Bananas para a Avó

– E não te esqueças dos bananas para a avó Leonor! Mas pequenos, como ela gosta! Da última vez trouxeste uma coisa que ninguém percebeu o que era! Mariana! Como é possível? Será assim tão difícil fazer o que te pedem?

Mariana Correia, directora financeira de uma grande empresa em Lisboa, mãe de dois filhos e esposa realizada, soltou um suspiro e acenou para o ar, mesmo sabendo que a mãe não a podia ver do outro lado do telefone. Bastava saber que a mãe, Dona Fernanda, conseguiria adivinhar perfeitamente qual tinha sido a sua reação face às recomendações exigentes.

– E não me acenes com a cabeça! Faz mesmo! Conheço-te bem! Sempre no mundo da lua! Mariana! Já era tempo de amadureceres!

Mariana não acenou uma segunda vez. Limitou-se a dizer: “Sim, mãe, está bem,” e despediu-se.

Amadurecer Pois! Como se quarenta e tal anos não fossem suficientes.

Faltavam ainda trinta minutos para terminar o dia no escritório, e Mariana tentou concentrar-se no relatório mensal, mas a cabeça fugia-lhe para outros pensamentos quase sempre negativos. Sempre ouvira da mãe que era uma boa menina.

– A nossa Marianinha é uma inteligência! Uma excelente filha!

Tudo isso fazia sentido quando a Marianinha andava no jardim de infância, com laçarotes nos cabelos e saias rodadas, mas mal a mãe a ia buscar, já levava para casa uma pequena pestinha.

– Mariana! O que tens na cabeça?

– Um ninho, o que a Educadora Rosa disse. Até sugeriu que me mantivesse calada no recreio, para ver se os pássaros vinham pôr ovos. Assim a minha cabeleira servia para alguma coisa!

– E os laços, onde estão?

– Não sei! O Sandro foi buscar um que precisava de uma corda para a ancora do seu barco imaginário. A Educadora Rosa até trouxe uma bacia com água para mostrar como o barco feito pelo pai do Sandro flutua! Tão giro!

– E a outra fita?

– Também não faço ideia onde anda. A Leonor pediu emprestado Depois sumiu-se com ela. Mãe, porque é que o vento sopra?

– Mariana!

– O quê?!

– Deixa-me de perguntas parvas! Tenho a cabeça feita em água!

Mariana calava-se, a pensar se a mãe teria mesmo dores de cabeça que nunca passariam, a ponto de ser descartá-la como as cascas de ovos para o lixo enquanto fazia ovos mexidos.

Com um imaginário exuberante, Mariana ainda no caminho para casa começava a soluçar, até acabar por chorar ruidosamente, de tal modo que a mãe ficava fora de si.

– Mariana! Basta de teatros!

Nunca conseguia explicar porquê doía-lhe imaginar a cabeça da mãe partida e o seu mau humor. Só lhe apetecia chorar mais alto, como Musga, a cadela dos vizinhos.

A Musga era tolinha e uivava por qualquer coisa, mas o espetáculo era sempre maior quando o dono, senhor Júlio o canalizador do prédio na Rua dos Loureiros se metia nas bebedeiras. Aí era noite e dia a uivar, deixando os vizinhos à beira do ataque de nervos. Toda a miudagem queria que algum adulto a levasse dali. Só se calou de verdade uma vez, durante uma dessas ausências do dono, e os vizinhos perceberam logo que a tragédia tinha batido à porta.

Fizemos-lhe uma despedida como se fosse família. Júlio era boa pessoa, sempre disposto a ajudar, “mas fraco de carácter”, dizia a minha mãe.

Nessa altura, a Musga veio sentar-se à porta do prédio, a olhar o cortejo fúnebre. Não uivou. Fui lá fazer-lhe festas, mas nem mexeu o rabo, ela que adorava mimos. A minha mãe puxou-me pela mão, e seguimos. Ao voltar do dentista, a Musga continuava sentada, sem se importar com as patas geladas. Juro que achei cruzei até os dedos como o Sandro ensinou que aquela cadela estava a chorar em silêncio.

– Mãe, porque é que não se vêem lágrimas?

Nem sei que tinha de especial aquela pergunta, mas a mãe estremeceu, agachou-se ao lado da Musga e chamou-a baixinho:

– Musguinha Vem comigo. Ele não volta mais

Se a cadela entendeu, não sei. A mãe apanhou-a ao colo e mandou-me segui-la.

A Musga tornou-se nossa. Viveu muitos anos. Quando chegou até nós era já adulta, mas na família ainda ficou outros dezassete. Vi a Musga envelhecer, vi partir E nunca mais teve vontade de uivar. Aceitava banho, mimos, passeios e, no final, partiu em silêncio, aninhada na minha mão, salgada de lágrimas.

Nunca mais tive cão. Mesmo quando os meus filhos pediram, nunca tive coragem. Não conseguia esquecer o olhar cheio de sentido da Musga.

Ainda assim, recordo uma infância muito feliz. Tinha tudo o que uma criança podia querer: pai, mãe, duas avós, um coelho sem uma orelha, panquecas com natas feitas em casa ao sábado. Havia também os fins-de-semana na casa de campo da avó Olga, mãe do meu pai, para onde raramente ia com a mãe nunca soube, em pequena, a razão. Achava que havia ali algum segredo dos adultos.

E havia os verões à beira-mar, mas com a avó Leonor. Com ela podia tudo! Falávamos de qualquer coisa; não havia tabus. Por isso, a mãe zangava-se:

– Valha-me Deus, mãe! Para quê dizer isso à Mariana? Ainda é pequena! Não entende nada!

– Também não entendeste? Sempre foste uma menina esperta. A Mariana puxou a ti!

Eu achava piada a vê-las discutir. Realmente, percebia metade do que a avó dizia sobre bebés, mas gostava de a ouvir e ficava a magicar: porque será que os adultos não contam sempre tudo aos mais novos?

Talvez porque havia coisas complicadas demais. Percebi isso ouvindo, às vezes, as discussões abafadas dos pais no quarto ou a avó Olga a olhar por cima da cabeça da minha mãe, quando íamos ao campo. Eu não entendia e puxava a mãe para a varanda, onde a avó fazia o seu famoso folar de cereja.

– Anda, mãe! Aprende com a avó que o teu bolo nunca fica igual ao dela!

A mãe nunca quis. Afinal, só depois soube: laços de família não garantem harmonia. Os meus pais divorciaram-se quando eu fiz dez anos.

No dia da festa, quando estávamos ao rubro, ouvi a porta da entrada bater forte. Olhei para a mãe e ouvi:

– Pronto, acabou-se

A Musga percebeu antes de mim: foi encostar-se à mãe, a confortá-la. Eu corri para a sala, gritei que havia bolo. Quando voltei, vi a mãe e a cadela, lado a lado, cada uma presa nos seus pensamentos.

– Vai, filha, já levo o bolo.

Passados minutos, apareceu de sorriso no rosto e com o bolo em mãos, fingindo alegria.

No fim, ficámos as duas à mesa e ela aventou-me uma colher de prata:

– Estava bom, não estava? As dietas que esperem, Mariana! Haverá dias melhores, vais ver!

Nunca entendi muito bem a promessa de tempos festivos, até porque a pensão que o meu pai pagava mal chegava para as nossas necessidades ficou-se pelos aniversários e Natal. A mãe deixou de festejar o seu próprio.

A avó Leonor, sem papas na língua, insistia para filha refazer a vida. Mas a mãe calava-se ou respondia sempre do mesmo jeito:

– Já chega. Para mim, acabou.

Muitas vezes imaginei que, se ela tivesse dado outra oportunidade a si mesma, talvez tivesse dado uma irmã ou irmão, talvez a vida fosse mais leve Talvez o riso voltasse.

O riso da mãe foi desaparecendo. Ficou cada vez mais exigente; era preciso paciência para não lhe responder torto. Na adolescência, bastava esboçar uma resposta mais agressiva e a Musga surgia, dentes à mostra, e eu recolhia-me.

Só uma vez a Musga me mordeu a sério: depois de uma discussão, entrou, mordeu-me leve na perna e foi-se embora. Deixou-me uns pontinhos, mas ficou-me mais marcada a lição: não se fala assim com quem sabe mais do que nós.

Tudo o que faltava explicar sobre a mãe, explicou-me a avó Leonor:

– O que queres? Qualquer mulher amarga quando lhe falta amor.

– Mas nós gostamos dela, avó

– Ai, Marianinha, mas não é a mesma coisa! Uma mulher precisa de sentir-se mulher. Nem os filhos, nem os pais conseguem isso. Só quem ama e é amado pode dar tal coisa Vais perceber um dia.

– Avó, nem penses! Tenho dezasseis anos!

– A tua mãe tinha dezassete quando conheceu o teu pai. Quem sabe? Pode acontecer contigo muito depressa.

Riu-se, contou-me sobre os seus romances antigos e sobre o amor ao avô a vida inteira. Só não perdoou uma coisa à filha: a traição.

– Perdão, filha, por ser tão franca, mas é melhor que saibas: tua mãe sofreu muito. E ninguém é culpado por querer viver a própria vida, tens de saber separar as coisas.

– A mãe nunca falou mal dele.

– Nem vai falar. É mulher sábia. E tu serás sempre a filha dele. Isso nunca se perde.

– Será que ainda gosta dele?

– Talvez, por isso não quis voltar a tentar.

– Avó, será que eu também vou amar assim, para sempre?

– Não sei Que a vida te traga alguém digno desse amor.

O Olegário, meu marido, conheci-o como a avó previa: a correr para o primeiro exame universitário, dei-lhe um encontrão monumental. Nem vi a cara, mas senti as mãos fortes a segurar-me antes de cair. Com um sorriso maroto, disse-me:

– Anda cá, dá-me o teu número antes que corras outra vez e nunca mais te apanhe!

Nessa altura não dei, mas não me surpreendi que ele me esperasse à saída do exame.

– Agora já não tens pressa?

Casámos três anos depois. Vivemos primeiro com a mãe, o que não foi fácil. Ela torcia o nariz ao futuro genro.

– Programador? Passa a vida à frente do computador a comer sandes Um dia ficas sem espaço em casa!

– Ai mãe, deixa-te disso E depois, são só sandes!

– Preocupa-me é ti, minha filha.

O Olegário teve de lutar muito para a convencer. Ao fim de dez anos, lá lhe ouvi dizer que tinha um genro de “ouro de lei”.

Nessa altura já vivíamos num T2 pequeno, com Olegário a tentar lançar a sua empresa de software e eu nas andanças das imobiliárias, pois, como se sabe, quem vende casas anda sempre de um lado para o outro. Entre avó e bisavó, lá se iam revezando a tomar conta do filho mais velho. Agradecia ao céu ter estas mulheres ainda tão lúcidas.

Mas comecei a notar estranhos esquecimentos na mãe quando estava grávida do segundo filho.

– Mariana, achas normal? Sai de casa e não dizes nada! Tenho tanta coisa para fazer! reclamava ela, ao lume, preparando o borrego que o genro adorava. Pronto, já está! Agora vou à minha vida. E, por favor, confere melhor as tuas e as minhas horas, percebeste?

E eu sem perceber nada. A consulta tinha sido outro dia, bem avisada e breve, pois era no centro de saúde ao lado. Só que, para a mãe, tinha acontecido hoje. E ela falava como se tivesse estado ali a manhã toda.

Recusou exames, por mais que tentasse convencê-la.

– Deixa-te de filmes, Mariana. Estou ótima. Preocupa-te é com a avó Olga!

Falei com o meu pai, e, por amigos, consegui que um médico fosse a casa.

– Não lhe trago boas notícias. Vai ser preciso acompanhamento; é melhor prepararem-se

Senti um gelo agarrar-me à espinha. Não podia ser Tão nova ainda! Do que falava o médico?

– Não vale a pena dissecar as causas: o melhor é prevenir e atrasar ao máximo o desenvolvimento da doença.

– E é possível?

– Não há milagres, mas podemos prolongar e tornar a vida mais confortável. Tudo depende do ambiente seja o mais sereno possível.

Foi então que percebi: tudo ia mudar. Tinha marido, filhos, avó, mas a mãe era a mãe. E o meu dever era garantir-lhe um fim de vida doce.

Não gosto de recordar a luta para que ela aceitasse mudar-se para nossa casa nova. Olegário fez tudo, comprámos rapidamente a moradia, mesmo à custa de empréstimos.

– O importante é estarmos juntos e tu descansada, dizia ele.

Mas em vez de sossego, veio a inquietação. A mãe esquecia-se constantemente de que agora vivíamos todos juntos.

– Mamã, o teu quarto é mesmo ali.

– Para quê a tua casa dos hóspedes? A minha casa é ali em Benfica!

– Eu sei, mas amanhã preciso mesmo de ti para os miúdos E a avó está adoentada. Fica cá hoje, por favor!

– Está bem. Mas não penses que vai ser sempre assim! Tenho direito à minha própria vida!

– Claro, mãe, entendo.

– Que havias tu de entender? Ainda nem trinta tens

Se não fosse a avó Olga a tomar conta dela, eu teria perdido a sanidade muito antes de aprender a viver nesta nova realidade.

– Achas que não se lembra de nada, avó?

– Lembra-se de muita coisa, Marianinha. Sobretudo de tempos longínquos. Às vezes de tudo o que até eu já esqueci. Só agora percebo quanto tempo deixei escapar no teu tempo de menina. Eram os infantários, o trabalho, tudo à pressa Uma mãe, de verdade, só me senti contigo foste a minha segunda oportunidade. A tua mãe, essa, ficou marcada Dava tudo para recuperar esses anos. Talvez este tempo sirva para ela me perdoar. Quando olha para mim, meio confusa, vejo nela tranquilidade, como se todo o sofrimento se apagasse nesses momentos. Sorri É assustador e bom ao mesmo tempo. O que todas as mães querem é ver o filho feliz, nem que seja por instantes.

– Não sei se consigo, avó

Vi o sofrimento mudo da avó Olga, pressentindo o fim da filha única, e quantas vezes entrei em casa e apanhei a mãe sentada no chão ao lado dela, perguntando baixinho:

– Tiro-a daqui, avó?

– Não vale a pena, deixa Falta pouco.

A avó partiu um ano depois desta dança. Antes de morrer, sussurrou-me:

– Cuida dela, Marianinha! Como de ti mesma Eu já não consigo.

Engoli as lágrimas e apenas acenei, pensando como esconder o meu pânico perante o que nos esperava.

– Não penses mais nela como mãe. Dizem que voltamos a ser crianças em velhos é verdade. Sê paciente. Grita se for preciso, mas sem ela ouvir. E perdoa, muito. Como gostarias de ser perdoada pelos teus filhos, um dia. Promete.

– Prometo

Quantas vezes volto a este momento? Não são poucas. Inclusive hoje.

Olhei para o relógio, suspirei e arrumei as coisas: carteira, chaves do carro, guarda-chuva. Tudo em ordem. Chegara a hora de buscar o mais velho ao futebol, o mais novo à escola e parar no mercado.

Comprar bananas. As pequenas, como a avó Leonor gostava.

Porque, ao vê-las, a mãe pensará, sem perceber porquê, que a avó ainda está viva. E que basta atravessar o corredor, passando pelo olhar da cuidadora, abrir a porta da sala e encontrar a velha poltrona, que nada tem a ver com o resto da casa, mas permanecerá enquanto houver memória.

E então resmungará:

– Mariana! Nunca limpas esta cadeira? Quantas vezes tenho de repetir? Trouxeste as bananas? A avó vai chegar daqui a nada. Ela pediu.

– Claro, mamã! Senta-te, eu faço o chá.

E a poltrona voltará a ter dono. E, por mais um tempo, ainda poderei encostar o rosto às mãos que me embalaram. E procurar nos olhos severos, ainda tão doces, uma razão para sorrir, ouvindo como antes:

– Mariana, o que é isso no teu cabelo? Onde deixaste a escova? Traz, que te penteio! Valha-me Deus, já viste que horas são Toca a ir para a cama! O que queres amanhã ao pequeno-almoço? Papa de sêmola? Ou panquecas?

Rate article
Mediatop Newsline
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Bananas para a Avó