A Felicidade Está nos Pequenos Momentos

Felicidade nas Pequenas Coisas

Foi numa noite fora do tempo, numa Lisboa enevoada, feita de reflexos impossíveis nos paralelepípedos de Alfama, que os antigos colegas do Instituto de Cultura se reencontraram no restaurante Solar do Marquês. Tinham passado dez anos desde o dia em que, debaixo de jacarandás imaginários, receberam os diplomas com a ansiedade de quem espreita o futuro entre promessas, receios e sonhos dobrados em notas de euro guardadas no fundo da mochila. Agora, o reencontro trazia uma outra espécie de nervosismo: era preciso encarar quem se tinha tornado cada um, sem saber ao certo onde parava o passado e começava o presente.

Alguns vieram das cidades fantasma do interior, outros de vilas do Alentejo perdido entre oliveiras, havia quem trouxesse consigo as metades-da-vida mulheres de ombros descobertos, maridos de gravata lazúli, parceiros com risos estranhos , e havia quem chegasse só, mas com o coração aberto às surpresas.

Numa das antigas salas forradas de azulejos gastos, rodeada por espelhos tortos, Rosa a melhor amiga de Carminda ajustava o último botão do seu vestido cor de neblina. O tecido, um suspiro de chiffon, parecia flutuar e mudar de tom à menor brisa. Rosa, de olhar vivo e mãos de cirurgiã, certificava-se de que tudo caía perfeito, como se aquela fábula noturna dependesse daquele gesto minucioso.

Sabes, Carminda, não pensei que aceitasses vir, confessou Rosa, franzindo as sobrancelhas. As lembranças daqui não te deviam ser as mais simpáticas O Artur, com o seu eterno assédio disfarçado de poesia barata lá vai o tipo aparecer!

Carminda sorriu, ajeitou um caracol de cabelo castanho á luz surreal da lampa, e deixou o espelho devolver-lhe um brilho especial nos olhos o apetite pelo improvável reencontro. Havia nela uma estranha euforia, quase uma saudade do que nunca viveu completamente. O Artur? Décadas já tinham escorrido pelo ralo do tempo a paixão juvenil já devia ser só reflexo num charco de água parada. E talvez para ele recordar fosse também um acto de coragem.

Porque não vir? respondeu, fazendo passear os dedos pelo tecido do vestido. O gesto, circular e silencioso, apaziguava-lhe as memórias. Quero ver como mudámos. Além disso, o Álvaro insistiu tanto! Tem curiosidade em conhecer esta gente toda das minhas histórias.

Rosa riu, afastou-se para buscar uns sapatos baixos salpicados de pérolas miúdas fitou-os, como quem procura sinais secretos no brilho do nácar e, sem deixar de espreitar Carminda de soslaio, rematou:

O Álvaro é um achado! Ouro sobre azul! Não o largues.

Carminda desatou a rir, calçou os sapatos e sentiu crescer-lhe uma coragem renascida aquele salto mínimo dava-lhe centímetros de confiança no mundo dos vivos e dos fantasmas.

Ele é mesmo um homem bom, Rosa. disse, olhando fundo para a amiga. Ama-me com uma verdade que eu pensava só existir nos livros de Sophia.

Então vamos embora, ou perdemos os segredos todos atalhou Rosa, sorrindo afinal para o espelho.

Foram entrando na sala grande, cruzando antigas amizades, atravessando aquela névoa de perfume e música que só existe nos sonhos. Carminda revia mentalmente as possibilidades: algum tornara-se encenador famoso, outro tinha uma escola de música algures na Boavista, uma outra casara e espalhava filhos como papéis soltos pelo chão Talvez o Marco, o eterno brincalhão, não tivesse mudado nada. Talvez Leonor, sempre de caderno no colo, ainda desenhasse as sombras dos outros ao invés das próprias.

Carminda viu logo a Marília, amiga de infância, debruçada sobre uma taça de vinho verde junto ao enorme espelho de moldura dourada e craquelada, acenando com tal entusiasmo que era impossível não sorrir. O vestido de Marília era um reflexo de fogos de artifício, e o seu riso espelhava-se pelo salão como uma cascata de miçangas.

Ah, Carminda! exclamou, puxando-a para um abraço de novela antiga. Preparada? Isto parece a festa do Pinóquio, ninguém sabe onde meter as mãos!

Logo depois, fez um gesto misterioso na direção da porta:

Olha quem acaba de chegar

E Carminda virou-se para receber, como quem espera um clarão, o Artur. Ele entrou com a pompa de um presidente da junta em procissão. O fato escuro cortado à medida assentava nele como a noite num barco à deriva, e um relógio reluzia-lhe no pulso mais do que todas as estrelas sobre o Tejo. Ao lado vinha uma mulher alta, loura, vestida com um tecido salpicado de lantejoulas parecia saída das montras da Avenida da Liberdade.

Artur percorreu o salão com o olhar de quem avalia o leilão e, ao ver Carmelinda, houve um bater de asas no tempo: o relógio parou, o vinho dos copos ficou suspenso, um sorriso breve saltou-lhe nos lábios. Depois avançou direto, como se pisasse tapete vermelho.

Carminda disse, a voz ensaiada, quase monotónica, com emoção enlatada, como quem quer mostrar que já leu o guião. É bom reencontrar-te.

Artur Carminda sorriu com uma ternura que já não era tua uma nostalgia de papel fino, só para guardar. É realmente bom ver-te. Como tens passado?

Alisando o casaco de modo ostensivo ali uma sigla bordada sugeria uma classe que era só fachada Artur respondeu num tom que era manifesto e ordinário:

Estou ótimo, sinceramente. Trabalho numa multinacional, casei com a Matilde que, aliás, é modelo Vivemos no Chiado, sabes. Não me posso queixar: a vida corre conforme planeei.

Matilde fez um aceno quase invisível, com um olhar do tipo ver e etiquetar: um relance de quem já não se surpreende com nada, mas nunca abdica da arrogância. Carminda sentiu, entre o entusiasmo e o véu da necessidade, que estava num teatro impossível, onde já conhecia as falas.

Fico contente, Artur. A sério. Fico mesmo feliz por ti.

Artur semicerrou os olhos, tentando decifrar o silêncio entre as palavras de Carminda procurava confissão ou inveja, mas só encontrou serenidade ensolarada.

E tu? Continuas a dar aulas de música? indagou, entre o condescendente e o mero curioso.

Sim, claro! disse Carminda, abrindo espontaneamente um eco de luz no rosto. É o meu sítio no mundo. Não troco por nada: são crianças felizes, todos juntos como numa canção de roda. Recentemente, encenámos O Quebra-Nozes. Foi um parto coletivo: meses a ensaiar, costurar fatos, aprender as melodias Sofremos, mas, ao vê-los no palco, tudo faz sentido.

Falava com tanta felicidade que até Artur hesitou, apanhado desprevenido pela alegria gratuita.

E o teu marido, Álvaro, não é? Ainda treinador? perguntou por fim, com o nome a cair como caroço azedo no fundo do copo.

É, claro. Apaixonado pelos miúdos. Ensina-lhes não só a chutar a bola, mas a viver. Vê-los correr atrás dele, imitar os seus gestos é mágico. Tem uma paciência infinita. Nunca grita, nem quando erram. Só quem gosta mesmo entende.

No orgulho calmo de Carminda havia uma música secreta, uma verdade maior do que qualquer cifra. Artur franzia a testa, interiormente sem perceber como alguém podia amar assim o pouco.

Suponho que não seja fácil, com esses salários picou ele, olhando-a de cima, fingindo empatia.

Carminda sentiu aquela pontada antiga a de quem é avaliado sem ser ouvido, medida em escalas invisíveis. Mas em vez de se encolher, sorriu, daquela maneira que faz com que o mundo à volta amoleça.

Somos felizes, Artur. O Álvaro é gentil, atento, nunca esquece que eu adoro lírios-do-vale: todos os anos, quando chegam à Ribeira, ele traz-me um molho. E, mesmo depois do treino, quando podia dormir até ao meio-dia, levanta-se cedo ao sábado para fazer panquecas, ovos mexidos, torradas E quando estou doente lê poesia para mim com uma voz pequenina e leva-me chá de cidreira.

Artur silenciou, perturbado à espera de encontrar nela o arrependimento que justificasse os seus próprios caminhos. Mas Carminda continuou luminosa:

Portanto, não não me arrependo de nada. Nem um segundo.

Deixou por contar o resto: os serões em casa, a alegria nos rituais, a ternura de saberem sempre achar motivos para rir. Porque o amor deles não cabia em gestos de revista, nem em números, nem em elogios públicos. Era coisa miúda mas eterna.

Artur queria responder, procurar no teatro das palavras o regresso à sua habitual superioridade, mas nesse instante apareceu Álvaro. Nenhuma pose, camisa aberta e jeans, sorriso tranquilo, calor nos olhos.

Carminda, posso roubar-te um bocadinho? perguntou, passando-lhe delicadamente o braço pela cintura.

Artur mordeu os lábios mas não disse nada. Era como se se desfizesse aos poucos, rodeado de uma realidade onde não sabia respirar.

Álvaro guiou Carminda até uma mesa encostada à janela, encostando o cotovelo à dela num gesto de proteção involuntária. Do lado de lá, a rua zigzagueava num desfile absurdo de eléctricos azuis. Carminda sorria, feliz por aquela vida mínima mas cheia, longe das perguntas erradas.

Artur ficou para trás, assentado num presente impossível de habitar. O jantar continuou, mas ele era todo nostalgia e silêncio. Olhava Carminda e temia não voltar a encontrar nunca mais aquele brilho feliz.

Por dentro, a pergunta ecoava: valera a pena o seu caminho? Era tudo tão perfeito por fora relógios, fatos, apartamentos recortados dos sonhos dos outros mas por dentro, toda a sua vida cabia num balão sem ar, num invólucro bonito e vazio.

Mais tarde, quando Lisboa dormia, Carminda e Álvaro desceram juntos a colina até ao Rossio. Os candeeiros criavam ilhas de luz dourada no empedrado e a brisa de Maio brincava com as franjas do vestido dela. Caminharam devagar, Carminda encostada ao ombro do marido, sentindo, quase a flutuar, que a única felicidade possível era esta: feita de gestos repetidos, de certezas pequenas, de abraços depois do cansaço.

Estás bem? quis saber Álvaro, apertando a mão dela.

Estou. Muito, e nos olhos dela havia agora o brilho quente dos faróis do Terreiro do Paço.

Riram juntos. Falou-se de Artur apenas de passagem, quase com pena. Ele nunca percebeu disse Carminda. Que a felicidade estava ali, nas conversas pela manhã, na paz das noites tristes. Ficou-lhe tudo embrulhado no papel dourado.

Álvaro afagou-lhe a face com um toque leve, terno, tão antigo quanto o seu afeto.

Amo-te, murmurou. Amor é isto, nada mais.

De madrugada, noutra Lisboa impossível de silêncio, Artur voltava ao seu apartamento de linhas retas, luz fria. A mulher há muito dormia, o cheiro de perfume barato já desaparecera no corredor. Ele ficou na biblioteca, à luz da lâmpada do século passado, folhas desarrumadas sobre o tampo.

Pegou numa fotografia: todos de branco, no pátio do Instituto, Carminda no meio, leve, a gargalhar com o vento. Ele, ali ao lado, mascarado de auto-confiança, já incapaz de rir.

Passou os dedos pelo rosto dela na foto. Gostava de saber onde se perdeu a sua história se alguma vez a teve. Tudo o que colecionou na vida dinheiro, aplausos, troféus invisíveis não servia para compor aquele vazio doce. Nem o whisky, nem as lantejoulas.

Lá fora, Lisboa continuava a girar, surreal e líquida, sobre os azulejos do sonho. E, uma vez mais, Artur compreendeu, demasiado tarde, que a felicidade só se encontra nas coisas que ninguém sabe medir e que nunca se compra, por muito que se tente.

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