Fragmentos de uma Amizade Desfeita

Fragmentos de Amizade

No final de um dia exaustivo, Catarina chegou a casa. Abriu a porta do apartamento e, quase maquinalmente, descalçou os sapatos no hall de entrada. Os seus gestos eram lentos, pesados, mais por cansaço da alma do que do corpo. Pairava um silêncio diferente, apenas quebrado pelo som abafado da televisão ligada, vindo da cozinha. Catarina ficou uns segundos parada, como se precisasse arranjar coragem para dar o próximo passo. A transição da azáfama da rua para o refúgio do lar tornava-se, naquela noite, especialmente difícil.

Por fim dirigiu-se à cozinha. Sentado à mesa estava Hugo, o seu marido. Tinha diante de si um prato de sopa que ia comendo vagarosamente, sem tirar os olhos do telejornal. Assim que Catarina entrou, ele reparou logo nela e ergueu o olhar.

Chegaste cedo hoje. Correu tudo bem? perguntou, com a voz carregada de preocupação genuína.

Catarina sentou-se em silêncio à sua frente. Abraçou-se aos braços, como se quisesse proteger-se de algo invisível, ou simplesmente procurar algum aconchego. Logo pelo seu ar, Hugo percebeu que algo de grave se passava.

Não, não correu, sussurrou Catarina, olhando para o chão. Acabei de vir da casa da Dalila. Acho acho que já não somos amigas.

Hugo pousou a colher, sério. Fez-lhe sinal de que tinha todo o tempo do mundo para explicar, que estava ali para ouvir.

O que aconteceu? insistiu, numa tentativa cuidadosa de não a pressionar.

Catarina respirou fundo, tentando organizar os pensamentos e ser fiel aos factos.

É o marido dela, o Afonso. Enganou-a. E Dalila, em vez de resolver as coisas com ele, atirou-se à rapariga com quem ele andou. Chamou-lhe nomes, culpou-a de tudo, como se ela tivesse seduzido de propósito um homem casado! a voz de Catarina tremeu, mas continuou: Eu tentei acalmá-la, disse-lhe que a culpa era do Afonso, que devia falar com ele antes de julgar mas nem me quis ouvir. Gritou que eu não a apoiava e que estava ao lado da “traidora”.

Hugo mexia a colher entre os dedos, já sem vontade para comer. Quis perceber melhor.

Mas tu tens a certeza que a rapariga sabia que o Afonso era casado? perguntou, fitando Catarina.

Claro que não! exclamou ela, indignada. Ele disse-lhe que já se tinha divorciado! Nunca lhe mostrou aliança, nada. Tentei explicar isto à Dalila, mas ela preferiu atacar-me. Disse que eu só defendia “mulheres como ela” porque, provavelmente, também eu teria telhados de vidro.

Hugo franziu o sobrolho. Doía-lhe ver a mulher alvo de julgamentos tão injustos e insinuações de uma amiga.

Que despropósito E depois?

Catarina deu um sorriso amargo, a magoá-la mais do que conseguia esconder.

Depois ficou pior. Ela começou a contar aos nossos amigos em comum que eu defendia demasiado aquela rapariga, que algo havia de errado comigo. A Catarina deve ter culpa no cartório, só pode disse ela. Imagina! Catarina olhou para Hugo, confusa e magoada. Sempre pensei que a amiga estava lá para apoiar, mas para ela parece que tudo pode servir para me fazer sentir culpada!

O silêncio da cozinha só era quebrado pela televisão. Catarina continuava a torcer o canto da toalha, à procura de um pouco de consolo naquele gesto quase infantil. Custava-lhe, acima de tudo, perceber como Dalila, supostamente sua amiga, tinha virado as costas por tão pouco.

E o que mais custa é isto, Hugo: só tentei ajudá-la. Quis que ela visse onde estava o verdadeiro erro. Mas ela virou tudo ao contrário. Agora metade dos nossos amigos caíram na conversa dela. Olham-me de lado, cochicham sentia-se mais perplexa do que zangada, sem perceber como uma mentira podia ser tão facilmente aceite.

Hugo levantou-se e aproximou-se de Catarina, apertando-lhe os ombros com ternura. Era o seu modo mudo de dizer: “Estou aqui, acredita em ti.”

Sabes que a verdade está do teu lado, disse ele, com convicção.

Sei, Catarina acenou finalmente, com o olhar perdido lá fora. Mas isso não consola. Anos de amizade e tudo acaba num instante, por causa de uma mentira, por teimosia passou as mãos pelo rosto. Magoa tanto

****************

Nos dias que se seguiram, Catarina evitou sair de casa. Cada vez que imaginava cruzar-se com vizinhos ou conhecidos, sentia o coração acelerar de ansiedade. Detestava o modo como alguns olhavam para ela, ou as conversas que cessavam mal entrava numa sala. Precisava de preencher o tempo com tarefas para não pensar arrumava as prateleiras, limpava cantos esquecidos, aventurava-se em receitas novas. Mas, por mais que tentasse desligar, os pensamentos acabavam sempre no mesmo lugar: como tudo mudara tão depressa, como a amizade tinha ruído sem apelo.

Sonhava muitas vezes em partir. Ir para fora, desaparecer por uns tempos, respirar ar novo. Imaginava-se num comboio para o Douro, noutra cidade, Lisboa ou até no sul, onde ninguém a conhecia. Só um bocadinho de silêncio, longe dos rumores e dos olhares.

Certa noite, já depois do jantar, Catarina e Hugo tomavam chá na cozinha, à luz suave do candeeiro. Lá fora já era noite cerrada e algumas gotas de chuva começavam a cair, batendo suave nos vidros. Hugo cortou o silêncio:

Estive a pensar, sabes? E se mudássemos de zona? Não precisa ser longe, mas um bairro diferente. Um sítio tranquilo, onde podes recomeçar sem fantasmas.

Catarina ergueu o olhar, surpreendida. A proposta embalou-lhe o coração entre o receio do desconhecido e a esperança de um novo começo.

Achas que ia fazer diferença?

Acho, sim. Precisas de tempo para te recompor, e aqui parece impossível. Toda a gente acredita em boatos, há recordações em cada canto Se sairmos, tens espaço para respirar, para perceberes o que queres mesmo da vida.

Catarina considerou todos os prós e os contras: ter de abandonar a casa, encarar mudanças, inventar explicações para o emprego, deixar os poucos amigos que restavam. Mas o pensamento de uma vida nova, sem julgamentos, começava, pouco a pouco, a ganhar força.

Está bem, disse, num fio de voz, mas já com uma chama de decisão. Vamos tentar.

Hugo sorriu, satisfeito por ver nela determinação. Segurou-lhe a mão.

Então amanhã tratamos disso. Há-de aparecer um cantinho mesmo a nosso gosto, quem sabe até mais perto de um parque. O resto logo se vê.

E assim, passaram às buscas. Primeiro pelos anúncios de apartamentos, depois em visitas pela cidade, de Oeiras a Almada. Ora o preço não batia certo, ora não gostavam da vizinhança. O processo era lento, mas pacífico. Não tinham pressa de tropeçar noutra desilusão.

Catarina, entre arrumações e chamadas para imobiliárias, pensava muitas vezes em Dalila. Tinha saudades genuínas dos tempos em que tudo era simples, dos segredos partilhados, das tardes de praia na Costa da Caparica, dos passeios com risos fáceis. Custava-lhe perceber em que momento se tinham começado a afastar, por que razão a confiança dera lugar à suspeita

Um dia, ao arrumar fotos antigas, encontrou uma onde ela e Dalila riam juntas, com os pés na areia e o vento no cabelo. Recordou sonhos, desejos, promessas de uma amizade que parecia inquebrável. Por breves minutos hesitou: uma mensagem, uma tentativa de reconciliação? Mas o peso das últimas conversas, a mágoa ainda recente, mandava-a recolocar a fotografia na caixa certos caminhos não têm regresso.

Ao fim de semanas de pesquisa, encontraram o tal apartamento. Pequeno, mas cheio de luz, com vista para um pequeno jardim no centro do bairro e perto do Tejo. Silêncio, verde, gente simpática tudo o que procuravam. Mudaram-se calmamente, levando caixas aos poucos. Montaram prateleiras, escolheram cortinas novas, desta vez sem velhas memórias a pesar-lhes.

Quando, finalmente, tudo ficou no sítio, Catarina sentiu uma leveza estranha. Como se, naquela casa, finalmente pudesse respirar sem ter de olhar para trás.

**********************

Antes de mudar de vez, Catarina fez algo que nunca pensou fazer. Ligou ao Afonso, o marido de Dalila, e marcaram encontro numa pastelaria discreta em Benfica. Quis pôr os pontos nos is.

Ele chegou nervoso, mexendo no telemóvel, inquieto.

Catarina? Não esperava este encontro.

Ela foi direta:

Sei que vais pedir o divórcio. Também sei que a Dalila anda a juntar provas para te culpar de tudo. Mas ela própria tem telhados de vidro, e tu sabes do caso dela com aquele colega do Porto.

Afonso ficou pálido. Olhou para ela, inseguro.

Queres?

Quero que tenhas armas para não seres esmagado em tribunal. A verdade não é só o que ela conta é preciso que todos saibam as duas faces desta guerra.

Tirou um dossier da mala, que pôs em cima da mesa. Bastava pouco um extrato de mensagens, fotos de viagens, nada demais mas o suficiente para dissipar o mito da mulher irrepreensível.

Afonso folheou os papéis, calado.

Obrigado, Catarina. Não esperava isto de ti.

Nem eu confessou, olhando pela montra. Só quero acabar com esta mentira. Que cada um assuma os seus erros.

Afonso meteu o dossier no casaco.

Não sei se vou usar isto, mas obrigado mesmo.

Catarina já não sentia necessidade de explicar mais nada. Terminou o chá e despediu-se.

Ao caminhar para casa sentiu-se estranhamente aliviada. Era um ponto final necessário. Servira, mais do que por eles, para si própria para deixar o passado arrumado.

********************

Já na nova casa, Catarina decidiu apagar o número de Dalila. Em poucos segundos deixou de seguir a antiga amiga nas redes, bloqueou notificações. Pequenos gestos, mas de enorme peso: estava a dar mesmo por encerrada a história.

A vida ganhou outro ritmo. A casa que ao início parecia desprovida de calor começou a ganhar vida com os pequenos detalhes: plantas, quadros, novas recordações e, sobretudo, uma rotina sem desconfianças ou intrigas passadas. Catarina arranjou trabalho remoto; o Hugo mudou para um novo escritório, mais longe mas com outro ambiente.

Conheceram os vizinhos, descobriram os cafés típicos do bairro, arranjaram confiança na mercearia, nos passeios pelo jardim. Pela primeira vez, em muito tempo, Catarina sentia que podia ser simplesmente ela própria.

Numa de tantas noites tranquilas, sentou-se na varanda com uma chávena de chá quente e viu o pôr do sol a pintar os telhados de amarelo dourado. O Hugo juntou-se a ela.

Sabes, disse ela, sincera acho que fizemos o melhor. Não só mudarmos de casa, mas também pôr as cartas na mesa com o Afonso.

Hugo passou-lhe o braço pelos ombros.

Fizeste o que te pareceu certo, disse simplesmente, transmitindo-lhe confiança.

Ali, naquele começo de noite, sentiu que tudo estava a encontrar o sítio certo.

**************************

Meio ano depois, Catarina olhava pela janela enquanto o pequeno almoço perfumava a casa. O sol entrava pela sala, anunciando um novo dia em Lisboa. Em segundos, ouviu o mexer-se de Hugo na cama e sorriu com o som reconfortante.

O trabalho corria bem, tinha conseguido, à distância, organizar a sua vida e aproveitar para perseguir velhas paixões: matriculou-se num ateliê de pintura, dois fins-de-semana por mês dedicados ao prazer de desenhar e criar.

Numa dessas noites, Catarina folheava o telemóvel. Viu um aviso: uma mensagem da Teresa, uma ex-colega.

Olá, Catarina! Sabes o que aconteceu com a Dalila? Encontrei uma vizinha dela

O coração de Catarina bateu mais forte. Evitara durante meses saber novidades de Dalila, mas a curiosidade falou mais alto.

Ela tentou tudo no tribunal, levou um advogado caro, armou-se em vítima, quis ficar com tudo. Mas o Afonso apresentou provas (inclusive trocas dela com aquele colega do Porto). No fim, o tribunal ficou do lado dele ficou com casa e negócio, ela só ficou com o carro.

Catarina pousou o telemóvel na mesa. Não sentia prazer só um certo alívio: a verdade, por fim, tinha vindo ao de cima.

Em que pensas? perguntou Hugo, que acabava de chegar.

Ela contou-lhe o desfecho. Ele limitou-se a assentir, sabendo que, para ela, não era vingança. Era só justiça, ainda que tardia.

Celebraram com chá e croissants da pastelaria local. Depois, Hugo sugeriu:

Amanhã, vamos ao parque novo aqui perto? Ou queres explorar outro café?

Catarina anuiu, sentindo uma leveza rara. O passado já não a magoava. Era tempo de viver, simplesmente.

Nessa noite, foi dar uma volta sozinha pelo bairro. O ar fresco de final de outono soube-lhe bem tudo ali era simples, autêntico. Os vizinhos conversavam, gatos roçavam-se junto às entradas, crianças jogavam à bola no ringue do jardim. Caminhou devagar, saboreando a paz que, sabia, tinha conquistado.

Sentou-se num banco do parque e viu a rotina dos finais de tarde da cidade: gente no café, vizinhos a regressar do trabalho, famílias a passear o cão. E percebeu: já não era a Catarina de antes, com medo de julgamentos. Era alguém que aprendeu a defender o seu espaço. Isso era talvez o mais importante de tudo.

No dia seguinte, ligou à Teresa.

Obrigada pela mensagem, Teresa. Não precisava de saber, mas ajudou a fechar um capítulo.

Quem sabe agora muita gente perceba a verdade ouviu do outro lado.

Que o façam. Para mim, o essencial é que agora vivo à minha maneira.

Despediram-se, leves. Catarina pousou o telemóvel e sentiu finalmente um peso a desaparecer.

Assim que Hugo chegou a casa, Catarina recebeu-o com um abraço e um sorriso tranquilo.

Agora sim tudo está onde devia estar, disse, encostando a cabeça ao ombro dele.

Ainda bem, respondeu Hugo, acariciando-lhe o cabelo. Mereces paz.

Sentaram-se à mesa. O silêncio era confortável, a rotina sabia bem. Pelas janelas via-se que começava a nevar, os flocos brancos misturavam-se com as luzes doces do bairro. Na lareira eléctrica que haviam comprado recentemente, dançava a ilusão de uma chama quente rápida, reconfortante.

Catarina sabia agora que não queria regressar ao passado. Lá ficaram as mágoas, acusarões e desilusões. Aqui, nesta nova vida, reinavam a serenidade, a sinceridade, e o privilégio de ser finalmente apenas ela mesma.

E isso era tudo.

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