Um Encontro Inesperado

Encontro ao Acaso

O casaco de penas de Carolina aquecia-lhe só as pernas. O enchimento já há muito se tinha amontoado em baixo, e acima mais parecia um impermeável fino, varrido por todos os ventos de Lisboa. Felizmente, as calças de lã e as botas de borracha aliviavam o frio, e o xaile de lã era apertado nos ombros, atravessando as mangas para não gelar.

A carrinha prometida por Amélia, a companheira de mercado, falhara. Agora, rodeadas de sacos volumosos, tentavam a sorte a pedir boleia. As malas dificilmente caberiam todas num carro, por isso cada uma seguira para um lado, a tentar safar-se sozinha na imensidão do movimento.

Quando Carolina trabalhava para a Dona Odete, estes problemas não existiam. Mas o dinheiro não chegava sustentava dois filhos sozinha, e há pouco tempo resolvera atirar-se de cabeça nas vendas ambulantes ao lado de Amélia.

Mais dinheiro não viu, e a mercadoria trazida ainda nem metade estava vendida, mas as preocupações aumentavam.

Agora era preciso, infalivelmente, levar as roupas ao Mercado da Feira da Ladra logo de manhã, recolhê-las ao final do dia, voltar para casa, subir ao quarto andar em diversas viagens, a não ser que tivesse a sorte de encontrar o filho por casa.

Não há muito tempo ela própria entoava a plenos pulmões Perestroika, o coração pede mudança. Agora, as mudanças tinham varrido a sua vida sem delicadeza: a empresa onde trabalhava fechou portas, foram todos despedidos. O marido há muito era apenas uma sombra desaparecida, deixando-lhe um caminho inescapável no pequeno comércio. E sempre jurara que vendas não eram para ela.

Agora estava ali, no acostamento da rotunda do Prior Velho, na lama da chuva invernal, ainda relativamente jovem, mas com os lábios gretados e o rosto sempre vermelho do vento dos mercados. Os olhos ardiam com a exposição.

Carros atiravam-lhe rajadas de lama cinzenta. Carolina evitava fitar a sujidade olhava antes para os telhados e para as árvores, onde a neve era branca e limpa. Tantos resíduos cinzentos havia já na vida; melhor seria não encará-los de frente.

Mais uma vez levantou a mão, e finalmente um carro estrangeiro, tão encardido como tudo em redor, parou.

Vai para a Morais Soares por um preço simpático? , perguntou à porta aberta, mas logo gaguejou de surpresa.

Reconheceu-o de imediato. Como se os anos não tivessem passado. Talvez até estivesse mais bonito. O mesmo olhar sério, algo misterioso, sobrancelhas erguidas de leve, um sorriso apenas sugerido nos lábios.

Enquanto Carolina recuperava, ele saiu rapidamente, despachou-lhe as malas para a bagageira.

Atirou-se para o banco do passageiro, ajeitou o xaile e começou a inventar desculpas mentais pronta a justificar o ar cansado ao rapaz do passado. Ele também se lembraria dela, decerto.

Ou talvez não…

Tantos anos… Quantos?

***

Na altura tinha vinte e dois. Fora colocada em estágio curricular nos Montes da Serra do Gerês. Em Lisboa já a esperava o noivo Miguel. O plano era certinho: estágio, tese, casamento.

O que três meses no campo poderiam mudar? Nada…

Arranjaram-lhe um quarto na própria casa da Dona Jacinta, já idosa, empregada da guarda-florestal, que vivia com o sogro surdo-veterano. Carolina era de trato fácil, rapidamente criaram laços com Jacinta, e os cuidados do velho eram a meias.

Numa dessas tardes, o velho teve um ataque cardíaco bem na frente delas. Carolina correu até aos vizinhos por ajuda, mas só encontrou silêncio. De súbito, trator a passar. Acenou de aflição. Saiu de lá um rapaz: bonito, alto, olhar firme e secreto.

Entraram ambos em casa, ele pegou no idoso com força e cuidado, despachou-o para o banco da frente do trator, Carolina atrás preocupada.

Chegaram à junta, e logo apareceu a ambulância. O rapaz também entrou seguiram juntos para o centro de saúde.

Só quando o velho ficou entregue a médicos, puderam finalmente conversar.

Descobriram que trabalhavam na mesma associação e moravam paredes meias. Chamava-se António.

O problema era voltar para casa, noite fechada, vias rurais. A ambulância não faria o percurso de regresso.

Vamos, a mãe do meu amigo vive aqui perto, ficamos lá, e de manhã seguimos com os homens que vão ao trabalho.

Carolina, já tranquila quanto à integridade do rapaz, hesitou mas acabou por confiar.

É embaraçoso, prefiro dormir no hospital. Passem aí de manhã para me apanhar, sim?

Dormir nas cadeiras plásticas? Vá lá. Dona Lídia é uma doçura, têm casa grande. Eu e o Geninho dormimos no palheiro.

Carolina cedeu. Ele tinha razão dormiu em lençóis perfumados, acordada apenas por Dona Lídia, mulher acolhedora e meiga.

Ao servir-lhe pequeno-almoço, foi-lhe descrevendo a vida do António que a mulher dele, vinda de fora, lhe deixara o filho, que ele tratava dos porcos, vendia carne, construía casa nova. Uma carta de recomendação velada, talvez, já que Carolina fosse, quem sabe, candidata.

Carolina sorria apenas. Tinha o Miguel, engenheiro quase licenciado, vida a andar. Nunca lhe interessaram homens divorciados com responsabilidades parentais.

Mas depois desse acontecimento, por mais que quisesse evitá-lo, cruzava-se com António vezes sem conta. No armazém, na cantina, na rua. Jacinta conhecia-o bem, devolveram juntos o velho à casa.

Tu agradás a António. Perguntei-lhe por ti e ficou vermelho, feito rapaz de escola. São tal para qual, vocês.

Não diga disparates, tenho o Miguel.

Ainda não é marido. António é honesto, trabalhador. E o filho dele é só ternura. Só falta ali mesmo uma mãe.

Carolina calava-se, mas o coração apertava. Tinha o mesmo olhar de procura, de desejo, que encontrava nos olhos de António. Forte, seguro, energia cálida. E uma imensa respeitabilidade entre todos.

Pergunta ao António, ele resolve, diziam os homens da mata.

Ali, entre eles, era diferente: quase uma dama de cidade caída de repente nestas serranias húmidas. Alta, elegante no casaco creme, impossível de imaginar naquela sujidade. Deslizava por entre a lama como se nem a tocasse. Os homens mudavam até de postura perante ela.

“Ó dona, o que veio fazer para estes montes?”

Espera, Carolina, eu levo-te

Era perto, mas a chuva teimava, e Carolina dirigiu-se ao trator.

Com quem fica o teu filho? para ela, cada pai era já um homem feito, ainda que António mal fosse mais velho.

Desculpa o “você”, Carolina. O miúdo fica com a avó. Outra vizinha também ajuda. Vai à creche. Cresce depressa…

E chama-se?

Simão o olhar de António amaciava Danado, não pára quieto. Mas a avó faz-lhe frente olhou intensamente para Carolina Não gostas de viver aqui?

É tranquilo…

Espera que a primavera chegue, vais ver flores e rios. Só os postes não funcionam, mas isso resolve-se.

As ruas escuras. Junta de freguesia a poupar nas luzes não havia verbas para a EDP. António, com o isso resolve-se, assumia responsabilidade não só perante ela.

Quem lhe dera então saber que o mais importante num homem é mesmo isso responsabilidade.

O interesse dele tornou-se óbvio. Passava pela casa, trazia lenha, ia buscar remédios, ajudava em tudo. Carolina lutava com os próprios sentimentos.

Não conseguia imaginar-se a viver numa aldeia. Mas, na verdade, Lisboa já pouco lhe dava: Miguel e os preparativos do casamento. Imaginava-lhe o desgosto ao saber que trocava o noivo por alguém dos montes, a mágoa da mãe.

Vais viver no campo? perguntariam, com sobrancelhas levantadas.

E ao saber que o noivo era divorciado, com um filho, tratava de porcos… A filha dela, formada e promissora!

À noite, com o vento e o uivar dos cães na rua, tentava imaginar-se com António. Sabia que a queria, sabia que seria grato se ela aceitasse criar o rapaz. Que filhos viriam, que seriam todos de António.

Mas a distância entre desejo e realidade parecia infinita. Miguel já comprara as alianças. A mãe de Miguel juntava dinheiro para a boda. Os pais dela, também. Não podia causar-lhes essa decepção.

Mesmo assim, no peito refugava algo doce e indefinido, uma antecipação encantada. Amava António de verdade? E se nunca amara Miguel? Aquela crise sentimental só tornava tudo mais romântico.

E numa tarde trágica, quase sem querer, forçou-se a ela própria permitir uma proximidade: não soube se era despedida do passado ou da paixão recente. António não queria, mas aquela noite foi a fronteira entre o que ficava e o que viria. Foi a sua primeira vez e não se arrependeu de nada.

Mas assim mesmo, nunca chegou a decidir-se. Medo, imaturidade, falta de experiência, talvez.

Até que uma manhã, ao poço da aldeia, viu um rapaz louro, pequeno. Saltava perigosamente junto à borda, Mariana apressou o passo.

Eh, não subas aí, é perigosíssimo. Cadê a tua mãe?

De súbito, surge a correr uma rapariga magra, expressão tímida. O menino saltou dos braços de Mariana e correu para a mulher, chorando sentido.

Ele quase subiu, eu…

Simão, já sabes. Não podes. Está quieto, amor.

A moça olhou-a com tristeza, distante. Desculpe, não dei por ele. Obrigada.

Pegou-lhe pela mão e seguiram ao longe.

Simão? Seria filho de António? Um calafrio percorreu Carolina. Tão estranho parecia aquele menino. Nunca se adaptaria… Fugiu-lhe dos braços com medo.

Mais tarde, foi-lhe bater à porta Dona Cláudia, mãe de António. A chorar. Explicou-lhe que Simão estava habituado à Mariana, vizinha órfã, que Mariana amava António, e que a chegada de Carolina viera baralhar tudo.

Carolina pestanejou, espantada. Ela, a intrusa? António é que quase a arrancara ao noivo! Considerava-se vítima, afinal era origem de uma tragédia alheia.

António suplicava que ficasse, que não fosse, que Gabriela e Cláudia inventavam histórias, que Mariana não era para ele. E era verdade Mariana, fracamente desenhada, sem cor, desaparecia ao lado vigoroso de António.

É envergonhada de nascença, dizia Jacinta Não são par.

Mas Carolina, ofendida, recusava-se a ouvir que interrompia história nenhuma. Queria a sua própria, urbana. Todas as dúvidas dissolveram-se; António já não a tocava regressava a Miguel.

Ficou António a ver partir o comboio. Camisa aos quadrados, mangas arregaçadas, ombros largos caídos, uma ruga estranha entre os olhos. Assim o recordou Carolina ano após ano.

Chorou com o rodar das rodas do comboio.

Assim passaram três meses de estágio que mudaram tudo.

Mas a juventude cura. Voltou-se para a frente, casou com Miguel, a vida familiar girou veloz.

**

De novo, ela no banco dianteiro, ajeitando o xaile, preparando-se mentalmente para justificar o aspeto desalinhado. Ele havia de reconhecê-la, certamente.

Ou talvez não… Mudara tanto: gordita, lábios gretados, casaco amarrotado.

Quanto tempo passara?

Dezasseis anos. Sim, dezasseis.

Começaram a viagem em silêncio.

Está uma bela noitada arriscou ela, molhando-se com a água espirrada de outro carro.

Aqui, na cidade, sim. No campo está limpo e as estradas, pasme-se, desimpedidas respondeu ele.

Vive no campo?

Ando para lá e cá, negócios.

Obrigada pela boleia, fiquei apeada hoje. Costumo trazer carrinha, mas pronto. Pago-lhe, claro…

António fitou-a com o mesmo olhar de outros tempos, e Carolina percebeu reconhecera-a.

Olá… murmurou discretamente.

Boa tarde, Carolina!

Lembraste-te, afinal? Pensei que me tinhas esquecido há muito.

Nunca esqueci murmurou, fixo na estrada.

Qualquer coisa dentro dela acordou, latejou do passado: a voz dele, os gestos, o olhar. Subitamente quente, retirei o xaile de lã.

Como estás, António? conseguiu dizer.

Ele demorou uma pausa, como quem afasta o entorpecimento do passado.

Eu? Sobrevivo. Faço o que posso. É o que se arranja.

Ainda na empresa de madeiras?

Não, já lá vai. Fechou com a crise. Trabalho por conta própria.

Pois, é o melhor hoje em dia. E tens uma quinta?

Quinta, empresa, e vendo carne, também. Produtos tradicionais.

Toda a gente vende alguma coisa…

De repente, Carolina lembrou-se de ver o ramo Quinta dos Rosas nas etiquetas de enchidos. Sorriu julgara coincidência.

Espera. As chouriças e torresmos da Quinta dos Rosas são teus?

Pode-se dizer que sim. Não são bons?

São a minha mãe só come desses. Bem me parecia…

Ele falou rapidamente, como quem se desculpa pelo sucesso.

Começámos pequeno, depois cresceu. Montei fábrica, abrimos lojas. Dei emprego a muitos da aldeia.

A diferença pesou-lhe. Ela, de botas de borracha e casaco velho; ele, que fora um simples agricultor, transformado num empresário de sucesso. Trocaram de lugar.

E o teu filho?

António sorriu.

Já são três.

Três filhos?

Sim, três rapazes. E tu?

Um rapaz e uma filha, Carolina respondeu, limpando o suor da testa.

Simão está na tropa, já foi à Bósnia, andámos aflitos. Mariana ficou com cabelos brancos. Mas regressa agora na primavera. O do meio estuda, o mais novo ainda na escola.

Mariana… Casara com ela, afinal.

Baralhada, Carolina quase se atrevia a confessar quanto lamentou aquele desenlace. Tantas vezes se arrependeu. Agora, a vê-lo…

Miguel fora um marido inútil. Começou bem, emprego seguro, até saíram de Lisboa para o Alentejo. Mas rapidamente perderam casa, ele mudava de patrão, bebia, mudaram-se para casa da sogra, à briga. Finalmente Carolina divorciou-se e voltou para casa da mãe. O pai, já não estava.

Queria tanto abrir-lhe o coração, contar tudo, mas saiu-lhe apenas:

O meu rapaz já está quase a acabar o secundário. A miúda, adolescente. O tempo voa.

Voou mesmo.

Sentaram-se no silêncio. Cada um achava querer falar de coisas importantes, mas supondo serem importantes somente para si.

Carolina sentiu um ligeiro remorso. Logo lembrou a mãe de António, a Mariana afinal, foi por elas que cedeu, embora na altura tudo lhe parecesse um castigo injusto.

E tu? perguntou ele, meio distraído.

Eu? Como vês. Despediram-me. Trabalho por conta própria, faço o que posso. Mas sozinho é difícil.

O marido? Miguel?

Lembraste-te?

Claro, Carolina. Cheguei a ver-te de noiva. Fui atrás do cortejo até ao restaurante.

O quê? virou-se, espantada.

Sim. A Dona Jacinta contou, véspera do casamento. Fui, feito tolo, só para ver-te feliz. Não me mostrei. Voltei à aldeia e pedi Mariana em casamento.

Ai Meu Deus! Se eu soubesse sussurrou, esgotada.

Só estragaria as coisas. Estavas linda, tão feliz.

Provavelmente parecia. Mas esse tempo passou. Passado poucos anos se acabou, voltei para a casa da minha mãe com os miúdos.

Que pena.

Tornei-me forte. Cuido deles, estudam, vestem bem. O mais velho até quer ir para Medicina. Só tenho é de vender nestes mercados, com corrente de vento de cortar o rosto. O sítio é bom para vendas, não dá para perder o lugar.

Queria mostrar que não estava assim tão mal, que não era um caso perdido. Nunca o fora.

António ouvia, sereno na testa franzida.

E tu, a tua vida familiar? Mariana, que tal?

Ele encolheu os ombros, parecia longe, a pensar noutra coisa.

Mariana? Faz pão.

Pão? De forno a lenha?

Começou em casa. Abri-lhe uma padaria, agora é “O Forno da Serra”. Loja e padaria.

Já lá comprei, talvez. Nunca liguei. É dela?

Sim. Quem gere é ela. Tem jeito, mereceu.

Carolina recordou fora lá uma vez com uma amiga, o pão era elogiado. Viram uma mulher pequenina, cabelo bem curto, prática, de casaco claro e cachecol cor-de-rosa. Reconheceu-lhe um vazio no rosto, só agora entendeu.

Já é ali adiante? António procurava o número. Carolina sacudiu-se.

Próxima rua.

Mas António travou, saiu do carro, correu até uma banca verde com letras brancas: Flores. Voltou com um ramo esplendoroso de crisântemos. Abriu-lhe a porta, colocou o ramo sobre as pernas cobertas por calças de lã cinzenta.

Mariana fitou as flores, os tufos brancos tornavam-se esfumaçados nos olhos. Enxugou as lágrimas depressa. Acabara de afirmar que era mulher forte.

Ajudou-a com as malas até ao prédio, paredes riscadas de grafites. Ela entrou, com as flores apertadas ao peito.

Sobes? quase desejava que ele dissesse que não. O apartamento estava caótico, caixas espalhadas, a mãe prestes a bombardear com perguntas.

Mas que fosse, que visse, que entendesse… Que a compreendesse e talvez tivesse pena.

Não, Carolina, tenho pressa. Muita coisa por fazer. segurou-lhe o pulso suavemente dois segundos, como despedida.

Desceu as escadas rapidamente.

Chamá-lo de volta? Contar-lhe tudo?

Ao vê-lo afastar-se, Mariana percebeu era-lhe difícil. Era um adeus, não se reencontrariam. E surpreendentemente, sentiu alívio.

Arrastou as malas para casa.

Logo apareceu a mãe: perguntas, notícias. Carolina mal ouvia ainda sentia o calor das mãos de António no pulso. Tirou as botas, pousou-as perto do aquecedor, tudo num automatismo.

A mãe falava, sem perceber o vazio da filha.

Só vestida de conforto, sentada à mesa, perguntou-lhe:

Mãe, lembras-te de eu te falar, antes do casamento, daquele rapaz do estágio? Aquele agricultor que gostou de mim no Gerês?

Lembro. Porquê?

Disseste-me: Antes no Alentejo que a mexer em porcos no campo.

Ainda bem que o disse. Agora estavas metida na lama.

Encontrei-o hoje.

Encontraste? E então?

Não interessa. Olha que os enchidos Quinta dos Rosas, aqueles que tanto gostas são dele. E a padaria do Forno da Serra, é da mulher dele.

A mãe ficou parada com a chávena na mão, olhar ferido. Silêncio. Depois, numa autojustificação, quase para ambas:

Não se escolhe o destino. Se fosse possível, todo o mundo andava à luta.

E Carolina teve pena da mãe.

Olha, não faz mal. Até vendi bem hoje. Dois fatos e três casacos. Não nos falta nada!

Pois é. Se soubéssemos onde íamos cair, já tínhamos posto palha.

O filho chegou. Alto, os olhos sérios e um olhar qualquer coisa sonhador e distante ainda mais parecido com o pai verdadeiro.

Como a família toda acreditou que um bebé com três quilos fosse prematuro de sete meses? Mas acreditaram. Nunca se duvidou de Carolina.

Sentou-se o rapaz.

Mãe. Não fiques zangada. Arranjei trabalho num centro hípico, trato dos cavalos. Ganho à comissão. Não te preocupes, não falho nos estudos, prometo.

Carolina suspirou. Noutro dia teria ralhado. Hoje

Vai, André. És crescido. Trabalho é sempre digno. Precisas do dinheiro.

O olhar surpreso do rapaz, feliz com a confiança, misturava-se com uma maturidade precoce.

Carolina não conseguiu dormir. Não chorava, não se lamentava. Um estado estranho apoderou-se dela.

Observava os crisântemos brancos, pensava na vida, no reencontro, no facto de cada um ter de seguir o seu rumo, de iniciar um novo ciclo, cada um por si.

Na altura, o seu destino ficou dividido: antes e depois de António. Também agora era assim.

E sabia, para ambos, viriam ainda surpresas e mudanças felizes. Não se voltariam a encontrar, mas, de algum modo, continuariam a marcar-se mutuamente.

Tudo acontece por um motivo.

Talvez este encontro tenha servido para compreender finalmente algo profundamente essencial.

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Um Encontro Inesperado