ZÉRITA
O velho autocarro, com o seu cheiro pungente a gasóleo e barulho de quem já tem uma vida longa, lá se afastou, deixando a mulher sozinha. Vítor olhou em volta: ali nada mudava, por muito que passassem os anos. A estrada mantinha aquele ar de abandono, coberta de lama negra e gordurosa. Os arbustos resistiam, salpicados de pó. Ao longe, a aldeia aquela faixa esticada ao pé da orla do pinhal. Já dava para ver quadradinhos de luz amarela nas janelas, ouvir cães a ladrar e os gansos a queixar-se como gente.
“Pois claro, isto continua igual, quase nada mexeu em seis anos”, pensava Vera, “tirando uma coisa ou outra”. Do lado direito, lá no alto, já não se viam os tractores do senhora Basto, todos alinhados e iluminados por candeeiros baços. Agora morava ali só o escuro. O destino do negócio dos Basto virou mistério. Os herdeiros devem ter vendido tudo por meia dúzia de euros.
Vera atravessou a rua principal da aldeia. Não se admirava se, ao passar a esquina, alguém a recebesse com um calhau. Sentia olhos a julgá-la atrás de cada cortinado. Ia cabeça baixa, lenço até quase ao nariz, a desejar ser só uma sombra e nada mais. O que viria agora? Existiria ainda alguma coisa da casa dela? Mas não tinha onde mais cair. O regresso à aldeia era inevitável, por muita amargura que cheirasse no ar. Afinal, ela deixara metade da terra sem trabalho seis anos antes e isso ninguém esquece.
Mudou-se e muito, por dentro e por fora. Já não havia traço da rapariga espevitada de cintura fina e olhos azuis, dona do coração de pedra do velho Artur Basto. A Vera era solteirona, morava sozinha num casebre torto à beira do ribeiro. O Basto, esse, era quase santo para os outros dava emprego e pão a quase todos ali. Quando Vera se mudou para casa dele, achou que tinha arranjado bilhete de primeira na lotaria do destino.
Mas nada é assim tão fácil, pois não? O senhor Artur via-se a si mesmo como um senhor feudal de trazer por casa, um mandão antiquado. A Vera, para ele, era criada e passatempo privado. Mas quem é que resiste a tantos galanteios de alguém tão importante? Só depois percebeu quem ele era. Primeiro afastou-lhe as amigas, depois proibiu-lhe vestidos curtos, depois foi a maquilhagem. Esqueceu-se do que era liberdade. Ficou em casa, a fazer sopa de legumes e limpar sem sujar. Nem pensar em trabalhar fora: o Artur desconfiava de tudo, via amantes até na sombra. Vera tentava mostrar-lhe que era fiel, mas era trabalho perdido. O problema era dele, não dela. Quanto mais tentava agradar, mais ele ralhava. Quando passou das palavras à força, ela agarrou na coragem e voltou ao seu casebre junto ao ribeiro.
Mas o pior ainda estava por chegar. No dia seguinte ao regresso, o Artur apareceu em casa de Vera sem avisar. Ela lavava o chão, de janelas escancaradas, deixava o vento fresco entrar, saboroso. Gostava daquele momento, passava o pano e acalmava-se. Mas bastou uma pontapé no balde para o chão virar lagoa e Vera perceber que era a seguir ao balde que vinha o resto.
Lá o que tenha acontecido a seguir, nem se lembra. A cabeça não deixa, recusa o filme daquele dia. Só recuperou sentido quando a casa estava a abarrotar de guardas, abanavam-lhe um saco com uma faca de cozinha. Pelos portões murmuravam vizinhos e por cima da mobília revirada e cortinados arrancados, estendia-se Artur, no chão.
Matou-lhe o fogo! sussurravam. Se se mexesse menos, ainda cá estava! “Com que então não tinha tudo, hein? Vivia como rainha!” “Deitou tudo a perder. E agora, o que será de nós, sem o patrão?”
O povo fervilhava: “E agora? Como é que vamos viver?”
Seis anos foi a conta do castigo de Vera, prisão em Tires. Os anos custaram a passar, mas foi menos horrível do que antevira. Entre conversa, chá de pacote, compaixão e alguma solidariedade, Vera até arranjou amigas. Encareceu, perdeu o brilho nos olhos, os cabelos pintaram-se de branco e o entusiasmo por vestidos bonitos foi-se. Nunca se via ali enfiada, atrás das grades. Achava mesmo que ali só acabava quem não prestava. Mas em Portugal diz-se: Não digas “desta água não beberei, nem este presídio não pisarei”! Em segundos, a vida torce-se para sempre. Agora era a Zérita.
Foi por isso que cruzou a aldeia, a esconder o rosto, o coração aos pulos. Existiria ainda a casinha ou já estaria comida pelo lume na lareira de outro? Mas lá estava ela, entre duas bétulas, aquela parede de xisto, a fumar frio da ribeira a embrulhar-lhe os ossos. Quantas vezes sonhara, lá dentro, com isto? Atrás, o bosque repleto de cogumelos: sanchas, míscaros, tortulhos Vontade não faltava de agarrar já no cesto.
Vera deslizou como sombra pelo portão, apalpou a prateleira escondida pelo velho telhado e pescou dali a chave. Esperava mofo e teias, mas nada disso. Acendeu a luz, a cozinha inundou-se de amarelo. Estava tudo limpo, uma jarra de gerânios cor-de-rosa ao sol. Não sabia o que pensar. Foram as divisões, tudo no sítio, sem pó, até cheirava a sabão. Quem é que vigiou a casa, afinal?
Veeeera! veio da rua a voz da senhorinha Eudóxia, a vizinha mais prestável do quarteirão, que entrou sem cerimonias. Ui, olhou para ela, estás tão mudada… Vi luz e corri já. Trouxe-te comida, vais precisar disto. Pousou um frasco de leite e um pão em pano. Foi você quem vigiou? arriscou Vera. Ora pois, Vera, casa abandonada é chamar chatice. Tem que ser!
As lágrimas já lhe pendiam dos olhos. Obrigada, a sério!
Olha que o povo ainda não te perdoou. O meu, se sabe que cá vim, faz-me a folha! avisou, derretendo-se num sorriso.
E logo outro visitante! Bateram à porta, um rapaz com ar de quem cresceu tudo de uma vez, entregou-lhe um pacote.
É da minha mãe gaguejou, deixando-lhe o embrulho a cheirar a presunto que fazia crescer água na boca. Vera agradeceu, sem saber bem de quem era o miúdo: seis anos, os garotos passam a homens num instante.
De rompante, aparece a Tânia, sem pedir licença, braços abertos.
Miga, achavas mesmo que ninguém ia falar contigo? Vera chorou. Não digas disparates, existe solidariedade! O que fizeste foi legítima defesa, quanto a mim. Os homens que não percebam os dramas das mulheres, azar! Eudóxia disse-me que voltaste. Vim deixar legumas para ti! Vai descansar e amanhã logo falamos!
Vera ficou tão tocada que nem fome sentia. Aprendeu que julgava mal as suas gentes. As mulheres estavam com ela. No aconchego dos lençóis lavados, quase a dormir, tum-tum na janela.
Pela sombra da noite, viu logo o Olegário, o respeitado do povo.
Não abras, fala pela janela! soprou ele. Olha, pensámos aqui que de castigo já chega, só quem nunca sofreu falhas é que não percebe. O Artur… pois, também não era flor que se cheirasse. Ficámos apertados, mas não foi tua culpa. Não era homem de respeito, pronto. Fizemos-te um arranjinho, a malta junto, para começares vida nova. Toma lá uns euros, não discutas!
E Vera, sem jeito de receber esmolas, só viu Olegário desaparecer na noite, deixando-lhe umas notas no peitoril da janela.
Autora: Anabela TeixeiraNo silêncio que voltou a cair, Vera ficou sentada na ponta da cama, a mão pousada nas notas, os olhos inchados do choro. Sentiu uma onda morninha a subir-lhe do peito, alguma coisa a desatar-se por dentro, como um nó de tantos anos afrouxado devagarinho. Pela janela, as primeiras estrelas rabiscavam o céu. Lá fora, a ribeira corria igual desde a infância.
Sorriu, pela primeira vez em muito tempo, tão fundo que doeu. Levantou-se, foi até à cozinha, abriu a janela sobre o negrume dos campos e cheirou a noite terra molhada, fumo das lareiras, pão, madeira, promessas. Não sabia se tinha perdão da aldeia toda, mas tinha sossego e, acima de tudo, um recomeço legítimo.
Num impulso manso, pegou no avental, amarrou bem à cintura e atestou o bule de água: amanhã seria dia de pão, de vida nova, de acender o lume cedo e deixar o fumo subir em fio pelas árvores. Talvez, daqui a uns tempos, a palavra Zérita ficasse só como recordação cicatriz leve, lição dura, mas não sentença para sempre. Talvez voltasse a rir com vontade e, quem sabe, com as mulheres da aldeia, ir ao bosque apanhar cogumelos ou apenas conversar à sombra das bétulas.
Por agora, existia um fio de esperança iluminando-lhe as veias. Com a humildade e coragem de quem já nadou em lama braba, Vera espreitou o próprio futuro: um passo de cada vez, mas desta vez, livre. E no rumor do vento morno, pensou que talvez aquela aldeia, do seu jeito torto, tivesse dado à Zérita não só o seu castigo, mas afinal, a sua redenção.






