Aeroporto de Reserva

Aeródromo de Reserva

Estás a ouvir-me? a voz dele era baixa, quase a pedir desculpa. Quase. Lurdes, estou a falar contigo, consegues ouvir-me, ao menos?

Eu ouvia-o. Sempre o ouvia. Mesmo em silêncio, mesmo quando não telefonava durante semanas, havia sempre um eco dele a pairar no ar do meu apartamento. Como se deixasse para trás uma impressão subtil: o aroma do seu café, uma marca húmida na madeira do peitoril da janela, a cadeira da cozinha ligeiramente fora do sítio.

Estou a ouvir, Afonso.

Então porque estás calada?

Estou a pensar.

Ele suspirou. Eu conhecia de cor aquele suspiro. Pesado, com um assobio rouco, como se o ar tivesse de se esforçar para atravessar algo que se fechou lá dentro. O Afonso suspirava sempre assim quando queria consolo mas não sabia pedir.

Não tenho mais para onde ir disse ele. Percebes? Nenhum lugar.

Eu estava à janela a olhar para a rua. Março. Chuva fina, restos de neve sujos junto ao passeio, pombas molhadas no parapeito do prédio da frente, uma mulher a tentar empurrar o carrinho de bebé pelo meio das poças de água. Um março lisboeta como tantos. Mas dentro de mim, alguma coisa ia lentamente tombando, virando-se, como uma página, como as trancas de uma porta.

Entra disse eu.

Era isso tudo. Três sílabas. Recomeçava-se ali o círculo.

Afonso tinha cinquenta e três anos, eu cinquenta e um. Conhecemo-nos dos tempos em que ele achava piada usar camisas axadrezadas e eu escondia a minha longa trança porque acreditava que passar despercebida era virtude. Apresentaram-nos num daqueles serões de tinto barato e conversa infindável sobre livros meio lidos, numa cozinha de amigos. O Afonso fazia barulho, ria-se alto, gesticulava tanto que uma vez partiu, com o braço, um prato de alguém. Fui eu a apanhar os cacos. Olhava-o e pensava: eis alguém que ocupa todos os cantos da sala. Como será isto?

Eu era diferente. Silenciosa. Daquelas pessoas que só se nota depois, mas que ficam na memória. Ou queria eu acreditar nisso.

Não foi em mim que ele se apaixonou. Foi pela Vanda. Era inevitável, como tempestade depois de calor. A Vanda era intensa, falava a correr, ria-se mais alto do que ele, entrava numa sala e todos se voltavam. Ao pé dela, eu sentia-me como aguarela ao lado de um quadro a óleo. Não pior, só diferente.

Uniram-se depressa, separaram-se depressa também. Durante anos vi o vai e vem: Vanda fazia cenas, Afonso batia com a porta, depois voltava, depois saia outra vez. Um baloiço que nunca parava.

E entre cada balanço, lá estava eu.

A primeira vez que ele bateu à minha porta foi ao fim do primeiro grande desentendimento. Tinha uns trinta e cinco anos, eu trinta e três. Telefonou já tarde, a voz arranhada e fraca: posso ir aí? Claro, disse eu. Fiz chá de lúcia-lima com mel, preparei-lhe alguma coisa simples, e estivemos à conversa até às duas da manhã. Ele falava, eu ouvia. Era fácil ouvir. Eu sabia escutar.

Dormiu no meu sofá. Na manhã seguinte bebeu café, agradeceu e partiu. Duas semanas depois voltou para a Vanda.

Não fiquei magoada. Arrumei o cobertor que ele usara, lavei e guardei. Continuei.

E repetiu-se. Uma, duas, dez vezes. Perdi a conta. Voltava depois das discussões, ficava umas noites, acalmava-se e regressava a ela.

Nunca chamei a isto amor. Tinha medo do nome. Mas sempre que ouvia a campainha e era ele, sentia um aperto e depois um alívio. Pronto, está aqui. É meu mais uma vez. Durante pouco tempo, mas é.

Pensava muitas vezes: sou uma torre de controlo. Os aviões aterram, reabastecem, levantam voo de novo. E a torre está sempre, sempre no mesmo sítio, pronta.

Desta vez chegou no final de março, uma mochila desportiva azul e gasta ao ombro. Vi logo, não era para um dia ou dois.

Vens ficar muito? perguntei do corredor, enquanto pendurava o casaco.

Não sei foi sincero, ao menos isto sempre teve: nunca me mentia descaradamente. Talvez uma semana Vamos vendo.

Pronto. Vou pôr água a ferver.

Pus a água. Tirei a lúcia-lima do frasco. Ele sentou-se no seu lugar, à janela, de costas para o frio vindo do frigorífico. Pousei-lhe a caneca. E pensei: cá estamos. Nem alegria, nem tristeza profunda. Um morno doce e abafado.

Está mesmo mau? arrisquei.

Pior impossível murmurou, abraçando a caneca. As mãos dele gelavam sempre. Ela disse que não dava mais. Que está exausta. Que assim estragamos a vida um ao outro.

E respondeste quê?

Nada. Peguei naquilo fez sinal com a cabeça para o saco no corredor e saí.

Havia silêncio a pingar do beiral. Gotas compassadas, metronómicas.

Lurdes só então me encarou, olhos nos olhos. Não estás contente?

Estou. E era verdade. Amarga, pequenina, mas verdade.

Os primeiros dias surgiram desconhecidos. Não más, só estranhos. Estava acostumada à minha solidão, ao meu ritmo levantar às sete, café, meia hora de leitura à janela, trabalho, casa às seis, cozinhar para um, televisão ou chamada com a Carminho. Dormir às onze.

Afonso virava tudo do avesso. Sem querer. Era diferente. Levantava-se tarde, gostava de conversar de manhã, deixava tudo fora do sítio, ligava a televisão alto, perdia-se na casa de banho.

Mas havia outro lado. Jantares juntos, conversas, asneiras de filmes, as compras ao domingo no mercado, ele a carregar sacos pesados e a mão a tremer por causa do frio. Essa normalidade parecia tão improvável que me tirava o fôlego.

Passou uma semana, depois outra, depois um mês.

Numa noite acordei, deitada na escuridão, a ouvi-lo respirar do outro lado da parede. E pensei: será que isto é o que deve ser? Não temos mais tempo a perder. Conhecemo-nos como ninguém, já não temos armas nem novidades. Talvez a felicidade seja apenas isto: calma, antiga, como uma casa velha habitada há anos.

Contei à Carminho, num café que cheirava a pastéis de nata. Bebeu, ouviu, calou-se.

Mas estás mesmo feliz, agora? Não depois, mas agora?

Parei para pensar. A sério.

Sim. Agora sim.

Então vive já. E pára de prever, mulher.

Tentei. Pela verdade, tentei.

Morámos juntos quatro meses: abril, maio, junho e julho. Quatro meses recordados quase ao pormenor. O cheiro ao lilás que ele colheu para mim. Uma zanga parva sem motivo, e as pazes no silêncio. Um sábado inteiro em casa: eu a ler, ele a consertar qualquer coisa na varanda. Uma intimidade silenciosa.

Fui-me apanhando a usar nós em vez de eu. Foi vindo, deixei.

Ele também mudou. Menos zanga, menos Vanda na conversa. Às vezes olhava-me de modo diferente; havia afeto, e outra coisa que demorou a nomear-se. Talvez verdade.

Pediu as chaves suplentes do apartamento. Dei-lhe sem pensar. Fui ao serralheiro, tirei cópia, deixei-lhe na mesa. Pequena coisa metálica. Mas quente por dentro.

Era início de julho.

A meio do mês, o telefone tocou.

Estava na cozinha. Ele na sala, no portátil. A chamada soou alta, cortante. Não liguei. Depois silêncio. E mais silêncio. Daquele onde as coisas mudam e ainda não sabemos quê.

Saí da cozinha. Ele ali, no meio da sala, o telefone pendente.

Afonso?

A Vanda Tem problemas Precisa de ajuda.

Assim, simples. Uma só palavra: Vanda.

Está bem respondi.

Lurdes

Vai.

Espera, quero explicar-te.

Não é preciso disse baixinho. Já entendi. Vai.

Ficou ali um minuto, a olhar. Depois encaminhou-se ao corredor, pegou no saco azul. Ela nunca saiu dali a mala , como sabendo à espera da sua hora.

Telefono-te garantiu à porta.

Sim.

Fechou-se. O clique da fechadura. Ficou a sala, o silêncio, e só ausência ali dentro.

Nos primeiros três dias não chorei. Estranho: esperei lágrimas, preparei-me para elas, mas nada. Era uma sensação diferente. Como arrastar um móvel antigo e ali ficar um claro, um vazio, coração suspenso de nada. Só ausência, sem dor ainda.

No trabalho continuei. Fazia contabilidade numa empresa de construção, números e contas bom para distrair. Números só exigem atenção, não afeto.

Ao quarto dia fiz lasanha. Porquê? Não sei. O mesmo tabuleiro, receita, ingredientes. Cortei, comi. Sabe bem. Mas foi insuportavelmente bom.

Aí sim, as lágrimas vieram com a lasanha, sozinha, à mesa da cozinha. Chorei feio e alto, como as crianças. Depois lavei-me, bebi chá, fui dormir.

A Carminho apareceu sem avisar no dia seguinte. Telefonou apenas lá de baixo: abre, estou aqui. Entrou com um saco de pão e qualquer coisa. Pousou, abraçou-me. Ficámos assim sem palavras. Nenhuma lágrima já. Devem ter acabado na lasanha.

Conta-me.

Não há história. Tu sabes.

Sei, mas conta. Precisa sair.

Contei. Julho, a chamada, o saco azul, o telefona. Não ligou, nem uma semana passou.

Vais esperar? perguntou, direta.

Não e espantei-me com a facilidade.

Sim?

Não. Cansa-me esperar. Esperei toda a vida. Nem sei quando comecei. Sempre à espera: que ele telefonasse, entrasse, escolhesse. Mas nunca escolhia. Só voltava quando não tinha para onde ir. Sabes que nome tem isso?

Diz lá.

É ser aeródromo de reserva. Eu era isso dele. Sempre aqui, sempre pronta, pista livre, luzes acesas. E ele voava, voltava. Sempre certo que, se precisasse, aqui estava o sítio.

Carminho olhou-me.

Sabias isto há muito?

Saber já sabia. Só agora entendi.

A diferença entre saber e entender é todo um mundo. Podemos saber algo anos e não fazer caso. Entender é não dar volta atrás.

Agosto rolou num torpor estranho. Não triste. Só calmo. Ia trabalhar, regressava, cozinhava, lia, passeava sozinha à beira do Tejo, via as águas, refletia luzes, via estranhos caminharem por Lisboa, a pares ou sós. Pensava em vénias.

Um dia, frente à montra de uma loja, vi-me refletida. Uma mulher de sobretudo claro, cabelo apanhado, não moça mas também não velha. Cansada, mas firme. Olhei-a muito tempo. O que queres tu? Não ele. Tu. O que é que queres?

Não soube responder. Mas perguntar era já começar.

Em setembro arrastei os móveis. O sofá tapava luz, a estante pesava no canto errado. Arrumei tudo, sozinha. A sala respirava outras cores. Pensei: assim é melhor. Porque nunca fiz isto antes?

Talvez por medo de mudar, pensei. Medo que ele acaso voltasse e perguntasse: que fizeste aqui?

Agora não havia mais esse medo.

Comprei cortinas novas. Leves, de linho bege, com motivos miúdos. As antigas, azul-escuro, eram pesadas e engoliam luz. Agora, as manhãs eram douradas. Andei cinquenta e um anos sem reparar na luz dourada da casa.

Em outubro inscrevi-me em italiano. Tinha vontade há muito. Detestava esperar pelo tempo ideal. O grupo era variado, até o professor, Solano, era moço, brincalhão, obrigava-nos a cantar canções italianas em frente uns dos outros, sem vergonha. E eu cantei. Cantei alto: Torna a Sorrento, sem nunca ter ido a Sorrento.

Carminho riu-se ao telefone:

Italiano?

Sim.

Mas vais a Roma?

Não. Quero ir a Lisboa. E rimo-nos as duas.

Foi assim mesmo: Lisboa acordou nas minhas ideias como na tela de um computador, sem premeditação. Estava a ver fotos online, Lisboa fora dos postais: ruas de manhã, mercados de Alfama, velhos nos bancos, um gato ruivo à janela. Dentro de mim fez-se um clique: quero ir para ali. Não férias, não passeio. Morar. Respirar por uns tempos naquele cheiro a rio e laranja.

Escrevi no frigorífico: Lisboa. Primavera.

Novembro trouxe frio, mas também coragem. Comprei livre-trânsito para a piscina. Nadava antes do trabalho, meia hora, era o melhor começo de sempre. Na água não se pensa, só se avança: boa prática para aprender.

Por vezes pensava no Afonso. Se estaria com a Vanda. Nunca desejei mal. Pensava apenas. Como quem olha uma fotografia velha: reconheces, mas já não sentes. Era distante.

Dezembro, Carminho convidou-me a passar a Passagem de Ano com os amigos dela. Quase ia dizer não, mas fui. Novos amigos, risos à mesa, champanhe, e, no final, senti algo estranho: não solidão. Não. Uma leveza. Como se pousasse um fardo escondido.

Janeiro, fevereiro. Piscina, italiano, livros acumulados. Arrumei a arrecadação. Entre as coisas antigas, encontrei o velho cobertor o primeiro que o Afonso usou, esquecido há uma eternidade. Lavei-o logo, dobrei e deitei nos sacos para doação. Que aqueça outro alguém.

Março voltou. Um ano exato desde o dia em que ele tocou à minha porta com a mochila azul.

Eu estava à janela a beber café. As ruas, o fim da chuva, as pombas molhadas tudo igual. Mas eu era de outra linhagem agora.

Telefonou num sábado, ao meio-dia. Vi o nome no telemóvel. Senti um eco do hábito, não alegria nem dor. Só eco.

Atendi.

Lurdes, disse ele, a voz igual e estranha ao mesmo tempo. Sou eu.

Vejo.

Como estás?

Bem. E tu?

Pausa.

Mal. Podemos encontrar-nos?

Pensei um segundo.

Podemos. Onde?

Talvez aí, em tua casa?

Não respondi com calma. Encontro-te cá em baixo, vinte minutos.

Nova pausa. Surpreso.

Está bem. Cá em baixo.

Desliguei. Acabei o café. Vesti casaco, cachecol, botas. Fitei-me ao espelho mulher tranquila, inteira, pronta.

Ele estava ao portão. Envelhecido, ou talvez eu olhos novos. Mais magro, menos cuidado. Trouxe aquele olhar de sempre: esperança e embaraço juntos.

Olá disse ele.

Olá retribuí.

Caminhámos lado a lado, devagar, sem rumo. Falar, não provar nada.

Quero dizer-te uma coisa séria, Lurdes.

Diz.

Este ano foi difícil. Correu mal com a Vanda Ela saiu, não eu. E o negócio desmoronou-se. Fiquei sem chão.

Eu ouvi, sem interromper.

Pensei muito em ti continuou. Percebi que foste o que tive de verdadeiro. Quero tentar outra vez. Outra vida. Mudei, acredita. Dá-me hipótese.

Passámos pelo velho plátano do jardim. Os gomos inchados, a prometer folhas.

Parei.

Ele também. Observou-me.

Estás mais bonita. Ainda mais do que há um ano. Como é possível?

Sorri de lado.

Às vezes acontece.

Lurdes agarrou-me a mão. Diz algo.

Olhei aquela mão, tão minha durante tanto tempo. Depois soltei-a.

Afonso, quero que me entendas. Sem zanga, só me entendas, sim?

Diz.

Dizes que mudaste. Acredito. Um ano vale. Mas isto não é sobre ti. É sobre mim.

O que se passa contigo?

Mudei também. Mas doutra maneira. Tu queres recuperar o que tinhas. Eu encontrei algo, e não quero perder.

O olhar dele, ansioso.

O quê?

A mim. Pode soar banal. Mas a mim.

Lurdes

Espera. Não estou zangada. Foram muitos anos, já nem faz sentido zanga. Queria só que compreendesses: durante todos estes anos era eu o teu aeródromo de reserva.

Ia protestar, mas continuei.

Vinhas quando corria mal. Reabastecias, descansavas, eras acolhido. Eu esperava, aceitava, era feliz com pouco. E lá voltavas. A Vanda sempre foi um aeroporto de luzes e multidões. Eu era um campo discreto, sossegado, seguro, mas nunca principal.

Não é justo, gemia fraco.

É sim. Sabes-o bem. Fitei-o. Mas agora o aeródromo fechou. Não por raiva. Só porque já não quero ser plano B. Para ninguém. És boa pessoa, Afonso. És.

O silêncio demorou.

E agora?

Agora? Tenho planos. Vou para Lisboa na primavera. Aprendo italiano, nado todas as manhãs, refiz a sala, comprei cortinas novas. Leio os livros que guardei. Esta vida é minha. Talvez pouco vistosa por fora, mas é minha. Não há espaço para quem só cá volta quando não há outro lugar.

Mas e se voltar porque quero mesmo estar contigo?

Olhei-o demoradamente. Talvez fosse verdade.

Talvez. Mas não posso testar. Agora já não posso. Aquela Lurdes que te esperava ficou para trás. A de agora vive diferente.

Um passo em frente.

Dá-me só uma hipótese?

Não serena, sem teatro. Não porque queira castigar. Porque aprendi. Demasiado bem, talvez.

Frente ao portão. O mesmo portão, a mesma rua. Outro ano. Outra pessoa.

Nem para um chá de lúcia-lima?

Não.

Porquê?

Porque chá de lúcia-lima agora é outra coisa. É início, recomeço. E não vai haver recomeço.

Baixou o olhar, hesitante. Tornou a erguer.

És feliz? Voz baixa, sem cobrança, só desejo de saber.

Pensei mesmo, como naquele café com a Carminho.

Sim. Aqui, agora, sim.

Ainda bem. A sério, ainda bem, Lurdes.

Ficámos calados.

Telefona às vezes, sim? Falar só.

Abanei a cabeça.

Não é preciso. Cada um segue o seu.

Acenou devagar, aceitando o difícil.

Lisboa, então?

Lisboa.

Linda cidade.

Eu sei. Mais do que os postais dizem.

Virou costas e meteu-se pela calçada fora. Não olhou para trás. Fiquei ali, vendo-o afastar-se o homem que conheci quase trinta anos, que amei mais tempo do que a mim, e a quem soltei, serena, sem dor, só paz.

Como se larga um pássaro, que já precisava de voar.

Voltei a casa. Subi ao meu andar. Entrei com a minha chave na minha casa, onde cheirava a café e a linho, com o sol de março a atravessar as cortinas novas, dourando o sofá.

Fui à cozinha. Pus água a ferver. Não lúcia-lima isso fica para recomeços. Agora, só hortelã. Um gosto novo, só meu.

Tirei do frigorífico o papel com duas palavras.

Lisboa. Primavera.

Olhei para ele. Peguei numa caneta.

Acrescentei: Abril.

Abril está quase a chegar.

O aeródromo fechou. A torre apagou as luzes. E eu, finalmente, embarco no meu avião.

*

Mas nada disto se deu num instante. Antes de chegar a esse portão e a essa conversa, passou um ano inteiro. Ano que mudou tudo lentamente, mês a mês.

Quando o Afonso saiu, naquele julho com o saco azul, não percebi logo. Entender, só depois. Normal: trabalho, rotinas, cozinhar menos, guardar a chávena que ele esqueceu azul, o bordo lascado. Não deitei fora. Só tirei de vista.

Ao quinto dia, telefonei à mãe. Morava no Porto, ligava-me ao domingo. Agora, era quarta.

Lurdes, está tudo bem?

Está, mãe.

A tua voz não diz isso.

Cansaço do trabalho.

Pausa.

Ele saiu, não foi?

Quase me ri. Um sexto sentido de mãe.

Como percebeste?

Conheço a minha filha. Está bem?

Está. Custa, mas está.

Queres vir cá?

Não, mãe. Preciso de estar aqui.

Liga, se precisares.

Ligo.

Mas não liguei, porque o mal não surgiu nesse sentido. Só um vazio, uma solidão diferente aquela de quem escolhe estar só e mesmo assim pesa. Não houve desespero, nem desejo de o chamar de volta. Estranhamente, não.

Talvez porque, cá dentro, sempre soube: a Vanda não era passado. Era órbita própria. Eu só nunca quis admitir.

No fim de julho fui à cabeleireira. Dez anos com a mesma Isabel, calma, delicada. Olhou-me, leu tudo, não disse nada de mais.

O que vai fazer?

Cortar curto. Muito curto.

Quanto?

Pelos ombros. Novo tom. Mais claro.

Saí duas horas depois outra. Não mudada de todo, só mais leve. Como se, junto com o cabelo, cortasse o peso morto.

Na rua, a vizinha do terceiro, D. Celeste, setenta e muitos, sabia tudo de todos.

Lurdes, estás uma moça! Outra mulher!

Cortei o cabelo, D. Celeste.

Vejo! Ficaste dez anos mais nova, rapariga.

Oh, também não exageremos.

Acredite. Mudam-se os cabelos, muda qualquer coisa por dentro, é certo.

Mudaram várias, D. Celeste.

Ela riu de satisfação.

O importante é mexer, sim senhora.

Agosto veio quente. Tirei férias pela primeira vez em anos. Podia ter ido ao Algarve, mas quis ficar. Descobri jardins, o Jardim Botânico, andei onde nunca liguei antes. Sentada em bancos sob árvores, a sentir cheiro a terra e flores sem nome. Lia, ou ficava quieta, só a ver o sol dançar nas folhas.

Um dia, partilhei o banco com uma mulher, Maria Helena, reformada, ex-professora de História. Conversa leve, sem tristezas nem exibição de solidão. Um tipo de pessoa que sabe simplesmente viver.

Foi um exemplo. Fiquei-lhe grata.

Setembro trouxe cheiro a jornais e maçãs, folhas no chão, manhãs frias. Aproveitei para mudar móveis, de vez. Sala arejada, tudo no sítio.

Deambulei até à janela, pensei no Afonso. Não com saudade. Só curiosidade: terá encontrado algum descanso? Estará a reconstruir a vida? Suficiente, para mim, era não guardar raiva.

Outubro, italiano. O grupo diverso, uma mulher chamada Amélia, alegre, direta, tornámo-nos amigas. Uma tarde, depois da aula, ela perguntou:

Porquê italiano, Lurdes?

Quero ir a Lisboa.

Lisboeta aprende italiano? Queres ir a Roma, dirás!

Não, Lisboa mesmo. Mas italiano soa-me melhor. E é parecido com espanhol!

Rimo-nos as duas.

Saíamos juntas ao cinema ou exposições. Descobri: a vida põe pessoas à nossa frente quando nos dispoomos a conhecê-las.

Novembro, dezembro, janeiro. Piscina, ano novo. Encontrei o diário antigo, reli páginas. Reconheci e desconheci a rapariga de lá, cheia de medos e sonhos. Escrevi no final: Está tudo bem. Conseguimos.

Fevereiro chegou cedo, e a primavera espreitava nos regos de água, nos pombos no telhado, no cheiro a pão quente à porta das mercearias.

Um dia, entrei numa livraria pequena. Comprei três livros, um deles sobre Lisboa. Li de uma assentada. Olhava as fotos: calcetada, mercados, gatos, pássaros nas fontes, luz que só existe perto do rio nas tardes lisboetas.

Planeei mesmo: data, hotel, comprei voo na TAP para abril, aluguei um quarto típico em Alfama. Quando paguei, senti um entusiasmo fresco e puro, como se fosse coisa de adolescência.

Era a minha viagem. Só minha. Primeira vez. Escolha minha, não de circunstância ou companhia.

Carminho soube e abraçou-me:

Assim mesmo. É para esto.

Não vens comigo?

Não. Vais tu sozinha. Tem de ser a tua viagem.

No início de março telefonei à mãe.

Vou a Lisboa.

Sozinha?

Tenho cinquenta e um anos, mãe.

Sei. Das bem conta de ti. Vai, fotografa tudo. Liga ao chegar.

Sim, mãe.

A vida, afinal, faz-se destes pequenos gestos. Não precisa de grandes enredos.

Depois dos cinquenta, os amores são outra coisa. O que conta é escolher-se. O essencial: ninguém nos autoriza a começar tem de ser decisão própria.

Eu demorei a vê-lo. Vivia sempre quando ele. A vida passava e eu adiava, esperando sinal verde.

A luz verde aparece de dentro. Só de dentro.

Eu fechei aquela porta, suavemente, sem dramatismo. A conversa à entrada do prédio era só o último ato de uma escolha há muito feita.

Quando ele telefonou nesse sábado, estava a fazer arrumações. O nome apareceu no ecrã e nem tremi. Atendi. A conversa já conhecem. Mas havia mais: enquanto ele falava, vi o homem que conheci, senti um carinho, mas mais do que isso, senti-me inteira perante a sua tristeza. Capaz de compaixão, sem confundir com reabertura de portas.

Quando ele se foi pelo passeio, soube: desejo-lhe futuro. Não comigo nem com ela. Com ele próprio, finalmente. Tem cinquenta e três anos, a vida mal foi a meio.

Subi pelas escadas, já nem o elevador me era preciso passo em passo, respiração tranquila. Peguei na chave. A casa dourada de luz, cortinas novas, móveis no sítio certo.

Fiz chá de hortelã, escrevi à Carminho: Veio cá. Está tudo bem.

Ela respondeu logo: Sabia. Tenho orgulho.

Mandei mensagem à Amélia: Café amanhã? Um filme?

Logo veio a resposta: Diz hora, levo os scones!

Sorri.

Abri o guia de Lisboa com a chávena na mão. Faltava menos de um mês.

Aeródromo fechado. Luzes apagadas. A única pista disponível sou eu.

O voo de abril é o meu.

E, desta vez, o avião vai cheio mas só comigo aquela que pensava eternamente ter de esperar, aquela que se punha de lado. Agora, comprou bilhete e está pronta.

Chamo-me Lurdes. Tenho cinquenta e um anos. À minha frente, Lisboa.

*

Oiço o ferver da água. Chá de hortelã na caneca branca, nova, comprada por mim no Natal. Levo-a para a janela. O março lá fora. Menos chuva, mais luz, pombos a secarem o peito ao sol, uma mulher com bebé na rua, a rir ao telemóvel.

Estou aqui, chá na mão.

Isto, afinal, é uma história de amor. Ou melhor, do que vem depois. Como se demora a recuperar, e como isso pode ser, afinal, algo bom.

Quer saber como se ultrapassa o fim? Mudando os móveis, trocando cortinas, aprendendo italiano, nadando, entrando em livrarias desconhecidas. Autorizando-se a não esperar.

Não esperar.

O mais difícil e o mais fácil de tudo.

Perdoar e não esquecer. Perdoar, não porque “fica bem”, mas porque se voa melhor leve. Lembrar, mas não carregar.

São coisas diferentes.

Termino o chá. Lavo a caneca. Sento-me frente ao computador. A reserva do voo já ali, abril.

Sorrio. Sem mais. Só para mim.

Daqui a um mês, o meu avião. Sol diferente, ruas de calcário, gatos à janela. Caminhar devagar, saborear, parar ao banco à sombra, não pensar em dores.

Os verdadeiros valores começam em casa. Se não se constrói dentro, o fora é areia. Só quem aprende a viver sem aprovação aceita, pára de esperar luz verde de fora.

Eu esperei muito. Agora não.

A Amélia avisa: nome do café, hora. Confirmo: Ótimo, lá estarei.

Ao espelho, mulher em fato de casa, cabelo despenteado, olhos calmos. Não uma felicidade de capa de revista. Só serenidade.

Aceno ao espelho.

Hoje vai haver cinema. Amanhã italiano. Depois de amanhã piscina. Abril, Lisboa.

A vida não pára. A minha vida. Não a dos outros, não entre chegadas e partidas alheias. Real, em tempo real. Aeródromo fechado.

E, sobre os telhados de Campo de Ourique e em cima dos fios, entre nuvens cada dia mais de abril, cheirando a futuro, segue o meu avião.

Eu vou.

À noite, depois do filme e conversa com Amélia no quiosque, discuti o final do filme. Regressei. Tirei os sapatos.

Lembrei-me que a chávena azul de Afonso ainda estava guardada. Tirei a caneca, olhei: caneca azul, bordo lascado, um objeto. Coloquei-a ao lado da branca. Não é relicário, é só uma caneca agora. As coisas são só coisas.

Fui para a cama, li o livro da livraria. Página a página, fui percebendo: mudamos assim, devagar.

Apaguei a luz.

Chovia suavemente. Um março tranquilo, não triste.

Deitei-me, ouvi. Por dentro, tudo estava calmo. Não vazio, não só. Só calmo. Tudo no seu sítio.

Amanhã, italiano. Vou cantar alto, sem timidez.

Depois de amanhã, piscina. Corpo, movimento, nada de mais.

Daqui a um mês, Lisboa.

Agora, só a chuva. E o escuro manso.

Fechei os olhos.

E, antes do sono, vi nitidamente: uma rua sossegada, sol de abril, um gato ruivo em cima do peitoril. Eu, com café, olho para o gato; o gato olha para mim. E estamos ambos contentes.

O aeródromo de reserva fechou.

A pista de descolagem está aberta.

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