Vó por uma Hora
Senhor Rui Manuel, desculpe incomodar, mas preciso sair mais cedo hoje. O senhor permite? O meu filho está doente.
Luísa deixou os documentos preparados e a lista de reuniões para o dia seguinte sobre a secretária. Faltava ainda uma hora para terminar o expediente, mas do infantário já tinham telefonado duas vezes, e ela resolveu arriscar pedir para ir embora. Tinha conseguido aquele emprego numa empresa de construção civil há pouco tempo, por quase milagre, tendo em conta a falta de experiência para ser secretária e os requisitos de aparência mencionados no anúncio. Espreitando-se ao espelho antes da entrevista, Luísa abanava a cabeça:
Pronto, este ponto não é para mim.
O cardigan velhote, sempre bem estimado, ainda não dava sinais de cansaço, mas a saia, essa, já pedia clemência. Fora a mãe quem a tinha cosido, durante dias sentada na máqina de costura, a escolher cuidadosamente cada ponto.
Vai ficar tão boa como a da loja.
Mãe, é feita à mão! Claro que é boa! Luísa dizia só para lhe agradar, percebendo o quanto a mãe precisava de ouvir aquilo.
Sobrava pouco para roupas novas. Noutros tempos, com o pai vivo, não existia o problema de escolher vestidos. Mas depois que ele partiu, tudo mudou. Com o ordenado de auxiliar de enfermagem, a mãe de Luísa mal conseguia fazer frente às despesas. Mas lá se desenrascavam, até a avó adoecer.
Com a sogra, a mãe, Lena, tinha sempre relações tensas.
Lena, falta-te qualquer coisa de família, mas com a tua linhagem nem me admiro. Agora és das nossas, habitua-te: nesta família há responsabilidades mútuas.
Na altura, Luísa mal percebia o discurso ruidoso da avó. Parecia importante, mas aos poucos percebeu que aquilo funcionava só numa direção: Lena entregava grande parte do ordenado à sogra, que recebia como se fosse um tributo, sem nunca retribuir. Os eternos reparos e críticas caíam sobre Lena como chuva de inverno.
Mãe, porque não respondes? perguntava Luísa, já mais crescida, ouvindo mais um sermão da avó. Lena evitava levar Luísa, mas quando a sogra exigia, não havia forma de dizer que não.
Porque sei que ela está errada. E sei também que é uma pessoa muito doente e só. Só nos tem a nós. Discutiu-se com a irmã, e os sobrinhos querem distância. Lena dobrava pacientemente a roupa engomada. E mais, prometi ao teu pai não a abandonar. Não vou quebrar a minha palavra.
Luísa sentia raiva, queria confrontar a avó, mas Lena calava-a sempre, fitando-a com doçura mas firmeza.
Para quê, Luísa? Eu não levo isto a peito. O que importa é saber que está feito o correcto e a tua avó não passa necessidades.
Mas não passava, mesmo sem ti! murmurava Luísa, já bem crescida.
Agora sabia que a avó não era uma parente pobrezinha. Tinha o seu T3 e ainda um T2, vindo da própria mãe, arrendado há anos, uma boa reforma, e saldo abastado no banco, do avô. Com isso tudo, vivia confortável.
Porque te pede dinheiro, mãe? Não chega para ela? Luísa desenhava no caderno das despesas, revoltada.
Chega, Luísa! Lena largava o pano da loiça.
Mãe, a sério! protestava Luísa.
Basta, filha. Por amor de Deus! Não te tornes…
Não me torne em quê?
Não interessa! Sê tu própria. Não deixes a amargura entrar em ti. Recorda: o que é da avó, é só dela. Nunca foi nosso, provavelmente nunca será. Não desejes, nem em pensamento.
Só entendeu de verdade quando a avó morreu. O envelope com o testamento e a carta de despedida ficou na mesinha de cabeceira. Lena, ofegante, amassou os papéis e empurrou-os para longe.
Vamos.
Para onde? Luísa olhou-a espantada.
Não há mais nada a fazer aqui. O meu dever está cumprido.
Luísa nunca insistiu em detalhes, mas acabou por saber mais tarde que a avó deixou tudo aos sobrinhos. O que continha a carta de despedida, Lena recusou-se sempre a explicar. Só uma vez comentou, quando Luísa não parava de a questionar:
Deixou-lhes as coisas porque são família. Pronto, mais perguntas não quero! Essa lama não te interessa. Basta!
Achava que eu não era sua neta?
Não. Lena suspirou. Dizia que tu eras igual a mim, nada do teu pai. Sangue estranho.
E isso é verdade? Eu não sou parecida com o pai?
És igual, foi o melhor homem que conheci. Por isso te digo: retira o melhor desta família e esquece o resto. Não é para ti.
Com o tempo, Luísa acabou o secundário e entrou para a universidade. Foi então que a famosa saia foi cosida. Com ela fez exames, foi trabalhar para a faculdade, e conheceu o futuro pai do filho. Era uma saia de sorte. E por isso vestiu-a para a entrevista. Não ia de jeans.
Na secretaria, riram-se dela, mas lembrou os conselhos da mãe e endireitou as costas.
Sem experiência e com um filho pequeno? E onde já trabalhou?
Fui professora na universidade.
Porque mudou de área?
Queria experimentar algo diferente. Controlando-se, as pernas trémulas denunciavam-na.
Ainda assim, ficou com o lugar, a título provisório. Não ouviu o diz-que-diz, quando saiu:
Dona Graça, para quê aquilo àquele Rui Manuel?
Ele gosta de mulheres despachadas. Ela só precisa de um toque e veste-se melhor que todas. Pronto, toca a trabalhar, meninas!
Com o chefe, tudo ficou logo natural. Vendo-a ler as instruções da máquina de café, o engenheiro Rui Manuel riu-se:
Primeira vez que vejo uma mulher a ler a instrução em vez de carregar nos botões ao acaso! Vamos dar-nos bem.
As funções, afinal, eram simples. O chefe era controlador mas percebeu que Luísa tinha memória de elefante e olho para detalhes. Organizava reuniões, marcava e desmarcava com diplomacia, fazia horários perfeitos. Só podia ser chamada à atenção por uma coisa: os pedidos para sair por causa do filho.
Luísa, percebo, mas assim fico sem secretária. Rui Manuel massajava as têmporas.
Dói-lhe a cabeça? Quer um comprimido?
Não, obrigado. Vá descansada, pois claro. Mas pense em alternativas. A criança vai ao infantário, precisa só de apoio quando adoece? Não há avós, tias, nada?
Não tenho ninguém. A minha mãe já não está. E não há mais família.
É pena. Então, ama?
Ainda não posso pagar. Mas vou tentar encontrar uma solução. Tem razão, a responsabilidade é minha.
Saiu, cabisbaixa. No infantário esperava o pequeno, a casa cheia de tarefas. Só tinha vontade de chorar de cansaço e solidão. Porquê tudo tão ao contrário?
A resposta já a sabia. Uma vez, a mãe dissera:
Nem toda a gente encontra só boas pessoas. O importante é não desperdiçar os bons encontros, poucos que sejam.
E se não houver nenhum?
Impossível, filha! Matemáticamente, tens de encontrar alguém bom. E realmente maus, há poucos. Os outros só vivem para si, ouvem só a sua voz. Não os julgues. Oxalá te cruzes mais com os segundos.
Luísa lamentava sempre não ter ouvido estes conselhos ao meter-se com Duarte, o pai do filho cientista novo, cheio de ideias e ambição. Luísa sonhava em conciliar vida e carreira, ele não. O futuro não era preocupação, só o presente. Quando recebeu um convite para um laboratório em Paris, aceitou sem hesitar, mesmo tendo pedido Luísa em casamento poucos dias antes.
Esperas por mim uns anos. Não é problema.
Duarte Não tenho tempo a perder. Vem aí um filho
Ele mudou de cor, e Luísa soube que o fim tinha chegado.
É já que tem de ser tudo? Não dá para esperar? Ele andava de um lado para o outro.
Não se vai embora. Mas não te preocupes, resolvo tudo sozinha. Boa sorte.
Nunca mais se encontraram.
O pequeno Tiago nasceu um mês depois de perder Lena. Ataque cardíaco no hospital. Médicos não faltavam, mas nada a salvaram. Luísa despediu-se da mãe, proibiu-se de chorar.
Depois, mãe, choro depois. Nasce o Tiago, depois choro, pode ser?
Mas nunca teve tempo para tristeza. Tiago nasceu frágil, dependente de cuidados. Entre lavagens, arrumações, passeios, mamadas: ciclo sem fim. Deixou a universidade, não suportando os olhares e murmúrios.
Desculpa, mãe, fui fraca. Não aguentei murmurava ao retrato de Lena, baixinho para não acordar o bebé.
Assim que pôde, pôs o filho no infantário. O primeiro ano foi o mais difícil doenças atrás de doenças. Luísa percebeu que com essa rotina era impossível arranjar bom emprego. Deixou de enviar CVs e foi trabalhar, por feiras, a limpar cabeleireiros ao pé de casa à noite, esperando que um dia pudesse tentar outra coisa.
Estas lembranças rodavam-lhe na cabeça enquanto seguia buscar Tiago. Farmácia, casa. Já em casa, cumprimentou a vizinha:
Olá, Carminho!
Ele está outra vez mal? Carminho acenou apontando o pequeño Tiago.
Pois vencendo o trinco emperrado. Qualquer dia sou posta na rua. Já é a segunda vez no mês. E eu a pensar que ele engatava
Isso nunca é garantido. A minha nunca adoecia, até começar a dar febre todos meses. Já pensaste em contratar ama? Agora ganhas melhor.
Não é bem assim suspirou Luísa, empurrando Tiago para dentro. Tira os sapatos, filhote.
Pois, hoje em dia uma ama nem se paga. Ainda se tivesse avó
Era bom… Bem, vou andando, Carminho. Luísa entrou e, já na penumbra do hall, sentiu-se chorar baixinho.
Mãe, fazes-me tanta falta…
Tiago depressa a fez recuperar. Deitou-o, deu-lhe chá quente e ficou a pensar. Tinha de agir…
Um toque baixo na porta, quase não o ouviu. Tiago dormia, ela vagueava por sites de anúncios de amas. Estranhando não tocarem à campainha, foi abrir.
Boa noite, Luísa!
Era dona Ivone, a idosa do prédio ao lado. Conheciam-se mal.
Boa noite! Passa-se alguma coisa? Luísa ficou confusa.
Pode ser que sim. Deixas-me entrar, ou falamos no corredor?
Ah, desculpe Luísa abriu a porta, deixando a vizinha entrar.
Dona Ivone, resignada, descalçou-se e indicou a cozinha:
E a cozinha, é por ali?
É sim…
Vamos, não convém acordar a criança. O sono é meio remédio.
Luísa seguiu-a sem perceber. Dona Ivone sentou-se, arrumou as mãos no colo e olhou Luísa.
Procuras uma avó por uma hora?
Como?
Uma avó. Para ficar com o Tiago quando ele está doente ou quando precisares. O tom era igual ao da mãe, repetindo sempre com calma.
Procuro sim. Mas onde a encontro?
Não peças mais. Eu venho oferecer-me. Queres-me para ama?
Luísa hesitou. Era uma bênção, mas conhecia pouco a vizinha, confiar logo…
Como soube que eu procurava ama?
Segredo nenhum! A Carminho contou-me.
Ah Dona Ivone, não leve a mal
Não hesites. Pergunta o que quiseres. Dou-te conta da minha vida, se preferires. Depois decides.
Luísa estudou a velha senhora, serviu-lhe chá, chegou-lhe o açucareiro, e sentou-se:
Conte-me.
A história era simples.
Nasci aqui. Pais trabalhadores na fábrica. Fiquei por cá. Casei, tive dois filhos. Eles cresceram, estudaram, foram para fora. Fiquei sozinha. Netos, até tenho quatro, mas pouco os vejo. As noras têm as mães delas, nunca precisaram de avó extra. Agora olham para mim como um móvel. Gosto tanto de crianças e adoro vê-las brincar. A Carminho é que me sugeriu porque não me oferecia para ama de alguém? E assim vim perguntar, perdendo não ficava. Se aceitas, ganho companhia e uns trocos. Mas pensa. Amanhã responde, pode ser?
Luísa assentiu. Depois de a vizinha sair, contemplou um retrato.
Que te parece, mãe? Estranho, não? Ainda mal pensei e alguém apareceu. Será bom sinal?
Noite dentro, Luísa debateu-se. A vida ensinou-a a fechar-se, a proteger Tiago de tudo e todos. Essa noite mal dormiu mas ao nascer do sol decidiu.
Dona Ivone, bom dia. Aceito.
E assim começou a colaboração, como dizia Ivone:
Somos ambas trabalhadoras. Tu trabalhas de um lado, eu de outro, ambas ficamos bem. Gasto-me, mas ganho reforma extra.
E os filhos ajudam-lhe?
Ajudam, quando insisto. Eles têm as vidas deles, netos pequenos. Eu ainda caminho, faço o meu. Ainda ganho tempo.
Luísa vigiava como Ivone tratava Tiago, mas logo suspirou de alivio. Ele apegou-se à ama no instante.
Então, maroto, está doente? Ivone, no primeiro dia, apalpou-lhe a testa. Vais ver, uma chávena de chá com limão, uma história, médico nem precisa!
Mas eu não tenho limão
Eu trouxe. Se tivesse de comprar cada vez Vá, vai trabalhar, a gente cá se arranja.
Em poucos meses, Tiago já lia e jogava damas, e nadava três vezes por semana. Luísa, espantada, agradecia.
Nunca podia dar-lhe isto tudo! Tempo não me chega! contava à Carminho.
A tua sorte é a minha esperança. Qualquer dia roubo-te a Ivone para a minha.
Tiago foi crescendo, e com entrada na primária já só precisava de Ivone de vez em quando. Mas tornaram-se inseparáveis.
Luísa, acho que estagnaste aqui. Rui Manuel, um dia, erguendo os olhos das atas. Com a tua formação podias chegar longe. Já pensaste em mudar?
Não, gosto assim.
Pois eu cá não. Vais a uma formação a expensas da firma. Depois logo vejo onde encaixas.
Com o novo cargo, novas oportunidades, mudanças. Em pouco tempo, Luísa respirava sem o peso do medo. Tiago crescia, tudo estabilizava.
Finalmente, Luísa, estou contente por ti! exultava Ivone.
O tempo das duas tinha ultrapassado a colaboração; eram família. Por isso, quando Ivone desapareceu, Luísa entrou num pânico surdo.
Carminho, onde pode ela estar? Não avisou, ninguém sabe. Não é normal!
Já ligaste para os hospitais?
Para todos. Não aceitam queixas, não sou da família.
E os filhos?
Dizem não saber nada. Não vêm. Como pode?
Não contes com eles. Continua a procurar
Luísa, já sem esperar ajuda, correu hospitais, esquadras.
Que é que lhe é? Ninguém? Porque se preocupa?
Quase uma semana depois, encontrou Ivone.
Deu entrada sem documentos. Recuperou consciência dois dias depois, mas perdeu a memória.
Luísa observou a idosa, deitada, pequena e pálida, o peito contrito de angústia.
Porque não atenderam antes? Eu teria vindo logo! O que se passa?
Atropelamento. Amnésia parcial. E a senhora é?
Filha! Onde está o chefe de serviço?
Horas depois, transferida para outro quarto, Ivone olhou-a confusa.
Quem és?
Sou a Luísa. Isso passa. Agora é recuperar.
Os filhos recusaram vir:
Não podemos, temos muito que fazer.
Pois, havemos de nos arranjar! Luísa não reclamou, apenas pousou o telemóvel.
Ivone recebeu alta após uma semana. Luísa levou-a para sua casa.
Tiago, olha: Ivone esqueceu tudo. Chama-lhe avó Ivone e tenta que esteja sossegada. O médico diz que assim talvez recupere.
Mãe, ela vai ficar connosco?
Vai.
Tiago acenou, sério.
Acho bem.
Agora era a vez dele cuidar da avó Ivone: aquecia-lhe a sopa, sentava-se a jogar às damas.
Faço já os trabalhos, depois jogamos? Queres?
Ivone sorria, chamava Tiago de neto, Luísa de filha. Que importava o nome?
O filho de Ivone, Manuel, apareceu só meio ano depois.
Luísa, em dia de aniversário de Tiago, trazia o bolo quando ouviu a voz de um homem desconhecido, junto ao portão.
É a Luísa?
Sou.
Eu sou Manuel, filho da dona Ivone.
Olá Luísa apertou o bolo nas mãos.
Posso ver a minha mãe?
Claro. Claro que pode.
Sabe, eu
Não vou julgá-lo. Não preciso de nada da sua mãe, ela foi meu apoio, só isso. Estou-lhe grata.
Percebeu mal
Pode ser. E mais: vai à vontade visitar a mãe. Mas não vai arrancá-la daqui, ouviu?
Ia levá-la
Se quisesse mesmo, já cá estava há muito. Agora já não há volta. Ela pode não reconhecer ninguém.
Posso ao menos visitá-la?
É sua mãe! Quando quiser.
Deu-lhe passagem. Viu-o partir, triste. Achava que talvez não voltasse. Que assim fosse aquelas eram as suas gentes, ali estava o ninho tranquilo.
Tiago! Põe água para o chá! Hoje é festa!
Mãe, a avó Ivone pode comer bolo?
Tem de comer! O maior bocado! Como ela dizia, quando te enchia de geleia
É para adoçar a vida? Tiago riu-se.
Isso! E faz-nos falta a todos! respondeu Luísa, fechando a porta, enquanto ia atrás do filho para a cozinha.







