Pessoa Difícil

Homem complicado

Ó Manel! És mesmo uma pessoa difícil! Como é complicado lidar contigo! Mas porque não consegues simplesmente fazer o que te peço?

A jovem mulher que repreendia o marido parecia saída de uma daquelas novelas que se veem na RTP ao final da noite. Era de uma beleza inquietante: pernas longas, olhos azul-escuros como a noite de Lisboa em novembro, e uma silhueta de proporções tão perfeitas que parecia parar o trânsito de toda a Avenida da Liberdade quando passava. Naquele hotel antigo, plantado junto ao Jardim da Estrela, nenhum homem lhe ficava indiferente.

Já Manel era, digamos, notavelmente pouco interessante à vista. Quase uma cabeça mais baixo que a mulher, corpo roliço e pernas atarracadas, braços a dar para compridos, com a coroa a fugir-lhe da cabeça como quem foge ao fisco. Tinha apenas um encanto secreto: os olhos, vivos, perspicazes, como se pudessem atravessar as pessoas. E isso tornava a dupla ainda mais insólita. Uma beleza caprichosa ao lado de alguém que a percebia até ao âmago.

Pareciam um dueto de mitologia, mas se em vez de martelo de ferreiro, Manel segurava quase sempre uma criança nos braços.

A filha, uma miúda de cinco anos chamada Mafalda, era o retrato vivo do pai. Herdou apenas da mãe a cor reluzente do cabelo um caracolado cobre ardente, tão vibrante e rebelde que já ninguém lhe tentava pôr travão. Corria pelo hotel como um relâmpago ruivo, olhar travesso por cima do ombro, sempre à espera do pai que a perseguia, tropeçando nas malas esquecidas.

Leonor, se queres mesmo ir ao passeio, vai. Acho que a Mafaldinha ainda é pequena para essas aventuras. Vai estar calor, são muitos quilómetros, ela vai aborrecer-se, chorar, ficar de mau humor. Já sabes

E para que te trago comigo, Manel? Vim para aqui com marido, quero companhia! Não te importas?

O tom de Leonor subiu e Mafalda apertou-se ao pescoço do pai, aninhando o rosto na camisa dele.

Leonor, amor, morro de ciúmes por tua causa Manel sorriu, afagando os caracóis da filha. E se fizéssemos outra coisa? Um passeio de barco no Tejo? Ou tentávamos fazer mergulho? Decide tu.

Quero pirâmides! Leonor virou-lhe costas. Não querem? Não venham! Vou sozinha.

A cena foi ensaiada com tanta arte que a Manel só restou encolher os ombros. Leonor partiu para a piscina, esquecendo-se do marido e da filha. Mas Manel já conhecia aquelas manias. Era assim, tal como quase todas as famílias do seu círculo. Ele, abastado e sempre ocupado, ela, jovem e bela, disponível para receber amor.

Nem ele percebia bem como tinha acabado no papel de marido em voga. Nada de grandes romances antes. O problema nunca fora o rosto. Falhava era no jeito só sabia dar-se com mulheres como parceiras ou colegas. Quando se apaixonava, perdia o pé. Nervos, mãos atrapalhadas, a língua presa… Era pena que as paixões o tornassem tão inseguro. Por isso vivia para o trabalho e para as visitas à mãe, Dona Teresa, em Sintra. Achava que, na verdade, estava destinado a ficar solteiro.

A mãe, porém, decidiu que não. Um dia, entre trindades e chá de tília, Dona Teresa decretou:

Manel! Olha, já cansa esta tua solteirice. Precisas duma casamenteira.

O quê?!

O chá entornou-se no casaco novo; Dona Teresa nem piscou.

Estragaste o casaco… Tu és ótimo rapaz, Manel, trabalhador, educado, simpático, mas isso não chega! Tens de arranjar alguém. Não basta ganhares prémios nem compras casas bonitas. Quero netos e quero ver-te feliz. Vais escrever como queres a tua mulher ideal. Vamos a isso, meu filho.

Sentaram-se no terraço até o nevoeiro cair. Entre perguntas matreiras da mãe e respostas de desabafo, os sonhos e medos secretos de Manel ficaram, enfim, registados. Leu o que escreveram, surpreendido:

Isto é impossível.

Veremos! sorriu Teresa, escondendo o papel.

E Leonor surgiu, tal e qual o desejo escrito: exteriormente perfeita. Mas, por dentro só nos meandros do casamento Manel descobriu a diferença.

Cedo percebeu que aquilo era, na prática, um contrato. E não era raro a maioria dos amigos estava no mesmo barco. Leonor não ficava em casa a preparar cozido ou bacalhau. Nem pensar. O grande casarão onde viviam, comprado por Manel, tinha quartos separados. Ela dizia que não aguentava o ressonar dele Manel nem sabia se roncava, mas não importava. Por Leonor, ele fazia tudo.

Ter filhos? Ela pediu alguns anos de espera: queria viajar, ver mundo, experimentar. Manel aceitou. Percorreram Paris, Roma, Berlim, encantados com comida estranha e línguas desconhecidas. Quase aprenderam a suportar-se.

Mas Mafalda mudou tudo por uns tempos. Manel vivia para aquelas horas ao final do dia. O desânimo era a mãe pouco maternal que Leonor se revelava.

Não vou amamentar! Para depois andar a corrigir o peito à faca?! Nem pensar. Que fique com biberão. Tu próprio foste criado assim, a tua mãe disse-me! teimava Leonor.

Nem a avó, nem Manel a demoveram. Mafalda lá se deliciava com as mãos gordas agarradas ao biberão, enquanto ele procurava uma ama.

Não aguento isto! Fechada com a miúda a berrar, todo o dia! Tu tens a tua carreira, eu apetece-me uivar! Nem uma alma… desabafava Leonor.

A mãe de Leonor, Dona Amélia, soube da intenção de contratar ama e protestou.

Para quê? Eu posso cuidar da minha neta! Uma estranha em casa, para quê?

Manel aceitou de bom grado. Foi a primeira vez que discutiu a sério com Leonor.

A tua mãe vai dar-me lições de maternidade? És mesmo impossível, Manel!

Amo-te, sim. E amo a Mafalda! Tu mal lhe ligas. Ao menos que tenha alguém, para além de mim, que goste dela!

E era verdade. Leonor apreciava apenas mostrar a menina: brinquedos, vestidos, o quarto elegante. Mas o coração da casa era a ala de Manel. Era lá que Mafalda dormia, brincava, espalhava os seus tesouros.

Amo a minha filha! Ao meu jeito… Leonor chorou pela primeira vez, mas Manel não a confortou.

A tua mãe fica. Até que queiras tu tomar conta da Mafalda.

Leonor percebeu que mais lhe valia paz. Amélia mudou-se e Mafalda conquistou a sua segunda casa, logo a seguir ao pai.

Assim viviam. Matricularam Mafalda em ballet e, mais tarde, numa creche particular ali em Campo de Ourique. Viajaram pelo mundo, hotéis e aviões tornaram-se rotina, pois com o pai por perto, a menina nunca foi fardo.

Tudo seguia um vago sonho, sem rotinas estranhas, até que Mafalda começou a ter febre e queixar-se de dores de cabeça.

Pronto. Lá se foi o descanso! Leonor calcorreava pelo quarto, à espera do médico.

Leonor, a tua filha está doente, pensa nisso!

Uma simples constipação. A culpa é tua, a dar-lhe gelados! Leonor bufava, olhos faiscantes. Agora, o que fazemos?

Esperar pelo médico.

O médico diagnosticou cansaço, repouso e sono.

Mal o médico saiu, Manel foi irredutível.

Vamos para casa.

Porquê? O médico disse que não era grave! Leonor ia a chorar.

O médico não manda. A Mafalda precisa de exames, isto não é normal. Não discuto mais. Vamos!

Os exames, já em Lisboa, deram razão a Manel. E a vida gelou, suspensa.

Hospital atrás de hospital, análises, noites intermináveis. A doença não piorava, mas também não melhorava. Manel largou tudo para cuidar da filha. Leonor, apesar de estar presente, era apenas figura de porcelana. Não sabia responder a nada e acabava a chorar, escondendo as lágrimas.

No fundo, Leonor não sofria propriamente pela filha. Sofria pela liberdade perdida e detestava o cheiro dos hospitais, mesmo sendo dos melhores da cidade.

Perdeu a paciência quando soube do anúncio:

Vais vender a casa, Manel?! Ficaste sem dinheiro?

Sim.

Mas… e eu? Leonor chorou baixinho, já adivinhando a resposta.

O tratamento da nossa filha custa caro. Vou vender tudo por ela. O que for preciso.

E eu? E a minha vida?

Eu dou-te o que precisares. Fica com o carro, a casa na cidade. Mas vais visitar a Mafalda no hospital e acompanhas-nos para o tratamento lá fora. És a mãe dela. És necessária, queira tu ou não!

Foi a primeira vez que Manel se deixou tomar pelo medo: medo cru, animalesco, agarrado à pele como frio húmido de fim de tarde. Tudo o que era importante estava agora naquela enfermaria, roçando a vida e a morte. Já só o unia a Leonor aquela filha comum.

Chega. Vai lavar o rosto e não assustes a Mafalda. Ela tem de estar tranquila.

Leonor sentiu, nesse momento, que o marido, antes resguardado e amável, crescera e agora era uma muralha à qual nada faria frente. Revolta, partiu para o corredor, recompondo-se.

Manel entrou no quarto, onde Amélia, a avó, lia à neta. Chamou-o e saiu.

Manel, posso ficar? Não me peças licença, mas preciso disto. Perdoa-me. Não ensinei a Leonor o que devia Não vi quando ela perdeu o rumo…

Se soubéssemos onde cairemos, preparávamos a manta, dona Amélia… Eu E se eu falhar com a Mafalda como fizeste com a tua filha?

Faz o melhor possível. E nunca desistas de preparar o caminho. Agora não é tempo de choros. Leiamos à Mafalda e compremos-lhe o bolo que ela quer. Não feches a porta à Leonor tão cedo.

Mafalda foi operada meses depois. Teresa, a avó paterna, largou o emprego e seguiu filha e neta.

Após meio ano voltaram. Leonor ficou em Paris.

Seguiram-se mais dois anos de reabilitação, esperança a pulsar baixinho, ora acesa, ora quase morta, até ao dia em que o médico, de bata amarrotada, tirou os óculos, esfregou a testa e sorriu:

Conseguiram…

A vida parou, hesitou, e tropeçou noutra direção, como quem acorda de sonho.

Leonor regressou à vida da filha no seu décimo quinto aniversário. Continuava vistosa um rosto bonito, penteado de revista. Cumprimentou Amélia, acenou a Manel, e foi direito à multidão de adolescentes na sala.

Mafaldinha…

Os olhos da filha, do mesmo azul, observavam-lhe o rosto como quem lê um livro antigo.

Mãe…

Leonor apressou-se a explicar coisas que só ela entendia, mas Mafalda deteve-a.

Calma. Mais tarde falamos.

Mas eu queria…

Eu sei. Vai dar tempo.

Mafalda…

Pronto, segue-me.

Mafalda levou-a ao velho escritório do pai, puxou a pesada cortina e sentou-se no parapeito, pernas cruzadas.

Então, fala.

És igual ao teu pai…

Difícil assim, mãe?

Não era isso…

Mas eu acho que sim. Sabes que mais? Aquele homem, a quem chamaste de pesado, difícil… nunca disse um mal de ti, sabias? Nunca levou mulher para casa, nem sequer pediu o divórcio. Repetia-me sempre tens mãe. Mas, na verdade, não tive. E sabes o que mais?

Diz…

Ele ensinou-me a perdoar. Não sei se aprendi bem, mas sou filha dele. Quando pego numa tarefa, acabo-a. Não tenho grandes lembranças de ti, nem preciso de ti para viver. Tenho o pai. Tenho as avós. Foram elas que me ensinaram. Não tens papel, mãe, mas por amor ao pai, dou-te chance de tentares ser alguém.

Não era ninguém antes?

Foste capa, boneca, personagem. Dura a minha opinião? Mas era eu que dormia nos hospitais, não contigo; era a avó Amélia a embalar-me e a avó Teresa trouxe-me chapéus horrorosos, recordas? Dançava na sala, vestida de cisne, como nos sonhos de miúda. E tu, não estavas.

Mas agora estou…

Para quê? Para estar ou para ficar? Não te sei responder, mãe. Se provares que ainda vales, talvez te perdoe. Por agora, sê bem-vinda. O bolo está quase. Eu vou andando. Até logo.

Mafalda saltou do parapeito, ajeitou a cortina e, ao sair, olhou por cima do ombro:

Então, mãe, sou pessoa difícil?

Leonor observou-a, coração batido de esperança frágil.

Ótimo. Assim sou mesmo como o pai. E não há elogio maior. Obrigada. Talvez esteja pronta a pensar nisto a sério. Até já.

O fogo ruivo dos caracóis desapareceu pela porta, e Leonor chegou-se à janela, pousando a mão no vidro onde ficaram, suaves, os desenhos da filha.

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