Mamãezinha
Então, seu bigodudo! De quem és tu? perguntei, estacando diante do grande gato ruivo enroscado na entrada da minha porta.
O gato, claro, não respondeu. Nem mexeu um músculo com a minha presença. Manteve-se imóvel, apenas a orelha rasgada remexendo-se um pouco, como se dissesse: Estou a ouvir-te, óbvio! Mas responder? Esquece lá isso
Também não te peço resmunguei, meio chateado, vasculhando a mochila à procura da chave.
O bichano, como se entendesse o que eu fazia, arranjou-se de lado no tapete da porta, mas não arredou pé, encarando-me com um ar atento.
Finalmente encontrei as chaves e comecei a lutar com a fechadura, sempre de olho no penetra.
O apartamento era nosso meu e da minha mulher, Mariana há pouco mais de dois meses. Pequeno, duas assoalhadas, mas era o nosso sonho cumprido. Haveria quem dissesse que viver numa cave de um prédio dos anos sessenta nas traseiras do Lumiar era resignar-se a pouco. Quem sabe seja verdade. Mas eu e Mariana só conseguiríamos rir disso. Afinal, seis meses antes, mal sonhávamos em ter casa própria. Vivíamos num quarto do avô, numa antiga moradia, felizes já por termos espaço só para nós.
Mariana, olha lá que não te metas em quezílias com os vizinhos! dizia a minha sogra, Teresa, enquanto nos ajudava a limpar tudo antes do casamento. Boa gente, sabes? Mesmo que bebam demais
Se bebem, o que têm de bom? gracejou Mariana, torcendo a esfregona e afastando os caracóis rebeldes que sempre lhe caíam à cara.
Aqueles caracóis dela deixavam-me fascinado, mas na hora da limpeza, só complicavam. Por mais ganchos, voltas e nós, escapavam sempre ao seu controlo e acabavam a rodopiar-lhe na testa.
É difícil de explicar dizia Dona Teresa, abanando a cabeça. A vida trouxe-lhes muita desgraça. Há quem saiba dar volta, há quem não
Isso, pelo menos, eu entendia. Eu, que crescera sem mãe, a pulos de casa em casa, sabia bem como é respirar pena de si próprio, esquecendo quem depende de nós.
A minha mãe abandonou-me quando mal tinha três anos. Deixou-me na gare do Oriente, com um bilhete no bolso do casaco e uma peluche de coelho com uma orelha só. Fiquei ali sentadinho no banco, como ela mandou, à espera de a ver aparecer, a suprimir as lágrimas e a abraçar o meu coelhinho, o Choné. Era dantesco, mas sabia: se me levantasse, levava com uma desanda (ou coisa pior). Então ali fiquei, inquieto, olhando à minha volta à procura dela.
Ela não voltou. Em vez disso, apareceu um polícia de farda engomada. Perguntou qualquer coisa, acodei negativamente com a cabeça, mudo de medo, gelado, com fome, as lágrimas já secas. Só quando ele tocou na orelha do meu peluche e perguntou:
Como se chama o teu amigo?
Arrisquei: Choné
O senhor sorriu, passou a mão no boneco e na minha cabeça e perguntou:
A mãe já saiu há muito?
Foi aí que desabei num pranto de cortar a respiração, assustando o polícia e quem estava por perto. Tantas pessoas à espera de comboio. Ninguém viu ou ligou ao miúdo sozinho há horas
Só muito mais tarde soube porquê a minha mãe fez aquilo. Apareceu-me à porta da escola, de mãos erguidas e aos ais:
Filha, encontrei-te! Dá um abraço na mãe! Que saudades minhas!
Nessa altura, já vivia com uma família de acolhimento, em meio a uma meia dúzia de crianças. Os pais cuidavam à sua maneira: nenhum passava fome, todos tinham roupa, iam a atividades, e sabiam que aos dezoito anos a porta fechava, pois entraria outro magote de miúdos.
Nunca tive grandes confidências com eles. Acreditavam que amor e carinho eram extras desnecessários, desde que houvesse comida e cuidados básicos. Por isso, não corri para essa mulher.
Mas, para ser franco, a vontade era enorme. Sonhava muitas noites que ela voltava, me resgatava, e amava fosse lá o que isso fosse. Aos meus olhos, os colegas de escola tinham mães assim: disponíveis.
Mas, naquele dia, achei que as lágrimas daquela mulher valiam pouco. Disseram-me muitas vezes que criança pequena não guardava memória. Que não podia lembrar-me da estação, do banco frio e da solidão. Um dia parei de discutir, mas nunca deixei de pensar nisso. As sensações, os ecos da estação movimentada, esses não se perderam.
A minha irmã de casa, Catarina, foi quem me defendeu nesse dia na escola.
Ó Mariana, quem é esta? veio logo meter-se entre mim e a tal senhora.
Não sei mal conseguia pensar, atordoado.
Desculpe, enganou-se! Esta é minha irmã! Não conhecemos ninguém de fora! puxou-me pelo braço e lá fomos dali. A nossa mãe há de saber disto!
E nesse dia, de mão dada, encontramos o caminho para casa. Bastou aquele gesto para, a partir de então, nos tratarmos mesmo por irmãos. Ela também fora deixada para trás por um pai alcoólico.
Minha mãe foi esperar-me à escola durante uma semana, insistindo por uma conversa. O filha saiu-lhe sempre, e Catarina apenas encolhia os ombros.
Deixa-a chamar o que quiser. São palavras.
Foi Catarina quem me aconselhou a ouvir aquela mulher.
Vais pelo menos saber porquê. Pergunta! Talvez seja a última vez.
Como sabes o que sinto? indaguei, surpreendido.
Achas mesmo um mistério? Todos nós pensamos assim, quem foi deixado.
Sentámo-nos a conversar.
Deixaste-me.
Perdoa-me, filhinha!
Não me chames isso! Mexe comigo!
Está bem, está bem! Não me zangues
Porquê?
Foi tudo tão difícil O teu pai pôs-me na rua.
Porquê?
Disse que tu não eras dele.
Era mentira?
Claro que era mas zanguei-me, discutíamos muito depois desfizemo-nos.
E depois?
Briguei com a minha mãe, quis sair. Mas para onde ia com uma criança? Deixei-te, a pensar que cuidariam de ti. Deixei recado, jurei que voltaria
E achaste que isso chegava?!
Sei que fui horrível queria reparar tudo
Vais devolver-me os anos? Não quero ver-te!
Não me perdoas?
Nem sei. Talvez até perdoe. Mas esquecer, não.
Mas eras tão pequena! Não podes lembrar-te!
Saí dali furioso. Decidi: ninguém mais me diria o que sentir.
Catarina entendia bem.
Se achas certo, está feito. Não olhes para trás!
Tu és mesmo inteligente, Catarina
Ainda não sou. Mas um dia serei. Quero estudar!
O que vais ser?
Psicóloga. Pode ser que perceba como viver de cabeça erguida.
Anos depois, já casada e com a primeira filha nos braços, Catarina gracejou:
Uns disparates! Ninguém sabe como se vive. Nem tu, nem eu, ninguém.
E então?
É viver feliz. Que os teus sintam conforto e quem olhar para ti não sinta inveja. E pronto.
Estás a consegui-lo.
Faço por isso! riu, trocando a fralda.
Com a Catarina aprendi a aceitar as minhas dores.
Por mais que fosse um quarto velho, ao menos era do lado do emprego. Reparos feitos a custos nossos, a vida era quase perfeita! No fim de contas, a sogra tinha razão: vizinhos eram decentes, só fugiam à tristeza com vinho, mas não incomodavam ninguém.
Aprendi a ter compaixão, coisa que só tive com Catarina. E devo também à minha sogra e ao avô.
Dona Teresa era mulher de ação, teimosa e de coração doce. Aceitou-me sem reservas. Catarina chamava-lhe uma heroína.
Não contes com bondades, Mariana. avisava Catarina, preparando-me para conhecer a família do André, o meu marido. És órfã, ainda por cima não herdaste nada. O Estado ainda não te deu casa, pois não?
Só estou em fila de espera.
E lembras-te do teu número? Nem penses! Quando te sair, até a Torre de Belém já mudou de sitio! Não contes com isso e, sem contar-vos planos futuros, vai conhecendo a família com calma. Ela não te tem obrigação de nada, só porque o André te escolheu.
Concordava. Achei a Dona Teresa demasiado: voz alta, figura imponente, vontade de ajudar até sufocar. Nunca cuidaram tanto de mim antes mesmo do André aceitava só um bocadinho de mimo, mas Dona Teresa quase me irritava com aquela ânsia de fazer o bem.
Mariana, ajudas-me a comprar casaco novo?
Ajudar em quê?
Venha comigo ao Colombo, sim? O André detesta lojas. E como sou mulher de tamanho respeitável, demora a encontrar roupa comigo vai dar melhor sorte!
De má vontade aceitava, mas depois não entendia como acabava com sacos cheios: nova gabardina, botas com as quais nem sonhava, uma mala linda… Ao que objetasse, ela sorria e dirigia-me à montra seguinte.
No fundo, era estranho. Eu nem lhe era nada: só a rapariga que o filho trouxe para casa. Preocupar-se ou, ainda mais, gostar de mim só em contos. Por isso, a cada oferta ou conversa mais íntima, agradecia com educação, mas mantinha-a à distância.
Dona Teresa percebeu, e deixou andar. E, principalmente, percebeu logo a minha vontade de independência.
O avô já está velhote, precisa de cuidado. André, vais ter de ceder o quarto.
Mãe, vamos para onde?
Para o do avô. Trocam de sítio. Agora vocês estão crescidos, façam a vossa vida, o avô fica comigo.
O avô do André só sorria por baixo dos bigodes fartos, enquanto me pedia chá e conversa.
Então, preocupada por não ter onde viver? perguntou um dia.
Não, encontramos solução. Arrendamos, se preciso. O André anda a começar emprego novo, não sabemos bem como vai ser Mas já poupámos qualquer coisa.
Decerto! Orgulho em vocês! sorriu.
Disse alguma asneira?
Ele apenas sorriu e pediu para pôr a chaleira ao lume.
Em criança dizia-se ter pena era amar, cuidar. Quando alguém adoece, precisa será de amor ou de compaixão? filosofou, agarrando na chávena. Mas atenção: compaixão nem sempre é boa. Se lamentas um marido bêbado, em nada o ajudas ou se desculpas tudo a um filho só porque o pobre menino… há quem acabe sem conserto. Ter pena de alguém, Mariana, é preciso sabedoria.
Mas eu gosto de si, avô
E eu de ti, netinha!
Lembrei-me daquele diálogo quando vi o gato ruivo à porta do nosso T2, esse comprado à custa da ajuda do avô e da Dona Teresa. Ele também, pelos vistos, só queria um pouco de compaixão. E, quando lhe fiz uma festa na cabeça, deixou-se ficar, sereno. Mas ao convite para entrar, fugiu escada acima.
Que fino! resmunguei, quase a fechar a porta, quando volto a vê-lo nas escadas.
E não vinha sozinho.
Arrastava pela boca um gatito, versão em miniatura dele. Peguei no bichinho: Ena, que espetáculo! mal segurei o felpudo, o pai já subia por outro.
O segundo era igual ao irmão, mas irrequieto. Não gostava nada de ser carregado, largava-se do focinho do pai sempre que podia, e ri-me sozinho com aquele labor todo.
Que grande mãe me saíste tu! estendi-lhe a porta. Então, vens ou vais buscar mais?
O gato entrou, cuidadoso, sempre vigiando os meus gestos com os pequenos.
Entra, que não te vou fazer mal! E a mãe deles?
Ele nem respondeu. Agarrou num dos filhos quando os larguei no chão e deambulou pelo corredor.
Espera! Já percebi trouxe um tabuleiro antigo. Ele empurrou os pequenos para cima, ensinando-os a ir à liteira improvisada.
És mesmo uma mãezinha! larguei uma gargalhada, tapando logo a boca para não assustar as crias, enquanto vasculhava se teria alguma coisa para lhes dar de comer.
À noite convoquei reunião familiar.
Dona Teresa, se não autorizar, arranjo-lhes casa, mas à rua não voltam! São uns bebés. Não sei o que aconteceu à mãe mas é um mistério o gato cuidar deles.
Porque me perguntas o que deves fazer, Mariana? É a vossa casa! Decidam vocês. Disse, pegando num dos gatos ao colo. E já agora, que lhes deste de comer?
Leite. Por sorte já sabem lamber.
Fico com este quando crescer. Os outros
Arranjarei lar para os bebés, mas o gato fica. Quero aprender com ele.
Aprender o quê? admirou-se.
André sorriu e deixou-me contar a novidade, guardada para o aniversário da sogra.
Como ser uma boa mãe Daqui a pouco, terei dois mestres: tu e este cuidador peludo.
E foi ao afagar a orelha do gato ruivo, quando Dona Teresa me abraçou, que finalmente deixei cair as lágrimas.







