Quando o Medo se Vai

Mãe, já cheguei! gritou Margarida ao entrar no apartamento, pousando a mochila ao lado da porta com cuidado. Respirou fundo, a tentar controlar o nervosismo: regressar da escola nunca era simples nunca sabia em que disposição encontrar a mãe. O coração batia tão depressa que parecia querer saltar do peito, e as mãos suavam sem que conseguisse evitar.

No silêncio da casa ecoou a voz cortante da mãe, aguda como um estalo de chicote:

Então? O que foi desta vez? Trouxeste negativa outra vez?

Margarida estremeceu, baixando os olhos para os ténis já gastos. Apenas tinha doze anos, mas habituara-se àquele tom soava-lhe diariamente aos ouvidos, fazendo-a encolher-se por dentro e a esconder emoções bem fundo, como se as enterrasse na terra. O peito apertou-se, como se uma mão gelada lhe agarrasse o coração, e a respiração tornou-se irregular.

Não, mãe Quatro a matemática murmurou a rapariga baixo, desviando o olhar, com a voz trémula a denunciar o receio. Faltou muito pouco para o cinco

Helena ergueu-se abruptamente do sofá, onde folheava uma revista de moda, e avançou a grandes passadas para junto da filha. O rosto estava transfigurado de zanga: as sobrancelhas unidas, boca cerrada e os olhos a arderem numa chama pouco amigável.

Quatro?! A sério?! a voz soou estridente de indignação. A minha filha não pode tirar quatros! Sabes lá o que isto parece aos olhos dos outros? Como se eu fosse má mãe! Como se não te soubesse educar!

Eu esforcei-me sussurrou Margarida, tentando conter as lágrimas que lhe subiam à garganta. O exercício era difícil Não consegui perceber tudo Ontem à noite estive duas horas a tentar resolver

Difícil! replicou Helena com um sorriso sarcástico. És é preguiçosa! Em vez de estudares, ficaste agarrada ao telemóvel, não foi? Sempre desconcentrada com disparates!

Agarrou com força a mochila da filha, sacudiu-a e despejou tudo no chão: cadernos espalharam-se pelo átrio como pássaros assustados, o estojo abriu-se e lápis e canetas rolaram em todas as direções. Margarida ficou imóvel, a segurar o choro. Por dentro, sentia-se esmagada pela injustiça e impotência esforçara-se, tinha passado duas horas nos exercícios, relido o manual, pesquisado exemplos na internet

Sem lhe dar ouvidos, a mãe empurrou Margarida para fora de casa:

Só voltas quando aprenderes a fazer exercícios como deve ser! E nada de mais quatros! Percebeste?

A porta fechou-se de rompante, o estrondo ecoando no coração da rapariga como um punhal. Margarida ficou com a mão na única sebenta que conservara, lágrimas quentes a pingarem sobre a capa dos trabalhos de casa, formando manchas carregadas na folha.

Porquê sempre assim? pensava ao descer as escadas, pisando os degraus devagar, como se fossem obstáculos invisíveis. Abraçou-se a si mesma, encolhendo-se do frio o casaco ficara lá dentro, e o ar gelava-lhe os ossos, pondo-a a tremer.

Sentia tanto a falta do pai! O pai sempre conseguia serenar a mãe, encontrar as palavras certas, descontrair tudo com um gracejo ou um carinho. Mas agora estava longe, em Vila Real, a trabalhar como engenheiro numa obra. Telefonava todas as semanas, perguntava como estava, prometia trazer prendas Mas agora não estava lá, e o vazio era pesado como um calhau nas costas.

A primeira vez que a mãe lhe gritara assim já tinha passado uns anos. Margarida tinha nove quando recebeu o primeiro insuficiente a Português. A mãe berrou, agarrou-lhe o braço e apertou-o até deixar uma marca vermelha:

Envergonhas-me! Como é que vou olhar as pessoas nos olhos? Vão pensar que sou má mãe, que não te ensinei nada!

A menina correu para o pai e contou tudo. António ficou indignado! Falou sério com a mulher, exigiu que parasse com aquilo, explicou que as notas não eram tudo. No entanto, no dia seguinte, ao partir para o trabalho, a mãe chamou Margarida ao quarto:

Se voltares a queixar-te ao teu pai sibilou ela, apertando-lhe o ombro até lhe deixar namorados vai correr-te pior, ouviste? Aprende a portar-te. E não o maçar com parvoíces de criança!

Desde aí Margarida calava. Tentava passar despercebida, ser perfeita, mas a mãe arranjava sempre motivo de repreensão. Todas as manhãs eram uma inspeção ao caderno diário, todas as noites um interrogatório sobre as notas. Margarida dava por si a recear entrar em casa, cada passo era cauteloso, como se pisasse gelo fino prestes a partir.

Certo dia, ao arrumar o quarto, ouviu inadvertidamente a mãe ao telefone com a amiga Teresa em alta voz. Ficou quieta junto à porta entreaberta, sem ousar fazer barulho.

Nunca quis ter filhos dizia Helena, a voz mais dura do que Margarida alguma vez ouvira. O António sempre quis dizia que sem filhos não havia família. Eu tinha medo que ele me largasse. Pensei: se nascer um rapaz, vai ser o preferido e eu fico de lado. Mas nasceu a Margarida E agora ele anda sempre atrás dela e esquece-se de mim!

Tens ciúmes da tua filha? admirou-se Teresa, claramente surpreendida.

Não é ciúme ela estragou tudo! Por causa dela só discutimos! Tivesse eu sabido, nunca a teria tido as palavras da mãe cravaram-se no coração de Margarida, afiadas como facas.

Margarida ficou imóvel, sentindo uma dor miúda crescer cá dentro, a transformá-la em bola fechada. Com dificuldade, afastou-se dali e recolheu-se ao seu quarto, chorando baixinho no travesseiro, para não se ouvir. Desde aí ainda ficou mais discreta, quase invisível. Mas não era suficiente a mãe via sempre qualquer deslize, encontrava motivo para castigos ou acusações, como se precisasse descarregar tudo

~~~~~~~~

Margarida? Que fazes aí? perguntou uma voz gentil nas escadas.

Era Dona Glória, a vizinha do rés-do-chão. Uma senhora de cabelos brancos, arranjados, olhar caloroso e cansado, sempre simpática. Usava um roupão colorido e chinelos peludos com pompons, dignos de tardes acolhedoras.

A mãe pôs-me na rua fungou Margarida, incapaz de esconder a tristeza e a mágoa.

De novo por causa das notas? suspirou Glória, passando os olhos pelo rosto molhado da rapariga. Abanou a cabeça, tão cheia de compaixão, que Margarida quase voltou a chorar. Anda, vem comigo. Na rua estás a gelar e ainda ficas doente. Não pode ser.

A mão de Dona Glória era suave e quente. Levou Margarida para o seu apartamento, que cheirava a baunilha e chá acabado de fazer, com os vasos de gerânios a alegrar a janela num dia cinzento.

Senta-te, vou preparar-te umas torradas, disse, pondo água ao lume. Conta-me o que se passou. Estou a ouvir.

Margarida sentou-se, passando o olhar pela toalha de mesa bordada com malmequeres. As mãos ainda tremiam, a garganta bloqueada pelo choro.

Só um quatro soluçou, as lágrimas tornando ao rosto. E ela diz que sou uma vergonha. Que sou preguiçosa, que pareço parva. Que pareço filha de má mãe

Essas são parvoíces, respondeu Glória, cortando o pão com mão firme. Tu és uma menina esperta e dedicada. A tua mãe está cheia de medos e ansiedades dela, e descarrega em ti. Queres que fale com ela? Eu explico-lhe que não pode ser assim!

Não, por favor pediu Margarida, limpando os olhos à manga. Isso só piora. O pai é que ajudava, mas está tão longe

Glória fez-lhe uma festa no cabelo e um calor adocicado instalou-se no peito de Margarida como se estivesse envolta num cobertor quente.

Às vezes os adultos também precisam de um empurrão, disse ela, pondo o queijo e fiambre nas torradas. Talvez o teu pai possa voltar. Ou ao menos falar sério com a tua mãe. Ele adora-te, isso vê-se a léguas.

Margarida ergueu os olhos sentindo, pela primeira vez em muito, que alguém a compreendia. Uma gratidão tranquila e ténue esperança aqueceram-lhe o peito. Mordeu uma torrada estava deliciosamente crocante, o queijo a derreter-se com uma pitada de fiambre adocicado e deu um gole de chá morno. O aroma da hortelã e da tília envolveu-a como uma manta entre os braços.

O pai disse que vinha nas férias, murmurou Margarida, vendo o vapor da chávena subir. Mas está longe E a mãe não deixa que ele se intrometa na minha educação. Diz que sou filha dela e que só ela sabe como deve ser.

Glória suspirou e sentou-se em frente, apoiando o rosto nas mãos.

Educar não é gritar e castigar, disse. É apoiar, acreditar no filho A tua mãe não sabe fazer de outra forma, mas isso não precisa de durar para sempre.

Ficou pensativa e acrescentou:

Que tal se eu ligar ao António e explicar-lhe o que se passa? Pode ser que venha ajudar-te. Não recusará, pois não?

Margarida hesitou. A ideia de alguém intervir o pai a ficar a saber de tudo assustava e dava esperança ao mesmo tempo. Acenou, sem conseguir falar, e apertou a chávena, sentindo o calor atravessar os dedos enregelados.

*************************

Duas semanas depois, aconteceu o inesperado.

Margarida chegou da escola e estacou no corredor. Os sapatos do pai estavam na entrada cheios de lama, bicudos e velhos! Teria chegado mais cedo? O coração disparou tão forte que quase lhe saiu pela boca tinha tantas saudades dele: dos sorrisos, dos abraços, das piadas que faziam rir mesmo nos piores dias. O peito apertou-se entre felicidade e nervosismo.

Da sala vinham vozes altas:

Não podes ir-te assim! Somos uma família! gritava Helena, numa nota quase histérica.

Família? respondia António, cansado, mas firme. Que família é esta, se tratas assim a tua filha? Falei com professores e a Dona Glória Sei tudo, Helena. Todos os gritos, todas as humilhações, como a fazes sentir-se nada.

O que sabes tu? a voz da mãe fraquejava. Essa miúda mente, diz mal de mim!

Sei perfeitamente como a destróis, como a assustas interrompeu António. Percebes que lhe estragaste a infância? Ela tem medo de entrar em casa, parece uma prisão. Chora à noite porque lhe proibiste de me contar as coisas.

Tu só a estragas gritou Helena. Tem de aprender que a vida não é fácil! Que não se elogia cada pequena coisa!

Mas não à custa da saúde dela! respondeu António, num tom duro. Não tens esse direito.

Se fores embora, não te deixo vê-la! ameaçou Helena, já desesperada.

Quem disse que ela fica contigo? António olhou-a friamente. Não te vou deixar magoá-la mais!

Saiu ao corredor e encontrou a filha. O rosto suavizou, brilharam-lhe os olhos de ternura e carinho, tirando o fôlego de Margarida. Ajoelhou-se à frente dela, pegou-lhe nas mãos estavam quentes, firmes, tão familiares e disse baixinho:

Filha Nunca te vou abandonar. Prometo. Já tenho tudo pensado.

Abraçou-a, e Margarida sentiu segurança pela primeira vez em muito tempo. Quis contar-lhe tudo: cada crítica, cada noite de choro, todo o medo e solidão, as palavras da mãe: Era melhor que não existisses. Mas bastou sentir a presença dele ao lado.

Pai sussurrou Margarida, colando-se ao seu ombro, cheirando aquele aroma inconfundível ao casaco dele. Podemos viver só nós os dois?

Claro que sim, sorriu António. Já encontrei um apartamento aqui perto. E trabalho também. Vais continuar na mesma escola, ao jantar cozinhamos juntos, vemos filmes e conversamos de tudo. Combinado?

Margarida acenou, a sorrir entre lágrimas. Por dentro, florescia um calor tímido mas firme, esperança como rebento na primavera. Abraçou o pai com força, sentindo o peso dos anos de medo a dissipar-se pouco a pouco.

Obrigada, murmurou. Obrigada por existires.

António acariciou-lhe a cabeça e murmurou:

Obrigado eu, meu amor. Vou fazer tudo para seres feliz.

A chuva abrandou, e raios de sol romperam as nuvens, iluminando a rua de dourado. Margarida sorriu à janela. Pela primeira vez, acreditava que coisas boas viriam.

Nesse instante, Helena saiu da sala. O rosto contorcido pelo ódio, os olhos de fogo, a boca torcida num sorriso cruel. Parecia que toda a escuridão interior lhe invadira o rosto.

Vão arrepender-se! gritou, trémula de raiva. Acham que se livram de mim assim? Eu vou ensiná-los! Acabaram-se as brincadeiras!

António ergueu-se, protegendo a filha. Não ia recuar, não ia aceitar mais injustiças. Via-se-lhe nos olhos a certeza inabalável: ia proteger o que lhe era mais querido.

Helena, disse calmo mas firme, deixa-nos em paz. Está decidido. Vamos viver noutra casa e tu não nos vais impedir. Isto não é um pedido é um facto.

Impedir?! explodiu Helena num riso histérico, assustador. Eu vou arruinar-vos! Vais engolir cada palavra, António! E essa tua filhinha também! Vão rastejar, pedir-me perdão!

Margarida agarrou-se ao braço do pai, sentindo o velho medo aquele frio que paralisava desde criança. Mas António pousou-lhe com doçura a mão no ombro, firme e aquele toque dissipou o pavor, mesmo sem desaparecer totalmente.

Vamos, Margarida, disse baixinho, sem hesitar. Aqui não ficamos mais.

Pegou-lhe na mão e encaminhou-a para a saída. Helena correu atrás mas estacou à porta, como se uma barreira invisível lhe atravessasse o caminho. Ficou ali, a respirar pesadamente, os punhos fechados, o rosto distorcido pela raiva impotente.

Ainda me vão ouvir! gritou atrás deles, num guincho. Hei de acabar convosco! Vão arrepender-se de me terem deixado! Vou arruinar-vos, lembram-se disto!

A porta bateu com estrondo, cortando o passado atrás deles. Margarida respirou fundo, sentindo o corpo relaxar pouco a pouco.

**********************

Os dias seguintes pareceram um sonho como se tivessem entrado noutro mundo, sem gritos, acusações ou medo. Mudaram-se para um pequeno apartamento, luminoso, num bairro vizinho: paredes claras, janelas grandes inundadas de sol e vista sobre um pátio acolhedor de plátanos.

António conseguiu emprego numa empresa de construção local a experiência de engenheiro valorizada logo. As manhãs começavam com o sorriso do pai e um pequeno-almoço preparado em conjunto: Margarida cortava fruta, António fazia omeleta ou torradas. O cheiro a café fresco misturava-se com aroma de canela e baunilha. À noite, iam passear ao parque, davam de comer aos patos, jogavam às cartas ou via filmes no sofá enrolados numa manta. Margarida sentia-se, enfim, leve, livre, viva.

Numa manhã, enquanto partilhavam o pequeno-almoço, Margarida passou-lhe o caderno diário com a mão a tremer:

Pai, olha: cinco a matemática! a voz exaltava-se de orgulho e alegria, apertando o coração de António.

António pegou no caderno, leu, ergueu o olhar para a filha e abriu um sorriso:

Uau! Que orgulho, filha. Vês? Sem o stress diário, corre tudo melhor. Que orgulho enorme! És uma menina extraordinária.

Margarida aninhou-se no ombro do pai, feliz. Não precisava de temer, de se esconder ou justificar. Ali era amada, sentia-se segura, sentia que pertencia.

Pai, disse baixinho, levantando o olhar, um dia podemos ir ao Jardim Zoológico? Já não vou há tanto tempo… Queria mesmo ver a girafa, ela é tão engraçada, e os macacos também!

Claro, vamos lá neste fim de semana! respondeu António, sorridente, despenteando-lhe o cabelo. Levamos sandes, damos pão aos pombos e vemos todos os animais. E até tiramos uma foto com algum bicho simpático. Que dizes?

Combinado! sorriu Margarida, a rir com alegria, um riso límpido como riacho de primavera.

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Entretanto, Helena andava num tumulto pela casa deserta, sufocada pelo silêncio. O rancor consumia-lhe a alma, como ácido a corroer por dentro. Como podia ele ter-lhe feito aquilo? Como ousava levar-lhe a filha e deixá-la sozinha?

Sentou-se à mesa da cozinha, a cabeça entre as mãos, a traçar planos de vingança. Martelavam-lhe ideias negativas, uma atrás da outra:

Primeiro, acabo-lhe com o emprego conheço alguém na empresa de construção, faço uma denúncia anónima. Depois, assusto a Margarida. Posso esconder algo na mochila e acusá-la de roubo. Ou mando cartas à escola a dizer que é uma má influência

Pegou no caderno e começou a escrever ideias, cravando tanto a caneta no papel que quase a partia. Cada ideia parecia genial e salvadora.

Poderia estragar-lhes o apartamento novo inundar tudo ou provocar um curto-circuito. Ou contratar alguém para os meter medo. Ou melhor: contar a toda a gente como o António foi mau marido, como me maltratou estes anos

Estava tão absorvida, que não reparou na entrada da mãe uma idosa baixa, cabelos brancos e olhar doce e cansado.

Helena, o que fazes? perguntou aflita, espiando o caderno. A voz saía suave, mas preocupada.

Helena sobressaltou-se e fechou imediatamente o caderno, como se tivesse sido apanhada em flagrante.

Nada, mãe, só estou a fazer a lista das tarefas da semana, mentiu, a voz vacilante.

Lista de tarefas? a mãe tomou-lhe o caderno e leu. O rosto empalideceu, os olhos cobriram-se de tristeza. Filha, isto é a sério? Pensas mesmo vingar-te no teu marido e filha? Isso é loucura.

Eles traíram-me! gritou Helena, numa amargura assustadora. Ele abandonou-me, levou a Margarida, destruiu a minha família!

A tua família destruíste-a tu, respondeu a mãe, fixando-a nos olhos. Só pensas em vingança. E a tua filha? Tens de procurar ajuda, Helena. Já!

Ajuda psicológica? Achas que estou maluca? tentou desvalorizar, mas por dentro rangia algo.

Só tu não vês, disse a mãe, severa. Se não fores, eu marco por ti. Se continuares assim, vais destruir tudo à tua volta.

Helena quis protestar mas sentiu-se subitamente vazia. Sentou-se de ombros caídos, as lágrimas a aparecer.

Mãe não sei o que se passa comigo, murmurou, vulnerável como uma criança. Resmungo há anos, sempre achei que a Margarida me roubava o António, que ela era culpada de tudo Não queria ser assim, mas não consegui parar

A mãe abraçou-a, afagando-lhe os cabelos:

Vês? Precisas de ajuda. Vamos procurar um psicólogo, está bem? Por ti, pela Margarida, por todos. Ainda podes mudar as coisas.

Helena assentiu, soluçando. Pela primeira vez, sentira que não estava tudo perdido que poderia recomeçar, aprender a amar a filha de forma diferente.

**************************

Naquela noite, António e Margarida viram um filme de animação no sofá. Ela encostada ao pai, sentia-se segura, escutando-lhe o coração tranquilo. O candeeiro lançava luz quente; a chuva caía suave, embalando a noite.

Pai, perguntou devagar, olhando-o nos olhos, achas que a mãe um dia vai mudar? Será que um dia vai gostar de mim?

António ficou pensativo, acariciando-lhe o cabelo. O olhar encheu-se de tristeza sabia o quanto a mãe tinha magoado a filha, e como ela ansiava por amor materno. Procurou as palavras certas.

Sabes, Margarida, as pessoas podem mudar, sim, mas precisam de querer muito e perceber o que fizeram de errado. A tua mãe está magoada, confusa e talvez infeliz. Mas isso não faz dela uma má pessoa. Precisa de tempo e de ajuda.

Margarida suspirou, encostando a cabeça ao ombro do pai.

E se nunca mudar? Se sempre me detestar?

Mesmo assim, António apertou-lhe a mão, lembra-te sempre disto: o teu valor não depende do que a tua mãe sente. És fantástica boa, esperta, generosa. O facto de a tua mãe não conseguir ver isso agora não muda nada em ti. Tens-me a mim, e eu vou sempre amar-te aconteça o que acontecer.

Margarida ergueu os olhos, brilhando lágrimas de calor e conforto.

Obrigada, pai, sussurrou. Às vezes sinto que estou só Mas tu sabes sempre o que dizer.

Porque te amo muito, sorriu António. E nunca estarás sozinha. Somos uma equipa. E se um dia a mãe quiser pedir desculpa, estaremos prontos a ouvi-la quando ela aprender a respeitar-te.

Margarida acenou, sonhando com a animação na televisão onde os pequenos heróis dançavam. Pela primeira vez, atreveu-se a imaginar que a mãe poderia mudar. Talvez um dia conversassem em paz. Talvez até se pudessem abraçar.

Pai, tornou a dizer, posso convidar a Matilde amanhã? Ela tem perguntado tanto quando a posso chamar Faz-me falta.

Que maravilha! respondeu António, animado. Fazemos festa: assamos bolachas, vemos desenhos animados, jogamos jogos. O que achas?

Adorava! Margarida iluminou-se. Já tinha saudades das amigas. Antes, a mãe não deixava ninguém vir por causa dos estudos.

Agora é diferente, piscou o olho António. Vais ter muitos amigos, dias felizes e alegres. Os estudos fazem-se, sem drama o importante é seres feliz.

Margarida sorriu, um sorriso quente como flor a romper do solo frio. Agora sabia: tudo ia ficar bem.

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Quando o Medo se Vai