A Inquilina

A SENHORA SENHORIO

Num final de tarde de inverno, pelas ruas sossegadas de um bairro residencial de Lisboa, caminhava uma mulher alta, de postura elegante. Ainda havia luz e o frio era suave, com o sol do dia a brilhar intensamente, agora despedindo-se no horizonte e iluminando os flocos de neve que teimavam em brilhar no ar gélido.

A mulher aproveitava aquele tempo harmonioso. Caminhava devagar, segura de si, com uns sapatos de salto elegante e um vistoso casaco de vison, oferta dos filhos. Apesar dos mais de sessenta anos, Custódia Vaz sentia-se bem, com a altivez e a dignidade de quem soube cuidar de si ao longo da vida.

Os tempos da juventude e dos amores estavam longe, é certo, mas Custódia encontrara novas formas de desfrutar a vida. Viúva há dez anos, ainda sofria o luto do marido, que lhe dera um único filho orgulho e razão de viver. João, o filho, partira para o Porto para estudar e, por lá, construíra família. Agora era ele que lhe dava dois netos maravilhosos, apesar de visitas escassas. O trabalho era muito, e as viagens frequentes ficavam para outras alturas. Mas, com o telemóvel e as chamadas de vídeo, Custódia fazia-se presente.

A sua realidade não era má. Dona de duas casas em Lisboa, vivia tranquilamente da sua pensão modesta, mas suficiente e do apoio regular, ainda que rejeitado, do filho. Sem grandes luxos, mas também sem preocupações que a atormentassem. E foi nessas pequenas delícias como a maravilhosa pele de vison que João lhe trouxera pelo Natal que Custódia se permitia gozar a vida. E naquele fim de tarde, o frio subtil era desculpa perfeita para exibir o presente.

Custódia caminhava não apenas por prazer: ia receber a renda dos inquilinos. Morava sozinha no seu T2, enquanto o T1 era arrendado a um jovem casal com um filho pequenino. No início, o bebé nem sequer existia, mas nestes cinco anos tornaram-se uma família de três. O seu pequeno Duarte, rechonchudo e simpático, tinha dois anos e era já companhia necessária nas visitas mensais da senhoria, que nunca dispensava uma tablete de chocolate no fundo da mala, para a criança.

Arranjar bons inquilinos em Lisboa não é tarefa fácil, como Custódia aprendera ao longo dos anos. Já passara alguns maus bocados: dívidas, estragos, desilusões Agora tinha aprendido. Ia todos os meses recolher a renda pessoalmente, apreciando se tudo estava em ordem, se as contas se mantinham em dia. De todos, gostava especialmente de Elisa, a jovem mulher que se ocupava da casa e da gestão das despesas.

Apesar dos vinte e quatro anos, Elisa mantinha o ar de adolescente. Magrinha, de olhar azul profundo e pele clara, a juventude parecia agarrar-se a si. Era difícil crer que aquele menino traquinas que brincava pelo chão era seu filho. Elisa era metódica, educada e pagava sempre a tempo. Com o marido, Custódia pouco falava ou estava estendido no sofá, ou ausente, sempre reservado, sem entrar em conversas. Por vezes, Custódia suspeitava que o rapaz gostava demasiado do vinho, mas nunca se metia ele mantinha tudo em ordem com as obrigações, nada a dizer.

Chegando ao prédio de nove andares, Custódia subiu de elevador ao quinto piso, pensando no que compraria de especial depois de receber a renda. Adorava salmão fresco, amêijoas, percebes essas iguarias que se permitia quando sobrava um pouco. Aquelas eram pequenas alegrias para quem já contabilizava os dias de forma diferente e já não precisava de poupar tanto.

Após tocar à campainha, esperou mais do que o habitual. Por momentos achou que ninguém estava e ensaiou procurar a chave, mas logo a porta se abriu. Elisa apareceu, mas o ar da jovem gelou Custódia. Olhos inchados, rosto vermelho, mãos a tremer. Custódia entrou de imediato.

Passa-se alguma coisa, Elisa? Estás tão abatida Está tudo bem? A preocupação era evidente na voz da senhoria.

Elisa, nervosa, recuou uns passos, cruzando os braços com esforço para se controlar.

Não, Dona Custódia. Não está tudo bem respondeu, a voz trémula, afastando-se até à sala.

O cenário estava diferente desarrumo pouco habitual, roupas pelo chão, o pequeno Duarte a brincar no meio do caos. O armário aberto exibia prateleiras vazias. Elisa pegou nos recibos pagos, estendeu-os a Custódia.

Está tudo pago até agora, mas não consigo pagar este mês. Não tenho nada, Dona Custódia. Posso ficar-vos a dever? Amanhã, eu e Duarte vamos embora. A jovem torcia o rosto, mas as lágrimas já tinham secado. Não era ressaca, nem doença. Era pura tristeza.

O que aconteceu, Elisa? Estás sozinha? Onde está o teu marido? Custódia sentou-se junto de Elisa, um aperto no peito.

Eu adoeci desabafou Elisa, encarando as mãos nervosas. Ando mal há meses, cansada, sem forças. Fui ao hospital, fizeram análises e encontrei-me com um diagnóstico de cancro. O meu marido não aguentou. Gritou que não queria passar por isto, como tinha acontecido com a tia, e fez as malas. Disse que ia pedir o divórcio. E eu, Dona Custódia, não tenho dinheiro. O pouco que tinha gastei nas contas da casa.

A mulher ouvia em silêncio. A imagem da sua querida peixaria desapareceu-lhe da cabeça. Não era tempo para pensar em salmão, mas sim naquela rapariga a desmoronar-se ao seu lado. Tocou-lhe gentilmente no ombro.

Olha para mim, Elisa. Basta de lágrimas. Sim, tudo isto é pesado e dói começou, voz firme mas tens o teu filho. E tu vais lutar por ele. Tens plano? Já tens tratamento marcado? E vais para onde, agora?

Elisa ergueu os olhos, desesperada.

Não sei… Quero ir ao IPO amanhã para fazer biópsia, mas não posso deixar o Duarte. Só tenho uma avó velhinha no Ribatejo, foi ela que me criou. Vou para lá. Aqui não posso ficar: não tenho onde nem como.

Oh, minha menina isso não faz sentido nenhum! exclamou Custódia. O que te podem fazer num posto da aldeia? Não podes desistir de tudo só porque um homem fugiu. Eu fico aqui com o Duarte. Vai tratar-te e esquece o resto; depois logo se vê. A casa continua tua, a renda não me faz falta agora. Vá, mete ordem na casa, amanhã cá estarei cedo. Diz-me onde levar o menino à creche e trata da tua saúde.

Elisa olhava Custódia como quem via um milagre. Sempre a achara distante, talvez arrogante, toda perfumada e bem composta, e ali estava, a mostrar um coração maior do que algum familiar. Em vez de gritos pela renda, revelou compreensão, generosidade que Elisa nunca esperara.

Porque ficas a olhar para mim com esse ar espantado? carregou na voz Custódia, apenas para disfarçar a emoção. Anda, ergue-te. O caminho ainda é longo e não podemos desanimar. Ora vamos, senão ainda te ponho a chorar também!

Sem palavras, Elisa encostou-se no ombro de Custódia, partilhando um silêncio tão doloroso quanto cúmplice. Custódia levantou-se por fim.

Bem, vou andando. Prepara-te para amanhã. Venho por volta das seis, pode ser? E assim se despediu.

Naquele final de dia, o destino levou-a de volta ao supermercado não pela posta de salmão, mas pelo frango do caldo e as arrozes, carne picada e legumes. Custódia precisava alimentar-se, sim, mas agora também ao Duarte, enquanto Elisa estivesse no hospital.

O menino era um encanto, e a tarefa ficou longe da dificuldade que temera. Duarte era traquinas, mas respeitador e divertido. Chorava com saudade, claro, mas Custódia sentia por Elisa uma preocupação de mãe a jovem estava-lhe a entrar na vida, e no coração.

A espera pelo resultado da biópsia foi dolorosa. Dois dias depois, Elisa regressou, e começou uma espera angústia pelo desenrolar da doença. Mas o telefonema veio eufórico:

Dona Custódia, soube agora! É o início da doença, só preciso de uma operação. Tenho esperança!

Estás a ver, querida? respirou Custódia, emocionada. Não fizeste bem em desesperar. O teu marido foi embora, e se calhar foi o melhor. Apareceu quem realmente merece o teu coração. Então, quando é a operação? Com o Duarte, não te preocupes fica comigo.

Só daqui a um mês E há muita gente à espera. Talvez fosse melhor ir para o Ribatejo um tempo, pode alugar a casa Sinto-me incomodada por viver aqui sem pagar.

Valha-me Deus, Elisa! interrompeu Custódia, rindo-se. Deixa-te dessas ideias! Preocupa-te contigo. Alimento não te vai faltar.

Nunca vou conseguir retribuir murmurou Elisa, soluçando.

Passou um ano e meio. No restaurante mais bonito da Baixa lisboeta, celebrava-se um casamento cheio de música e alegria. Lá estava Custódia, no lugar de honra, ao lado da noiva, considerada por muitos como sua filha. E, dentro de si, era assim mesmo que sentia.

Elisa, linda e saudável, de vestido branco e tiara nos cabelos escuros e ondulados, ia casar com o médico que lhe salvou a vida. No início Elisa desconfiara demasiado novo, pensava ela, queria um médico experiente. Não teve escolha, e foi aquele jovem médico que se apaixonou pela paciente. Custódia foi o seu maior apoio, quem lhe deu confiança quando tudo parecia ruir.

Os exames, as dores, a recuperação. Só passado meio ano Elisa conseguiu trabalhar e só então insistiu em pagar a renda, já a senhora considerava-a família e nem queria saber de dinheiro. Para Custódia, a jovem e o filho tornaram-se a companhia certa dos seus dias. Agora, Elisa e Duarte tinham nova casa, junto ao médico. Custódia teria de arranjar novos inquilinos, mas sentia o coração cheio: o médico amava claramente Elisa e a vida ia continuar.

Na sua mesa, enquanto puxava uma travessa de salmão desta vez sem culpas , Custódia recordou a noite em que abriu mão dessas pequenas alegrias para ajudar a jovem inquilina. Quanto abdicou, à custa do que verdadeiramente ganhou! Havia filhos longe, sim, mas agora também havia Elisa e Duarte. Sabia que nunca mais seria esquecida por aqueles dois.

No auge da festa, Elisa ergueu-se, voz rouca pela emoção:

Quero agradecer a uma pessoa sem quem nada disto seria possível disse, entre uma lágrima brilhante e um sorriso radiante. Dona Custódia, para mim é como a mãe que nunca tive. Obrigada a Deus por a ter cruzado no meu caminho.

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