O Grande Divórcio
Foram exatamente quatro anos juntos, mas os Borges não conseguiram cultivar raízes no canteiro do casamento. Apesar de todo o empenho em encenar um amor sem fim, o horizonte brilhava com um divórcio iminente.
E então, vai ser assim tão simples? Divorciam-se e pronto? perguntou a minha amiga, quando convidei-a para afogar as mágoas numas sandes de pão alentejano com queijo da serra.
Sim. O que mais podemos fazer? Falámos sobre isso. Vai ser melhor para nós dois…
Não, não estou a falar do divórcio em si estou a falar do evento! Tem de ser em grande, à altura. Dar um ponto final que se veja!
Só ando nervosa ultimamente, não é preciso carregar ainda mais na ferida resmunguei, comendo alternadamente uma fatia de pizza de ananás e outra de frutos do mar.
Ó querida, não me referia a ti! Digo mesmo ao vosso divórcio! No vosso casamento toda a gente se esticou tanto que eu ainda estou a acabar de pagar o vestido Por que não celebrar o fim à grande? Restaurante, um cortejo, um animador, cerimónia de queima de ponte Eu alinhava!
Isso é possível?
Não é só possível, é necessário!
Não tenho dinheiro. Ainda vamos ter de dividir tudo, cortar fronhas, repartir almofadas
Eu conheço uma pessoa que organiza tudo por meia dúzia de batatas. O resto recuperas em lembranças! Mas para já, vamos pensar na despedida de casada. Tem de ser algo caseiro, humilde, só para te despedires mesmo da vida de casada.
Ou seja, voltamos a combinar com as raparigas, ninguém aparece porque têm todos maridos e filhos, e ficamos todos em casa?
Idea perfeita!
No dia seguinte, eu e a minha amiga fomos ao escritório da organizadora, Inês. Por algum motivo, ela atendeu-nos de avental, por detrás de um balcão de crepes num centro comercial, a tirar cafés e atender clientes.
Vais ajudar-nos? perguntou a minha amiga, explicando o nosso drama.
Claro! Já estou a imaginar tudo Inês revirou os olhos, já a idealizar: A ex-noiva num vestido preto, a jurar que “nunca mais e em nenhuma circunstância”. O ex-marido com aquelas calças ridículas que sempre quis usar, a dizer o tão aguardado não. Depois, todos a caminho da ourivesaria a vender as alianças. Os convidados a gritar Doce! ou Meio-doce! Bom, ainda vou pensar melhor rematou, e logo anunciou em voz alta: Pedido número 47 está pronto!
Para minha surpresa, o meu ex-marido, o Tiago, achou a ideia espetacular, já os pais de ambos ficaram indignados.
Isso são modernices vossas. No nosso tempo, divorciávamo-nos em silêncio e odiávamo-nos para sempre. Não vamos dar dinheiro para festas reclamavam os dois lados.
Uma semana depois, estava tudo pronto. Segundo o guião de Inês, o evento começava com o resgate. O Tiago teria de sair de casa passando por provas e jogos, com todos a cantar ou a pagar por ele seguir o seu caminho sem aborrecimentos. Como eram dez andares, deixaram-no usar o elevador, com as malas e o padrinho a tiracolo.
Graças a um cunha de Inês na polícia, apareceu um fotógrafo forense que registou tudo ao pormenor. Depois desse divórcio, nove convidados ficaram debaixo de olho das autoridades.
Agora, ao Registo Civil! gritou Inês entusiasticamente quando descemos todos.
Na nova tradição dos Borges, entrámos juntos no carro para depois separar caminhos, enquanto os restantes convidados recebiam passes para o autocarro, moedas para a viagem, e um carro para o fotógrafo, que fazia concursos de impressões digitais e interrogatórios de brincadeira no percurso. Na entrada do edifício, todos cantavam o sucesso do Rui Veloso Não há estrelas no céu.
Com os carimbos postos e a célula da sociedade fechada, o grupo explodiu em festa cá fora. Inês sacou de uma grande gaiola: era tempo de apanhar dois pombos. Entre cantorias e risos, os amigos felicitavam-nos, os homens invejavam a vida livre e as mulheres logo reclamavam, enquanto se atiravam ao ramo feito de recibos de eletricidade.
Isto sim é festa! Devem ter esperado anos por esta união riu-se alguém de outro casamento.
Não, ouvi dizer que estão mesmo a separar-se explicaram-lhe.
Depois de assistir aos Borges, muitos casais adiaram as próprias cerimónias.
Quando finalmente serraram o cadeado da ponte e entregaram as alianças ao ourives para ajudar nas despesas, seguiram para o restaurante. Lá estava preparado, a pedido da Inês, um banquete de almoço típico com crepes e mel. O patrocínio era da Tasquinha dos Crepes N.º 8, onde Inês trabalhava. O bolo, claro, era de crepes empilhados.
Isto parece um velório suspirei, olhando para o ambiente à volta.
Ora, estamos a enterrar a vida de casados, não é? respondeu Inês, que serviu também de animadora, sugerindo uma última dança aos já não tão jovens.
Com Chopin a tocar, eu e Tiago dançámos no centro do salão.
Sabes que até ficou engraçado disse ao Tiago enquanto girávamos.
Concordo. Nunca vi os nossos pais tão bem dispostos juntos.
Ao rodopiar, vi o meu pai e o do Tiago abraçados, a cantar baixinho e de lágrimas nos olhos, apesar de terem sido sempre rivais.
A mesa estava cheia de prendas: conjuntos de lençóis de solteiro, bilhetes de concertos, halteres, loiça para um, vales para ioga, ginásio, striptease No fim, deram-nos chaves de quartos em hotéis diferentes nos extremos da cidade, vales de desconto na Tasquinha dos Crepes N.º 8 e um voucher para duas viagens no carro da polícia.
Houve fogo de artifício e promoções no bolo. Satisfeitos, os convidados foram para casa, cada um para a sua família, e os Borges partiram cada um para seu lado.
Três semanas depois, o álbum de fotos estava pronto. O Tiago veio a minha casa buscar o corta-unhas e sentámo-nos a folhear as fotos a preto e branco cheias de risos e provas fotográficas.
Ficou bonito comentei.
Sim, ficou concordou, e perguntou: Vais mudar de apelido?
Não. Já me habituei. E Castro não soa melhor do que Borges.
Concordo sorriu Tiago. Vou andando?
Está bem Espera!
Ele olhou para mim curioso.
Não queres jantar na tasquinha? Os nossos vales acabam hoje
Que pena desperdiçá-los riu-se. Sabes que o crepe é símbolo de renovação? Talvez seja o nosso recomeço. Portanto, isto é um encontro?
Achas achas que depois deste divórcio tão sonoro não é um erro? Ouvi dizer que até deu notícia no jornal
Não sei, mas quem nos pode julgar? Somos livres, e fazemos o que quisermos. Aliás, para a semana, o padrinho e a madrinha também se divorciam. Fomos convidados. Vamos juntos?
Vou pensar sorri. Tenho um conjunto de lençóis deles para oferecer.







