A Vingança da Júlia

A Vingança da Madalena

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A chuva miudinha de outono caía sem vontade, só molhando um pouco as ruas de Viseu. Madalena observava pela janela embaciada do autocarro que a levava a casa. Ou melhor, à terra natal, pois casa, para ela, há muito era Lisboa, o seu pequeno T0 numa das avenidas sempre agitadas. A aldeia onde nasceu tinha ficado para trás, como se fosse de outra vida era lá que estavam os pais, as memórias da infância e da adolescência, mas Madalena já se habituara ao ritmo frenético e ao anonimato da cidade grande.

Com vinte e sete anos, Madalena sentia-se orgulhosa de si mesma. Terminara o curso de Medicina no Porto, arranjara emprego num dos mais conceituados salões de beleza de Lisboa e estava sempre a investir em formação, workshops, congressos, focada na carreira.

Não teria vindo agora, se não fossem as estranhezas que notara entre os pais ao telefone. Quando ligava à mãe, o pai nunca estava. Quando ligava ao pai, a mãe arranjava desculpas evasivas.

Então, mãe, que se passa convosco? perguntava ela.

Mas Ana, a mãe, desviava: Está tudo bem, filha, estamos vivos e de saúde.

O percurso de comboio desde o aeroporto do Porto até Viseu não lhe custou nada, já se habituara a viajar. Quando chegou à gare rodoviária, sentiu aquele misto entre nostalgia e estranheza: já não era a sua terra, mas tudo estava quase igual, apenas o supermercado de frente tinha mudado de nome e as árvores pareciam ter crescido. O céu estava cinzento, mas o sol espreitava entre as nuvens. Avisara a mãe que vinha, mas nem ela sabia ao certo a que horas chegaria.

Um taxista de expressão aborrecida aproximou-se, empurrando o carrinho para as malas.

Para onde, menina? indagou, com sotaque beirão.

Para a Rua de Nossa Senhora dos Remédios, número 52 respondeu Madalena.

A casa dos pais, sólida, recebia-a com as janelas azuis abertas e o cheiro familiar do jardim. A cerejeira ainda florescia entre o portão e as três bétulas altas que o pai plantara quando ela acabara o liceu.

Madaleninha! Ana abriu a porta, olhos a brilhar entre lágrimas e alegria. Oh, filha, finalmente!

Mãe, eu também tinha saudades, não chores.

São lágrimas de alegria, três anos sem te ver ao vivo, sabes lá!

Madalena pousou a mala junto à porta, tirou o casaco e as botas, e atirou-se no sofá, pernas esticadas, a sentir finalmente o cheiro da infância. Ana sentou-se ao lado, abraçando-a apertado, em silêncio uns minutos.

Por fim, Madalena confrontou-a direta:

Mas mãe, e o pai? Não está em casa?

Olha, vá comer qualquer coisa, descansa, e depois conversamos.

Madalena reparou na toalha nova, no serviço de porcelana florido. Tudo familiar, mas ao mesmo tempo diferente o mobiliário moderno da sua casa contrastava ali. Mas as pataniscas da mãe, a salada da horta, os queijos caseiros, tudo sabia-lhe ao conforto dos domingos em família.

O pai está numa formação? Por que estares a guardar segredo?

Ana ficou séria.

Agora está sim. Queria já há algum tempo falar sobre isto contigo também o teu pai queria. Mas pelo telefone não é fácil. Tu nunca tens tempo Desculpa não termos contado antes, mas não quisemos incomodar-te. Nós separamos-nos, Madalena.

Separaram-se?! Madalena afastou a chávena de chá de cevada e saltou para o quarto, abrindo o roupeiro à espera de encontrar as camisas do pai. Nada.

E agora?

Senta-te, filha, escuta. Acontece, mesmo depois de muitos anos juntos. Eu e o Armando decidimos seguir caminhos diferentes.

Mas parecia tudo bem murmurou ela revoltada, como uma criança.

Madalena, filha única, nunca foi privada de nada. Entendeu cedo que bastava pedir para os pais cederem. Era teimosa: quem se lembra dela a exigir uma bicicleta nova com o vestidinho de bolinhas. O pai trocava-lhe as bicicletas, cedia-lhe sempre que podia.

Aos treze anos pediu um rádio topo de gama. Os pais compraram-na mesmo depois de terem adquirido um frigorífico novo, fazendo um esforço. Até na universidade, a mesada do pai era generosa.

Madalena não era uma mimada típica os pais também faziam questão da responsabilidade e, acima de tudo, tinham orgulho por tê-la visto entrar em Medicina.

Vocês separaram-se, e não me contaram repetiu.

Só foi há pouco tempo. Mas já reparamos que há muito a nossa vida não era a mesma. Isso não te deve afetar, filha, o teu pai gosta de ti como sempre gostou.

Está em casa dos avós?

Onde havia de estar? É a casa dos pais dele.

Tenho de falar com ele! determinou, agarrando no casaco.

Espera! Está dois dias fora, em serviço, mas amanhã já cá está.

Não me digas que há outra mulher!

Ana suspirou: Sim, está a viver com outra. Não admira, ainda é novo.

Quem é?

Não conheces, é de uma aldeia ao lado. E está a morar na casa.

Madalena tapou o rosto com as mãos:

Ficas tão calma como quem perdeu uma galinha, não um marido!

Madalena, não te preocupes. Já estava tudo gasto entre nós, separámo-nos sem zangas. Não valia a pena prolongar o que já não existia.

Mãe, isso é fraqueza tua! Deixa-me adivinhar: a mulher é muito mais nova.

Dez anos não vinte corrigiu Ana.

Traidor é traidor.

Ana, com doçura firme, pegou-lhe na mão:

O teu pai esteve sempre preocupado contigo, continuou a amar-te em silêncio. Perdoa-me por não contar antes, custou-me. Ele também quis contar, mas eu, sempre a adiar. E tu sempre ocupada. Pronto.

Pois eu não sou mole como tu. Se alguém nos trai, não devemos perdoar. Eu não quero mais saber dele!

Ana sentiu um nó na garganta, preferiu calar-se. Sabia que Madalena precisava acalmar-se, descansar da viagem. Madalena, na verdade, precisava espairecer; trocou-se, vestiu o fato de treino, pôs o capuz, e saiu do portão.

O ar puro faz-lhe lembrar antigos colegas, com quem raramente trocava mensagens, justificando falta de tempo e interesse. Com o ritmo alucinado de Lisboa, Madalena mudara muito valores, hábitos.

Vou à ribeira, mãe.

Olha que vem aí chuva.

Não tardo.

A casa dos avós, envelhecida mas sólida, surge logo ali. Madalena entra pelo quintal, sobe os degraus da varanda. Na cozinha, uma mulher de cerca de quarenta anos mexe num tacho.

És a nova dona da casa dos meus avós? pergunta Madalena com frieza.

É a Madalena, não é? Armando mostrou a sua fotografia. Entre, se quiser.

Não precisa. Esta casa é da minha família!

A mulher encolheu-se.

Por favor, não me trate assim Armando disse que queria que nos déssemos bem.

Irina, é? Pois então faça as malas, saia daqui.

Só saio quando Armando decidir. Não lhe fiz mal nenhum, não fui eu que destruí a vossa família

Um rapaz de doze anos aparece.

Vai brincar, Diogo.

Sim, mãe.

O miúdo olhou Madalena com enorme curiosidade, olhos claros cheios de perguntas. Assim que ele saiu, Madalena retomou:

Tu não vais ficar aqui!

Deixou a casa mais revoltada, acelerando o passo na humidade do outono. Era só o que faltava, além do meu pai, ainda tenho de aturar esta gente na casa dos avós

Queria gritar ao pai, dizer-lhe que ele não era o homem que imaginava. Queria expulsar Irina, mas sentia-se impotente. Anos em Lisboa endureceram-na; aprendera a defender o seu espaço, a gerir prazos, a lidar com pessoas difíceis. Cada regresso à terra parece um mergulho no tempo.

Mais do que nunca, percebe que precisava daquele calor, da presença dos pais, dos cheiros da infância. O divórcio dos pais foi um soco no estômago. Crescida ou não, sentiu-se desprotegida, usando apenas o ressentimento como escudo.

Estiveste tanto tempo? exigiu Ana, ao vê-la voltar. Foste à ribeira?

Vi-os E o filho dela, o teu ex agora vai criar o filho de outra mulher!

Ana ficou lívida.

Por que fizeste isso, filha? Pedi-te?

Mãe! Isso não te revolta? Viveram juntos mais de vinte e cinco anos! Não queres vingar-te dele? Não é justo!

Para quê? sussurrou Ana, a voz a tremer. Eu já estou conformada. Não quero guerras, Madalena. O teu pai só ficou comigo pelo teu bem. Amou-te, a mim já não sabia amar. Foste sempre tudo para nós, mas já não éramos felizes.

Agora queres desculpá-lo

Não, filha. Fui eu que insisti por ele, não foi nada contigo. Fui atrás dele, queria-o por perto, e quando tu nasceste, ainda nos unia esse amor por ti. Depois ficou a rotina Quando partiste para Lisboa, só sobrava a nossa preocupação por ti.

Então e nunca me disseste nada? Sou adulta.

Queres que te diga como, se nunca cá vinhas e eu não queria magoar-te? Quando soube da outra, percebi pelo teu pai, ele sempre foi honesto.

Deviam ter procurado ajuda, ido juntos ao psicólogo.

Tu é que andas na cidade, aqui toda a gente fala mesmo da sua vida. Não precisamos de psicólogos; a aldeia é terapia.

Percebo-te, mas irrita-me ver-te assim, de braços cruzados. Antes lutavas, agora não.

Cansei de lutar por amizade, quero que gostem de mim por quem sou. Ainda sou nova, não achas? E Ana chorou alto. Madalena abraçou-a, acalmando-a com carinho.

Não chores, mãe, és nova, és bonita. Eu cuido de ti!

Ai, filha, obrigada. Mas não te devias ter metido com Irina, ela não é culpada. Veio fugida do ex, traz o filho, o Armando conheceu-a quando já estávamos mal.

Não quero saber. Não consigo perdoar já, talvez nunca. Não quero ver o pai.

E a mim? Vais evitar-me também?

Claro que não, mãe!

Então e se eu também me apaixonar? E se acontecer?

Pode ser, se foi tão fácil deixares o pai

Talvez já tenha acontecido lembras-te da tua colega de turma, Margarida Figueiredo?

Madalena riu pela primeira vez naquele dia. Margarida, a amiga dos tempos do liceu com quem partilhava sonhos de ir para Lisboa.

Claro que me lembro. Era divertida, usava sempre rabos-de-cavalo.

Pois é, a mãe dela partiu há três anos. Margarida também tem a sua família. O André, pai dela, anda cá a ajudar quando preciso. Vais julgar-me?

Não, mãe. Mas para mim, tu e o pai eram a minha família. Sempre imaginei que iriam estar juntos quando eu viesse, com os meus filhos, um dia. Agora ficou tudo de pernas para o ar. Sei que sou crescida, tenho carreira, mas isto é diferente. Tenho namorado, penso que nos amamos, mas já fico na dúvida, depois deste choque.

Vais ser sempre forte, filha. Só lamento que a Margarida esteja com a tia e não dê para se encontrarem.

Com a Margarida era bom. Mas não insistas em eu ver o pai, não estou pronta. foi para o quarto arrumar a cama.

O pai, Armando, ficou retido três dias fora. Ligou a Madalena, a Ana, mas a filha recusava falar. Sabia no fundo que era teimosia, mas bastava pensar em Irina para a raiva voltar.

Quando Armando regressou, foi logo à casa antiga. Madalena viu-o logo mais velho, cansado, olhos vermelhos.

Não me vais falar? Nem um abraço ao teu pai?

Para quê? Já tens outra família, uma criança nova.

O filho é da Irina, Madalena, tu és a minha filha, desculpa não ter dito antes.

Adeus, pai e fechou-se no quarto.

No último dia antes de partir, Madalena decidiu ir à ribeira, ver os carreiros da infância. Viu rapazes de bicicleta, um deles era o filho de Irina. Que me importa agora

De repente ouviu gritos. Correu e viu o rapaz estendido numa pilha de tábuas à beira de uma casa, a bicicleta caída ao lado. Correu até ele, notou sangue na perna sobre a tábua com pregos, a outra possivelmente torcida. Tirou o casaco, deitou-lhe a cabeça, deu os primeiros socorros.

Vai correr tudo bem garantiu. Telefonou ao pai: Vem depressa, o filho da Irina está ferido.

O jipe do pai chegou passado cinco minutos. Irina, com o vestido da casa, desesperada, correu para abraçar o filho:

Diogo, meu menino!

Para o carro, agora! ordenou Madalena.

O que lhe fizeste? Irina chorava, tremendo.

O pai pegou no rapaz, Madalena entrou no carro. No hospital, o corredor ecoava em silêncio. Madalena chamou a enfermeira, veio o médico.

Tratem a perna direita, teve um corte. E vejam a outra, pode estar partida explicou.

Irina tremia, Armando olhou Madalena com gratidão. Ela saiu para casa, a vontade de ir à ribeira desaparecera.

***

No dia seguinte, já perto do meio-dia, Madalena e Ana estavam na gare de Viseu. O céu ameaçava chuva, havia tristeza no peito de ambas.

Uma carrinha azul parou em frente. Madalena viu Margarida, a colega de infância, agora mais madura, com o marido e filho.

Cheguei a tempo! exclamou Margarida. Queria tanto ver-te!

Lembras-te de mim, Madalena? O pai de Margarida, André, ria, segurando o neto.

Claro! Lembro sim.

Madalena anotou o seu número e entregou a Margarida, continuando a conversar até que o jipe do pai apareceu, trazendo Armando, Irina e Diogo.

O rapaz aproximou-se, mancando um pouco.

Dona Madalena, já consigo andar! disse, rasgando o silêncio.

Sabia que sim, foste valente. E dispensa o dona, chama-me Madalena.

Irina, envergonhada, falou:

Desculpa, ontem estava descontrolada. O Diogo é tudo para mim, como tu és para o teu pai.

Madalena olhou à volta e percebeu: aqui, na terra, mesmo que sejam de famílias diferentes, todos acabam por pertencer uns aos outros.

O autocarro chegou, Ana chorou calada, Madalena só sentia vontade de abraçar todos. Armando aproximou-se, olhos húmidos.

Vens visitar-nos outra vez, filha? Perdoas-me?

Sempre, pai. E abraçou-o, depois abraçou Ana e Margarida, olhando a aldeia e sentindo que todas aquelas pessoas ainda faziam parte de si.

Por detrás do vidro do autocarro, sentiu o calor dos sorrisos. Ouviu Volta sempre! e respondeu, sorrindo com lágrimas nos olhos:

Volto sim, prometo

O autocarro arrancou, deixando na praça cheia de buracos todos quantos pensavam nela. E o sol, finalmente, escapou da cortina de nuvens, aconchegando com os seus raios a Madalena, a família todos, afinal só para os aquecer com o último carinho do dia.

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