criança pequena, marido sempre fora em serviço. Quem ia passear o bicho?
Acabaram por aceitar?
Tivemos de aceitar.
E como foi?
Ótimo! Perdi quase dez quilos! Era uma bruta de uma cadela cheia de energia, se não passeava bastante, destruía a casa. Acabei a correr pela rua, toda fit!
E o filho?
Saiu ileso! Ele estava no início da escola, não podia sair sozinho, de manhã não acordava Tudo caiu para mim. Só nos fins-de-semana, quando o Nicolau estava, podia descansar um bocado. E o bicho, espertalhão, percebeu logo que eu é que era a companhia ideal para as caminhadas matinais me acordava cedo todos os dias, sabia que se levantasse, o marido já não ia.
Ai, tão esperta! Catarina riu.
Puxou-me a mim! Dona Olinda afastou o balde de tinta de perto da Inês. A mãe depois não te limpa, Inês!
Depois, despediu-se e foi com a filha para o parque. Baloiços, areia, jogos de mãos tudo como sempre.
Quando iam a chegar ao prédio, Catarina ficou sem palavras ao ver uma cena de doer o coração.
Dona Olinda já tinha terminado de pintar a cerca e ido para casa. No jardim, quem mandava era agora outra pessoa. Uma criança, pouco maior que Inês, muito ativa.
Grande parte das flores já tinha sido arrancada ou pisoteada por aqueles pezinhos.
Catarina olhou para o canteiro do prédio ao lado e quase chorou: já não restava rasto da beleza que ali tinha.
A mãe do pequeno destruidor estava ali mesmo, encostada à cerca, sorrindo ao ver o filho a fazer aquilo.
O que é que se passa aqui? O sussurro rouco de Catarina soou estranho, até para ela.
O que tem?
Os olhos azuis da senhora olhavam-na como se Catarina fosse louca.
Por que está o seu filho a destruir as flores?
E por que não?
Como assim, não pode!
Para quem? Para ele? Quem é que vai proibir o meu filho de explorar o mundo? Você?
Você chama isso de aproveitar o mundo? Catarina segurava-se para não gritar.
Não podia, Inês ia assustar-se.
A filha agarrava o dedo da mãe com força.
Claro que chamo. Explorar o mundo é pegar o que existe. As flores servem para colher.
Estas flores não estão num campo qualquer. Há quem plante, quem cuide!
Santa paciência, que disparate! Não entendo este drama, está até a ficar vermelha de raiva. Isso faz mal aos nervos! São só tulipas, mulher, vão nascer outras.
Catarina perdeu a paciência, deu um passo em direção à senhora, já a tremer.
O choro da Inês devolveu-a ao mundo.
Quase entrou em briga corporal.
Tire o seu filho! Vou chamar a polícia! Catarina pegou Inês ao colo, sacou do telemóvel.
Agora está tudo sensível! Polícia por causa de umas flores! Chame, chame! Veja se ele me faz mal!
A senhora arrancou o menino, que gritava.
Viu o que fez? Agora ele vai chorar!
Estou-me nas tintas! Catarina sussurrou com tanta força que as vizinhas, já com as cabeças à janela, ouviram. Saia daqui!
Viu a mãe do menino ir-se embora, resmungando, e só então ouviu, atrás de si:
Que coisa, Catarina? Porquê?
Dona Olinda, no patamar com um regador numa mão e uma carcaça para a Inês na outra.
Catarina ia explicar, mas dona Olinda abanou a mão, pousou o regador e entrou, de cabeça baixa, como se lhe tivesse pendurado chumbo nos ombros.
Catarina correu atrás, mas Inês reatou o choro. Quando conseguiu acalmar a menina, subiu ao andar de dona Olinda, mas ninguém abriu.
A filha já estava rabugenta de sono, teve de levá-la, prometendo voltar.
Mesmo depois, dona Olinda não abriu. Catarina tocou, bateu, nada.
Chegando a casa, ligou para o filho da Dona Olinda.
Vai, vou já ligar para ela.
Obrigada!
Nunca já tinha esperado uma chamada com tanta ansiedade.
Mãe está bem. Só não quer ver ninguém. Ficou muito triste. Mas o que houve? Não explicou nada, só pediu para eu não me preocupar.
Catarina resumiu o acontecido, garantindo que olharia por ela.
Eu sei que a vossa mulher está grávida. Não se apoquente. Vamos tentar resolver.
Quem é o nós? Talvez eu devesse ir.
Vamos ver, eu tenho uma ideia. Se não resultar, aviso.
Obrigada, Catarina
Não agradeça ainda.
Nessa noite, Inês ficou com o pai. Catarina foi de apartamento em apartamento. Batia às portas dos vizinhos, explicava a ideia. Poucos ficaram indiferentes.
Na noite seguinte, lá estavam todos no pátio, quem aceitou ajudar. Caixas e mais caixas, homens descarregavam do carro, recebidos com risos miúdos. Trabalho para todos. Catarina mandou Diogo e Inês para casa e continuou de volta ao seu plano que surgiu ao ver a filha naquele dia.
Nunca permitiria que a filha vivesse com medo. E mesmo que, agora, tudo fosse só uma travessura de um menino malcriado, Catarina sabia: se não fizesse nada, aquela memória ficaria para sempre no olhar da Inês. Ia sumir, tapada por outras boas, sim, mas ia ficar, lá no fundo. E isso ela não admitia.
Por isso abria caixas a seguir a caixas, acenando para cada rosto que se juntava a eles saído do trabalho. Por isso, mesmo cansada, mandou um beijo ao Diogo e agradeceu baixinho quando ele levou a Inês, já a dormir no carrinho.
No sábado, Catarina cumprimentou os vizinhos no pátio e foi até à porta da Dona Olinda.
Dona Olinda, sou eu, por favor, abra! Sei que está em casa! Isto é importante!
O trinco virou e Catarina quase chorou ao ver o olhar da vizinha.
O que se passa, Catarina? A Inês está doente? a voz vinha de quem já perdeu tudo.
Não, graças a Deus. Mas preciso muito da senhora. Preciso agora! Venha comigo, por favor, imploro.
Catarina ficou sem mais palavras, só olhava para a dona Olinda, sem saber como convencê-la.
É mesmo urgente? ela suspirou e pegou o casaco.
Muito! Catarina confirmou.
Bem, mas por pouco tempo. Estou maldisposta
O sol fez a dona Olinda semicerrar os olhos ao sair.
Ai, espera, Catarina, não vejo nada!
O que a esperava era silêncio. Deu um passo, ficou sem fôlego, não conseguia nem inspirar. Chorou de imediato, e dessa vez não foi o sol a cegar-lhe a vista.
Tulipas. Mar de tulipas! Jardins e duas novas floreiras, cobertas por um tapete de cor.
Que é isto? De onde vieram?
Venha, sente-se aqui! Catarina ajudou-a ao banco Perdoe-nos não termos protegido as flores que tanto trabalho lhe deram todos estes anos! Foi tudo tão rápido, fiquei perdida. E não dá para explicar nada a quem não quer entender… Mas sabe?
O quê, Catarina?
Nós entendemos, todos. Quem cá está e tentou devolver à senhora a alegria. Veja, está quase todo mundo: antigos pacientes, ou pais das crianças que tratou aqui. E há até quem já teve filhos e agora já tem netos, como eu. Todos queremos que saiba: ninguém pode fazer-lhe mal! Até já fizemos queixa, mas sei que isso pouco importa para si. O que importa é que agora temos mais canteiros para a senhora cuidar. E queremos ajudar! Deixe os nossos jardins lindos? Os miúdos e nós precisamos dessa alegria. As suas mãos fazem crescer tudo, desde limoeiros a palmeiras! Eu vi com os meus olhos!
Obrigada, Catarina Dona Olinda limpou as lágrimas, levantou-se.
Onde estava a velhinha de há pouco?
Vamos lá ver o que andaram a plantar! Mostrem-me!E assim foi: de braço dado com Catarina, Dona Olinda atravessou o jardim novo, sorrindo, acenando para todos. Crianças corriam com baldes de rega cheios de risos, homens e mulheres mostravam sacos de terra e colchas de sorrisos cúmplices. Enquanto Dona Olinda apontava e ensinava, a tristeza parecia evaporar, puxada pelas cores vivas das tulipas.
Famílias inteiras começaram a chegar, e cada qual trazia um vaso, um saco de sementes, um gesto de carinho. Até a mãe do menino levado, constrangida, apareceu com um pedido de desculpa e um pequeno ramo de narcisos, oferecido pelas mãos do próprio filho. Dona Olinda aceitou de coração aberto e sugeriu, com o jeito sábio de quem nunca aponta, que ele a ajudasse a replantar duas das tulipas. O menino concordou, olhos vivos, pela primeira vez atento ao trabalho delicado das mãos enrugadas.
Com o tempo, o jardim já não era só de Dona Olinda, mas tornou-se de todos e cada flor que nascia, cada banco pintado, cada canto limpo era memória viva das horas partilhadas. A solidão foi cedendo espaço ao vaivém dos vizinhos, às festas improvisadas ao fim da tarde, aos bolos partilhados na bancada, aos relatos de infância sentados no banco branco ao poente.
Ninguém mais temeu os dias cinzentos. E quando, finalmente, a primavera invadiu o bairro com o perfume das tulipas, nem mesmo as dores ou as saudades conseguiram vencer o colorido. Porque agora Dona Olinda já não cuidava do jardim sozinha cada sorriso, cada mão na terra, cada gargalhada era raiz nova, crescendo forte.
Naquele sábado, quando o sol se punha e a Inês adormecia ao colo de Catarina, ainda cheirando a terra e esperança, Dona Olinda suspirou fundo, envolvendo todos num olhar sereno:
Um jardim, minha querida, só cresce quando a gente cuida juntos. E a vida também.
E foi assim que, entre risos, flores e mãos dadas, todos aprenderam a plantar alegria mesmo onde antes só havia vazio.







