A janela do quarto do hospital estava escancarada. Logo pela manhã, a enfermeira havia aberto de par em par. O ar entrava puro, mexendo as cortinas, o verde das folhas lá fora alegrava o ambiente, e o cálido sufoco do Verão ainda estava longe de chegar.
Tinham acabado de operar o apêndice do Pedro. Disseram que a cirurgia tinha sido complicada, apanharam-no mesmo a tempo, mas Pedro era intrépido.
Não tens medo de injeções? sorria a enfermeira, enchendo a seringa e expulsando o ar.
Pedro virou-se para o lado, calado ainda não tinha permissão para se erguer.
Queriam assustá-lo com pouco…
Tinha vindo da rua, de uma travessa ao pé do mercado. Não era sem-abrigo, crescera num lar de infância. Estava com os amigos, tinham ido tentar ganhar uns trocos às escondidas, e foi então que a dor o travou.
Ficara com pena só de uma coisa: tinha colocado o Leandro e o miúdo Sérgio em sarilhos iam fazer confusão no lar. Mesmo ontem, depois da operação, apareceu a Dona Graça a subdiretora a fingir preocupação. Como Pedro ainda estava sob o efeito da anestesia, só lembrava o rosto chegado dela, aflito, as palavras escapavam.
Mas por que havia de ter acontecido exatamente fora do lar? Lá faltava pouco para chegar… Foi o destino…
Culpava os damascos. No mercado ofereceram-lhes uma caixa de damascos maduros e aproveitaram demasiado. E agora fazia conta ao resultado disso.
Ora cá está o nosso herói! Como te sentes? o médico, já idoso e de braços peludos, inspecionou-lhe o corte. Pronto, rapaz, já passou o pior. Agora já não há que temer.
Eu não tive medo.
Hum, és valente, hã? Muito bem, mas ouve, rapaz: nada de comer ainda! Está proibido receber doces ou visitas com comida. Aguenta mais um pouco sem guloseimas. Ao jantar iremos dar-te gelatina.
Pedro acenou, por respeito apenas. Sabia que ninguém lhe traria nada no lar, estavam todos aborrecidos com ele, pela saída escondida, pelo incómodo à direção. Iam ao mercado às escondidas, fugindo pelo buraco da vedação, e ele foi desmaiar logo no regresso!
E o médico tinha razão Pedro era corajoso. A vida tinha-lhe ensinado. A mãe dera-o à luz nem sabe bem como, provavelmente porque não havia dinheiro para um aborto. Pedro tinha dez anos, mas já pensava no assunto como todos os meninos do lar: com uma distância adulta.
Por algum motivo, não culpava a mãe. Pelo contrário, agradecia-lhe por tê-lo trazido ao mundo, mesmo tendo assinado o abandono de imediato.
Dos três anos foi para a Casa dos Pequenos, depois transferido para um lar em Évora, mais tarde para outro perto de Leiria. E desde que se lembrava, era uma luta pela sobrevivência.
Vinha-lhe à memória as discussões no refeitório pela comida. Era o tempo calmo do pós-25 de Abril, mas as cozinheiras e direção levavam grande parte da comida para casa, até de carro.
E as lutas não eram só pela comida. Ele cresceu robusto. Vencia pela força. Quebrou braços duas vezes. Uma vez, uma cabeleireira que ia lá rapar-lhes o cabelo quase chorou ao ver a quantidade de cicatrizes na cabeça dele.
Mas para quê chorar? Pedro nunca chorava.
Achavam mesmo que o assustavam com uma cicatriz na barriga ou com injecções…
Ridículo.
Os adultos eram para ele frios e calculistas. Não era pequeno nem menina mimada que pudessem amar facilmente; era ríspido, um pouco áspero e direto.
Vê lá tu, Gonçalves! Se aprontas alguma, vais para a enfermaria! ameaçava muitas vezes Dona Graça.
Pedro não ripostava, mas obedecer também não era do seu feitio. Tinha regras próprias, invioláveis.
Houve uma só adulta que lembrava muitas vezes. Não sabia o que era sentir falta de mãe ao ponto de falar com ela em pensamento, mas com essa mulher, que apareceu por acaso no lar de Évora, conversava em silêncio.
Devia ter uns seis anos. Ela não era cuidadora de referência, não sabia ao certo quem era. Mas ficara-lhe a memória: o sorriso doce, os olhos claros, as mãos quentes, o cheiro. Lembrava-se de ela sentá-lo no colo e dizer-lhe ao ouvido:
Tens que ser forte, Pedrinho. Comer bem, cuidar de ti, ouvir os adultos. Vai ser difícil, mas tu consegues. Tenta, está bem?
Depois, ela cantava-lhe uma canção.
Gatinho do rabo cinzento,
Dorme bem, dorme bem.
Rabo cinzento, patinhas brancas,
Dorme bem, dorme bem.
Patinhas brancas, orelhas pretas,
Dorme bem, dorme bem…
Já quase rapaz feito, Pedro continuava a lembrar-se dessa canção simples sempre que se sentia perdido. Fechava os olhos, cantava baixinho para si, recordava o calor das mãos dela e tudo parecia menos pesado.
Depois, a mulher desapareceu, dissolveu-se no tempo, deixando-lhe só aquela música e a recordação. Nunca mais alguém lhe cantou uma canção de embalar, nunca mais o embalou ao colo. O nome dela perdera-se, em pensamento chamava-lhe mãe. Sabia que, se calhar, não passava de uma auxiliar temporária. Mas sonhar não era proibido.
A enfermeira fechou a janela e começou a preparar a cama ao lado. Pedro animou-se: estar sozinho era monótono.
Logo entraram com uma maca, enchendo o quarto de adultos de bata branca. A confusão instalou-se. Da cama de Pedro, não via bem, mas reconheceu: trouxeram um rapaz franzino, de nariz afiado, já com soro no braço. Logo saiu quase toda a gente, ficando só a enfermeira e um homem de bata por cima do fato.
Ninguém falava muito, trocavam palavras soltas.
Ele vai dormir um pouco, disse a enfermeira.
Está bem. Obrigado.
Se precisar, chame…
Claro.
Ficaram os três naquele calor abafado. O homem nem se despia do casaco, quieto no canto, olhando para o menino. Pedro cambaleou na cama, as costas já lhe doíam, virou-se, a cama rangia. O homem virou-se então. O rosto cansado, mas no olhar algo terno.
Olá, murmurou o homem.
Boa tarde, respondeu Pedro.
O homem espreitou o filho, depois arrastou a cadeira devagarinho e colocou-se ao lado de Pedro.
Foste operado?
Fui. Tiraram o apêndice.
Ainda não te levantaste?
Não.
Queres alguma coisa?
Não interessa, hoje estou a jejum. E ele? acenou na direção do rapaz.
Ele? o homem olhou para trás, franziu as sobrancelhas. Outro problema. Não te importas que eu fique aqui? Se vierem para ti, eu saio.
Claro que não Pedro abanou a cabeça. Em que haveria ele de mandar?
O homem ajeitou-se.
Ele chama-se Simão, tem onze. E tu?
Pedro, tenho dez.
Obrigado, Pedro, o homem disse, e Pedro não percebeu porquê.
No dia seguinte, o quarto enchia-se de gente. De manhã, mais soros para Simão, várias vindas do médico. O pai ali dormia na cadeira ao lado, por vezes murmurava-lhe algo. Simão mexia braços e cabeça, mas não despertava. Parecia dormir.
A meio do dia chegou um casal já de idade e uma mulher jovem era a mãe de Simão. Alta, direita, nariz ligeiramente curvo, cabelo encaracolado preso. O rosto pálido, os olhos inchados de tanto chorar. Entraram amparando-a, sentaram-na junto do filho. Ela acariciava-o, falava baixo.
Talvez mudem o outro menino… o pai de Simão, ansioso, apontava Pedro ao médico.
Sim, mudamos hoje.
O médico parou junto a Pedro.
Então, amigo, dói?
Um pouco.
Naquela noite, Pedro pouco dormiu. O corte doía, o medo fazia-lhe pesar cada movimento, o cateter incomodava. E não lhe deram de comer ou se esqueceram ou ainda era cedo.
Já podes começar a levantar-te. Hoje mudas de quarto. Ânimo, amigo, disse o médico.
Pedro queria erguer-se, mas a enfermeira não aparecia. O quarto enchia-se de visitas.
Só nesse dia começou a compreender Simão estava a morrer. Não acordava; todos falavam em murmúrios, pesados, resignados.
De tarde ficou uma rapariga, talvez tia de Simão. Pedro sentiu-se atrapalhado quando, ao chegar a enfermeira para tirar o cateter, pediu-lhe meio envergonhado que fizesse depressa, mas ela resmungou:
Achas mesmo que alguém se importa contigo? Vou já despachar isto, vamos.
E foi rápido. Mas Pedro, nu debaixo dos lençóis, não sabia onde estava a roupa. A rapariga olhava ora para a janela, ora para Simão. Ajustava a manta dele, humedecia-lhe os lábios. Pedro ficou a matutar porque não perguntara pela roupa.
Ninguém quer saber de ti. Era verdade.
Meia hora depois, decidiu tentar sentar-se. Virou-se e puxou o cobertor, tentando levantar-se.
Precisas de ajuda?
Não, mas a cabeça girou-lhe e deitou-se de novo.
Logo voltou a tentar.
Não sabes onde deixaram a minha roupa, pois não? perguntou à rapariga.
Ela garantiu que ia perguntar. Mas fica aqui a vigiar o Simão, está bem?
Tentou erguer-se, agarrado ao cobertor, mas as pernas tremiam, o chão parecia fugir, mal pôde sair da cama.
Trouxeram então roupa do hospital, não a dele.
Viro-me, não faz mal, veste-te à vontade disse a rapariga.
Sentou-se, vestiu as calças, tudo enorme. Lá fez um nó elástico à cintura. Dobrar as pernas não conseguia. Quando já ia a sair, tropeçando no excesso de tecido, ela percebeu.
Espera aí, deixa-me ajudar, isto está grande demais ajoelhou-se, dobrou-lhe as barras, demorou tanto que Pedro ficou aflito.
Vou cair…
Calma! e sentou-o, apoiando-o. Estás fraco. Já comeste? Como te chamas?
Pedro.
Eu sou Madalena. Pedro, devia estar aqui a tua mãe. Não tens com quem ligar? Um telefone?
Já não tenho mãe.
… e pai? Com quem moras?
Estou bem. Agora já estou melhor. Tenho de ir à casa de banho.
No espelho, Pedro via-se: olheiras profundas, lábios brancos, os olhos negros em brasa. Uma vez, uma cuidadora disse-lhe que devia o apelido, Gonçalves, aos olhos, negros como pena de corvo. O seu apelido, Corvo, era motivo de orgulho.
Água fria na cara aliviava. Madalena lá arranjou gelatina.
E para comer?
Se já andas, vais comer à sala.
Onde?
Direita e depois outra vez à direita a empregada ria-se. Quando tiveres fome, o cheiro leva-te.
Ele quase caía. Que sala qual quê. Eu trago-lhe gelatina barafustava Madalena. E nada mais, por favor.
Pedro não conseguia estar quieto. Passeava no quarto. Fixava Simão: miúdo bonito, como uma rapariga, cabelo de caracóis, igual à mãe, mas tão magro.
Ele está a morrer? só um órfão dizia isto assim.
Madalena estremeceu.
Não sabemos… Mas… sim, o Simão está muito doente. Já passou por quatro operações, até intestinos. Os pais estão exaustos. Agora estamos cá todos. Eu sou a tia. Mas às vezes ainda há milagres, não é?
Não sei… Pedro sentou-se na cama.
Simão teve outra vida, pensava ele. Como nos filmes. Mãe, pai, avós, família. Tudo. E jaz ali, à beira do fim.
A sorte é cega…
Pedro acabou por não ser transferido. Ao fim do dia, o pai de Simão voltou, mais movimentação. Pedro ouvia-os dizer que ninguém viera visitá-lo o dia todo.
Então, Pedro, és mesmo do lar, não és?
Sim.
Não queres ir para outro quarto? É que o Simão está mesmo muito… suspirou.
Não faz mal aqui. Posso ficar?
Passaram-se quatro dias todos iguais. Pedro apanhou febre e foi transferido para um quarto de idosos, onde se sentia ainda mais sozinho. Sempre que podia, ia sentar-se junto de Simão. Ninguém o expulsava.
O pai de Simão, chamado Manuel, já sabia toda a história de Pedro. Aos poucos, tudo soube ele contava, espreitava, ouvia. Trouxe-lhe até umas mudas de roupa. Pedro ficou contente, habituado a andar com roupa dos outros, aceitou. Depois olhou Simão.
É dele… Se por acaso Simão não morrer?
Manuel olhou-lhe surpreso. Lá em casa, nunca se dizia morrer. Esperavam o fim, mas ninguém o dizia. Como aceitar tal ideia sobre o filho?
Uma vez, Sofia rebentou em lágrimas e gritou tão fundo que assustou todos:
Porquê! Se fizemos tudo bem, porque é que ele morre? Porquê!?
Quando quem amamos adoece, até o corpo cede. Sofia já desacreditara, não queria viver sem o filho. Davam-lhe calmantes, mas não adiantava.
E se por acaso não morrer? Pedro insistia.
Manuel sentiu vontade de ser sincero, se não por Pedro, por si próprio.
Não vai conseguir sobreviver. Simão está a partir, Pedro, e custou-lhe dizer.
Dói, morrer? Pedro apertava a camisa de Simão, fitando-o com pena.
Manuel via: Pedro sentia o luto, tocava-o dentro. Dias ali sentado, ouvira conversas de médicos. Era um miúdo, devia ser assustador, mais ainda órfão.
É rápido, como adormecer depressa. Cuidamos para que não lhe doa. Por isso estamos aqui.
Mas mexe-se…
Por isso lhe falamos, esperamos que ouça. Mas não sabemos ao certo.
Da família, rodavam sempre à cabeceira. Uma noite, Manuel saiu por instantes, deixando Pedro. Ao regressar, parou à entrada.
Pedro segurava a mão de Simão e falava-lhe:
… e nem sei onde está a minha mãe. Talvez já nem viva. Mas não estou zangado, sabes? Se aparecesse, eu até a perdoava. Não acreditas? Pena… Tu é que não podes morrer. Tens a tua mãe, vê lá como ela chora! E o teu pai… Se eu tivesse um pai assim, nunca morreria. A camisa, dou-ta depois, não a sujo. Tenho montes. Só não morras, tenta, com todas as forças…
Manuel limpou os olhos, pigarreou para não chorar. Pedro saltou da cadeira.
Ele ouviu, juro! Apertou-me a mão!
Claro que acredito, rapaz.
Toda a família aguardava o fim. O seu Simão, belo, inteligente, esperança da casa, tornava-se memória. Descobriram-lhe uma doença rara aos oito anos, primeiro atrofia muscular, depois complicações: coração, pulmões, intestino… Andaram por Lisboa, Porto, os melhores médicos. Chegou aos onze graças à luta. Simão aceitara a doença em silêncio.
O peso caiu sobre Sofia velava o filho toda a noite, batia a todas as portas. Cada vez mais fraca, exaurida. Quando percebeu que não podia salvá-lo, caiu de vez.
Fala-lhe, Pedro. Acho que ele ouve, e gosta de ouvir.
Para Manuel, ouvir Pedro ali falando, era um fio de vida. Ficava do lado de fora a escutar:
Imagina, uma vez o Manelto do lar partiu-me o braço. Escureceu tudo. Não acreditas? Escureceu mesmo. Mas passou. Só vi a mão torcida e o palerma a olhar. Pensei: não choro, que não tenha a satisfação. Ele chamou a enfermeira, começou a chorar ele…
Recuperou, vês? O teu melhorará, vais ver.
Simão morreu durante a noite. Pedro nem deu conta. Esperou pela ronda, desceu ao pequeno-almoço e depois passou pelo quarto vizinho.
Na cama onde se deitara antes, via agora um jovem a desfazer malas.
E o rapaz? acenou para a cama agora feita, onde antes estava Simão.
Não faço ideia. Não vi ninguém, respondeu.
Pedro correu ao posto de enfermagem nada. Correu à sala médica, procurou o médico, nada; perguntou ao outro.
O Simão? Levaram-no? Para onde?
Simão? o jovem médico cerrou a testa. Ah… Compreendes, estava muito doente…
Morreu? Pedro cortou a palavra.
O médico assentiu.
Infelizmente. Às vezes é assim.
Pedro recuou como se levado por uma corrente. Por dentro, sentia raiva do hospital, dos médicos, dos que nada puderam.
Inúteis, não fizeram nada!
E como poderia ele mostrar o que sentia?
No corredor, a auxiliar lavava o chão. Pedro chutou o balde, a água alastrou-se. Ela começou logo a bradar, apareceram médicos, a enfermeira. Todos ralharam. Pedro abriu a porta do quarto à pancada, sentou-se na cama, tapou os ouvidos.
Tantos médicos, num hospital inteiro, e nem conseguiram salvar-lhe o amigo. Nada…
Porquê Simão? Por que carga de água um quase desconhecido se tornou tão amigo, nunca soube. Mas foi. A Simão contou-lhe tudo sobre a mãe, a mulher da canção, as brigas, as marcas da infância.
Uma noite, ainda naquele quarto, Pedro sonhou com Simão que ele se sentava, já pouco mais forte. Pedro correu para ajudá-lo, mas Simão pediu só para ficar ali sentado, sorria suavemente, voz quase de miúda. Falava-lhe da vida, dos irmãos, das férias na praia, da avó e do avô general, da escola, da sala cheia de brinquedos, da mãe que o acordava com mimo.
Pedro nunca vivera em família, tudo lhe parecia contos de cinema. Imaginava uma casa onde, ao pequeno-almoço, a mãe serve o chá ao polme, cada qual tem o seu canto, o dia do peixe é sempre à quinta.
***
Quando Simão partiu, Manuel sentiu uma paz amarga. Não porque não o amasse. Simplesmente já não era vida. Em vez de sofrimentos prolongados, acabou-se o martírio.
Agora teria de aceitar, fazer Sofia aceitar. Seguir.
Pedro não lhe saía da cabeça.
Falar de adoção naquele momento seria insensível. Sofia não entenderia. Podia algum rapaz substituir Simão? Jamais. O retrato do filho, emoldurado de flores, ocupava o centro da sala. Sofia passava dias a fitá-lo, a pôr velas, ia diariamente à igreja, ao cemitério. Uma gravidez ectópica, anos antes, levou-lhe o sonho de mais filhos.
E Pedro esse, nunca teria ninguém.
Era diferente, áspero, de olhos negros, nada do tipo de Simão. Mas Manuel vira-lhe a alma boa, incólume.
Sofia, fui ao hospital. O Pedro já teve alta.
Foste… Para quê? Ela surpreendeu-se.
Eu? fingiu descaso. Fui buscar os papéis do Simão. E olha, o Pedro armou barraco, virou tudo do avesso quando soube do Simão.
Tolo, suspirou.
Pois, mesmo assim…
Não te preocupes comigo. Estou a aprender a lidar. Vai trabalhar.
Como quiseres.
Mas não tragas meninos cá, nem fales disso para já.
Manuel calou, mas não esqueceu. No sábado, dirigiu-se ao lar de Pedro. Queria vê-lo. Mas levantaram obstáculos, perguntas, olhares desconfiados. A diretora pouco simpática, apesar do esforço em explicar que era só uma visita sem compromisso.
Não se deixou abalar, pelo contrário, ficou mais determinado. Lembrou-se de uma colega de escola, Filipa Andrade, psicóloga no apoio à adoção.
Descobriu-lhe a morada e foi visitá-la conversaram horas. Filipa entendeu, prestou condolências, prometeu averiguar sobre Pedro, mas avisou: o essencial era querer da mulher e vontade do próprio rapaz.
Ainda assim, Manuel foi à Segurança Social, pediu a lista de documentos. Os assistentes sociais mostraram incomum simpatia, prometeram ajudar num encontro.
Nada disso contou a Sofia. Falou à sogra e à irmã, Madalena, que ficou logo contente pelo miúdo. Prometeram apoiar e falar com Sofia.
Mas Sofia chorava sempre que falavam em Pedro.
Ele não substitui o Simão. Ninguém percebe isso!?
Mas quem falou em substituir? Ele é órfão, tal como agora nós. É diferente, complicado, cresceu no lar. Não pode ocupar o lugar do nosso filho. Mas se ouvisses como falava com o Simão, como sofreu por ele! Foram amigos a sério. Trouxe-me paz. Só te peço, conhece-o, sem pressão.
Não me forces…
E foi a primeira cedência.
Na primeira visita, no gabinete da diretora, Pedro estava tenso, olhava para baixo, as mãos crispadas. Nem apertou a mão de Manuel.
Filipa estava lá, discreta, em silêncio. Manuel queria tanto abraçá-lo, mas sentia-se desajeitado. Sofia observava-o, suspirava, Filipa ouvia. Manuel tentou falar de trivialidades, só para encher o ar.
O nervosismo era tanto que Pedro saiu antes do tempo previsto.
Parece não querer vir connosco, não? Manuel triste, no caminho de regresso.
Enganas-te disse Filipa. Mais do que nunca ele quer. Sonha com uma família assim. Vai esforçar-se para merecer, mas tem medo de falhar.
Somos assim tão assustadores? perguntou Sofia.
São verdadeiros pais, é isso que o assusta. Nunca soube lidar, só pensa em vocês respondeu a psicóloga.
Ficaram de levar Pedro lá a casa. Ele não aceitou logo, Sofia também hesitava.
Quando Manuel o buscou, sentaram-se à mesa. Palmas suadas, olhar sempre para a chávena, com medo de tocar na comida, fazer barulho, mesmo de levantar os olhos para um espaço tão bonito. Faltava-lhe ar, sentia-se esmagado no convívio.
O que temia mesmo era Sofia.
Num gesto desajeitado, Manuel deixou cair a colher e Pedro saltou, exclamando:
Que bronca!
Manuel riu-se.
Uma bronca valente! Vá, come Pedro, não tenhas vergonha.
Pedro meteu a batata na boca, nem sabia como mastigar.
Então, rapaz? Força!
Pedro, queres ver o quarto do Simão? sugeriu Sofia.
E Pedro animou-se: os olhos brilharam, anuiu.
Entrou: logo o retrato de Simão o recebeu. Estava diferente, sorridente, quase vivo. Era como se dissesse: Tem coragem, estou aqui.
Eh, Simão! Pedro tocou na moldura, encarou Sofia. Aqui está mais gorducho.
Pois, só nos últimos tempos ficou assim magro.
Antes de morrer, não é? disse Pedro, frontal. Acariciou a moldura. Mostra-me como ele vivia?
Sofia hesitou, agarrou no álbum.
Olha, não consigo rever as fotos agora, vê tu.
Pedro sentou-se com o álbum, Sofia pôs-se junto à janela.
Era ele aqui pequenito? Ele, não era?
Sem querer, Sofia foi sentar-se ao lado. Juntos, folheavam fotos.
Pedro comentava: Engraçado… giro… máximo…
Perguntava tudo. De repente, numas férias na praia, exclamou:
Mar! Ele contou-me que foram juntos ao mar.
Sofia abanou a cabeça, triste.
Contou? Mas… já nem falava.
Pedro percebeu a gaffe, mas insistiu:
Para mim contou…
Sofia deixou passar. Olhava as fotografias com ternura, sentia-se mais serena, a dor menos aguda, aquela presença reconfortante. Talvez aceitar se tornasse possível.
Respirou fundo e perguntou:
Pedro, e se quiséssemos adotar-te? Aceitavas?
Pedro ficou calado, folheou o álbum em silêncio.
Não sei. O Simão era especial. Eu… Eu não sei ser filho…
Sofia, num impulso, abraçou-o forte.
Não é para seres o Simão. Só queremos ser teus amigos e embalaram os dois.
Pedro gelou com o gesto ninguém o tocava assim desde miúdo. O cheiro dela, o calor das mãos. Continuou a folhear o álbum, distraído, sem ver nada. Sofia embalou-o mansinho.
Pedro nunca chorava.
Mas agora, um nó na garganta e lágrimas a escorrer. Soluçou.
A chorar? Pedrinho, estás a chorar? Vá, não chores, senão eu também… Aguenta, que és um homenzinho forte! ela secava-lhe as lágrimas com a mão.
Palavras que já ouvira.
A janela ficara aberta no quarto. O ar puro enchia o espaço, as cortinas inflavam como um balão, as folhas verdes lá fora brilhavam. Do retrato, Simão sorria-lhe, consolador.
E Pedro, de repente, perguntou baixinho:
Sabe aquela música: “Gatinho do rabo cinzento, dorme bem, dorme bem. Rabo cinzento, patinhas brancas…”
Conheço. É de embalar, não é? Quer que eu aprenda para lhe cantar?
Pedro anuiu, o nariz vermelho. Não desejava mais nada.






