Aquele autocarro velho, velho como tudo, largando um cheiro a gasolina que quase fazia cócegas ao nariz, continuou o seu caminho barulhento, deixando-a sozinha na estrada. Olhou à volta: nada parecia ter mudado. Estrada torta e enlameada, a mesma lama grossa e preta agarrada aos sapatos, os arbustos aqui e ali salpicados de pó cinzento. Ao longe via-se a aldeia uma fiada de casas esticada ao longo do bosque; nas janelas amarelas já se acendiam retângulos de luz, cães ladravam e as galinhas sempre implicantes cacarejavam impacientes.
“Pois claro, nada mudou nestes seis anos”, pensava Vera ou melhor, Verinha, que em solo português nome curto não falta. “Bem, quase nada…” A única diferença? Do lado direito, na encosta da colina, já não se via o alinhamento noturno de tratores na quinta dos Belos, iluminados pela luz pálida dos candeeiros. Agora era só breu. Se calhar os herdeiros já tinham vendido tudo.
Verinha desceu até à rua principal e não se admiraria que alguém lhe atirasse uma pedra vinda de trás da esquina já estava à espera. Parecia-lhe que de cada janela bipartia um par de olhos, daqueles bem críticos. Ia cabisbaixa, lenço puxado sobre a testa, desejosa de passar despercebida.
O que é que a esperava agora, perguntava-se? Teria sobrado alguma coisa da sua casa? Mas não tinha outro sítio para ir e voltou mesmo assim, mesmo sabendo o quanto aquela terra começara a odiá-la. Por culpa dela, metade da aldeia ficou sem trabalho há seis anos… e isso não se esquece facilmente.
Desde então, mudara por fora e por dentro. Aquela rapariga de olhos azuis abertos para o mundo e cintura fina, que seduziu o imperturbável Arcádio Belo, tinha desaparecido. Verinha era órfã, vivia num casebre no fundo do vale, rodeada de mato e dampas. O Belo era o senhor lá do sítio; toda a gente trabalhava para ele, alguns até quase que rezavam às tainhas em sua homenagem. Quando Verinha foi morar com ele, achava que tinha tirado a sorte grande.
Só que não. O Arcádio era daqueles que se acham donos e senhores do pedaço típico fazendeiro-português com a mania das grandezas. Para ele, Verinha era mais uma criada de servir, mas cega de atenção e lamiré acabou por só ver o que queria. Primeiro isolou-a dos amigos, depois proibiu as roupas curtas, nem batom podia usar era só regras! A vida dela ficou do tamanho de uma cozinha. Só fazia sopa e limpava o pó enquanto esperava por ele como se fosse um Dom Sebastião azedo. Trabalhar? Esquece lá isso ciúmes loucos só porque sim.
Tentou provar a inocência, mas cedo percebeu: problema não era dela, era dele. Se ela respirasse mais fundo, ele torcia o nariz. Quando apareceram os primeiros sopapos, Verinha voltou para casa, crente que podia esquecer tudo como um pesadelo. Mas não, a maior chapada do destino ainda estava para chegar.
No dia a seguir, Belo apareceu lá, ela a esfregar a cozinha num ritmo quase zen, porta escancarada, ventinho bom, cheiro a limpo. De repente, zás, um pontapé no balde: água por todo o piso. E quando o balde voava, ela já sabia que seria a vez dela. O resto é um borrão na memória melhor não lembrar. Quando deu por si, havia GNR à solta, armas em punho, perguntas atrás de perguntas, agitavam-lhe à frente do nariz um saco transparente com uma faca de cozinha lá dentro. Espectáculo! Pela janela empoleiravam-se vizinhos (adoram!), na cozinha só móveis espalhados e cortinas arrancadas, ao meio, Belo estendido no chão.
“Acabou com ele!”, ouviu deliciada da vizinhança. “Menina ora, se tivesse menos o traseiro à mostra, o homem estava vivo!” “Fazia boa vida, ingrata!” “Desgraçou um homem bom!” “E agora, como é da nossa vida?! O que se faz sem trabalho?” aquilo era quase uma Assembleia da República em miniatura.
Verinha embolsou seis anos de prisão, colónia de regime normal. Não foi fácil, mas vá lá, também não foi o inferno. Com o seu feitio pacificador, acabou por arranjar amigas conversas e segredos partilhados aliviaram o cárcere. O espelho já não mostrava a rapariga de olhos ingénuos: ficou mais pesada, com cabelo manchado de branco, sem paciência para pinturas nem adereços. Jamais imaginara um destino atrás das grades sempre achara que quem ia parar à prisão eram só vadios ou marginais sem eira nem beira. Mas não há quem garanta que amanhã não vai dormir debaixo de uma ponte… A vida, dizia-se em português, é mesmo madrasta! Agora era oficialmente uma presidiária.
Foi pela rua com lenço ainda mais baixo, coração aos saltos: “Ainda existirá a minha casa?… Ou fizeram lenha daquilo?” Mas lá ao fundo, embrenhada entre dois amieiros, a velha casinha estava lá. Do vale vinha aquele friozinho familiar e os sapos sempre desafinados continuavam a coaxar. Quantas vezes sonhara este momento: correr para o bosque cheio de míscaros, boletos e pinheirinhos abaixo com o cesto de verga!
Entrou em casa como uma sombra, achou a chave debaixo da telha. Esperava aquele fedor a mofo antigo… mas nada! Carregou no interruptor, luz amarela encheu a cozinha, tudo arrumado, gerânios a explodir em rosa à janela. Não percebeu nada. Passou pelas divisões, tudo intocável. Alguém cuidara daquilo durante a sua ausência inesperada.
“Verinha, ó Ve-e-e-ra!” ouviu do alpendre e, sem cerimónias, entrou a vizinha, Eudóxia. “Opá, bem te mudaste… Vi luz e corri logo cá!”, largou ao entrar. “Trouxe-te um mimo, mulher, que vir de viagem e estômago vazio não combina.” Pôs na mesa um jarro de leite fresco e um pão rústico embrulhado num pano. “Obrigada”, sorriu Vera já a chorar. “Foi a senhora que cuidou disto tudo?” “Quem havia de ser? Casa sem dono, dá logo sarna…” respondeu Eudóxia. “Muito obrigada, não sei como lhe agradecer”, fungou Verinha, pestanas a brilhar. “Tenho de ir”, despediu-se a vizinha. “Ainda há por aí quem não te pode ver à frente e o meu que me apanhe a vir cá, vou ouvir tanto…”
Ao menos uma alma solidária o peito de Verinha ficou mais leve. Serviu-se de um copo de leite ainda morno, e nesse momento bateram à porta. Um miúdo, adolescente desajeitado, enfiou-lhe um pacote nas mãos: “A minha mãe mandou!”, gaguejou e fugiu como uma sombra. Seis anos a passar e agora já quase não conhecia os meninos da terrinha. O cheirinho a presunto e farinheira quase a fez babar.
Sem anúncios, entra-também-sem-bater a Tica amiga de outros tempos pré-Belo. Vera chorou de emoção: “Eu pensei que ficasse isolada, sem um pingo de conversa!” “Vá lá, Verinha, somos todas mulheres ao menos entre nós há solidariedade! Toda a gente sabe que foi em legítima defesa, por mais que falem. Homens não entendem estas coisas; só azedam. A Eudóxia disse-me logo que tinhas chegado vim só dar um oi e deixei-te uns tomates, cebolas, pimentos… Amanhã logo conversamos até enjoar!”
Tanta emoção que já nem tinha fome, pensou Verinha. Afinal, não devia julgar os vizinhos por antecipação as mulheres entendiam-na, apoiavam-na. Já ia para a cama, lençóis limpos, e ainda nem fechara bem os olhos quando bateram à janela. Reconheceu logo o vulto do Celestino era o chefe informal do lugar, o tipo respeitado por todos.
“Não saias”, disse ele. “Falamos pela janela. Olha, estivemos a conversar os homens todos. Seria uma parvoíce ficarmos de costas viradas. És inocente a culpa era do Arcádio… Era homem, sim, mas daqueles que nem vale a pena comentar (cof, cof). Juntámos uns trocos coisa pouca, para te orientares até arranjares pé no chão. Vai, aceita!” Verinha ainda hesitou, mas ele enfiou o envelope pela janela e desapareceu na noite, sem fazer alarido.
Autora: Anabela SabinoVera ficou um momento quieta, sentada no escuro da cozinha, apenas a ouvir o silêncio, entrecortado pelos sons da aldeia adormecida. Pela primeira vez em anos sentiu-se, se não feliz, pelo menos inteira. Toques de medo ainda havia, mas agora eram miudinhos, como picos de silvas no caminho, e não mais muralhas de pedra.
Do fundo do peito, soltou um suspiro longo. Foi até à porta, abriu-a de par em par e respirou o ar frio da noite, orvalhado de promessa. Olhou o envelope, sentiu-lhe o peso o peso das mãos que se tinham juntado, mais do que o dinheiro em si. Quando envelhecessem as feridas, talvez também voltasse a haver festa, lugar à mesa, e gargalhadas no largo da Igreja. Por ora, tinha pão, leite, e uma noite só sua.
Subiu ao sótão de lanterninha na mão, procurou a caixinha azul onde guardara, anos antes, as sementes de lírios as flores da infância. Amanhã cedo plantaria à entrada, como quem lança raízes novas, sem se esconder, sem pedir licença.
A aldeia estava igual mas ela é que já não era a mesma. E ao sentir a terra fria na mão, soube de repente que podia, afinal, começar de novo. Mesmo quando tudo parece acabado, às vezes basta só regressar, abrir portas, aceitar um pão quente, e esperar a manhã devolver, devagarinho, a luz e a esperança.






