Trouxeste pão? perguntei-lhe, sentindo as palavras saírem difusas, como se não tivessem o peso habitual. Ele olhou-me demoradamente, com aqueles olhos cinzentos, como se eu falasse em norueguês, como se houvesse mar a separar-nos.
Que pão? murmurou, sem interrogação no tom, seco, distante.
O de sempre. Pão saloio, aquele da Primavera ao canto da Rua das Laranjeiras, trazes sempre de lá.
Largou o saco no chão da cozinha. Olhou em redor, como se tivesse entrado pela primeira vez naquele espaço com cheiro a cozedura, a panelas, a relento entranhado nas portas.
Não passei no supermercado.
Sorri só para dentro e voltei-me para o fogão.
Cansaço, pensei eu. Afinal, esteve toda a semana fora, num congresso em Santarém, hotel sem alma, ar condicionado, pessoas indiferentes, comida apressada. Que cansaço diferente era aquele.
Mas pão, ele trazia sempre, há dezassete anos. Se ia daqui a Évora, ou só ali ao fundo da rua, voltava sempre com o pão. Não era por necessidade, era como um fecho das pequenas rotinas caseiras. Fazia parte de regressar.
Continuei a mexer a sopa e fiquei em silêncio.
Chama-se Manuel. Manel. Tenho cinquenta e oito, ele sessenta e um. Vivemos em Setúbal, numa T2 no terceiro andar que comprámos quando a nossa Clara, ainda Claudinha, era pequena. Ela já vive há anos em Lisboa, liga sempre aos domingos. Eu trabalho na biblioteca da escola, o Manel está reformado há três. Continua a dar umas aulas de legislação de obras numa escola técnica, meio por gosto, meio por teimosia. Vivemos calmos, com ritmos certos, e quase sem discussões é importante entender isso, não havia nada que explicasse o que se seguiu àquele regresso.
Jantámos calados. Ele comeu pousadamente, os olhos presos à mesa. Esperei que fosse ele a começar a conversa, dizer algo sobre a viagem, as piadas velhas dos colegas, o elevador do hotel a avariar, o quanto sentia falta de sopa da nossa, feita em casa. Era sempre assim. Desta vez, nada.
Como estava Santarém? perguntei por fim.
Normal.
O seminário correu bem?
Sim.
Pousei a colher.
Manel, estás bem?
Olhou-me. Os olhos de sempre, um pouco mais cansados.
Estou, só cansado.
Levantei os pratos e ele retirou-se para a sala, com o telemóvel, como se tudo estivesse na mesma. Só que não havia pão na mesa. Nem conversa. Nem outra coisa, ausência sem nome.
Pensei cansaço, repeti para mim. Uma noite, mais outra.
Na sexta-feira, notei o primeiro estranho de verdade.
Estava a beber café à janela e ele saiu da casa de banho, passou pela cozinha, serviu-se de água. Abriu a lata das ervilhas secas, olhou lá para dentro, cheirou e pôs de volta. Nada disse. O Manel nunca comeu ervilhas secas. Desde que nos conhecemos, repete entre risos que é comida de quem se aborreceu do mundo. Cozinhava-lhe arroz, feijão, até grão. Ervilhas, nunca.
Mas apanhá-lo ali, a cheirá-las, como se ponderasse experimentar
Apetecem-te ervilhas? perguntei, sem dar relevo à voz.
Não. Seguiu para a sala.
Fiquei a olhar para a lata.
No sábado, a Clara ligou:
O pai já voltou?
Veio na quarta-feira.
Então Como está ele?
Hesitei, só um segundo.
Cansado, mas bem.
Em outubro vamos passar aí, está bem? Nas férias, eu e o João.
Claro, venham.
Não disse nada. Dizer o quê? Que o pai não trouxe pão e cheirou ervilhas? Era ridículo, uma nota dissonante num dia arrumado.
Mas já sabia. Não era razão e lógica, era outra coisa, pela barriga, pela pele.
No domingo, sugeri que fossemos até ao Jardim do Bonfim, ritualzinho de domingo sem grande chave, mas éramos nós: sentar-nos no banco debaixo dos jacarandás, comprar gasosa no quiosque, ele a queixar-se das costas, eu a lembrar-lhe que tinha de caminhar mais, depois ríamos com isto.
Vamos até ao jardim? atirei.
Levantou-se do sofá com um movimento contido.
A que jardim?
O Bonfim. Está bom tempo.
Pensou. O Manel nunca pensava nestas coisas, era sempre bora lá.
Está bem.
Fomos sem conversa. Caminhava atento ao que o rodeava, olhos neutros, como se decorasse um percurso estranho.
Na entrada do jardim estava um velhote com um cãozarrão, um cocker, ruivo e entroncado.
Olha o Chico, sorri. Desde que a dona Nazaré tinha o Chico na nossa rua, todos os cockers gorduchos eram Chicos para nós brincadeira privada, só nossa.
Olhou para o cão. Nada. Nem sombra de sorriso.
Chico, repeti, baixinho.
Bom cão, disse. Só isso, cordial mas sem tom.
Descobri-me parada junto ao arbusto de alecrim, o coração batia com resistência, como se algo me puxasse as costuras.
Não se lembrava do Chico. Ou fingia não lembrar. Mas para quê?
Ao lago, nem quiosque da gasosa havia, arrumaram para o inverno.
Sentámo-nos no banco.
Gosto deste sítio, disse ele.
Vimos cá há dez anos.
Pois.
Manel, vimos cá há dez anos
Pois, assentiu, e aquilo soou como acredito em ti, não um testemunho próprio.
À noite, ouvi-o respirar no escuro, procurei nomes científicos para estas ausências, li qualquer coisa sobre isto que, após trauma, as pessoas voltam diferentes, como se tivessem sido trocadas. Só que esta vida não tem traumas, só uma semana em Santarém. Não faz sentido.
Ergui-me às três, bebi água, fiquei à janela. Rua molhada, candeeiro a piscar. Aguenta, pensei. Pode ser só o mundo, as voltas da idade.
De manhã, liguei à Lurdes, a minha amiga de sempre, que agora trabalha na receção do centro de saúde.
Posso ir aí?
Aconteceu alguma coisa?
Não sei, preciso falar.
Aparece às quatro.
A casa da Lurdes cheira sempre a bolo, mesmo sem bolos. Sentei-me, contei tudo. O pão, as ervilhas, o Chico, o pois à beira-lago.
Pode ser depressão, disse ela. Ou falta de memória. Só tens de dar tempo.
Lurdes, ele era melhor do que eu a lembrar datas, nomes, tudo.
As pessoas mudam, Maria.
Isto não é esquecer. É olhar-me como se me visse ao longe.
Ela partiu o bolo.
Dormiste?
Mal.
Isso também não ajuda.
Concordei.
Mas na viagem de regresso só pensava nas ervilhas cheiradas, naquele pequeno gesto onde não cabia o meu marido.
Quando cheguei, estava na mesa da cozinha, a mexer papéis.
Estive com a Lurdes.
Pois.
Trouxe bolo.
Levantou os olhos.
De quê?
De couve-lombarda, o teu favorito.
Não ligo a couve-lombarda.
Pousar o saco. Devagar.
Manel desde sempre dizes que era o da tua mãe.
Era de maçã.
Silêncio.
A mãe dele, a D. Gracinda, fazia só de couve-lombarda e ovo. Esse cheiro, conhecia-o melhor do que a infância dele. Isso nunca se esquece.
Fui ao telemóvel, liguei à Margarida, irmã dele, lá no Porto.
Lembras-te como era o bolo da mãe?
Claro! de couve-lombarda e ovos, ela só fazia assim!
Obrigada.
Fiquei sem chão. Digo para mim, tem de ver-se ao médico. Mas como abordar isto?
Ao jantar, perguntei:
Tens tido dores de cabeça?
Não.
Dormes bem?
Sim.
Não queres ir ao médico?
Está tudo bem, Maria.
Fez aquela coisa de sempre, traçou uma linha invisível, não se insistia.
Fui até à casa de banho, olhei-me ao espelho. Cabelo curto já muito prateado, olhos marcados, as ditas rugas risonhas, como ele dizia. Estou a exagerar, pensei. Só tenho medo.
Lá para as duas da manhã, acordo com o silêncio. Cama fria de um lado. Fui até à cozinha luz acesa.
Escrevia num bloco. À mão, o que já não era hábito.
O que escreves?
Só pensamentos.
Posso ver?
É privado.
Estranhíssimo. Deixei-o, voltei para o quarto, senti depois os passos cautelosos dele, o apagar da luz. De manhã, o bloco não estava.
Procurei. Check nas gavetas, até na dele (nunca fizera isso). Nada. Levou consigo.
No trabalho, aquilo andou comigo o dia todo, entre livros a arrumar, perguntas da menina Andreia, barulho da papelada. Alteração da identidade do familiar, recordei de súbito. Aquele termo foi aparecendo na cabeça.
À noite, estava mais cedo em casa. Fiquei a observá-lo parado diante da janela, só a estar. Estranho nele, que sempre fez alguma coisa.
Como correu o dia?
Normal.
E os alunos?
O habitual.
Preparei frango, forcei a conversa:
Fala-me de Santarém. Quarto, hotel, pessoas.
Hotel igual aos outros. Seminário na universidade. Mais nada.
Amigos, colegas O Jaime estava?
O Jaime, colega de pesca, anos disto.
Não, não foi.
Esperei. Depois deitámo-nos, e eu mandei mensagem à Paula, mulher do Jaime.
Olha, esteve tudo bem em Santarém?
Sim, mas o Jaime não foi, ficou cá o tempo todo. Alguma coisa se passa?
Tudo bem, enganei-me, escrevi.
Deitei-me, a cabeça a girar, a suspeita feita lodo por dentro.
No dia seguinte, sugeri de propósito:
Precisamos de cortinados novos, vamos ao Dona Lina na Baía?
Ok.
Era sempre ele a revirar olhos e dizer escolhe tu, depois vamos comer uma bola de Berlim ao café Emiliana. Era o nosso ritual.
Depois vamos ao café?
Qual café?
O Emiliana, ali na esquina, vamos sempre lá.
Olhou, como a processar sons estrangeiros.
Não reparei.
Fomos, comprei cortinados, ele calmo, depois tentei arrastá-lo ao café. Pedi bola de Berlim. Ele comeu, olhos atentos à rua. Só uma vez fixou a placa de néon.
Manel, lembras-te de mim?
Olhou, surpreso.
Claro, Maria. És a minha mulher.
Sabes o que tivemos, o que temos?
Sentou-se direito, comeu mais um bocado da bola.
As pessoas mudam.
Tu dizes sempre o contrário, quis dizer, calei.
À noite, enquanto dormia, entrei no seu escritório. Gaveta, bloco: encontrei.
Li.
Páginas vazias ao início, depois listas:
Maria. Mulher. 58 anos. Biblioteca. Filha Clara, Lisboa. Café sem açúcar. Lurdes amiga. Bolos com couve?.
Parque Bonfim aos domingos. Chico = cão gordo. Piada privada.
Mãe: Gracinda. Couve ou maçã. Confirmar.
Faltou-me o fôlego.
Era o registo de quem se tenta lembrar de uma vida postiça. Mapeava a minha família, estudava-a.
Fechei o bloco, pus de volta, sentei-me na sala escura, a respirar devagar.
Pode ser amnésia, repeti. Mas a letra, minuciosa, não era dele. O Manel escrevia largo, trôpego. Aquela letra parecia impressa, formal. Podia ter mudado após uma doença? Mas as palavras e os movimentos estavam certos.
Chegou e sentou-se para jantar, olhei-lhe as mãos comuns, o tom quase certo.
Manel, fala-me de nós, de como nos conhecemos.
Levantou os olhos, pensativo.
Foram uns amigos, na festa de aniversário do Luís, tinhas um vestido azul.
Esperei. Era verdade, a festa do Luís, vestido azul, setembro de 97. Depois, silêncio.
Depois disso, passou algum tempo, começámos a sair, casámos, a Clara nasceu, comprámos a casa.
E o pedido de casamento? Onde foi?
Silêncio.
Nem tudo tem de ser lembrado, Maria.
Tu dizias sempre o contrário.
Levantei os pratos, terminei a conversa.
O pedido foi junto ao Sado, embarcámos numa aventura numa canoa, uma tarde, perdemo-nos a caminho de casa, demos gargalhadas e ele perguntou, no meio do arrozal, se eu queria ficar para sempre. Ele adorava contar esta história.
À noite, escrevi um texto grande à Lurdes, contei tudo do bloco, do Sado, das ervilhas.
Tem de ir ao médico, Maria. E tu também. Vai amanhã.
Passei a noite virada para a janela, a ouvir a chuva bater nos prédios. Ele respirava, igual.
De manhã, decidi dizer tudo. Falei no bloco, na irmã, no Jaime.
Estava já na cozinha, chá pronto.
Manel, preciso falar contigo.
Olhou-me.
Sei que encontraste. Vi-te no escritório.
Senti o frio do azulejo sob os pés.
Então conta-me.
Sentámo-nos.
Não me lembro de tudo. E é como se fosse noutro corpo. Não me ocorrem as histórias, só factos. Por isso escrevo. Tenho medo de falhar.
Porque escreves assim? Não és tu a escrever.
Permaneceu calado, olhar vazio.
És o Manel? Quem és tu?
Maria não sei como responder.
A primeira vez que vi algo nos olhos dele, tristeza, ou medo.
É sincero? perguntei.
Tudo o que posso dar.
Fiquei em silêncio, ouvindo a chuva do Sado nas vidraças. A cidade, Setúbal, respirava devagar.
O que faço com isto?
Não sei. E é sincero.
Levantei-me, servi café.
Ele aproximou-se.
Maria.
Sim?
Lembro-me da tua voz. Desde sempre. As entoações. Só isso me resta.
É pouco, Manel.
Eu sei.
O silêncio da casa encheu-se de água da chuva e do cheiro do pão da Primavera.
Preciso de tempo.
Compreendo.
Não prometo nada. Não sei o que farei.
Está bem.
Queres que vá buscar pão?
Sim. Saloio. Daquela pastelaria, por favor.
Vestiu o casaco, olhou-me no limiar da porta.
Maria
Sim?
Um dia contas-me o que aconteceu no Sado?
Olhei-o longamente.
Talvez.
Fechou a porta. Ouvi os passos nas escadas doze degraus. Sempre contei.
Vi pela janela: atravessou o pátio, curvou o pescoço à chuva, seguiu para o pão.
Peguei no telefone.
Lurdes, não faço ideia. Ele foi buscar pão.
Isso não é resposta.
É só o que tenho.
Guardei o telefone, bebi café, frio mas bom.
Os doze degraus soaram de novo. Chave na fechadura.
Aqui está, último que havia.
Olhei-o. Gotas na testa.
Põe na mesa.
E assim ficámos, dois estranhos sentados, enquanto o chá fazia vapor.
Maria, contas-me do Sado?
Silêncio. Depois, talvez, depois.
O bule cantava, como em todos os sonhos estranhos, sem pressa.







