O Sofá dos anos noventa
Meninos, temos uma surpresa para vocês! Dona Maria do Carmo brilhava, como luzes de Natal, admirando a nossa sala ainda praticamente vazia. Decidimos oferecer-vos o nosso sofá!
O tempo parou por um segundo. Olhei para o Ricardo. Ele sorria com uma expressão tensa, como quem acaba de morder numa rodela de limão.
Mãe, pai, mas está em ótimo estado tentou ele justificar. Vocês precisam dele.
Oh, nada disso! respondeu rapidamente o senhor Augusto. Comprámos um novo, muito mais moderno. Este está bem, é de madeira sólida! Não fazem assim hoje em dia. Vai ser ótimo para vocês neste início. E ainda poupam uns euros.
Apenas para início. Esta frase soou como uma sentença. Imaginei aquele sofá ali. O enorme barco bordeaux com pernas talhadas, que durante todos os meses em casa dos meus sogros apelidei mentalmente de Monstro da Sala. Ocupava metade do salão deles. Agora ocuparia metade do meu.
Dona Maria do Carmo, é mesmo muito generoso, mas tentei encontrar as palavras certas. Sabe, tínhamos planeado algo mais moderno.
Moderno! bufou a sogra. Essa vossa moda das caixas brancas vai passar. O bom móvel é para a vida. Sabes, Leonor, ainda me vais agradecer. Amanhã trato dos carregadores, trazemos para cá.
Trouxeram mesmo. Dois carregadores, vermelhos de tanto esforço, empurraram para a minha sala impecável aquele monstro bordeaux. Quando saíram, eu e o Ricardo ficámos parados a olhar o sofá. Ele tinha tomado conta da parede principal. Era opressivo. As pernas talhadas, parecidas com patas de leão, cravavam-se no meu soalho. O cheiro a veludo envelhecido, pó e qualquer coisa doce enchia devagar o ar.
Olha disse o Ricardo. Ao menos temos onde sentar.
Virei costas e fui para a cozinha. Percebia perfeitamente que aquele não era só um sofá. Era um cavalo de Tróia. Por dentro vinham toneladas de expectativas, culpas e obrigações familiares. Agora, aquele cavalo reinava no centro da minha casa.
***
Passei três meses a planear aquela sala. Três meses! Todas as noites, depois do trabalho, folheava catálogos, guardava imagens no telemóvel, desenhava. Para mim, a sala era o coração da casa: dezoito metros quadrados, uma janela enorme virada a nascente. De manhã, o sol devia banhar o meu soalho claro quase branco. As paredes pintei num tom bege, muito suave. Consegui encontrar as cortinas de linho perfeitas, translúcidas, a combinar. O sofá ideal seria de canto, nórdico, cinzento, pernas de madeira finas, compacto mas confortável. Planeava um cadeirão baixo e uma mesa de centro em madeira clara com metal. Na parede oposta, uma prateleira minimalista para a TV e outra, aberta, para os livros. Minimalismo, espaço, luz.
Em vez disso, agora ali estava ele.
O sofá dos anos noventa, comprado pela Dona Maria do Carmo e pelo Senhor Augusto no início da vida deles juntos. Maciço como um camião. Veludo bordeaux, com flores já desbotadas: rosas roxas e folhas desconhecidas. O estofo já roto nos braços, a espuma amarela à vista. Encosto alto, com madeiras talhadas envernizadas e lascadas. Pernas a imitar patas de leão, ridiculamente deslocadas no meio do meu ambiente contemporâneo. O sofá era longo, três metros e meio de largura, quase um metro de profundidade. Sentava-me e quase desaparecia, sendo preciso levantar-me com esforço. As molas gemiam e rangiam. Uma delas, estava certa, partiram: ali no meio criava-se uma cratera onde as almofadas iam cair.
O pior não era isso. O pior era que aquele sofá trazia a sua própria memória. Décadas de família ali vividas. Ver televisão, comer tremoços, dormir depois das noites de turnos, cobri-lo com mantas de franjas. Absorveu cheiros: tabaco do senhor Augusto, perfume da sogra, os aromas da comida. O sofá estava tão impregnado pela vida que parecia quase um ser vivo. E agora, esse ser dominava a minha sala.
Na primeira noite, logo após o sofá se instalar, tentei atenuar o pesadelo: cobri-o com uma manta de algodão branca enorme. Fingia que assim camuflava o monstro bordeaux. Mas as patas de leão escapavam da manta e saíam ainda mais grotescas no meio do branco. A manta escorregava, fazia rugas, barrigava nos braços. A cada meia-hora lá estava eu a ajeitar, até desistir completamente.
E se comprarmos uma capa? Daquelas específicas? sugeriu o Ricardo, a ver-me a desesperar.
Uma capa para três metros e meio? E as patas também ficam cobertas? sorri eu com ironia. Não é de cor, Ricardo! É de volume! Ele ocupa metade da sala!
Ricardo calou-se. Sempre se calava quando o assunto era os pais dele. Compreendia-o. Cresceu numa casa onde tudo era precioso, onde nada se deitava fora se ainda servisse. O senhor Augusto, militar na reserva, sempre ensinara o filho a aproveitar tudo; Dona Maria do Carmo guardava cada prato, cada paninho, comprados com suor. Para eles, deitar fora o sofá era trair a sua história.
Mas e eu? Cresci noutro contexto, com outros valores. Para mim, espaço, luz, harmonia eram mais importantes do que mobiliário para a vida. Porque é que eu havia de viver com este dinossauro?
No dia seguinte, telefonou a Dona Maria do Carmo.
Leonor, então, o sofázinho? É confortável? a voz dela era tão afável.
Sim, muito… sólido disse eu, apertando o telemóvel até embranquecer os nós dos dedos.
Claro! Comprámos em noventa e três. O Augusto ainda estava destacado na Alemanha, trouxe uns escudos de lá. Naquela altura era tudo bom, não é como agora, tudo descartável. Este dura-vos mais vinte anos, asseguro!
Vinte anos. Só de imaginar vinte anos daquele monstro, uma onda de pânico silencioso subiu-me pelo corpo.
E vocês compraram mesmo outro? perguntei, tentando mostrar interesse.
Sim. Cinzento, compacto. Daqueles que se abrem facilmente, modelo eurocama, cabem os dois, chega bem para nós que já estamos na idade! riu-se. Mas para os jovens é que o nosso sofá é ideal!
Desliguei e sentei-me no chão, ao lado do sofá. E assim, eles é que desfrutariam de algo novo e prático, e nós herdávamos o que não lhes servia já. Em nome da ajuda. E, irritantemente, acreditavam mesmo estar a fazer o bem: a poupar-nos dinheiro, a passar-nos um pedaço da história deles.
Mas eu não queria essa história. Não na minha sala.
***
Passou uma semana. Tentei conviver com o sofá. Sentei-me de manhã a tomar café, procurando uma posição confortável. Escorregava para a cratera, as molas espetavam nas costas. Experimentava os cantos, mas os braços eram duros, altíssimos. À noite, eu e o Ricardo ligávamos a televisão, mas o veludo colava-se aos pés, o cheiro a velho aumentava. Tinha a sensação de que impregnava a pele, o cabelo, a roupa.
Nem conseguia convidar amigas. Tinha vergonha. Eu, designer de interiores, que ajudava outras pessoas a terem casas bonitas, vivia na minha própria sala prisioneira daquele fóssil. Quando a Teresa, a minha melhor amiga, veio finalmente ver a casa nova, parou de boca aberta à porta.
Leonor mas isto!… apontou para o sofá.
Presente dos sogros tentei sorrir.
Presente? Tu mostraste-me o projecto! Era um sofá em L, cinzento! Minimalista, lindo! E isto Isto é…
Um monstro?
Não queria ser má, mas sim. Mata-te o trabalho todo! Rouba-te o design, a luz, tudo!
Eu sei pus chá para as duas e sentámo-nos na cozinha. Não sei como resolver. Eles pensam mesmo que estão a ajudar. A Dona Maria do Carmo liga todos os dias a perguntar do sofázinho.
Sofázinho?! Isto é uma nave-mãe! Leonor, se não o tirares nunca mais pões a tua sala como querias. Onde pões o cadeirão? A mesa? As prateleiras?
Sabia o que ela dizia. O sofá ditava tudo. E era insuportável.
***
Duas semanas depois, os pais do Ricardo vieram ver como estava tudo. Fugi para a cozinha, estiquei um timer quarenta minutos, o tempo máximo que aguentava conversa sem perder a boa educação. Aprendi a usar esse truque quando vivíamos com eles.
O senhor Augusto e a Dona Maria do Carmo chegaram com sacos: maçãs do quintal, biscoitos, compota. Entraram na sala e pararam.
Aqui está! Dona Maria do Carmo abriu os braços. Fica perfeito! Não fica, Augusto?
O sogro sentou-se nele, testou as molas.
Seguro. Destes já não há. Se te sentas, sabes que não desabam. Nada a ver com essas modas suecas
Ricardo sorria e acenava. Fiquei calada, o timer a contar no avental trinta e nove minutos.
Leonor, estás muito calada. Não gostas do sofá?
Não é isso… Só que é tão grande Gostava de algo mais pequeno…
Pequeno? Para quê? Vão ter filhos! Num sofá pequeno não cabe a família. Este é espaçoso: se houver visitas, até dá para dormir.
Prático. Era a palavra favorita deles: mobiliário prático, loiça prática, roupa prática. Beleza, harmonia, estilo para eles, coisas passageiras, futilidades.
E a mesa de centro? A televisão? Perguntou o sogro.
Ainda não comprámos respondeu calmamente o Ricardo.
Que disparate! Tenho uma mesa antiga na casa do campo, trago-a para vocês. É só pôr.
Imaginei-a: escura, enorme, outras patas talhadas como o sofá. Outro monstro.
Não precisamos. Queremos uma mais leve, moderna…
Dona Maria do Carmo incomodou-se.
Leonor, só queremos ajudar. Para quê gastar dinheiro, se temos coisas boas?
Porque esta casa é nossa, saiu-me. Queremos decorá-la ao nosso gosto.
Silêncio. O Ricardo ficou pálido. O sogro franziu o sobrolho.
Claro, ela disse, magoada. Só queríamos ajudar. Se não é preciso…
Não é nada disso, mãe! o Ricardo tentou apaziguar. Ainda não decidimos como vamos pôr tudo.
Apontei que sim. O timer dizia vinte minutos ainda faltava um inferno.
Bebemos chá na cozinha. Maria do Carmo não voltou a sorrir. Quando partiram, o Ricardo virou-se para mim:
Para quê tanto? Eles só querem o melhor!
Para quem?! gritei. Passei meses a sonhar com esta sala! E eles despejam-nos o que não querem!
É um presente! Ajudaram-nos a poupar!
Despacharam-nos o que já não lhes servia! berrei. E chamaram-lhe presente!
Não falámos o resto do dia. Quando fui buscar água, vi o Ricardo no sofá, rosto na almofada, ombros a estremecer. O meu marido chorava, em cima do velho sofá cor-de-vinho.
Sentei-me ao lado dele. O sofá gemeu.
Desculpa, disse baixinho. Não queria ferir os teus pais.
Eu sei, limpou os olhos. Mas para eles é importante. Juntaram para o comprar, escolheram juntos a cor, foi a primeira coisa boa que tiveram. Queriam que herdássemos. Que lembrássemos.
Mas essa não é a minha memória, sussurrei. Quero criar a nossa história.
Ele nada disse, porque não havia resposta.
***
Tentei encaixar o sofá na sala. Comprei almofadas cinza e brancas, bem escandinavas. Parecia um tanque coberto de rendas. À volta dei-lhe móveis como prateleiras em madeira clara, velas minimalistas, vaso alto com ficus O sofá continuava uma anomalia. A sala parecia um choque de eras noventa contra minimalismo. Os noventa ganhavam.
A Teresa voltou na semana seguinte. Entrou e abanou a cabeça.
Leonor, já chega. Dá-o, vende-o, oferece-o. Principal é sair daqui.
E aos teus sogros, o que digo? Que deitei fora o presente?
Diz que estragou, que apanhou nódoa irreparável, que o cão roeu.
Nós não temos cão.
Arranja um! gracejou. A sério, não podes viver assim. Hoje é o sofá, amanhã é a mesa, depois o tapete e os pratos. Viras depósito deles.
Ela tinha razão, mas eu temia o conflito. Entre mim e os meus sogros nunca houve grande afinidade, mas mantinha a paz. Era mais fácil. O Ricardo sofria com tensões. Mas o sofá era a gota final: era escolher entre eles ou eu.
***
Num sábado, os amigos do Ricardo, o Paulo e o Miguel, vieram cá.
Eh lá, Ricardo, isto é o quê? O Miguel sentou-se e afundou no centro. Isto é das antigas! Igual ao da minha avó!
A minha também tinha riu-se o Paulo. Depois apareceu traça e acabou no lixo.
Traça? gelei.
Claro. No veludo gostam de fazer ninho.
Nesse dia, verifiquei o sofá a fundo: cantos, frestas, braços nada de traça. Mas encontrei outra coisa: um pãozinho seco, escondido sob uma almofada, duro como pedra e bolorento. Talvez o Ricardo o tenha deixado ali em criança. Não importava. O que importava era perceber que o sofá não era apenas velho, era sujo. Perigoso. Impróprio.
Sentei-me no chão a olhar o pão seco, lágrimas nos olhos. Não de nojo, mas de frustração.
Ricardo, chamei.
Veio espantado. Mostrei o pão na palma.
Achas normal?
Olhou do pão para mim.
É só um pão antigo, que ficou ali…
Não! É o símbolo de que nos deram lixo de presente! Os teus pais compraram novo, deram-nos o velho não é justo!
Ricardo ficou calado, dividido entre tristeza e dever.
O que queres fazer?
Livrar-nos dele.
Vais dizer-lhe à minha mãe?
É o NOSSO espaço, Ricardo! Temos direito à nossa mobília!
Ele tapou o rosto nas mãos.
A mãe vai morrer de desgosto…
E o meu direito?
Nos olhos dele havia dor. Ou escolhia pais, ou mulher.
Vou falar com eles, disse por fim. Mas não prometo que aceitem.
Não há solução ideal, retorqui.
Ficámos dez minutos em silêncio. Ele levantou-se.
Eu tento falar com eles. Explico.
Mesmo?
Mesmo. Mas sabes como é a mãe…
***
Demorou três dias. O Ricardo adiou, ligava e desligava antes de atenderem. Percebia a angústia, não pressionei.
À quarta-feira falou finalmente. Fiquei na cozinha a fingir que cozinhava. Ele falava baixinho, palavras cuidadas. Logo o tom subiu: Dona Maria do Carmo sentiu-se magoada, o senhor Augusto ofendido.
Como assim não querem? Se não serve, vão deitar fora? Pois nunca recebem mais nada de nós
O Ricardo desligou, cinzento.
Ela chorou. Disseram que não valorizamos nada. Vão buscar o sofá sábado e pronto.
Abracei-o.
Sinto muito.
Mas pronto, finalmente ficamos livres.
***
Ao sábado vieram cedo, carrancudos. Os mesmos carregadores de antes. Fiquei na cozinha, sem coragem de ir à sala. O Ricardo abriu a porta. Eles entraram, gelados.
Levem. Não é preciso Dona Maria do Carmo gesticulava. Só fazemos figura de parvos, não é?
Mãe, não é isso…
É sim.
Vi o sofá sair, encalhar nas portas, riscar as paredes. O senhor Augusto disse-lhe ao carregador:
Para o lixo!
Oh Augusto! exclamou a sogra.
Não o querem, fica para o lixo.
Fiquei a olhar para o vazio da sala, apenas uma mancha escura no chão. Olhei para o Ricardo.
Satisfeita?
Não queria que acabasse assim.
E querias como?
Só queria o meu espaço…
E tiveste. Parabéns.
***
Não falámos o dia todo. No fim tentei reatar:
Ricardo, liga-lhes, pede desculpa. Explica.
Explicar o quê, Leonor? Que o presente era inútil? Tudo vai doer-lhes.
E do nosso lado?
Defendemos o nosso espaço. Mas para eles dói.
***
Na semana seguinte, os pais não atenderam ao telefone. Percebi que era séria a mágoa. O Ricardo sofria; eu comprei finalmente o sofá dos nossos sonhos, cinzento, de canto, minimalista. Pus a mesa de centro, as prateleiras, os livros. A sala era finalmente luminosa, a nossa sala.
Perguntou-me uma noite:
Sentes-te feliz?
Olhei-o. Vi-o exausto, magoado. Sofria por mim, por eles e por ele próprio.
Gosto da sala assim. Mas não gostei do preço que pagámos.
Às vezes é isso: tens de escolher. Tu escolheste o conforto; eu escolhi-te a ti. Eles escolheram a mágoa.
Sentámo-nos juntos. O sofá era confortável. Mas ali não havia história, só um objeto neutro. Ao contrário do monstro bordeaux, que carregava memórias.
Ricardo, vamos convidá-los. Mostrar que não quisemos ferir ninguém.
Achas que resulta?
Não sei, mas temos de tentar.
***
Vieram, a medo, semanas depois. Maria do Carmo fria, senhor Augusto calado. Entraram, olharam a sala.
Sim, muito moderno. Frio, comentou ela.
Acho acolhedor, insisti, serena.
Espaçoso é, disse ele. Mas isto aguenta? Parece frágil.
Aguenta bem, pai. Senta-te, vês logo.
Enfim. Se partir, depois pedes outro, brincou ele.
Servi jantar, favorita deles. Comeram calados, conversas forçadas.
Arrisquei:
Sei que ficaram sentidos. Não era o que queríamos. Mas temos estilos e necessidades diferentes.
Ela pousou os talheres.
Leonor, isso passa. Com o tempo vais ver. Importa é a família. Tu escolheste o sofá.
Escolhi a nossa casa, disse suavemente.
Para mim é igual, levantou-se. Vamos, Augusto. Obrigada pelo jantar.
Saíram. O Ricardo voltou branco.
Tentei.
Tentámos ambos.
***
O tempo passou. O contacto tornou-se raro. Vi, porém, o Ricardo mais liberto, mais ele. Deixou de temer os juízos dos pais. Aprendeu a dizer não.
Num daqueles fins de tarde, lia eu no sofá, ele de cabeça no meu colo. O sol de Lisboa pintava as paredes de dourado. Olhei a sala, suavemente iluminada e pensei: valeu a pena. Não por ser perfeita, mas porque era a nossa escolha.
Arrependes-te? perguntou-me o Ricardo.
Só por lhes doer. Pelo nosso espaço, não.
Ele ficou em silêncio.
Lembro-me de quando a mãe comprou o sofá. Era um sinal de que a família tinha conseguido. Só queria transmitir isso.
Eu percebo. Mas agora precisamos da nossa liberdade.
Eles não entendem.
Talvez um dia.
Sentámo-nos em silêncio, na luz dourada.
Dias depois, telefonou Dona Maria do Carmo, voz humilde:
Leonor? Estivemos a pensar, podemos aí sábado? Dar uma olhadela?
Por favor, venham.
E O vosso sofá é mesmo confortável?
Muito. Quer que lhe mostre onde comprei?
Pode ser. Para a casa do campo era mesmo o ideal
Ri-me.
Mostro sim, claro.
O Ricardo olhou-me admirado:
Pediu conselho a ti?
Acreditas?
Às vezes o tempo resolve.
Ou aprendemos todos.
No sábado, vieram. Dona Maria do Carmo experimentou, elogiou: Macio, confortável. Mostrei lojas e modelos. O senhor Augusto não resistiu:
Bem, isto não é tão mau como eu pensava
É funcional, e deixa espaço, apontei.
Pronto, talvez compre um também.
Quando foram, abraçou-me:
Leonor, desculpa. Só queríamos ajudar. A vida ensina.
Agradeço o coração. Mas agora deixem-nos escolher, sim?
Ela sorriu triste:
Agora é convosco.
À noite, deitados no sofá:
Sabes murmurou o Ricardo se calhar era o modo deles de continuar connosco.
Talvez. Mas descobriram outras maneiras.
Quais?
Aceitar as diferenças.
Tu és forte.
E tu também.
Olhámos a cidade a acender as luzes. A sala estava finalmente como sonhei.
O sofá bordeaux foi só um símbolo. A luta foi por espaço, decisão, respeito. Foi preciso magoar, aprender, ceder limites.
E se trouxerem outra relíquia? riu-se ele.
Agora respondemos: Obrigado, mas não.
Achas suficiente?
Aprendemos finalmente.
***
Um mês depois, Dona Maria do Carmo enviou uma foto: sofá novo, cinzento, na casa do campo. Comprámos! Tinhas razão, é leve e cómodo. O Augusto montou num instante!
Mostrei ao Ricardo.
Evolução! disse ele, a sorrir.
E das grandes.
Mais tarde, li no nosso sofá, em paz. Pensei: para crescer, às vezes é preciso perder para ganhar. Dizer não, para dizer sim ao essencial. Deitar fora o velho, permitir o novo.
Isto não é só sobre mobília.
É sobre a vida.
Leonor, vens tomar um chá? chamou o Ricardo da cozinha.
Já vou!
E sorri. Porque, finalmente, estava em casa. Em minha casa. Na nossa.







