Sem direito à fraqueza
Vem, por favor. Estou no hospital.
A Leonor nem pensou em trocar de roupa. Puxou o casaco por cima do pijama felpudo e nem reparou que a camisola tinha subido. O espelho, nesse momento, era uma ideia distante só conseguia pensar na mensagem que a Madalena lhe tinha enviado há meia hora.
Sentiu logo um aperto no peito ao ler aquilo. Ficou parada uns segundos, o coração aos pulos, a tentar perceber o que teria acontecido. Mas abanou a cabeça agora não adiantava perder tempo com suposições, o importante era estar lá. Pegou nas chaves do carro e no telemóvel em cima do aparador e saiu porta fora, calçando as botas à pressa.
A viagem para o Hospital de Santa Maria pareceu uma eternidade. O percurso que fazia de cor agora parecia interminável: os semáforos insistiam em ficar vermelhos, os autocarros com uma lentidão absurda, e as pessoas na rua andavam devagar, como se não percebessem a pressa dela. O telemóvel permanecia em silêncio, nenhum novo sinal da Madalena, e a cabeça dela não parava de matutar o que terá acontecido? É grave? Porque o hospital? Aquela ausência de respostas deixava-a ainda mais nervosa.
Quando chegou ao corredor, inspirou fundo, aproximou-se da porta e espreitou. Madalena estava deitada na cama, olhar perdido no teto, como se procurasse lá em cima alguma explicação. O cabelo, que no dia a dia era sempre arranjado, agora estava desfeito, caindo pelo travesseiro sem nexo.
Aproximou-se devagar. Ao chegar mais perto, Leonor reparou nas olheiras fundas, o rosto pálido e vestígios secos de lágrimas nas faces. Vê-la assim doeu-lhe. Sentou-se ao pé dela, sem fazer barulho, e disse num tom baixo, com medo de que as palavras magoassem ainda mais:
Mada, o que se passou?
A Madalena virou lentamente a cabeça, os olhos secos mas esgotados, a tristeza a transbordar em silêncio. Leonor sentiu-se pequena, impotente. Madalena parecia uma folha a cair em pleno novembro.
Ele foi-se embora murmurou, os dedos a apertarem a borda do lençol com tanta força que até estavam brancos, como se fosse a única coisa real em que se conseguia agarrar. Fez a mala e disse que não podia mais.
Quem? O Rui? escapou-lhe, quase por reflexo, e levou imediatamente a mão à dela, num gesto instintivo de puxá-la de volta daquele poço escuro.
Ela assentiu. Uma lágrima teimosa escapou e desceu-lhe pela bochecha. Nem se mexeu para limpar, já sem força para esses detalhes. O silêncio ficou ali instalado até que Leonor engoliu em seco, sentindo um nó apertar-lhe a garganta, sem saber que palavras usar. Como é que alguém, depois de tudo o que passaram, tem coragem para aquilo?
As duas ficaram caladas, com o tique-taque do relógio da parede a marcar o ritmo da tristeza. Madalena começou a tremer ligeiramente, tapando o rosto com as mãos, cansada até ao último fio de cabelo, desfeita.
Os minutos passaram, ou talvez mais, com o tempo a perder qualquer noção. Aos poucos a respiração voltou ao normal, as lágrimas cessaram e Madalena, agora mais calma, limpou a cara, olhando para Leonor com uma dor resignada parecia que finalmente aceitou o inevitável.
E deu-te alguma justificação? perguntou Leonor num sussurro, sem querer agravar mais o sofrimento, mas sentindo que precisava de perceber. Ao menos tentou explicar?
Madalena deixou escapar um sorriso torto, amargo.
Disse que não aguentava mais. Que estava esgotado das noites sem dormir, dos choros, da correria Disse que precisava de paz. Imaginas, Leonor? Foi ele que insistiu para continuarmos a tentar, foi ele que dizia sempre vamos conseguir, vai correr bem.
Ficou em silêncio, revivendo tudo por dentro.
Fomos a médicos, exames, tratamentos… Passei por tanto, tantas dores, tantas lágrimas.
Sentiu a voz fraquejar, mas recuperou.
Sempre achei que, depois de tanta luta, ficaríamos juntos até ao fim. Mas afinal, enganei-me.
Atirou o olhar para fora, onde a noite se preparava para cair, e murmurou:
Doze anos. Oito tentativas. Tudo para isto
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Nem sempre foi assim… No início parecia um filme bonito: conheciam-se numa festa de amigos em Lisboa, meio às risadas, ele com um copo de sumo na mão, ela animada, a contar histórias que faziam todos rir. João encantou-se logo: o sotaque dela, a espontaneidade, a constelação de sardas no nariz da Madalena, aquele olhar quente quando sorria.
Meteram conversa facilmente, parecia que já se conheciam de outras vidas. Falaram de filmes, destinos para viajar, manias parvas, sonhos. Naquela noite, mal conseguia acreditar como o tempo tinha passado entre conversas e passeios pela cidade, de madrugada, Lisboa quieta.
Três meses depois já viviam juntos: livros dele na prateleira dela, base de maquilhagem dela entre desodorizantes dele, sapatos espalhados na entrada. E tudo fazia sentido, era fácil, natural. Casaram passado meio ano modesto, só família e amigos chegados, muito riso, um bacalhau à Brás, bailarico até às tantas.
Na primeira data do casamento, sentados no parapeito da varanda, chá na mão, Madalena a rir, João olhou nos olhos dela e desabafou:
Quero ser pai. Quero filhos aos montes. Uma equipa de futebol.
Ela enroscou-se nele e respondeu:
Claro que sim. Vamos ter uma família barulhenta, cheia de amor.
Tudo parecia linear. Primeiro a carreira ela como designer numa agência, ele a subir na informática. Viajavam bastante, Algarve no verão, Serra da Estrela no inverno, fins-de-semana a descobrir sítios. Aprendiam a viver juntos, faziam planos.
Depois decidiram: era altura de ter filhos. E começaram então as dificuldades, primeiro leves médicos descansavam-nos, isso é normal, tenham calma. Mas os meses passavam e nada. E começaram exames, análises, consultas, tratamentos.
Talvez precise de tratamento sugeriu o médico com delicadeza.
Madalena, optimista, tomava os suplementos, João ia com ela aos exames, tentava sempre dar-lhe força. Só que as notícias não melhoravam: primeiro aborto espontâneo, aos seis ou sete semanas. Lembravam-se de tudo o choque, o hospital, a frieza daquela ecografia, a força com que ele lhe segurou a mão.
Passou um ano, novo desgosto, nova perda precoce. Era uma dor misturada com revolta: Porquê nós? Que raio fizemos?
Mas nunca baixaram os braços. Novo ciclo de exames, clínicas, tratamentos, tabelas de temperaturas, esperança renovada a cada mês, para vir outra vez o desânimo. Ele via o sofrimento dela e tentava segurar-lhe a mão, preparar-lhe chá, dar-lhe espaço quando ela escolhia o silêncio.
E um dia, o diagnóstico: infertilidade. Disse o médico, sem drama, mas para eles a terra parou de rodar. Ouviram tudo, mas só pensavam e agora?
Decidiram tentar FIV. Primeira tentativa: nada. Segunda: nada. Terceira. Repetição do mesmo ciclo, consultas, injeções, medos, esperança, nova desilusão.
Ela já sorria menos, ficava a olhar as crianças do prédio, calava-se mais. João queria animá-la, mas sentia que as forças se estavam a ir.
Mais tratamentos, mais exames, mais viagens ao hospital, sempre numa rotina cansativa. Madalena escrevia tudo num caderninho, controlava tudo, e ele ao lado, a acompanhar, a apoiar, como conseguia.
Numa noite, depois de mais um teste falhado, encontrou-a sentada na casa de banho, o teste na mão, perdida. Não olhava sequer para ele.
Não posso mais, murmurou. Cansei. Estou exausta.
Ele abraçou-a em silêncio. Só assim.
Só mais uma tentativa, sussurrou passado um pouco. Por favor. Só mais uma.
Ela fechou os olhos, suspirou fundo E alinhou porque ainda tinha esperança e amor.
A oitava tentativa trouxe o inesperado: finalmente, um teste positivo. A felicidade foi tanta, que Madalena agarrou a mão de João durante a ecografia quase até lhe magoar os dedos.
Olhe para isto, disse o médico, com um meio sorriso. Dois corações.
Só conseguiu chorar, finalmente de alegria. É um milagre, pensava. E João chorou com ela, como no dia do casamento.
Só que depois
Tudo mudou numa noite normal, igual a tantas outras. Os gémeos já jantados, banho tomado, pijaminhas cheirosos, Madalena embalava-os com uma canção baixinho, ao som do projetor de estrelas no teto. Havia paz, cheiro a leite morno, aquele cansaço doce de mãe.
Nesse dia, João chegou tarde. Costumava vir cansado, mas naquela noite parecia especialmente distante, olheiras profundas, ombros caídos. Ela ia fazer-lhe uma pergunta, mas ele foi direto ao assunto:
Vou-me embora.
Ficou em choque. Sentou o filho na cama, os braços vazios, a cabeça a girar.
O quê? saiu-lhe, incrédula. Diz isso outra vez.
Estou cansado, repetiu, parado à porta. Já não aguento as noites sem dormir, o caos, a falta de tempo para mim Não consigo mais.
A Madalena engoliu em seco, incrédula. Foram tantos anos, tanta luta, tanto sonho. Como podia ele esquecer isso?
Mas fomos juntos em tudo, sussurrou. Foste tu que pediste para não desistirmos comprámos berços juntos, escolhíamos nomes.
João evitou o olhar dela.
Pensei que ia conseguir. De verdade. Mas é demasiado.
Ela avançou um passo.
Vais mesmo abandonar-nos? Eu e eles?
Ele passou a mão pela cara, perdida a força.
Preciso de tempo. Não sei se volto.
Não houve discussão, nem gritos, só um silêncio gelado. João saiu, a porta fez clique. A casa pareceu engolir o som do mundo todo. Madalena nem chorou, ficou sentada ao pé dos berços, a olhar para os filhos, a tocar-lhes nas mãozinhas como se neles estivesse a âncora que agora lhe faltava.
Pela primeira vez em doze anos, sentiu-se verdadeiramente só. Não só cansada. Só. Mesmo com os bebés bem ali ao lado, tudo parecia vazio.
Foi só depois que apareceram as lágrimas. Sem soluços, nem dramas só deixava cair, uma a uma, sentada ao lado da filha, sentindo o calor daquele corpinho pequeno. E chorou, finalmente permitiu-se a fraqueza.
O tempo passou assim, e ela ali, no chão entre os berços, agarrada ao que lhe restava.
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No hospital outra vez, já sentada à janela, Madalena contemplava as gotas de chuva que caíam sobre o alcatrão cinzento da Alameda. Mas o que via era uma espiral de anos, lutas, esperanças, desgostos. Recordava as últimas palavras do João e doía sempre igual.
Não percebo Como é possível abandonar assim? Depois de tudo?
A voz saiu-lhe quase um sopro, exausta de tanto sofrer.
A Leonor estava sentada ao lado, levantou-se e foi abraçá-la com força. Não precisava falar sabia que nada do que dissesse ia consolar a amiga. Só podia prometer-lhe que não ficaria sozinha.
Não sei se vou conseguir sussurrou Madalena. Mas tenho de conseguir. Por eles.
Sem heroísmos, só uma força teimosa, calada, que as mães ganham quando já não têm alternativa.
Leonor apertou-lhe mais a mão.
Não te preocupes, não vais passar sozinha. Estamos juntas.
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Dois dias depois, a D. Teresa, mãe do João, apareceu de rompante no hospital, saco de frutas numa mão, carteirinha de senhora no antebraço. Observou o quarto de cima a baixo e atirou:
Vejo que já te instalaste.
Fria, sem má vontade mas sem um pingo de proximidade, como se falasse para uma estranha. Madalena ergueu os olhos, mas optou pelo silêncio, à espera do que vinha aí.
A sogra largou tudo na mesa, mas manteve-se de pé, braços cruzados.
Gostava que percebesses: isto ia acontecer de qualquer maneira. O João sempre precisou do espaço dele. Dois bebés, gritaria, noites em claro Ninguém aguenta.
Madalena ainda pensou em responder, lembrar que foi o filho quem quis tentar todas as vezes, mas calou-se. Não havia razão ali, só alguém que já tinha decidido em que lado estava.
Suspira fundo e senta-se com esforço, mesmo cansada. Sente tudo a pesar-lhe, mas faz o esforço de não baixar o olhar.
Sabes que ele não quer a responsabilidade dos filhos? Vai ajudar, mas só com dinheiro.
Sentiu os dedos a apertar o lençol instintivamente.
O que está a sugerir? saiu-lhe em voz baixa.
A sogra virou o olhar para a rua, evitando encará-la.
Ele deixa a parte dele do apartamento de Benfica. Isso serão os alimentos durante muitos anos. Não volta, mas também não te quer passar necessidade.
Instalou-se um silêncio pesado. Lá fora ouvia-se o carrinho das enfermeiras, mas naquele momento só restavam aquelas palavras no quarto.
Madalena apertou o lençol até quase fazer sangue.
Ou seja, paga para desaparecer? não era raiva, só uma tristeza irónica.
A D. Teresa ergueu um pouco o queixo, mais dura:
Não digas disparates! Ele faz o possível. Vive um momento difícil. Não foge, só não aguenta ser pai a tempo inteiro. Há pessoas assim. Tens de aceitar.
E eu estava preparada? insistiu Madalena, com os olhos postos no nada. Doze anos de luta e agora?
É a tua escolha, cortou a sogra. E aconselho-te: não faças cenas, nem dificultes. Ou…
Interrompe-se, mas a ameaça paira ali.
Ou o quê? perguntou Madalena, firme, tentando não mostrar o medo.
Ou perdes tudo. Até podes perder os miúdos. O João tem bons advogados, não quer chatices, mas se arranjares confusão
Ouviu aquilo como um murro. Agora ameaças? A descarada frieza do costume.
Só estou a transmitir o que ele pensa, acrescentou, mais branda, mas sem compaixão. Arrumou a fruta, virou costas e saiu.
O odor do perfume caro ficou no ar, mas só deixou frio no peito da Madalena.
Ficou alguns minutos, só, a olhar o céu que passava de azul para violeta, com Lisboa lá fora a ficar escura devagarinho. Era oficial: a vida dela dividia-se agora em antes e depois.
Puxou do telemóvel, os dedos a tremer um bocadinho, e ligou à Leonor.
Leo, podes vir cá? Preciso mesmo de falar.
A amiga não demorou. Madalena recebeu-a sentada, costas direitas, olhos secos. Sem meras forças ou sorrisos para agradar, só com a postura de quem tem de segurar.
A Leonor limitou-se a sentar ao lado, apertou-lhe a mão devagar. Madalena olhou em frente e, num tom calmo, explicou:
Já percebi, Leo: não vou deixar que nos façam mal. Eles não levam os meus bebés. Vou lutar. Vou ser forte, por eles.
Não era raiva, era certeza. Já não queria perceber o Rui, nem a D. Teresa, nem encontrar razões. Isso estava no passado.
A Leonor não discursou, só assentiu e apertou-lhe a mão:
E vais conseguir. Estou aqui contigo.
Madalena finalmente olhou para ela, sem lágrimas. A certeza era sólida, uma calma nova. Sabia que a vida seria difícil noites sem dormir, contas, decisões sozinha. Mas em casa, com a avó a tomar conta dos dois pequenitos, tinha a certeza: valeu a pena tudo.
Ninguém lhe ia tirar aquilo. Custasse o que custasse. Ser mãe é ser mais forte do que qualquer ameaça. E por eles, não ia ser de outra maneira.







