Os Guardiões

– Senhora, deixe-me passar!

Alguém empurrou Lurdes nas costas, e ela, sem querer, deu mais um passo, cravando os dedos nas pegas da cadeira de rodas para não escorregar naquele passeio liso de Lisboa. O sobretudo uma vez mais fez das suas, abrindo-se ao vento e ocultando a razão de andar tão devagar ali, no meio do passeio.

– Ai, desculpe!

Uma rapariga, apressada sabe-se lá para onde, passou a correr por Lurdes e tropeçou ao dar com a cadeira do Martim. Lá estava ele, de mãos pousadas nos joelhos, sem sequer tentar ajudar a mãe. Naquele tempo húmido e ventoso, com os pneus presos na lama, só atrapalharia, virando as rodas da cadeira desajeitada.

Lurdes soltou um suspiro, acenou à rapariga:

– Não faz mal. Anda lá!

Olhou a pressa fugidia, ajeitou o gorro ao Martim, e voltou a agarrar nas pegas da cadeira.

– Vamos andando? Ainda temos tempo. Mas é sempre tão pouco.

– Ó mãe, e como é que se arranja tempo para ir a mais algum lado além do centro de saúde? Martim avaliou a distância ao fim do passeio e lá pegou nos aros das rodas.

– Martim, fica quietinho, sim? Eu trato disto. Esta zona é má, mas ali já está tudo limpo. Vês? Cruzamos a rua e depois tu já vais sozinho!

– Está bem!

– Mas espera, o que é que tu querias? Para que te serve tempo?

Martim hesitou.

– O Gonçalo contou-me que abriu uma loja nova de miniaturas na Rua da Cordoaria. Diz que lá há o vermelho de que preciso.

– Martim, por este temporal não conseguimos lá chegar. E à tarde piora, vai cair chuva de granizo. E outra vez descer-te as escadas Lurdes calou-se quando viu o olhar triste do filho. Sabia que ele ia aceitar, mas ficava desanimado. Olha, eu própria vou! Escreve-me qual é o tom certo da tinta e eu compro. Ficas com a avó Vera.

– Com a avó? Ela ia tratar das violetas, já me disse.

– E o desforro? Na última vez ganhaste-lhe três vezes no xadrez! Ficou de lhe provares que não foi sorte. E prometeu ensinar-te póquer!

– Isso é jogo de cartas, mãe!

– Ai filho! Não é só um jogo. Aquilo é quase filosofia!

– Sabes jogar?

– Pouco! A avó Vera tentou, mas matemática não é o meu forte como é o teu. Por isso perco sempre. É preciso antecipar as jogadas e calcular bem.

– Como no xadrez?

– Quase!

– Bem, então fico com a avó. Mas

– Eu sei, gostavas de ir à loja. E eu levo-te, prometo. Mas quando chegar a Primavera, vamos sempre que te apetecer. O jardim ali ao lado, os teus patos favoritos… Combinado?

– Pronto…

– Óptimo! Então, de que cor é que precisas?

– Vermelho, mas não igual ao dos meus hussardos. Preciso de outro, mãe!

Martim explicou qual a cor certa e, de repente, as mãos voaram animadas, deixando os aros da cadeira. Lurdes sorriu, aceitando aquela energia, e retomou o seu caminho, quase como numa cruzada. Não tinha outro nome para aquilo.

A vida partiu-se em dois pedaços, há dois anos.

Naquele dia, deram-lhe um bónus no trabalho e ela já pensava nos presentes para Martim e Mário, o marido, quando a colega Alzira entrou no gabinete, branca como as paredes:

– Lurdes, ligaram. Não conseguem falar contigo…

O sangue gelou-lhe, e tudo ficou escuro.

– O quê?!

– O Martim… Não te assustes! Está vivo! Vão levá-lo ao D. Estefânia.

Viu o motorista responsável apenas em tribunal. Olhava para o chão, mas Lurdes nem aí. Soube depois que ele quis encontrá-la no hospital, mas nessa altura ela só pensava em Martim.

O que mudavam os pedidos de desculpa? Abririam a porta da reanimação? Trazia o filho de volta? Mudava o passado?

– Onde é que ia tão depressa?

Foi a única pergunta de Lurdes ao condutor.

– A minha mãe morria… Não quis preocupar-me, escondeu tudo. Telefonou há dias, para me despedir. Foi culpa minha!

– Eu sei…

Não adiantou nada. Ela só ouvia os ecos do corredor e o nome do Martim, que os médicos repetiam entre frases de reabilitação e esperança duvidosa. Mesmo antes de a notícia ser dita, ela percebeu: o Martim não voltaria a andar. Nunca. Nenhum milagre, por mais esperado, mudaria isso. Era impossível um fado escancarado, despido de esperança.

Na altura, nem pensava nela, nem no Mário, nem nas fissuras que eles ganhavam a cada conversa. Sempre juntos, de repente cada um para seu lado: ela, aceitando, ele, incapaz.

– Mas não entendes?! Temos de procurar todas as hipóteses! gritava Mário.

– Mas não há! Tu não vês?

– Se estes médicos não chegam lá, achamos outros!

– Pronto. Vamos procurar.

– Trabalho… quando é que trato disto também?

– Ouves-te? É teu filho…

– E teu também!

Lurdes procurou. Clínicas, consultas, tudo, mas os milagres muitas vezes perdem-se nos desvios de um caminho atabalhoado por uma fada distraída. Às vezes a esperança cai da cestinha, perde-se na beira do trilho, e ninguém repara.

O milagre que seria para Martim perdeu-se. Por isso, Lurdes teve de aprender a viver com o que lhe foi dado.

Dizer que foi difícil é ocultar metade do caos…

Perdeu o emprego para cuidar do filho. A relação foi-se degradando até às discussões abertas que Martim escutava, doendo-lhe tanto que queria fugir para rua sem saber como. Os olhos do Mário, que até ontem confiara como ninguém, agora cheios de acusação, tornaram-se insuportáveis.

– Se o fosses buscar à escola, era como todas as mães! Nunca tinha acontecido!

Essas palavras, enormes, frias, meteram-se entre eles e nunca mais saíram. O Mário logo se arrependeu, mas já estava feito. O gelo entrou na casa, e as farpas ficaram no peito dela, ameaçando sempre mais.

– Vai-te embora…

Veio então a segunda mágoa: Mário, de malas na mão, bateu a porta. Martim acordou sobressaltado.

– Mãe, o que foi?

– Dorme, filho. O azar foi-se…

– De vez?

– De vez. Agora somos só nós. Não volta a incomodar.

Ficou mais leve?

Não. Tudo ficou ainda mais confuso. Viu Martim lutar para aceitar tudo e esforçou-se por estar presente.

Foi por acaso que comprou a primeira caixa de soldados de chumbo.

– Olha, Martim!

– O que é isto?

– Soldadinhos. Mas estão por acabar, falta pintar.

– Para quê?

– Assim parecem reais.

– Porque usam roupas tão esquisitas? Martim girava um cavaleiro estranho nas mãos.

– São hussardos, não de agora.

– De que tempo?

– Eu conto já!

Sentavam-se juntos, livros abertos, a discutir como os colorir. A Lurdes via vida a voltar ao rosto do filho. Uma ideia preciosa.

Um ano depois, o exército em miniatura de Martim cresceu. À noite, as batalhas no tapete eram acesas, cada um defendendo a importância dos dragões ou da infantaria.

– Mãe, és a Napoleão! Cumpre as ordens!

– Não mandes tanto! Já tens o teu exército.

– Estás a falsificar a História! protestava Martim, vendo a mãe empurrar figuras pelo tapete.

– Se isso fosse possível, filho… sussurrava Lurdes, cedendo e deixando o batalhão do Sousa avançar.

O pai desapareceu da vida do Martim logo depois de nascer-lhes outro filho ali para o Porto. Lurdes soube pela ex-sogra, que procurava as melhores palavras ao telefone.

– Lurdinhas, desculpa… por tudo…

– A senhora não me deve nada! Sempre esteve cá, ajudando o Martim e a mim! Nem sei como faria sem si.

– Eles vão emigrar…

– Para onde? Lurdes quase deixou cair o bule do chá.

– Para a Suíça. Tudo tratado, casa, papéis… Eu não vou.

– Como assim? Lurdes ajoelhou-se diante da mulher que nunca a tinha deixado.

– Não preciso lá. Não contam comigo A mãe dela é que manda. Só vi o neto uma vez. E acabou. Tinha uma família agora nada me resta.

– Acha que nos quer magoar? O Martim continua neto. Para mim, é avó. Não nos deixe!

– Não me empurres, Lurdinhas. Eu quero ficar, como sempre. Isto devia ser diferente… devia.

– Talvez… Lurdes segurou-lhe as mãos, sentindo-as tremer. Talvez assim é o que tem de ser. Só precisamos de quem nos quer. A vida livra-se dos ingratos… mas não nos usou, não a si. O seu neto precisa da avó. Eu, da sua amizade. Não se vai, pois não?

Dona Vera não respondeu, mas abraçou-a, e a dúvida foi-se embora.

Não há nada como a verdade entre duas pessoas. Não é por o outro ter pedras no peito, é por recearmos o que podemos encontrar no peito do amado. Só assim a vida faz sentido.

Assim ficaram Lurdes, Martim e Vera. Até a Alzira, a amiga, afastou-se, confessando que não aguentava ver Martim naquela condição.

Lurdes nada disse. A Alzira merecia a felicidade que finalmente encontrou. Era a vida. Quase dez anos de amizade, mas no fim cada uma seguiu o seu caminho e a porta fechou devagar.

Problemas não faltavam.

Com Vera presente, Lurdes pôde voltar ao trabalho meio-turno. Ela cuidava do Martim, fazia-lhe arroz-doce, limpava, ajudava ao fim do dia nos passeios. Viver numa cave de prédio antigo sem elevador ou rampa era um suplício. Por agora, Martim ainda era leve, mas já era claro: um dia, aquelas escadas seriam um muro intransponível.

Lurdes percorreu serviços, pediu rampas, mas o caminho burocrático era tão surreal como pescar sardinhas no Lousal sem rejo. Sempre recusas. Chegou a pensar que mais fácil seria apanhar a lua no Rossio.

– Lurdinhas, e se comprássemos uma casinha? Fora da cidade ficava melhor para o Martim arejar dizia Vera, no regresso de mais uma reunião infrutífera.

– Mas e os tratamentos? O colégio? E a internet? E as aulas de programação do Martim? O campo é bonito, mãe Vera, mas ele precisa de oportunidades. Não posso cortar-lhe o que pode vir a ser por uma facilidade minha.

– Não percebo, mas aceito. Vou apoiar-te em tudo. Tem calma, filha.

Talvez trocar de casa? Prédios novos tinham rampas e elevadores, mas o preço… Com as despesas médicas, mesmo a vender tudo, Lurdes não chegava. Dois mediadores chegaram até a tentar, mas ninguém trocava por um rés-do-chão pelo mesmo valor.

– Neste momento, o mercado não se interessa muito pelo teu T2, percebes?

Agradecia, sim, mas por dentro, raiva.

Porquê? Por que é que o destino tinha de ser tão… aleatório? Porque não dava sequer um dia de paz? Mas talvez fosse só distraído.

Por entre cantos e empurrões aleatórios, um bilhete da sorte ficou esquecido na cesta do fado, e um vento brincalhão resolveu lançá-lo, dobradinho em aviãozinho de papel.

E nesse dia, em que Lurdes foi empurrada por uma pressada no passeio de Praça de Espanha, apareceu o Senhor Nunes.

– Senhora, ajudo-a?

A voz, vindo das suas costas enquanto lutava com a cadeira no lodo, era de velho. Mas não se sentia velho.

– Não, obrigado! Eu consigo!

O baixote ignorou-a, contornou a cadeira, apertou a mão de Martim com força:

– Sou o avô Nunes! Por que não ajudas a tua mãe? Olha que mal está!

– Eu tentei. Ela ralha.

– Percebi. Então venha cá, filha! Deixe isso a mim!

Tirou-lhe a cadeira das mãos, deu-lhe o saco de tangerinas e exigiu:

– Segura bem! Gosto tanto disto! Porta-te bem e dou-te uma ao lanche! Vamos!

A cadeira deslizou como um barco, e Lurdes ficou boquiaberta. O velho limpou o resto do lamaçal e atravessou a passadeira, a rir com Martim, enquanto ela corria atrás, sem perceber como tudo era tão fácil para aquele homem.

– Onde querem que vos leve? Não tenho pressa! disse Nunes, pondo a cadeira a jeito no passeio já limpo.

– Oh, deixe-nos! Nós seguimos o caminho sozinhos.

– És bonita, rapariga, mas tão teimosa! Nunes descascou uma tangerina e partilhou-a com Lurdes e Martim. Não posso passear em boa companhia por Lisboa? Ou vais dizer que não?

– Claro que não… Lurdes não sabia o que pensar, mas simpatizava com o velho.

Foram ao centro de saúde.

No dia seguinte, à hora do almoço, bateram à porta de Lurdes.

– Boa tarde! Recebe visitas?

Estava Lurdes a olhar para o inesperado visitante quando Martim resolveu tudo.

– Avô Nunes! Vieste ver-me? Eh lá! Mãe, então? Dá cá um abraço!

Dias depois, Lurdes já não sabia explicar. Aquele homem bizarro, sem licença de fado, resolveu-lhe a maior parte dos engonços acumulados.

– Lurdinhas, falei com os Serôdios, vizinhos do prédio ao lado. Têm casa no rés-do-chão, igual à tua. Aceitam trocar. Vêm cá hoje ver a tua. Aconselho-te a pedires dinheiro extra a tua está melhor. Não te preocupes, se for preciso, ajudamos no arranjo do outro lado. Mas convém uns euros para tinta e cola.

– E se não gostarem?

– Já aceitaram. Fala só. Conheço o dono há quase cinquenta anos. Os homens da tasca também. Não falham.

– Como conseguiu?

– Fala-se com as pessoas, filha! abanava Nunes a cabeça. Tu até te esqueceste de perguntar como vim cá no primeiro dia.

– Pois é! Como?

– Perguntei à vizinhança! Onde mora a rapariga dos grandes olhos que anda com miúdo teimoso na cadeira?

– Avô Nunes! Eu quero, mas não consigo!

– Ouve, Martim, quem quer, consegue voar. Verás no Verão!

– Sério?

– Palavra! Já verás. Estou calado quanto a isso por ora.

– Por favor conte!

– Nem penses! Não és nenhuma miúda!

– Pronto!

– Então anda lá! Deixa-me tratar das novidades com a tua mãe. Se tudo correr como espero, andas a brincar lá fora no Verão.

– Boa!

– Oh, meu rapaz! Eu surdo como sou, quase fiquei tonto com tanto grito! Nunes sorria. O miúdo tem força, Lurdes, mas não chega. Descobri um massagista fora de série, foi sargento da Armada, estudou técnicas no Tibete. Leva o Martim lá.

– Isso é inútil, Nunes. Já nos cansaram de prometer milagres e nada.

– E já desististe? o velho semicerrava os olhos Não podes, Lurdes. Enquanto o dia não acaba, há sempre um talvez. Eu sou exemplo disso.

– Conta lá.

– Eh pá, conto. Das tempestades onde andei, dos três naufrágios, do dia em que voei de parapente e do resto, tudo mais. Mais tarde.

– Porquê?

– Não tenho tempo! O senhor Jorge, do 32, folga hoje, é especialista em soldadura! Prometeu ajudar na rampa.

– Nunes, para a rampa é preciso licença!

– Olha lá! e do bolso, tirou um papel oficial. Já cá está. Assinaturas recolhidas. Conheces mal os teus vizinhos! E se alguém fraquejou, recordámos-lhes o coração.

– Quem somos nós?

– Pensas que sozinho fazia isto? Não, menina. O administrador ajudou, a Vera também. Aqui o prédio é como um jardim cheio de rosas. Fiquei até confuso!

– Que galanteio, senhor Nunes!

– Pois é, Lurdes! Fui do mar, tenho estatuto! Fosse mais novo, casava contigo! Mulheres como tu são únicas!

– Vá lá! ria Lurdes.

– Agora nem te atreves a livrar-te de mim. Vocês são meus, tu, o Martim e a Vera. Anos já não me sobram, mas o que puder ajudar, podes contar! Não se deixa uma mulher, ainda por cima com um rapaz, entregue a si! Não é certo!

Nunes cumpriu. Semanas depois, Lurdes e Martim mudavam-se. A casa nova era fria e ecoava, sem móveis, enquanto Lurdes quase chorava de alegria ao ver as portas alargadas pelos vizinhos para a cadeira passar.

O novo pára-quedas de alumínio no átrio fez Lurdes pedir desculpa logo nos primeiros dias:

– Desculpem o incómodo, acreditem, não tive outro remédio…

Qual quê! Ninguém protestou.

– Lurdes, nem fale! Que o Martim melhore!

Acostumada à frieza dos olhares que desviavam ao verem um rapaz magro numa cadeira no Chiado, Lurdes intrigou-se com a aceitação aqui. Perguntou ao Nunes:

– Porque não nos evitam? Noutros lados incomodamos. Aqui não olham de esguelha. Porquê?

– Medo, minha filha. Um susto danado. Têm medo de chamar a desgraça. Por isso fogem, evitam. Mas nem todos. Nem eu, nem a Vera, nem os vizinhos. Porquê? Vai-se lá saber. Talvez só se lembrem que são humanos. Devem agradecê-lo.

Ele sabia bem porquê: tinha ido porta a porta lembrar que todos temos dias maus e saudades de dias melhores.

Lurdes nunca soube destes diálogos. Mas havia razão maior para agradecer: o massagista que Nunes encontrou, um dia, disse com cautela:

– Ouça, Lurdes. Isto é uma esperança pequena, minúscula. Mas não podemos perdê-la! Têm de ir.

– Ir para onde?!

– Para o Porto. Conheço um cirurgião top. Se ele não conseguir, ninguém o fará. Falei-lhe do Martim. Aceita avaliá-lo.

– Isso é tudo?

– Sim. O processo é lento, mas tem de começar.

– E… se eu não conseguir pagar…?

– Não penses nisso! interrompeu Vera, olhando Nunes de olhos travessos Que foi, homem? Eu decidi!

– O quê, mãe Vera?

– Vendo o meu T1. Falei com o meu filho. Ele participa. Não chores nem rejeites! Não é tempo de orgulho. O Martim tem de se levantar. Pode ser que o meu filho prometeu demais, mas ele é pai na mesma, mesmo que esqueça… eu já lhe lembrei!

Lurdes apenas assentiu. Não valia a pena discutir. O mais importante era Martim. Orgulho, tristeza, tudo era fumo diante daquela ínfima possibilidade, a que já nunca se atrevera a sonhar.

Seis meses depois, a cirurgia foi feita. Martim ainda precisava das canadianas e o andar não era certo. O pára-quedas da entrada, agora sem uso, foi oferecido a outra família a quem fazia falta.

– O seu filho?

– Ele agora anda. Custa, mas só é o início.

– Acha que há esperança…? perguntava outra mãe, olhando para a filha de olhos grandes na cadeira nova.

– Eu dou-lhe o contacto do médico. Nunca se sabe Aprendi uma coisa: nunca desprezar uma oportunidade!

– Como se aguenta tanto problema…? Tanta dor

– Não fui eu. Tenho a certeza, desde então, que os Anjos existem. Os meus são muitos. Os meus guardiães.

– A sério?

– Sim. E têm o seu chefe! Forte, destemido, parece um velho comum, mas acredita em toda a gente. Só nos lembra disso, quando esquecemos.

– E como se chama ele?

– Nunes, Senhor Nunes Mário da Silva. O meu anjo. O meu e do Martim. Não é, Martim?

Martim, piscando os olhos ao sol, levanta-se trôpego e lança um piscar à miúda que tagarela como uma gralha:

– Sim, mãe! Posso ir passear com a Maria do Céu? Não vamos longe!

Lurdes toca o braço da mãe dela, que, nervosa, sorri, e diz:

– Podemos ir todos? Não incomodamos?

– Ora, venha, há gelados para todos!

Em mais uma casa instala-se um silêncio doce.

E, ali, nasce, minúscula ainda, a esperança.

Não precisa ter receio.

Dêem-lhe espaço e um empurrão, ela cresce depressa, trazendo sorrisos onde só havia sombra. E se a dúvida ali ficar, só vai notar que o riso voltou, que a mágoa se senta a um canto, e depois sai sem barulho. E quem cá fica, aprende a escutar outro som.

Esse som suave, que com o tempo ganha corpo, tornando-se um tilintar que dança e gira, até que a própria esperança assuma o passo, como uma bailarina pequena a quem Martim pedirá à sorte um milagre para outra menina.

– Por favor! Só mais um bilhete A mim ajudaste!

E talvez o destino, sem explicações, vá à cesta buscar mais um avião de papel e o lance ao vento, cantarolando, enquanto continua, com as saias da sorte, a rumar de alma leve, sonhando a quem calha agora a vez de um pedaço de felicidade.

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