Ilusão de traição
Domingo, 24 de outubro
Hoje o dia amanheceu frio e limpo aqui em Lisboa, céu de um azul cortante, como se o Tejo refletisse sua própria serenidade lá do fundo. E, no meio deste outono ainda jovem, decidi registrar tudo, porque sinto que alguma coisa mudou talvez dentro de mim, talvez ao meu redor, talvez entre nós.
Ainda de manhã, António olhou para mim com a sua típica expressão descontraída, sorriso torto ao canto da boca e olhos vivos, sempre a transparecer aquela leveza que me desarma. Tem sido assim desde que aceitei o convite dele para tomar café juntos no Chiado, há dois meses. Nunca imaginei que alguém pudesse, em tão pouco tempo, tornar-se parte do meu quotidiano, da minha família. Mas o nervosismo nunca desaparece completamente, ainda mais hoje.
Tens mesmo a certeza que queres que eu vá contigo? perguntou, a voz baixa, quase um sussurro cúmplice.
Respirei fundo, ajeitando uma madeixa de cabelo atrás da orelha, e sorri-lhe. A palma da sua mão encontrou a minha, dedos entrelaçados. Sei que a família ouviu falar dele vezes sem conta a mãe, sobretudo, anda curiosa, andou até a perguntar se ele prefere bacalhau ou cozido à portuguesa! Tão típico da mãe, querer agradar pelo estômago.
Vesti o meu vestido preferido, aquele azul escuro com flores miúdas, que herdei da avó. Faz-me sentir leve, como num folhear de álbum de família. O António, claro, de jeans impecáveis e camisa de algodão clara sem formalismos, mas com respeito, com aquele cuidado subtil de quem quer criar boa impressão sem perder o seu estilo.
A meio do caminho, sentia as pontas dos dedos a formigar, mexia nervosa na bainha do vestido. Olhava-o de lado, a precisar de confirmação de que estava mesmo ali, disposto a conhecer os meus. O António apercebeu-se e apertou-me a mão.
Estás a stressar, não estás? disse-lhe, a sorrir.
Um pouco, admiti, baixando o olhar , é que é importante para mim. Quero mesmo que tudo corra bem. Tenho a certeza que vais conquistar os meus pais. Só fico… sei lá, insegura com a Carmen. A minha irmã… Ela sempre foi competitiva. E está sozinha. Por vezes tenho a sensação de que basta ela olhar para ti para tudo se complicar.
A Carmen é cinco anos mais velha do que eu sempre elegante, morena, cabelo preso e maquilhagem discreta (mas irrepreensível). Agora trabalha numa consultora no centro da cidade, já no último ano da licenciatura, muito crescida e, habitualmente, distante dos dramas familiares. Era a Carmen que eu temia; a ideia de que ela pudesse, sem querer, capturar a atenção do António enchia-me de ansiedade.
Entrámos em casa, em Campo de Ourique, e logo reparei no ambiente: a Carmen estava arranjada como nunca, a experimentar brincos ao espelho. Vestido justo e sapatos altos, nem parecia que ia sair com amigas para jantar. O ar estava tenso, pesado, cheio de palavras não ditas.
Ah, chegaram cedo, lançou, com aquele tom frio sem grande interesse, soprando como quem acaba de ser interrompida.
Saímos antes do previsto, tentei manter a calma, sem deixar transparecer receio. Vais sair?
Sim, jantar fora, respondeu ela, dando-me apenas a ponta de atenção que julgava ser suficiente. Devia achar graça à situação, pensei.
O António olhou ao seu redor, curioso, a tentar absorver o ambiente do lar. E, sem grandes rodeios, aventurou-se num elogio:
Estás muito elegante.
Aquilo caiu-me como um balde de água fria. A forma subtil, mas sincera, como o disse… Conheço essa expressão. Fiquei roída de ciúmes; talvez até o som da voz dela a agradecer mexesse comigo.
Pois claro, acusei-a, sarcástica, a voz mais aguda do que queria. Nem quando trago o António para jantar em família consegues resistir em estar no centro das atenções. Achas que é uma competição, não é?
Leonor… Ela suspirou, já sem paciência. Só vim buscar umas coisas antes de sair. Não planeei nenhuma apresentação.
Com esse vestido? Não me venhas com histórias! Não consegui controlar-me. Sabes perfeitamente o que estás a fazer.
Isso é coisa da tua cabeça, murmurou Carmen, braços cruzados, a tentar não se exaltar.
O António olhava de uma para a outra, perdido. Apressei-me a arrastá-lo para a cozinha, mas o mal já estava feito. Sentia o rosto acalorado, o peito a querer explodir.
Os meus pais, Eduardo e Manuela, apareceram à porta. Ele, de camisola de lã e jornal dobrado na mão; ela, de avental, um cansaço suave no olhar. O meu pai nem perguntou porquê a discussão; limitou-se a lançar um O que se passa aqui? com a resignação de quem já viu tudo.
Reagi, como sempre, a ver se alguém ficava do meu lado:
Vejam só: a Carmen faz sempre questão de se mostrar. Agora com o António… já nem sei!
A minha mãe suspirou, sem me dar razão:
Carmen, não devias ter exagerado na produção. Sabias que o António vinha cá…
Estava mesmo de saída. Olhares frios, vozes que se atropelam. Outras pessoas também têm vida, sabes?
Vês?! apontei para ela.
O António tentou intervir, calmo:
Se calhar devíamos todos acalmar, isto não leva a lado nenhum…
Mas já nem o ouvia. Fugitiva das minhas emoções, acabei por agarrar no vestido da Carmen e puxá-lo, rasgando o ombro. Tudo desabou: um grito, mãos a tremer, vergonha, raiva, estupidez. Que estás a fazer?, perguntou ela, ferida mas distante.
O meu pai foi buscar o jornal, a mãe abanou a cabeça. Senti-me sozinha.
A Carmen fechou-se no quarto dela, o António ficou a olhar para mim, dececionado.
Leonor, não faz sentido isto, admitiu. Não vejo que a Carmen tenha feito algo. Não me sinto confortável com tudo isto.
As lágrimas vieram. Ele não estava do meu lado. E eu perdi o controlo. Vi o António tornar-se cada vez mais distante, a Carmen cada vez mais ausente. E ficou um silêncio tão espesso na casa…
Seguiu-se aquela rotina gélida o António acabou por ficar a morar connosco durante o mês em que reformavam o apartamento dele em Oeiras. A casa pequena para quatro, tensa para todos. Cada palavra era pesada. Sentia-me a perder, mas não cedia. Até no pequeno-almoço, a Carmen a estudar, eu a entrar de rompante, acusando-a de, tudo o que fazia, era para chamar a atenção do António.
Ela estava exausta, olheiras fundas, quase a desistir. Hoje tenho exame. Deixa-me em paz, por favor. Mas eu nunca sabia parar.
Fartou-se. Arrumou as coisas, foi viver com uma amiga. Só mais tarde percebi a paz silenciosa que deixou no apartamento. Mas era tarde: António foi o próximo a partir. Não és justa, Leonor. Não me deixas respirar. Vê um problema onde não existe. Já não aguento.
Fiquei sozinha. Cresceu em mim uma tristeza profunda, uma vergonha que não admitia nem a mim própria. Só chorava, deitada a horas na cama, a fugir da realidade para dentro de ecrãs. A minha mãe começou a fazer tudo sozinha; o meu pai calava-se, cada vez mais fechado.
Quando perceberam que sem a Carmen nada corria bem, tentaram chamá-la de volta.
Filha, podias voltar para casa? O teu pai está sempre com dores nas costas, precisamos de ajuda…
Ela foi firme. Agora já tenho o meu espaço. Foi demasiado difícil conviver com acusações injustas.
Mas o António já não está! A Leonor vai acalmar!
Não é sobre o António. É sobre o ambiente que se criou. Eu não volto a esse papel.
Nunca forcei um pedido de desculpas. Orgulho parvo, talvez medo de admitir tudo o que estraguei. Só mais tarde descobri, pela mãe, que a Carmen tinha encontrado alguém o Tomás, um rapaz de Torres Vedras, engenheiro informático. Alugaram casa juntos, ela estava feliz.
Pode soar estranho, mas isso, de alguma forma, acalmou o meu próprio rancor. Perceber que afinal nunca houve qualquer traição. Somente a ilusão criada pela minha insegurança e que, nessa batalha inventada, perdi todos.
Agora, cada vez tenho mais saudades do tempo em que éramos só irmãs a rir nos corredores, na casa dos avós, a discutir sobre quem ficava com o último fatia do bolo. Sinto falta do toque leve, da correria pela casa, da voz animada da Carmen a contar das suas aventuras.
Amanhã preciso recomeçar, nem que seja a ajudar a mãe a tratar das tarefas domésticas. Talvez, quem sabe, criar coragem para mandar mensagem à Carmen. Mas sei que a ferida ainda não cicatrizou. Hoje, pelo menos, precisava de escrever isto. Para não esquecer.
Assinado,
LeonorAo fechar o diário, senti o peso daquela confissão transformar-se num fio ténue de esperança. Havia ali, escondido entre mágoas e silêncios, um apelo mudo o desejo de reparar, ainda que tarde, uma ponte quebrada a meio do caminho.
Peguei no telemóvel. Olhei aquele número mil vezes guardado, mil vezes não marcado. Respirei fundo e escrevi, hesitante: Carmen, sei que tenho falhado muitas vezes. Trocava tudo por um café, só para me ouvires. Sinto a tua falta. Esperei. O tempo esticou-se, suspenso, até que três pontinhos começaram a piscar no ecrã.
Demoraste a perceber, mas chega. Amanhã, às quinze no sítio do costume?
Sorri, quase sem acreditar. Ali, por entre os destroços do que fui e perdi, nasceu a certeza tranquila: nem toda ilusão sobrevive quando damos lugar à verdade. E, mesmo depois de errar, ainda pode haver alguém disposto a sentar-se connosco para recomeçar.







