Pedroca. Um Conto
A janela do quarto do hospital estava aberta. De manhã, a enfermeira a escancarara. O ar era fresco, as cortinas se moviam suavemente, o verde das árvores encantava o olhar, e o calor abrasador do verão ainda estava longe de chegar.
Pedroca foi submetido a uma cirurgia de apendicite. Disseram que a operação foi difícil, chegaram a tempo por um triz, mas Pedroca não tinha medo de nada.
Não tens medo de picas? perguntava a enfermeira com um sorriso, enquanto retirava o ar da seringa.
Sem responder, Pedroca virou-se de lado, ainda não lhe era permitido levantar-se.
Como se uma pica pudesse assustá-lo…
Tinham-no trazido de uma ruela. Foi lá que sentiu as dores. Não era um rapaz de rua, cresceu num orfanato. Estava a regressar do mercado com outros rapazes, onde tentavam ganhar uns trocos às escondidas, e pronto, de repente, as dores começaram.
Lamentava apenas uma coisa: envolvera o Leonel e o pequeno Serjão agora iria haver confusão no orfanato. No dia seguinte à operação, foi ter com ele a D. Margarida, a subdirectora, armando-se em preocupada. Pedroca ainda estava grogue da anestesia, lembrava-se apenas do semblante dela, rosto bem próximo do seu, fingindo zelo, mas os pormenores não recordava.
Porquê não lhe deu aquilo quando já se estava quase a chegar ao portão do orfanato? Faltava tão pouco… Mas pronto, o destino assim quis.
A culpa, pensava ele, fora dos damascos. No mercado, deram-lhes uma caixa de damascos amassados, mas doces como mel. Comeram tudo, sem pensar, sem se conter.
Então, campeão, como está isso? o médico velho, de braços peludos, espreitava a cicatriz. O pior já passou. Agora é esperar.
Mas eu nem tive medo.
És valente, hein? o médico ficou mais sério. Por agora nada de comida. Nada de guloseimas. Aguenta-te até logo, depois dou-te um pouco de geleia.
Pedroca assentiu, mais por respeito que por outra coisa. Sabia que ninguém lhe iria trazer doces. No orfanato, todos estavam zangados com ele pela saída proibida, por pôr em risco os funcionários. Eles tinham ido ao mercado por um buraco no muro, e justo na volta, teve ele aquele ataque!
Sobre coragem, o médico tinha razão. Pedroca era corajoso a vida obrigara. A mãe, pelo que dizia, deve tê-lo tido por acidente, talvez nem tivesse dinheiro para uma interrupção. Pedroca já tinha dez anos e, como muitos órfãos, falava disso com despreendimento.
Nunca sentiu raiva da mãe. Pelo contrário, agradecia-lhe por ter nascido. Mesmo que ela tivesse assinado a entrega logo de início, um obrigado tinha sempre.
Até aos três anos esteve no berçário, depois num orfanato em Santarém, e a seguir em outro perto de Setúbal. Desde que se lembrava, lutava para existir.
Lembrava-se das brigas na cantina, não apenas por comida, mas por tudo e por nada. Era forte, impunha-se pela força. Partiu alguns ossos em rixas. Uma vez, a barbeira que vinha rapá-los quase chorou ao ver-lhe a cabeça cheia de cicatrizes.
Por isso nunca percebeu esta coisa das lágrimas. Pedroca nunca chorava.
E agora querem assustá-lo com uma cicatriz na barriga ou uma pica…
Que piada.
Via os adultos como frios e calculistas. Não era pequeno ou menina fofinha para ser alvo de afeto era direto, duro, com uma personalidade marcada.
Olha bem, Oliveira! Se armas confusão, vais de castigo para o isolamento! ameaçava-o Dona Margarida frequentemente.
Pedroca não discutia, nem cedia facilmente. Tinha já as suas próprias regras e princípios.
Só havia uma pessoa adulta que lhe vinha à cabeça vezes sem conta. Não sabia bem como era falar com mãe em pensamento, mas com aquela mulher que entrou por acaso na sua vida, conversava em silêncio, muitas vezes.
Teria uns seis anos quando ela trabalhou no orfanato em Santarém. Não sabia bem quem era talvez uma ama. Lembrava-se do sorriso doce, dos olhos azulados, das mãos quentes e do perfume. Punha-o ao colo e sussurrava-lhe ao ouvido:
Tens de ser forte, Pedrinho. Tens de comer bem, cuidares de ti e ouvir os adultos. Não vai ser fácil, mas tu vais conseguir. Esforça-te, está bem?
Depois cantava-lhe uma canção de embalar.
Gatinho, rabinho cinzento,
Dormir, dormir…
Patinha branca, orelhinha preta,
Dormir, dormir…
E embora se achasse já crescido, muitas vezes Pedroca recordava aquela cantiga, principalmente quando o desânimo apertava. Fechava os olhos, cantava baixinho, relembrava o calor daquelas mãos e ficava mais leve.
A mulher desapareceu, desvaneceu-se, deixando-lhe apenas a canção e a lembrança confortável. Nunca soube o nome dela no pensamento chamava-lhe mãe. Imaginava que devia ter sido só uma ama, mas gostava de sonhar.
A enfermeira fechou a janela, começou a fazer a cama em frente. Pedroca animou-se estar sozinho deixava-o aborrecido.
Logo trouxe uma maca, rodeada de médicos e enfermeiros. Começou a azáfama. Pedroca, do seu leito, mal viu, mas percebeu: era um rapazinho magro, nariz afilado, uma soro pendurado. Rapidamente, só restavam o rapaz, a enfermeira e um homem de bata branca.
Ninguém falava muito. Alguns comentários soltos.
Vai descansar, dizia a enfermeira.
Obrigado.
Se precisar, avise…
Com certeza.
Ela saiu, o homem ficou sentado ao lado do filho, cabeça baixa, imóvel. O miúdo dormia.
Estava calor, mas o homem não tirava o blazer nem a bata. Pedroca até achava que ele adormecera ali.
As costas doíam de tanto estar deitado, virou-se a cama rangeu. O homem olhou para trás. Tinha um ar cansado, mas o olhar era afável.
Olá, sussurrou, notando agora a presença de Pedroca.
Olá, devolveu Pedroca.
O homem despertou, olhou para o filho, pegou num banco e sentou-se ao lado de Pedroca.
Também foste operado?
Fui, cortaram-me o apêndice.
Isso é bom sinal. Ainda não te levantaste?
Não.
Queres alguma coisa?
Não me deixam. Só logo, disseram. O que é que o seu filho tem? Pedroca apontou para o outro leito.
Ele? o homem suspirou, uniu as sobrancelhas. Outra doença. Não te incomoda que eu fique aqui? Se precisarem de ti, eu saio.
Não faz mal, Pedroca abanou a cabeça. Quem era ele para dizer que não?
O homem ajeitou-se, disse baixinho:
Chama-se Simão, tem onze anos. E tu?
Pedro, faço dez.
Obrigado, Pedro, disse-lhe o homem, e Pedroca nem percebeu bem porquê.
No dia seguinte, gente entrava e saía a toda a hora. De manhã, Simão teve medicação, o médico foi vê-lo várias vezes. O pai dormia no banco ao lado, por vezes falava baixinho com o filho. Simão mexia as mãos, mas não abria os olhos parecia dormir.
Depois vieram uns senhores mais velhos, acompanhados por uma senhora alta, de caracóis presos num rabo e com o olhar triste e cansado era a mãe de Simão. Entraram no quarto dando-lhe apoio pelos braços, sentaram-na ao lado do filho. Falava-lhe baixinho, acariciando-o sempre.
Não quer mudar Pedro de quarto? pediu o pai ao médico, olhando para Pedro, preocupado com a mulher.
Sim, vamos tratar disso.
O médico, quase por acaso, foi ter com Pedro.
Então, rapaz? Dói?
Um bocado.
Naquela noite, não dormiu bem, a barriga doía, o cateter incomodava. Nem lhe deram jantar. Ou esqueceram, ou ainda não devia comer.
Hoje já podes levantar-te, devagarinho. Vamos mudar-te de quarto. Coragem, rapaz. A enfermeira já vem tirar-te o soro.
Pedroca queria logo levantar-se, mas a enfermeira demorava. O quarto era um vai e vem constante.
Só hoje é que Pedroca entendeu. Simão estava a morrer. Não acordava, estava sempre de olhos fechados, e à volta todos falavam em tons baixos, nervosos, resignados.
Ficou só uma rapariga a acompanhar o menino. Pedroca sentia-se acanhado com ela. Quando a enfermeira veio tirar o cateter, Pedroca pediu-lhe com um aceno para o fazer depressa sentia vergonha, mas ela foi direta.
Ninguém está aqui por ti! Não se preocupa contigo. É já num instante. Vamos lá.
Foi rápido, sim, mas Pedroca continuava deitado, sentindo a recém-adquirida liberdade. Estava nu, nem sabia onde andava a roupa. A rapariga ajeitava a manta de Simão, dava-lhe de beber, mantinha-se junto dele. Pedroca só pensava na roupa.
Ninguém te quer para nada! Era verdade.
Passada uma hora, decidiu-se. Sentou-se na beira da cama, cobriu-se, tentou levantar-se.
A rapariga voltou-se.
Queres ajuda?
Não, a cabeça rodou, voltou a deitar-se.
Em minutos, insistiu, sentou-se outra vez.
Não sabes para onde foi a minha roupa? perguntou.
Ela não sabia, mas prometeu saber.
Então vê lá o Simão, está bem?
Pedroca remexeu nos lençóis, tropeçou com as pernas fracas, atabalhoado procurou avançar. Foi difícil dar uns passos.
Trouxeram-lhe então roupa, mas daquelas do hospital.
Viro-me para o outro lado, não te preocupes, garantiu a rapariga.
Ele vestiu-se. Era tudo grande. Puxou pelo cordão da cintura, um jeito que conhecia bem. Não conseguia baixar-se para virar as pontas das calças. Só quando caminhou, todo a tropeçar nas barras, é que a rapariga percebeu.
Espera aí! Que grande! Vem cá, deixa-me dobrar isso, agachou-se frente dele e demorou tanto tempo que Pedroca quase desmaiou.
Vou cair…
Calma, segurou-o e sentou-o. Estás pálido. Já comeste? Como te chamas?
Pedro.
Eu sou Lisa. Pedro, não era melhor a tua mãe estar aqui contigo? Podemos ligar-lhe?
Não tenho mãe.
Ai… Pronto, e o teu pai… vives com quem?
Está tudo bem. Já recupero. Vou à casa de banho.
Foi ao espelho, olhou para o rosto: olheiras fundas, lábios brancos, mas os olhos negros brilhavam, intensos. Uma educadora dizia-lhe que tinha nome de Oliveira por causa do olhar olhos pretos como a asa do corvo. Já no orfanato o chamavam Oliva. E ele orgulhava-se disso.
Lavou a cara, sentiu-se melhor. Lisa tinha falado com as empregadas trouxeram-lhe finalmente o gelado prometido.
E agora, Pedro? Queres comer na sala? perguntavam.
Mas para onde?
Vais pela direita, depois das escadas, volta a virar à direita. Pelo cheiro da comida, descobres, ria a empregada.
Ele mal se aguenta, qual escada! Eu vou buscar para ele, indignou-se Lisa. E não pode comer mais nada, viu?
Pedroca não se deitou. Passou a andar pelo quarto. Reparou em Simão: era bonito, quase delicado, mas demasiado magro.
Ele vai morrer? perguntou sem rodeios, típico de órfão.
Lisa estremeceu.
Não sabemos. Simão está muito doente. Foram quatro operações, tudo no intestino… Os pais estão exaustos. Mas milagres acontecem, não?
Sei lá, Pedroca sentou-se.
Pensava em Simão. Teve tudo: mãe, pai, família, vida de filme… E agora estava ali, à beira da morte.
Nem sempre a vida sorri…
Pedro acabou por não ser logo mudado de quarto. O pai de Simão vinha, conversava com o filho. Ouvia dizerem: “Coitado, ninguém veio ao Pedro hoje…”.
Pedro, és do orfanato? perguntou o pai de Simão.
Sou.
Achas que preferias outro quarto? É que o Simão está muito mal, suspirou o homem.
Aqui está bem. Posso ficar?
Os dias passaram iguais. Pedroca teve febre, foi para um quarto só de idosos. Fartava-se de aborrecer, assim que podia, vinha sentar-se junto de Simão. Ninguém o afastava.
A alta foi adiada por causa da febre.
Entretanto, o pai de Simão, chamado António Egídio, sabia tudo dele. Ia ouvindo, perguntando devagar. Trouxe algumas roupas, e Pedroca aceitou já estava habituado a roupas de outros. Depois olhou para Simão.
São dele, não são?
São.
E se ele melhorar?
António olhou surpreso. Nunca se dizia em voz alta a palavra morrer esperar pela morte do único filho era mau de mais.
Só uma vez a Sofia, a mulher, perdera a calma: “Porquê! Fizemos tudo certo e ele morre à mesma!?”
Quando parte quem amamos, o corpo também cede. Sofia já vivia de calmantes não queria viver sem o filho.
Ele vai morrer, Pedro, murmurou António, cheio de dor.
Dói morrer? Pedroca apertava as roupas de Simão, com uma expressão preocupada.
Menos do que dormir. Fazemos tudo para que não tenha dores. Para isso aqui estamos.
Mas ele mexe-se.
Por isso falamos com ele. Temos esperança… Mas ninguém sabe.
A família acampava ao lado de Simão. Uma noite, António saiu por uns minutos, deixando Pedroca com o filho. Ao regressar, espreitou à porta.
Pedroca estava sentado, mão dada ao Simão, murmurando:
…e não sei onde anda a minha mãe. Talvez até já tenha morrido. Não estou chateado, se aparecesse, perdoava. E tu, Simão, não morras. Olha o sofrimento dos teus. Eu desejo-te bem. As roupas devolvo depois, prometo. Tenho mais lá no orfanato. Aguenta. Faz um esforço, amigo. Não desistas…
António limpou as lágrimas e pigarreou. Pedroca levantou-se.
Ele ouve, acredite. Deu-me a mão. Juro!
Acredito, Pedro respondeu António. Acreditava mesmo.
A família de Simão, de Lisboa e Porto, fez de tudo, consultou os melhores médicos. Só conseguiram chegar até aos onze anos. Simão aceitava a doença, não se queixava nunca.
Foi a mãe, Sofia, que carregou mais a cruz. Passava as noites em claro, batia à porta de clínicas, rezava nas igrejas. António estava lá, mas sentia-se mais forte por fora. Até que Sofia colapsou.
Fala sempre com ele, Pedro. Ele gosta.
Aqueles desabafos de Pedroca eram conforto para António, um sopro de vida ao lado do filho doente. Ficava à porta a escutá-los.
…Quando aquele bruta-montes me partiu o braço, vi tudo preto. Acreditas? Mas passou. Levantei-me, mostrei-lhe o braço torto e disse: Acaba, se queres, mas, desta boca, não sai um grito. Ele fugiu a chorar para a enfermeira! Pronto, repara, sarou. Vai correr bem contigo também. Acredita.
Simão morreu durante a noite. Pedroca não se apercebeu, ninguém o avisou. De manhã, desceu para o pequeno-almoço, depois foi ao quarto e viu a cama arrumada.
E o menino? perguntou ao novo paciente, já instalado.
Não sei. Só cheguei agora.
Pedroca correu à enfermaria, procurou o médico, por fim abordou outro.
O Simão? Levaram-no para onde?
Simão? o médico hesitou. Sabes… Ele estava muito doente…
Morreu? interrompeu Pedroca.
O médico confirmou com um aceno.
Infelizmente. Acontece.
Pedroca ficou fora de si. Em fúria, pontapeou o balde da limpeza, espalhando água. A empregada gritou, os médicos vieram, a enfermeira também. Todos ralharam, ele fechou-se no quarto, tapou os ouvidos. Uma hospital cheia de médicos, e ninguém salvou o amigo dele!
Afinal, porque é que Simão, adormecido toda a breve amizade, se tinha tornado seu amigo? Pedroca não sabia. Mas foi.
Pedroca contou-lhe tudo de si. Da mãe, daquela mulher que o embalou, das lutas, das dores.
Uma noite, sonhara que Simão sorria. Pedroca correu, quis levantá-lo, mas Simão pediu para descansar, cantou-lhe com voz ténue:
Gatinho, rabinho cinzento,
Dormir, dormir…
Patinha branca, orelhinha preta,
Dormir, dormir…
Depois, Pedroca ficou a conversar em pensamento com Simão. Este contava da família, férias no Algarve, avôs, escola, tudo o que Pedroca imaginava de uma família, fruto mais da televisão do que real. Achava que as famílias dormiam todas no mesmo quarto, cada um com o seu catre, que ao pequeno-almoço a mãe servia chá com uma concha…
***
Foi estranho, mas António, quando Simão morreu, sentiu o peso aliviar. Não era mágoa ou desamor era compreensão: o filho não vivia já, só sobrevivia. Sofrer mais era impensável.
Faltava agora aceitar, ajudar a esposa e seguir em frente.
António pensava cada vez mais em Pedroca. Não era altura de falar de adoção Sofia não compreenderia. Alguém substituir Simão? Jamais. O quadro do filho em flor está no centro da sala, rodeado de flores, e Sofia senta-se lá, vela, vai à igreja, ao cemitério. Mais filhos já não viriam. Uma gravidez ectópica, há anos, acabou com a esperança.
Pedroca, por sua vez, nunca teria pais…
Era diferente, Pedroca. Não era Simão áspero, rijo, olhos negros. E, no entanto, António ouvia-lhe a alma, luminosa, simples.
Sofia, estive no hospital hoje. Pedro teve alta. Só agora.
Porquê? Porquê foste lá?
Buscar papéis de Simão… A enfermeira disse que Pedro armou um bom banzé quando soube que Simão morrera.
Tolo, suspirou Sofia.
Pois é…
Não te preocupes comigo. Dizem que o tempo ajuda.
Está bem.
E por favor, não me fales em meninos…
António nada mais comentou.
Mas passado pouco tempo, foi ao orfanato. Algo o puxava. Teve dificuldade os responsáveis eram desconfiados, não facilitaram o encontro com Pedroca. A diretora, D. Rosa, não gostou da conversa. Por mais que António argumentasse que era só para saber do rapaz, não colou.
Mas António teimou. Lembrou-se da colega de faculdade, Tânia Sampaio, trabalhou anos em apoio a famílias de adoção.
No dia seguinte, foi ter com ela, falou abertamente. Tânia escutou, percebeu, prometeu averiguar sobre Pedroca, mas frisou: nada se faz sem vontade da Sofia e do próprio rapaz.
Mesmo assim, António foi à segurança social, candidatou-se à tutela. Foram surpreendentemente acolhedores, prometeram organizar um encontro.
À esposa nada contou, mas à sogra e à cunhada, Lisa, revelou os planos. Lisa aprovou; prometeu falar com Sofia também.
Sofia chorava sempre que o assunto Pedroca vinha à baila.
Ele não é o Simão. Como não percebem?
Ninguém quer substituir, Sofia. Ele é diferente, difícil, vem do orfanato. Mas, acredita, se ouvisses a conversa dele com o Simão, entendias! Pedia só que o Simão acordasse Era a alma dele, tão boa… Demos, ao menos, uma oportunidade. Por favor.
Não me forces…
Foi o primeiro passo.
Quando Pedroca foi chamado ao gabinete da directora, para conhecer António e Sofia, estava tenso, fixava o chão, mãos crispadas. Nem apertou a mão de António.
Tânia estava presente, sem se intrometer. António arregalou-se, Sofia suspirava, Tânia só observava. António começou a falar para encher o silêncio.
Pedroca ficou ainda mais nervoso. Saiu antes da hora marcada.
Afinal o rapaz não quer vir… desabafou António, desanimado.
Enganas-te, disse Tânia. Ele quer tudo. Só tem medo de falhar, de não ser digno. Ainda vais ver. Só pensa em vocês.
Somos assim tão assustadores? perguntou Sofia.
São verdadeiros pais, isso mete sempre respeito, garantiu Tânia.
Decidiram convidar Pedroca a passar uma tarde na casa. E Sofia, sempre receosa, concordou.
Na primeira vez, sentou-se à mesa, calado. Suava das mãos, não ousava olhar à volta, nem provar comida, receava partir a loiça, levantar a voz.
Tinha especial receio de Sofia.
Quando António deixou cair a colher, Pedroca sobressaltou-se e murmurou:
Que sarilho…
É mesmo, Pedro! Deixa lá, olha a batatinha tão boa, tentou o adulto.
Pedroca forçou uma garfada, mastigou com esforço, engoliu em seco.
Vá lá, rapaz!
Pedro, queres conhecer o quarto do Simão? sugeriu Sofia.
Pedroca animou-se, acenou.
Ao entrar, reconheceu logo o retrato do amigo. Parecia diferente, mais vivo, mais feliz. Era reconfortante parecia que Simão lhe dizia: “Força, não tenhas medo, estou aqui.”
Simão! Olá, correu, passou a mão pela moldura. Aqui parece mais gorducho.
Era forte, só depois Sofia não conseguia completar morreu.
Antes de morrer, não foi? soltou Pedroca, afagando o retrato. Mostra-me onde viveu.
Sofia hesitou, pegou num álbum de fotos.
Vês? Não consigo olhar… Mas se quiseres, vê sozinho.
Pedroca folheou sentado no sofá. Sofia juntou-se a medo.
Este aqui, tão pequeno, é ele?
Acabou sentada ao lado, folheando o álbum. O medo desvaneceu-se sentia-se calma junto daquele rapaz.
Engraçado…, fixe…, porreiro…, ia dizendo Pedroca.
Perguntava de tudo.
De repente, vendo uma foto no mar, soltou:
Olha! O Simão contou-me das férias convosco.
Sofia abanou a cabeça, triste.
Contou? Mas ele já não fala há muito
O olhar direto e decidido de Pedroca até a desequilibrou:
Mas a mim falou!
Sofia não teimou. E sentiu-se melhor. Percebeu que, com Pedroca ali, a dor ficava menos feroz.
Respirou fundo e perguntou com gesto decidido:
Pedro, se quiséssemos adoptar-te, aceitavas?
Pedroca ia tenso, folheando o álbum em silêncio.
Não sei. O Simão era bom rapaz. Eu… nem tanto. Não tenho jeito. Não sei ser filho…
Então, sem pensar, Sofia puxou-o para um abraço.
Mas nós não queremos outro Simão. Queremos só aceitar-te como amigo dele, disse.
Pedroca assustou-se com o gesto. Não se lembrava da última vez que alguém lhe tocara com carinho. Sentiu o calor, o perfume, o conforto de braços de mãe.
Debruçou-se ainda sobre o álbum, enquanto Sofia não largava o abraço, embalando-o.
Pedroca nunca chorava.
Mas sentiu o nó na garganta. E as lágrimas caíram. Soluçou.
Choras, Pedrinho? Não chores, olha que também me fazes chorar. Aguenta, és homem! Tens de ser forte! limpava-lhe o rosto, repetindo-lhe aquelas palavras de há tanto tempo.
O ar circulava pela casa, fresco, enchendo o quarto. O verde via-se pela janela, o retrato de Simão sorria-lhe.
E, como criança, Pedroca perguntou tímido:
Sabe uma canção assim? Gatinho, rabinho cinzento, dormir, dormir…?
Ouvi já… queres que aprenda?
Pedroca acenou. E, naquele momento, não quis mais nada.
***
E assim, Pedroca aprendeu: mesmo quem muito perdeu, pode encontrar um novo lar e, por vezes, um novo começo. A vida nem sempre é justa, mas mesmo na maior tristeza, há esperança de carinho, de família e de canções de embalar partilhadas.






