A amiga imaginária
À volta da Matilde já era o terceiro dia seguido em que se juntava um mar de alunos. A rapariga tinha fama em toda a escola de ser uma verdadeira profetisa e psicóloga nata. Todos queriam beber um pouco da sua sabedoria. Abordavam-na à porta das casas de banho, sentavam-se à sua mesa no refeitório, traziam-lhe rebuçados, cadernos com trabalhos de casa ou outros pequenos presentes, dos quais, curiosamente, Matilde quase sempre abdicava.
Eu gosto do Martim do 5º B Achas que um dia podíamos casar e ter uma família? perguntou com um suspiro sonhador a colega de turma Mariana.
Não te aconselho. Olha que o Martim só parece bonzinho, mas anda sempre a tirar macacos do nariz para comer. Passam-lhe as fomes, de resto é o que tem para dar. Vais passar a vida a ver aquilo respondeu Matilde, mastigando uma broa com goles de chá de limão.
Credo, que nojo! E o Tiago? Ele é bom aluno, anda a aprender guitarra voltou a perguntar, agora radiante de esperança, a Mariana.
O Tiago põe latas presas ao rabo dos gatos e depois corre atrás deles pela rua. Vai ser bruto, e aposto que um dia se perde nas bebidas.
Porque dizes isso?
Quando é que viste um guitarrista sóbrio? E devias era preocupar-te com a escola, não com os rapazes. Eles não fogem. Autoestima, Mariana, foca-te na matemática, e vê se páras de roer as unhas ou vais arranjar amigos indesejados lombrigas, digo eu.
Eu não tenho amigos. Chamam-me gordo e nunca me convidam para nada queixou-se Rui, do 4ºC, empurrando Mariana para a ponta do banco.
Na próxima quarta-feira abrem inscrições para judo. São na sala do professor de Educação Física. Não emagrece logo, mas param de gozar contigo. E olha lá, não deites a tua futura esposa ao chão dessa maneira.
Matilde levantou-se e foi pôr o tabuleiro a lavar.
Matilde, achas que devia tirar a carta este ano ou deixar para o próximo? perguntou, casual, a professora de Geografia junto ao lava-loiças.
Dona Filomena, para ter carta convém ter carro. E o seu Renault 9 do seu pai já se arrasta há muito tempo Percebe, não percebe?
Percebo acho que percebo
Matilde revirou os olhos, lavou as mãos e continuou:
Venda o carro, o dinheiro chega para uma bicicleta e uns calções novos. Daqui a dois meses dão-lhe boleia para trabalho. Ou então faça um crédito habitação os juros estão uma delícia, e viver com os pais aos 35 já não tem graça nenhuma. É conselho de quem sabe.
Com olhares atónitos a segui-la, Matilde dirigiu-se ao seu turno de Educação Visual. Enquanto as colegas aprendiam a usar o dedal e a linha, ela remendou as calças trazidas de casa, apertou a saia e fez umas meias de croché, oferecendo-as à professora de EVT, dizendo que as grávidas deviam manter os pés quentes. No dia seguinte, toda a turma foi surpreendida com bolo de chocolate delicioso, cortesia da professora, em agradecimento.
Em casa, sucedia-se o mesmo. Matilde ralhou com a mãe por ter comprado carne picada do supermercado e fez as suas próprias almôndegas. À noite, em vez de ver vídeos no YouTube, pegou nOs Três Mosqueteiros e murmurava segredos para o lado. O pai, à mesa do computador, espiava-a de soslaio; e Matilde, sem hesitar, disse que ele estava curvado e devia era ir sacudir o tapete, não andar a navegar por sítios esquisitos.
Corriam boatos pela escola. Os professores, preocupados, marcaram uma sessão com a psicóloga. Estava presente toda a comissão, incluindo o diretor.
Matilde, querida, alguém te está a tratar mal na escola? perguntou a psicóloga, mão leve e voz suave.
O que me magoa é saber que deram milhões à escola e só compraram um banco velho para o ginásio e dois metros de corda retorquiu Matilde, olhando fixamente o diretor.
O diretor, embaraçado, saiu logo apressado por uma porta lateral.
E não tens amigos?
Amizades são coisas passageiras suspirou Matilde, enrolando uma trança. Hoje brincas ao apanha, amanhã a tua amiga está a lavar a tua loiça enquanto preenches o IRS
Para, Matilde! IRS? Loiça? Quem te fala dessas coisas?
A minha amiga.
E podes chamá-la aqui?
Ela está aqui respondeu Matilde, tranquila, deixando a sala em suspense.
Nós não a vemos. Como se chama ela?
Dona Rosalina.
E tem quantos anos?
Setenta.
E o que te diz?
Que é preciso lavar bem os dentes, alimentar o cão abandonado do meu bairro, e não esquecer a família. E mais que o seu imposto municipal foi mal cobrado nos últimos cinco anos, devia pedir nova avaliação nas Finanças porque só consideraram o valor patrimonial.
A psicóloga tomou notas, sublinhando essa última parte com duas linhas vermelhas.
Foram então chamados os pais. Quando atenderam o telefone, o pai de Matilde gritou do outro lado:
Esperem! Foi esse o nome da minha mãe! Rosalina. Ela morreu há dez anos
Toda a sala se perdeu em murmúrios e preces baixas.
Pois, passaram dez anos e ninguém foi ao cemitério. O mato cresceu, a grade está torta comentou Matilde, magoada.
Pois eu queria, mas nunca calhou murmurou o pai, envergonhado.
A reunião acabou ali.
No dia seguinte, a família inteira foi ao cemitério. Matilde nunca conhecera a avó, só ouvia falar dela nas histórias curtas do pai. Levaram um ramo de tulipas amarelas para pôr num frasco improvisado de plástico; o pai endireitou a grade e a mãe limpou a erva daninha.
Pai, a avó diz que tens bom coração, mas andas perdido em trabalho e no computador nem a mim tens tempo disse Matilde, séria.
O pai corou e assentiu em silêncio.
Vamos mudar, promete pediu, afagando a filha e tocando de leve na desgastada foto da mãe.
Agora ela está em paz e não me deve visitar mais. Mas tenho tantas saudades dela Era tão especial, alegre, sabia tudo.
Pois era. E sempre via tudo com olhos de ver. Que mais te disse ela?
Que a tua dieta de comer só pepinos não presta. Se queres emagrecer, vai ao ginásio. E que abrir uma conta em francos suíços foi asneira Da próxima vez fazes as contas melhor. E sobre aquele cimento barato para a garagemA mãe sorriu, emocionada, pegando na mão de Matilde ao deixarem o cemitério.
No regresso a casa, o silêncio era confortável, uma sensação doce de que algo, finalmente, estava arrumado. Matilde espreitou pela janela do carro e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se verdadeiramente leve.
Naquela noite, já de pijama, Matilde encontrou-se diante do espelho e sussurrou:
Obrigada, Dona Rosalina. Obrigada por nunca me deixares sozinha.
A partir desse dia, os conselhos de Matilde tornaram-se menos sobre listas de tarefas ou folhas do IRS, e mais sobre abraços apertados, histórias contadas à mesa e risos partilhados no recreio.
Os alunos ainda a procuravam, mas agora era para jogar à macaca ou partilhar fatias de pão com marmelada. O pai passou a ir ao parque aos domingos e voltou a sorrir com os olhos. E todos, cada um ao seu ritmo, descobriram que o mais importante não era ter todas as respostas era saber ouvir, cuidar e, de vez em quando, dar voz às saudades que moram quietas no coração.
Na escola, corria o rumor de que Matilde já não tinha amiga imaginária.
Enganam-se pensava ela com um sorriso secreto.
Porque algumas presenças, por mais invisíveis, nunca verdadeiramente partem.






