Encontro ao Acaso
A gabardine da Filomena já só aquecia as pernas. O enchimento tinha descido e, em cima, estava transformada num casaquinho leve que deixava passar todos os ventos de Lisboa. Felizmente, as calças de lã e as botas de borracha aguentavam o frio, e o xaile de lã, apertado ingénua e teimosamente pelos ombros, era o último bastião contra o vento cortante.
O carro prometido pela Manuela, colega de feiras, falhou. E agora ali estavam, espalhadas pelas malas e sacos, à caça de boleia. Cada uma dava uma de Penélope saltando para o seu lado; mala nenhuma cabia na mesma viatura. O fado vendia-se aos pares, dá-se pelo menos para rir.
Quando trabalhava para a D. Rosinda, a patroa, Filomena não tinha estes aborrecimentos. Mas o dinheiro era curto sustentava sozinha dois filhos, e há pouco tempo embarcara com Manuela numa dessas aventuras de ir a Espanha buscar têxteis em conta para vender no Martim Moniz.
Dinheiro extra, nada. Tinha-lhe ficado só o problema da logística, que agora era um hino à ginástica: de manhã encher o carrinho para o mercado dos ciganos, à noite recolher tudo e carregá-lo escada acima até ao quarto andar e rezar para o filho estar em casa para ajudar.
Já cantara bem alto Somos livres! no vinte e cinco de Abril; agora sentia as mudanças a chegarem como trovoada: a firma onde trabalhava fechou, foi dispensada. O marido evaporou-se há anos. Teve de agarrar a venda ambulante, coisa que sempre jurara que era contra a sua natureza.
Agora ali estava, plantada junto à estrada repleta de neve da serra de Sintra, ainda jovem de feições mas já com o rosto vermelho do frio e olhos a lacrimejar das correntes de ar matinais, num desfile involuntário de miséria digna.
Os carros passavam, lançando-lhe lama e água das poças. Filomena esforçava-se por olhar para cima, para os telhados e árvores onde o branco da neve permanecia limpo. Há tanto cinzento na vida dela, que o melhor é mesmo desviar o olhar.
Depois de tanto acenar, lá parou ao pé dela um carrão estrangeiro, igualmente imundo. Filomena lançou-se:
Vai para o Bairro de Alvalade? E em conta…? e, ao olhar para dentro do carro, engoliu a última palavra.
Reconheceu-o logo. Parecia que os anos não tinham passado. Se mudou, foi só para melhor: o mesmo olhar misterioso e sério, sobrancelhas ligeiramente franzidas e um sorriso só esboçado.
Enquanto ela se recompunha do susto, ele saiu, atirou as malas para a bagageira como quem move plumas.
Filomena afundou-se no banco da frente, ajeitou o xaile, começou a inventar desculpas para o seu ar pouco apresentável. Ele também a reconheceria, era óbvio.
Ou não?
Tantos anos. Quantos?
***
Ela tinha vinte e dois. Mandaram-na fazer o estágio final numa velha herdade perto de Viseu. O António, noivo, esperava-a em Coimbra. Tudo no plano: estágio-tese-casamento.
Que diferença fariam três meses numa aldeia? Nenhuma, achava ela…
Ficou alojada em casa da D. Catarina, uma senhora de meia-idade que também trabalhava na herdade, vivia com o sogro surdo como uma porta. Filomena sempre foi sociável, criou logo amizade com a Catarina, ajudavam-se a vigiar o velho.
Um dia, deu um mau jeito ao velho. Filomena correu à vizinha, mas nada. Nisto, passa um trator na estrada. A Filomena acena. Sai de lá um rapaz, bonito, alto, olhar sério e algo enigmático.
Correram até casa, ele agarrou o velho com um braço só e lá vão de trator até à casa de saúde. Segue também Filomena, sem saber o que fazer.
Chegados ao posto médico, aparece logo a ambulância. O rapaz mete-se com ela dentro, e segue a viagem como se o destino fosse conjunto.
Só após o velho estar salvo é que trocaram meia dúzia de palavras decentes. Afinal, trabalhavam ambos na herdade, moravam quase porta com porta. O rapaz chamava-se Afonso.
Só que a noite já ia longa. O velho ficou internado, felizmente a tempo. Mas como voltar para casa? Ambulância não faz serviço de táxi.
Olhe, minha mãe vive ali ao pé. Dormimos lá, amanhã apanhamos os lavradores de volta à aldeia.
Pareceu-lhe bem disposto, nada dado a assédios. Mas mesmo assim, ela hesitou.
Prefiro ficar aqui, durmo na sala do hospital, vocês apanham-me de manhã, pode ser?
Ó mulher, dormes de lado no ferro? A tia Lurdes é um amor, casa grande, eu durmo no celeiro com o meu primo.
E Filomena aceitou. Dormiu numas almofadas enormes, acordou só ao cheiro do café a fumegar. A hospitalidade era regra.
A tia Lurdes puxou conversa. Disse que o Afonso já tivera mulher, que fugira, deixando-lhe o filho. Que, além do trabalho, ele ainda criava porcos, vendia carne, levantava casa nova era um homem de estrutura, diz-que.
Filomena só sorria. Ela tinha noivo, engenheiro fresco, vida alinhada. Homens já divorciados e com crianças não a atraíam nem um bocadinho.
Mas, desde aquele dia, começou a dar de caras com Afonso a todo o lado. Na herdade, no refeitório, por acaso à esquina. Catarina sempre dizia:
Afonso anda com olhos em ti, já lhe topei o rubor. E vocês até combinavam…
Ó Catarina, eu cá tenho o António!
Mas olha que o Afonso é outro nível. Montou a pocilga melhor da zona. Comprou tratores, e o miúdo é um encanto. Só falta uma mulher.
E no fundo Filomena começou a procurar Afonso nos recantos. Imponente, seguro, com uma calma quente, dessas que se sentem de longe. E toda a gente o respeitava.
Os homens diziam:
Pergunta ao Afonso, que ele resolve!
Ela era a lisboeta da aldeia, rara e admirada. Alta, magra, com um sobretudo cor de creme (ridiculamente claro para tão barro), voava por cima das poças de lama. Quando aparecia, os camponeses emproavam-se, limpavam o palavreado.
“Menina, mas o que veio aqui fazer?”
Filomena, espere que eu dou-lhe boleia.
Do escritório ao casebre era coisa curta, mas chovia como se o mundo fosse acabar. Filomena saltou para o trator do Afonso.
O seu filho fica com quem? para ela, homem com filho era logo crescido.
Oh, deixa-te de formalidades. O puto fica com a avó. Às vezes vai a vizinha dar uma mão. Já vai ao jardim-escola, cresce…
E como se chama ele?
Duarte, danado… E a avó sempre zangada com ele.
Gosta de estar cá? perguntou Afonso.
Sim, claro…
Agora tudo está castanho. Espera por Maio, vê tudo a verde. O rio passa ali Só falta arranjarmos os candeeiros da rua. Mas isso vai. Cuidar disto é comigo também.
Conduziam pelas ruelas escuras; a Junta cortara a luz da rua por falta de verbas. Mas Afonso parecia levar às costas toda a ressurreição da aldeia.
Mal sabia ela que aquilo era o dom da responsabilidade coisa rara.
Os cuidados de Afonso tornaram-se evidentes: passava lá por casa, levava lenha, trazia medicamentos ao velho. Mas Filomena resistia estoicamente ao turbilhão interior.
Nunca se via a si mesma ali, numa aldeia. Tudo o que a prendia à zona urbana era o António e o bulício dos preparativos nupciais. Imaginava o desapontamento dos pais a descobrir que trocava o engenheiro pelo criador de porcos; vergonha, talvez.
Vais viver para o campo? já via o cenho franzido da mãe.
E depois saberem que o futuro marido era divorciado, com filho e… agricultor.
À noite, no silêncio interrompido só pelo ladrar dos cães e o vento, imaginava-se ali com ele. Ia amá-la, respeitá-la, seria agradecido se ela fosse mãe do filho dele. E até viriam a ter filhos deles…
Mas a distância entre sonhar e fazer era grande. António já tinha alianças. A sogra poupava para o copo de água. O sentido do dever pesava. E a família confiava nela, ninguém esperava uma escapadela.
Mas sentia a febre indefinida do que podia vir a ser um novo amor. E a Primavera ajudava a baralhar o juízo.
Chegava a pensar que nunca tinha amado o António. Com o Afonso era a sério. O drama aumentava a paixão.
Num acesso de romantismo trágico, praticamente provocou uma noite de intimidade. Não sabia o que aquilo era: desabafo, despedida do passado, despedida do presente? Ele até tentou recuar. Decidiram que, sendo aquele o fim, então que fosse bonito.
Foi a sua primeira vez, mas nada disso pesava. Aquilo foi só bom.
Não conseguiu, no entanto, decidir-se por nenhum. Falta de maturidade? Medo? Simples inexperiência.
Depois, veio o episódio decisivo. Junto ao poço, viu um menino loiro em risco de cair. Apressou-se:
Menino, cuidado! Não subas aí!
A mãe apareceu já aflita, apanhou o rapaz. De olhar cabisbaixo, agradeceu a Filomena.
Duarte, não chores, meu amor.
Reconheceu o nome era mesmo o filho de Afonso. E viu naquele olhar um medo: criar laços com uma criança que nem conhecia, que até tremia de desconfiança dela.
Pouco depois, veio a mãe de Afonso D. Glória em lágrimas. Contou-lhe que o filho já estava habituado à Galinha, a vizinha da casa da frente, que o apoiava em tudo. Que era boa moça, e desde que Filomena chegara… Bem, tudo estava a vir por água abaixo.
Filomena ficou atónita. Ela, a desgraçada? Mas foi Afonso que lhe mexeu com a vida! Ela era a vítima, não a vilã!
Afonso implorou-lhe que ficasse, que não se fosse embora. Foi com ela à estação, disse mil vezes que tudo o resto eram invenções da mãe e de Galinha. Que Galinha, calada e apagada, nunca seria companheira dele.
Ela é boa, mas apagadita. Vocês encaixavam melhor.
Mas Filomena magoou-se. Não queria meter-se na história alheia. Voltaria à cidade. O resto era passado.
Afonso ficou no cais: camisa de flanela, ombros caídos, expressão completamente derrotada. Foi assim que Filomena o recordou durante anos.
Chorou a caminho de casa, ao embalo dos carris.
Foi assim o seu estágio de três meses.
A juventude consegue pôr curativos em tudo. Casou-se com António, e a vida entrou nos eixos.
**
Reencontro. Filomena ajeita o xaile no banco do carro, ainda a preparar desculpas para o aspeto. Ele também já a tinha reconhecido?
Ou… teria mudado tanto, ela? Mais cheia, boina de lã, a tal gabardine ridícula…
Tantos anos. Quantos?
Dezasseis. Sim, dezasseis anos.
Foram uns minutos em silêncio.
Olhe, que tempo! disse Filomena, quando um carro fez um autêntico tsunami numa poça.
Isto só por cá. Lá fora da cidade o ar é limpo, as estradas até andam limpas. respondeu ele.
Moras por lá?
Ando sempre para cá e para lá, trabalho tem destas.
Obrigada por parar. O nosso carro falhou. Eu costumo ir de transporte, hoje calhou. Claro, pagamos…
Ele lançou-lhe um olhar entre o sério e o magoado, e ela percebeu reconheceu-a, sim.
Olá… murmurou ela, baixinho.
Olá, Filomena!
Então conheceste-me? Pensei que já me tinhas esquecido.
Não, não esqueci, respondeu, olhos fixos na estrada.
Entre as costelas dela, qualquer coisa se torceu, fez cócegas de nostalgia. Abanou o xaile.
Como estás, Afonso? conseguiu balbuciar.
Ele demorou-se um pouco, também a sair do próprio transe de saudades antigas.
Vou andando. Tempos difíceis, sabes. Tu, pelos vistos, também…
Continuas na herdade? tentava puxar conversa de circunstância, seguro.
Qual quê? Isso acabou há séculos. Agora trabalho por minha conta.
Boa. Isso é que está a dar. Eu também… ainda tentas a agricultura? ela lembrou-se das criações dele.
Sim, faço de tudo porcos, produtos caseiros, também tenho lojas agora.
Toda a gente vende qualquer coisa, não é?
E Filomena lembrou-se da etiqueta no chouriço: Produtos Mota. Riu-se na altura, achou coincidência.
Espera! Então as salsichas e as alheiras Mota são tuas?
Podem assim dizer encolheu os ombros com um sorriso triste. Não gostas?
Não, pelo contrário! É a minha mãe que vai de propósito ao mercado só para comprar.
Ele, como se justificando tanto sucesso, explicou:
No princípio era só ali na aldeia. Depois começou a crescer, as pessoas ficaram sem trabalho e eu precisei de mão de obra. Fizemos uma pequena fábrica, e estamos em todo o distrito…
Fantástico. Estás sozinho nesse projeto ou com mais gente?
Sou eu com uma equipa, claro. Mas sozinho não dava. Metade da aldeia trabalha comigo. Estamos em várias cidades já.
Pois…
Filomena quase se encolheu: ela, nuns trapinhos, quase na miséria, antes a princesa urbana, ele, que já era do campo, agora milionário cá do bairro. Tinham trocado de mundos.
E o teu filho?
Afonso sorriu.
Três.
Três filhos??
Pois, três rapazes. E tu?
Um rapaz e uma rapariga, Filomena suspirou.
Duarte está na tropa. Esteve na missão, ficámos todos em pânico. A Gabriela ficou com cabelos brancos. Mas regressa na Primavera, graças a Deus. O do meio está no técnico; o mais novo, no quinto ano.
Gabriela… Confirmava. Afinal, ele casou com a vizinha, a Galinha.
Neste momento apetecia-lhe confessar todas as saudades e arrependimentos. Ah, se pudesse voltar atrás! Mas calou-se.
O António revelou-se um zero à esquerda: alternou entre empregos, nunca parou, começou a beber. Perderam a casa, foram viver para a sogra. Acabou por fugir com outra, e a sogra sempre de cara feia. Filomena pediu divórcio e voltou para a mãe; o pai, já tinha partido.
Queria contar tudo aquilo ao Afonso, queria mesmo. Mas só disse:
O meu mais velho este ano vai para o 10.º. A miúda já está no 8.º. O tempo voa.
Nem digas nada…
Seguiram em silêncio. Ambos gostariam de conversar sobre o essencial, mas pensavam que só seria importante para o outro.
Filomena sentiu-se culpada em relação ao Afonso. Mas lembrou-se logo da D. Glória a chorar, da Galinha no fundo foi só ceder. Na altura era o orgulho ferido, o embaraço. Não precisava de ninguém.
E contigo? perguntou ele de repente.
Eu? Como vês… Fui despedida. Trabalho por minha conta, ajeitou o cabelo, mas custa muito a uma mulher sozinha.
E o marido? O António, não era?
Olha, que memória! Sim. Mas…
Eu cheguei a ver-te de noiva. Fui de carro atrás do cortejo até ao restaurante.
QUÊ?!
A D. Catarina avisou. Fiquei de rastos. Tu parecias tão feliz Não quis estragar, fui-me embora. No dia seguinte pedi a Gabriela em casamento.
Ai o meu Deus! Se soubesse…
Era melhor assim. Tu estavas linda. Feliz. Não valia a pena.
Por pouco tempo. Em cinco anos estava separada, a viver em casa da minha mãe outra vez.
Que pena.
O que é que se há de fazer? Mulher aguenta mais do que pensa. Os miúdos estão bem, querem estudar, cuidam-se. E eu nisto das feiras, claro. Este lugar é péssimo apanho com vento de todos os lados, ninguém segura um papel. Mas vende-se bem, por isso guardo-o.
Quis mostrar-lhe que, apesar de tudo, não estava mal de todo. Nem tudo era desgraça.
Afonso escutava-a, testa franzida, calado.
E tu, com a Gabriela? Está bem?
Encolheu os ombros, mudou o assunto devagar.
A Gabriela? Vai-se indo. Faz bom pão.
Pão? Ainda faz?
Fez, sim. Agora abriu a padaria Padaria do Povo, já viste?
Acho que já entrei… é dela?
Sim, comprei-lhe aquilo para ela. O pão é bom, tem sorte.
Filomena lembrou-se: na fila da Padaria, uma vizinha apontou a dona baixinha, despachada, cabelo curtinho, muito animada. Na altura parecia-lhe conhecida. Agora fazia sentido.
É nesta rua já? o carro aproximava-se do destino.
Sim, sim, é já ali.
Afonso estacionou, saltou fora. Pouco depois, regressa com um ramalhete enorme de crisântemos. Abre-lhe a porta, pousa-lhe o ramo no colo, no meio das calças de lã.
Ela olha para as flores, as cabeças brancas tremem-lhe diante dos olhos tem de limpar as lágrimas disfarçadamente. Afinal, ainda há pouco dizia que era forte.
Depois ajudou-a com as malas, subiu com ela até ao prédio, paredes todas grafitadas. Ela, envergonhada, o ramo ao peito.
Sobe? quase preferia que dissesse que não, para não ver o caos: roupa da feira, caixas, mãe em modo inquérito.
Que subisse, sim. Viesse, visse tudo talvez até… se arrependesse.
Não, Filomena, tenho que ir. Muita coisa para resolver hoje. Ele agarrou-lhe o pulso só uns segundos, como uma despedida sentida.
Depois desceu as escadas depressa.
Devia chamá-lo? Dizer-lhe tudo, agora?
Mas Filomena, a olhar-lhe as costas, percebeu que ele sofria mais. Era um adeus não iam voltar a ver-se. E, estranhamente, aquilo deu-lhe paz.
Arrastou as malas para dentro do apartamento.
Logo a mãe aparece com dramas, novidades do clã, contas de luz e de gás. Filomena parecia surda, ainda sentia o toque da mão dele, uma pressão quase doce no pulso.
Descalçou as botas de borracha, arrumou-as no aquecedor, organizou tudo por instinto.
A mãe, sempre a falar, só percebeu que algo se passava quando Filomena, já sentada à mesa, perguntou:
Ó mãe, lembras-te de eu falar, antes do casamento, de um rapaz do estágio? Campeão na criação de porcos… te falei.
Lembro, a modos que sim. Então?
Disseste logo: Ainda havias de ir para o campo mexer em merda de porco”.
E tinha razão! Olha a tua vida hoje…
Mãe, sabes aquela marca de enchidos Produtos Mota de que gostas tanto? É dele. E a padaria do pão de que tanto gostas? É da Gabriela, mulher dele.
A mãe ficou imóvel, chávena no ar. Debruçou-se, os olhos piscaram tristeza. Por fim, murmurou a tentar consolar ambas:
Quem me dera escolher, filha. Se desse para adivinhar, já havia muita gente feliz.
E Filomena ficou com pena da mãe.
Não penses mais nisso. Estamos bem, vendi dois fatos, três casacos vamos conseguir. Não desanimes!
Bem dito. Se soubesse onde caía, punha a almofada primeiro. Enfim, é viver…
Logo chega o filho: alto, ar sério, aquele olhar meio misterioso tão igual ao do pai biológico.
E como toda a família acreditou que um bebé de quase três quilos era prematuro? Ninguém desconfiou de nada. Filomena sempre foi de confiança.
O filho sentou-se à mesa.
Mãe, não te zangues: arranjei trabalho no clube hípico. Limpo os cavalos, recebo por tarefa. Não te preocupes, não vai interferir com os estudos.
Filomena suspirou. Ainda ontem teria feito um escândalo. Hoje…
Ó André, já és crescido. Trabalhar nunca fez mal a ninguém. E dinheiro vai-te fazer falta. Aprovo.
Ele, feliz, comeu a sopa entre olhares e sorrisos da mãe. Sentia-se protegido, e não sabia bem porquê. Mas sentia-se bem.
Filomena não conseguiu dormir. Não chorou. Um estado de estranheza tomou conta dela.
Olhava para as crisântemos brancas. Pensava no destino, no encontro. Sabia que ambos tinham de continuar a viver, cada um no seu caminho.
Aquele reencontro, tal como o primeiro, dividiu-lhe a vida em dois. Agora também.
E ambos ainda haviam de ter surpresas, oportunidades de serem felizes. Podiam nunca mais cruzar-se, mas sabiam, cá dentro, que tinham mudado algo um no outro para sempre.
Nada acontece por acaso.
Aquele encontro, com todo o seu fado e ironia, foi-lhe dado para perceber algo muito, muito importante.






